domingo, 11 de outubro de 2009

EU FALO O QUE?!!?!

- Ah, vocês falam brasileiro né
- Brasileiro é muito parecido com espanhol?
- Fala alguma coisa em brasileiro
- Como é ... em brasileiro?



Se mais alguém supor que eu falo BRASILEIRO ao invés de PORTUGUÊS eu avanço em cima. Sério, que burrice descomunal. Se fosse pelo menos uma ou duas pessoas, gafe aleatória, mas porra, um país inteiro?

RUSSIA: INCENTIVANDO O ESTUDO DE GEOGRAFIA!


fuck, hoje eu não tou pra isso.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Saudade

Caminhando em pleno outubro sob -2 graus, lembrando de pessoas inesquecíveis. Nisa, Kensou, Maísa, Sassa, Carol, e a lista continua com o meu passo rápido de quem morre de frio. Quem canta na minha cabeça é Seu Jorge, num ritmo confortável, brasileiro.

Às vezes pode parecer que eu não dou atenção pra todo mundo, ou que eu sumo, mas eu não esqueço de vocês, nunca, na verdade eu lembro o tempo todo, e eu choro de felicidade por ter vocês na vida.

E isso é mais difícil do que eu pensei, do que eu jamais pensei, mas eu vou em velocidade constante, vou indo, vou indo, e nem que eu quisesse deixo vocês pra trás.

domingo, 16 de agosto de 2009

Logo

Querendo embarcar logo. Eu falo do "logo" de quem tem sede. Faltam quatro dias, não sei exatamente se eu deveria estar ansiosa, acho que não mais, agora eu só tenho pressa por alguma coisa que eu só descubro quando a pressa acabar. Viver nos próprios sapatos é mais complicado que se pode imaginar, ter uma vida regulada e aparada pelos pais é muito conveniente, acontece que temos pés, que são dois, e a independência é uma conseqüência de se estar vivo. Tenho conhecida gente realmente notável por aqui... Italianos, espanhóis, lituanos, canadenses, chilenos, americanos e tenho experimentado esse sentimeneto de satisfação e plenitude que eu não tenho tido desde Burlington, não sei se me culpo por não ter tido isso em Fortaleza ou se me glorifico por ter voltado à linha do trem que me leva aonde eu quero. Tenho tido alguns perrengues, e que não seja surpresa, eles existem em qualquer lugar do mundo, mas mais alegrias, em todas as línguas que se pode imaginar. Eu criei essa rotina e essa necessidade de organização que se cria quando se vive dos próprios sapatos, pode até parecer pouco tempo que eu estou vivendo essa vida que eu escolhi, mas eu não falo de números ou espaço de tempo, eu falo de intensidade. Vi Benjamin Button hoje, finalmente... E Vicky Cristina Barcelona também, ambos os filmes com mensagens importantíssimas, ouso dizer essenciais. Pensamento aleotório: achar-se pleno em estado de espírito é só uma questão de ponto de vista, e no meu caso o que é de muita importância é de onde eu tenho esse ponto de vista, e os lugares que eu tenho visto, vido, vivido e morado ainda não foram suficientes em todos os pontos, talvez eu nunca ache isso, talvez eu tenha que juntar partes de todos, mas de qualquer forma eu tenho a impressão que se viver é uma questão de ponto de vista, eu estou indo pra um lugar sem pontos cegos logo e só essa idéia me mata um pouco da sede.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A saudade fresca



Quando eu era menor eu sentia esse cheiro de vez em quando, era um cheiro sem cheiro, algo limpo, puro. Os intervalos entre um cheiro e outro eram cada vez menores, eu estava provavelmente embreagada dessa coisa que me animava. E o tempo que é o tempo, fez o tempo passar e o cheiro foi se tornando cada vez menor, até que um dia em Burlington eu voltei a senti-lo, era quase como me deixar acessar tudo o que eu deixara pra trás já com nove anos. Eu tenho sido uma mestre em despedidas, se alguém me perguntar, desde os nove anos, por aí, e eu lembro de ter chorado no telefone falando com a minha avó, querendo ir pro Brasil, foi estranho, eu sempre fui uma criança muito fechada e talvez por isso a única amiga que eu trouxe da infância foi a Carol, depois a Samantha, e eu nunca tinha chorado por ninguém, nem quando eu ralava o joelho do jeito como as crianças fazem, e o metiolate ainda ardia. Então eu estou aqui em São Paulo, amando muito essa cidade, que me lembra qualquer lugar que eu imaginei que seria bom pra morar, quando eu achava que só os lugares bastavam, mas hoje eu sei bem que é complicado se as pessoas certas não estiverem por perto... De qualquer forma, eu estou aqui em São Paulo e eu sinto aquele cheiro que eu não sentia há tempo tempo, e não é só isso, vinham acontecendo coisas estranhas por esses dias, e eu que sou ávida por simbolismos não deixei passarem despercebidas: ao arrumar meu quarto eu achei coisas que eu jurava que tinham sido perdidas nesses buracos negros que aparecem quando a gente se muda, eu achei um dente de leite, uma concha de mar com uma bandeira do Brasil pintada que eu fiz com nove anos. Não sei, mas pra mim isso significa muito, ou simplesmente - alguma coisa. Eu... bem, eu não sei porque, mas talvez seja o cheiro fresco da saudade, é um cheiro tão límpido que eu não sei descrever, talvez seja o abstrato tomando forma...

Muita coisa se passando pela minha cabeça agora. Mesmo...

Ontem fui ao consulado russo, tudo certo. Conheci um italiano e duas espanholas, e eu sempre fico muito surpresa como eles são mais simpáticos que qualquer brasileiro, aliás eu sempre defendi muito que estrangeiro, ao contrário do que diz a crença popular, são muito mais amigáveis do que a gente acha. O que eu quero dizer é que pelo menos eu espero encontrar pessoas como eles, como todo mundo de Fortaleza pra onde eu tou indo, eu espero que pessoas especiais seja um padrão em todo lugar do mundo... Senão seria um lugar realmente chato.

Fuck, eu quase morri quando saí do avião em Campinas, a merda da turbina tratou de fazer um vento @#*(&(*$&)&*@ glacial de tremer os queixos, sério, fuck fuck fuck. Acho que os hematomas tão saindo também, e vamos fingir que eu nunca fiz a cirurgia dos sisos e ir pra frente.

Vendo as fotos do meu último dia em Fortaleza realmente me faz chorar, mas de felicidade, não acredito que eu conheça tanta gente essencial. Eu lembro que o Levi perguntou do que eu ia sentir mais falta, e eu disse "vocês", e a lista acabou por aí, e eu pensei, "querida, por que eu não posso encolher as crianças e levar para o outro lado do mundo?". Mas era só eu e o meu egoísmo.

Enquanto eu ia caminhando pelo corredor para entrar no avião, algo me veio a mente e eu escrevi isso assim que eu sentei na minha poltrona, a Senhora 6A.

At some point
my walking became soundless
echo was a perfect sound
And I finally landed my feet in eternity
or just some place I was meant to
Maybe I lost it
but the road is big
and I feel like winning
every trail, every curve,
every smile
At some point I had to
let myself
get loose.

Eu tenho tanto pra escrever que eu não consigo organizar as idéias direito. Não falei que ontem conheci mais outros dois canadenses e uma mulehr que esqueci de perguntar da onde era, eles podem não saber mas saber que o mundo é cheio de gente tão interessante me faz pensar que isso vale a pena, apesar de eu já sentir muita falta de todo mundo, de ficar lembrando dos nossos tédios, risadas, porres, baladas ruins, baladas boas, inside jokes, eu passei da idade de só rir dessas coisas, eu tenho chorado de felicidade.

Quando eu conheci o italiano, uma vez que você não tem mais nacionalidade definida, ao invés de se dizer "oi, tudo bem", acaba-se dizendo "hey, where are you from?", e ele me perguntou isso e eu disse "Well, it's complicated", e nacionalidade tem se tornado uma coisa mais e mais relativa, especialmente porque é o terceiro país que eu vou tomar como casa, além de outros que eu vejo muito de mim, acho de depois de um tempo que se convive consigo mesmo, acaba-se por se tornar um retalho de todas as coisas boas que a gente vê por aí, dos lugares, das pessoas que a gente conhece, e são histórias loucas, especialmente a dos backpackers daqui, eles têm rodado o mundo sem pausa, sem medo, receio, e têm só uma mochila que cabe tudo que eles precisam pra cruzar a próxima fronteira. Vocês ficariam surpresos.

Outra, morar só é uma coisa complicada, também, eu percebi isso de ontem pra hoje. É muito conveniente chegar em casa meio-dia e ter almoço feito, mas quando você está vivendo das próprias botas então cozinhar se torna algo penoso, e eu finalmente entendo porque as comidas prontas têm perpetuado a nossa espécie. É preciso se organizar, estabelecer horários e rotinas, senão acaba-se vivendo de turista por muito tempo e acho que uma hora, o mais cedo possível, é preciso fixar os pés em algum lugar. Comprei um monte de comida pronta aqui, só de olhar pra panela me dá uma preguiça, por isso eu acho que seria uma boa casar com um chef. Enfim.

Vou sair agora para comprar um microfone e encher a cabeça de alguma coisa, não importa, pra qualquer lugar que eu olhe em São Paulo há sempre informação o suficiente pra me afastar um pouco da grande idéia de que próxima semana eu estou indo pra Moscou.

E descobri que tenho que ler mais Tolstoi, creio que isso não vá ser um problema, uma vez que se está na Rússia.

"Que a felicidade seja inevitável", eu tou levando isso pro outro lado do mundo... Com ou sem excesso de bagagem.

Tudo bem, a cidade é grande, há de me distrair, ponto.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Coisas que pessoas brancas fazem

Em 2006 eu comprei esse moleskine em Lucena e por um tempo eu escrevia todo dia nele, mas algo aconteceu e ele se misturou na estante de livros. Retornei a escrever nele, mas me diverti horrivelmente lendo as outras entradas, algo entre "Jânio Quadros era um louco que achava que era Jânio Quadros", um perfil psicológico de Hitler e Alex Delarge, uma carta a mim mesma falando de ambições e sonhos (que mudaram completamente), uma tentativa de entender a cultura baiana, um desenho do Big Ben e da Torre Eiffel (feitos com o modelo real), até o dia que eu descobri Destoiévski e desabafos de caligrafia ruim.

Há uns dias atrás eu dei uma entrada que se chamou "Living is easy, leaving is harder", e o tanto é tanto que mesmo com uma puta dor por causa da extração dos sisos, essa coisa toda de pegar um vôo de 20 horas latejou mais que a Sra. Dor de Siso, e acredite, é uma senhora gorda e banguela que cria pássaros e fala oito línguas, algo que supere isso é muito, e muito é demais.

Eu podia descrever aqui em detalhes como é agradável a recuperação de tirar os sisos, sim, eu poderia fazer um belo conto de horror (para a Babi), mas eu tenho tido esses sentimentos de auto-preservação e ficamos por aqui.

"LIVING IS EASY, LEAVING IS HARDER 28/07/09
- goodbye that shapes itself

Agasalhando meus livros-filhos para a guerra, apaziguando o sentimento que parece mais uma canja de qualquer coisa. O quarto sem eles não parece mais meu, muito vazio de mim, o que é alguém senão um número finito de idéias e páginas de livros diversos... Quem habitou aqui não acha que pertença mais a si mesma, por isso escolhe a estrada, a mais perfeita prosopopéia da liberdade. Mas olhe BEM, tive os melhores abraços, não os menosprezo, acessos-os mentalmente, mas o espaço aqui tornou-se muito pequeno, vou ter que deixá-lo. AQUI jaz quem teve tudo e quis sempre mais, pela alegria imediata do coração e as novas emoções, com os pulsos fechados carregou duas malas e repetiu consigo mesma: é o que se leva, é o que se leva... E foi confirmar o tamanho do MUNDO, porque de onde estava ele parecia estar ENCOLHENDO, e a culpa é dos olhos, há de haver utilidade para os olhos, que são DOIS. Eu tenho um vôo de 20 horas, são 20 horas sem os pés no chão, e eu poderia ser esse tipo de pessoa estável com os PÉS NO CHÃO, mas eu quero voar VINTE HORAS. É tudo tão necessário. "


O Kensou me deu o livro daquele filme "Into the Wild" e se por acaso eu desaparecer por 6 meses, não se assustem.

Além de ter moleskines, pessoas brancas também fazem essas viagens de auto-descobertas. (blog: stuff white people like)

Amanhã, todos aqui, pedirei Habibs e direi tchau um pouco antes das 2am para pegar meu vôo pra SP. As minhas bochechas que transitaram entre Fofão, hamster, balão de hélio agora prometem uma aparência normal para amanhã a noite.

This is it, Joely.

domingo, 9 de agosto de 2009

Os amigos, os sorrisos



Não está acabada a montagem, mas eu tinha que postar agora só pra constar que eu tenho os melhores amigos do mundo.

Incrível, não? Colecionar os melhores sorrisos e levá-los para cruzar o Atlãntico...

Os passos que eu andei até o embarque depois de me despedir do meu tio, da minha avó e do meu avô foi a estrada mais longa que eu andei, foi densa, pesada, e eu os olhei atentamente pela janela, e entendendo porque era tão difícil dizer tchau, diante de tanto amor.

Quarta-feira, 2am, aeroporto...

Home is where your heart is, and if the world is big, split it up.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

domingo, 2 de agosto de 2009

To-do

1) Acabar de arrumar meus livros
2) Fazer a mala
3) Ir ao cabeleireiro
4) Comprar um sanduíche gigante para a minha despedida
5) Tirar os cisos
6) Comprar um livro de fotografia do Brasil
7) Comprar presentes
8) Comprar câmera nova

Quem não for à minha despedida vai ler uma surra bem russa.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Keep it up, maestro


Somewhere around our last destination,
maybe, we'll thank our fate anyway,
only I wish that our homeland's transgression
wouldn't be turned to an idol some day.
Well, never mind, that's the way we are destined,
such is our fate: now we feast, now we fight...
Don't give up hope, hold it out, maestro,
keep meditating and feeling inspired.
Short are the years of our blithe adolescence
off they will fly and disperse, in a flash...

We’ve anything at all:
smiles, joys and everything,
one common moon for all,
one summer and one spring.



...Like songs, years go by very quickly.
I've changed all my views and my mood.
The yard is too small for me, really,
I’m going to leave it for good.

(I listen to music on a low volume so no one else knows what I'm feeling)

(I miss a man I didn't get to know, Dad)

(I wish I could fall in love and get trapped like before, at least I felt something at all

... And you were right, I don't need love, I just need someone to trust)

(I still keep your pictures. It's been 4 years. I just havent fallen in love with anyone since then)

Off I go.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Pondo no papel

Hoje faltam 37 dias para o meu vôo, e se alguém quiser ir derrubar o avião, dizer tchau ou olhar de longe:


20 AGO Guarulhos – São Paulo/Madri 15:50/ 06:45
21 AGO Madri/ Moscou 10:25/ 17:15




E o que acontece com aquele tempo que eu achava suficiente ficar em Fortaleza pela última vez na vida? Se encurtou e eu nem fui ver. Eis o que acontece:

Eu venho pra São Paulo dia 10 de Agosto, - 10 dias = 27 dias, vou pra Teresina ainda -10 dias = 17 dias restantes em Fortaleza.

- This is it, it'll be over soon, Joely.
- What do we do now?
- Enjoy it.

É isso. Eu nunca mais vou ter um Carnaval, ou um aniversário, ou um Natal no Brasil pelos próximos 8 anos, depois é mais provável que continue sem ter. Não quero mais escrever. Agora é webcam, skype, msn e isso aqui, porque eu vou estar bem ali, num outro mundo nesse planeta, e já foi.

So long and thanks for all the fish, I'm glad we finally came to this.

Chego em Fortaleza Quarta-feira de madrugada, graças à conveniência dos vôos em horários convenientes, Quinta vou ver Harry Potter e já fui ameaçada com o intensivo de férias de tchau parcelado. Haha...

sábado, 11 de julho de 2009

O que fazer com aquela necessidade de ir embora e querer levar quem importa



[Não há exame de DNA mais preciso que essa foto]

É inevitável comparar, realmente. Fortaleza vem me dando naúseas, já vinha, desde que eu pus os pés, fosse pelo clima, fosse pela mentalidade, pela falta de gente interessante (mas eu tenho certeza que as mais especiais eu guardei comigo até hoje). E eu sabia, sim, que o Sul era onde eu devia estar, pelo menos onde havia família, não em um Ceará sem almoços no Domingo e essas coisas que as famílias fazem, e por que eu exigia isso depois de voltar dos EUA onde não havia família at all? Talvez porque lá houvesse algo que encaixasse com o meu estado de espírito, e é uma sensação que me faz falta como um pedaço da alma. Mas eu pouco suspeitava que São Paulo me desse a mesma sensação, há 11 anos eu não convivo com meu pai, ou com a família dessa parte, e ter vivido isso antes de ir pra Rússia me faz ir com uma sensação de que eu vivi tudo que devia ter vivido, mesmo que passar esse tempo aqui em SP não tivesse exatamente na minha lista de to-do before leaving for a living. E god, como eu tenhos os sobrinhos mais queridos.



[Eu e meus sobrinhos, SP]



[Parque do CERET, SP]

Tudo bem, vamos fazer o balanço. Eu sou uma das pessoas mais sem nacionalidade ou nômades que eu conheço, não sei o por quê, mas aconteceu que todo lugar era novo e eu deixei um pedaço de mim em cada lugar que eu morei, mas eu me pego na obrigação de eleger o melhor, e eu não penso duas vezes, nem uma, porque a saudade de New Jersey é uma coisa presente constantemente, sem que eu precise pedir. Mas os meus amigos são cearenses, os melhores. Mas os meus avós moram ali, e são especiais demais. O lugar, vai ver que não exista, talvez seja a junção de todos dentro de mim, então posso levá-lo pra onde os aeroportos quiserem me largar.

Pátria é tudo isso, foi o que o Vincent me ensinou:

"Você talvez jamais pensou no que é a pátria, é tudo o que te envolve, tudo o que te criou e te alimentou, tudo que amaste, este campo que vês, estas casas, estas árvores, estas jovens que passam ali rindo, são a pátria. As leis que te protegem, o pão pago por teu trabalho, as palavras que tu trocas, a alegria e a tristeza provenientes das coisas ou dos homens entre os quais vives, são a pátria. O quartinho onde outrora viste tua mãe, as lembranças que ela te deixou, a terra em que ela repousa são a pátria. Tu a vês, tu a respiras em todos os lugares. Imagines os direitos e os deveres, as afeições e as necessidades, as lembranças e o reconhecimento, reúne tudo isso numa palavra será a pátria”

Que mal faço eu então, em acreditar que existe um pedaço de pátria querendo ser meu ali na Rússia? Faltam peças, e a obra pede para ser completada. Quem vive a vida sem ir buscar essas pecinhas vive de angústia e morre sem nenhuma obra, e quanto a isso eu me refiro que ser nômade é uma das coisas mais enriquecedoras que há out there.

É isso. Um mês de Brasil: o que fazer com ele?

Bem, estou fazendo.

Criando os contrastes, as instabilidades, gostando.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O círculo

Pensando muito ainda no sorriso da Heloísa, tentando empurrá-lo para longe e parando de querer isso exatamente quando vejo que é o que se leva, que é o que se leva... Fico montando a cena anterior à sua morte, por algum motivo consigo ver claramente a expressão dela, e em algum lugar ela agora se arrepende. Ninguém tem o direito de deixar o mundo, porque somos todos egoístas e falo principalmente das pessoas que iluminam o mundo, essas não têm qualquer direito de nos deixarem, elas são nossas, e sim, é cruel quanto parece.

E vou adiando cada vez mais uma visita ao seu túmulo, com receio e muito receio de ir também ao túmulo do Paulinho. E como a minha Erin, protagonista o meu livro, eu vejo a história tomar papel na vida real: eu, cercada de um círculo de mortes. E os círculos são perfeitos, é isso que me incomoda, é um círculo e ele é perfeito, então, ele deveria estar aqui? Eu não quero perder mais ninguém ou simplesmente não ter mais. Às vezes isso me cái no devaneio e eu observo o círculo, composto de pessoas que deveriam estar e foram.

Meu coração, não só por causa do círculo, vem se encolhendo dentro de mim sempre que eu acesso o mosaico de sorrisos e momentos dos meus amigos. Love you all and I always will. Mas eu sei que o mundo é grande, e que as pessoas mais especiais me esperam na Rússia, que enfiando farpas nos meus dedos eu vou cada vez mais aceitando como a minha casa (de madeira), e é um lugar que eu quero estar, mas existem muitas pessoas que eu queria levar.

... E de novo, o egoísmo.

... o amor é egoísta.

Por isso não me castigo tanto. É um desejo egoísta e não o escondo.

Tenho tomado banho de chuva e isso tem me revitalizado, e daí que eu tenho dezesseis anos, eu já sei que a vida é curta demais para adiar qualquer vontade ou desejo. Eu quero e quero agora.

De novo, rodamos o círculo e nos encontramos com o egoísmo.

Amor. Egoísmo. Morte. Vida. Sorrisos. Chuva. Energia. Inspiração.

Tudo isso e um pouco mais.

domingo, 21 de junho de 2009

Para Heloísa

Ao som de Unwell, refletindo sobre o egoísmo que leva e ignora a vida away, e quantos foram os momentos que esse pensamentos me abriram as mãos e me disseram que eram os melhores abraços que eu ia ter, mesmo que fossem os últimos. Mas eu virei o olhar na hora certa e no outro dia, parecia a melhor escolha, se é que uma coisa tão abstrata que é a vida pode ser classificada como escolha. Eu não preciso amar todo aspecto para tomá-la para mim, no entanto, no entanto... Escolho amá-la.

Então, querida, antes eu pudesse ter te feito sentar num banco que nessa imagem merecia ser gasto e de madeira e ter te dito que as cores só brilham mais se quisermos, não vale a pena esperar que o mundo mude.

Então aceitando o abraço da morte, fez-se inútil a tempestade. E a última lágrima, que pra ti foi a última, foi apenas a primeira para todo mundo que já te viu sorrir e vai sentir falta da risada bagunçada sem motivo, sem causa, mas que era sem dor.

O teu sorriso é o teu legado.

Abraço-a pela última vez.

* ia falar sobre como está se montando minha vida na Rússia, mas o acaso ultrapassou a velocidade hoje. Fica pra outro dia.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Ready Set Go


Let's forget I'm running out of time...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Um trecho do meu livro "Tresloucada"


Finalmente resolvi tornar público um ou dois parágrafos do meu livro, que completou há pouco um ano, desde o primeiro rascunho mental até ao estranho processo de organização e finalmente o ato de escrever sobre esses personagens que me importunaram por meses a fio dentro do salão oval da minha cabeça. Foi ano passado que eu me perguntei, mais ou menos em Abril, "por que não? ninguém nunca disse que eu escrrevia mal". Desde os nove anos que eu venho escrevendo poeminhas, passei pela minha fase de criticar bastante, foi quando eu escrevi muito sobre politica, houve o Zine Trashcan, que eu tive a honra de dividir com a Maísa, inicialmente, mas acabou caindo no desuso já que a nossa linha de escrita já estava bem menos radical, era algo que escrevíamos para nós. Foi quando eu parti pras crônicas, explorei minhas idéias fixas, me apaixonei por Van Gogh, tudo ao mesmo tempo - eu já tinha quatorze anos. E como eu disse, foi ano passado que eu rabisquei minha cabeça de idéias, muito mutáveis! A Maísa que viu o processo de criação desse livro sabe que quem faz a história são os personagens, e eles cresceram muito, e mudaram muita coisa de um ano pra cá, por isso eu costumo dizer que eu escrevo o que eles querem, eu não tenho realmente uma opção. O livro não está pronto, lógico. Mas eu nunca o senti mais pronto que agora. 

"Tresloucada, o céu sob mim" fala sobre interrupções, o aspecto introspectivo das pedras ao mais complexo dos seres humanos, que é uma das protagonistas, Erin. Fala sobre repetições e a impotência de fazê-las pararem de se repetir; divaga sobre as estrelas, o Sol, e por fim, procura o seu lugar na Terra. Viaja no sentido da vida dos protagonistas que se enlaçam e que fazem tudo para se achar, é difícil dizer se eles o conseguem. Explora a desgraça e a mortalidade desses seres que somos nós. E por fim, é um livro que através de quem o narra viaja pelo mundo e banaliza o ser humano, desvendendo quem somos nós e quem são as peças do jogo... Acho que isso é o que eu consigo sintetizar, por agora.

E devo admitir, há sim autobiografia entre as linhas, não querendo realmetne admitir que o são. Mas esqueçam disso, tentem focar-se na Erin, que é quem realmente dá vida ao livro.

Enfim, vamos ao prato princiapal!

Trecho 1
"Agora falta cruzar uma rua e eu entro no prédio, onde eu pego o elevador e chego em casa. Onde há o enclausuramento da selva acimentada, onde ninguém tem mais um quintal, onde ninguém planta mais o próprio alface. Eu sinto falta desses dias, que eu nunca vivi, apenas em sonhos.

Ganho a outra calçada, a insegurança que atravessar a rua causa em mim, põe-se a um fim, e eu vou caminhando agora, devagar, sem rumo, sem vontade, sem nascer do Sol. Não sem amor, essa é a minha desgraça. Há amor, mas não há em quem depositar." 

Trecho 2
"O carro corria inutilmente pelas ruas que eu bem conhecia, iguais e inóspitas, no entanto, cheias de gente. O céu, por outro lado, mutável e oscilante como o humor de um elevador, lembrava-me de uma tarde em Veneza, quando ao som de música gay de um barco cor-de-rosa ao lado do meu, vi uma estrela cadente, e é o que eu gosto de pensar: poderia ser um lixo espacial, mas os meus olhos de treze anos me juravam ser uma estrela cadente e eu não fiz nenhum pedido. Agarrei-me a uma pergunta: quantas pedidos uma estrela suporta? E como a resposta não viesse lenta nem rapidamente e fazia-se inexistente, Veneza pareceu o tipo de lugar perfeito para se esquecer de uma estrela cadente ou..."

Trecho 3
"Agora eu posso ver cores que eu nunca pensei que existissem. O negro das ruas tem azul. Ah, e o buraco do nada, pode-se dizer que existe branco, luz. Picadas, mordidas, arranhões, uma carona em qualquer lugar da vida, a dor existindo só para subsidiar a continuação, que promete o fim da agonia. Dor egoísta. A dor não tem cor. E o abstrato é independente, pode escolher a que volume sua intensidade pesa, indo além do peso de um caminhão carregado de chumbo – que agora descansa nas minhas costas. Por isso o abstrato é insano, não sabe das medidas ou densidades, não sabe onde fica a linha que separa dor e egonia. O abstrato não se vê, só faz doer. Se antes fosse visto, ah, não! O mundo é pequeno demais, o espaço tem limite, o abstrato não tem, a dor não tem limites, só independência. Há cor, há dor, sejam antônimas, ou não. O negrinho tinha azul na pele, mas ninguém nunca viu mais que preto, vê? A cor tem limite, dor não tem."

Trecho 4
"Eu não aceito a idéia de que, se o vaso quiser, ele vive pra sempre, e eu sequer tenho uma escolha sobre isso. Claro, Darwin, a seleção natural realmente escolhe os vasos como os mais fortes, o velho Marcus simplesmente vai cavando a tumba. Fundo, fundo. Insistente. E quando eu estiver lá dentro, o maldito vaso estará aqui. Vivendo, da forma como os vasos vivem, mas vivendo. E um desejo totalmente adormecido ainda existirá debaixo da terra, que é o de viver pra ver, pra crer. "

Trecho 5
"Sorriu pequeno, passando defronte aos olhos as fotos mentais que tinha do avô. E como se o oxigênio a sufocasse, resolveu mergulhar no seu mar, onde podia ser sereia e viver por entre os cardumes que a faziam cócegas e a faziam rir como ria alto quando o avô lhe fazia cócegas e ela ficava sem ar. Debaixo, ali na água, ela não ficava sem ar porque não precisava e tinha acesso ao reino das quimeras negado aos homens bípedes... E quando cansava mesmo dos cardumes, fechava-se em sua concha, onde podia ser pérola de verdade, e ali ninguém podia usurpá-la."

Trecho 6
"Mas ela gostava de sentar na beira do Vesúvio, de ver a vida tomar forma e de deixar a lava respingar no menor dedo, e rir da forma que o pequeno pé tinha tomado, que era só dela e entrava em sintonia com o resto dos traços que compunham o seu corpo, desejo de vida e de morte para tantos, ora de mistério que logo virava interesse e pelo último, ela desconfiava do amor vindo dos outros, pois ela era só aquela remontagem de enigmas e mistérios que alguém, consciente ou não, propunha-se a desvendar... Uma esfinge. O que era amor, o que era curiosidade, era difícil discernir, mas era fácil entrar na dança, e era uma boa música. Ela não estava mais apta a medir certo e errado, não existem tais coisas, repetia. A única decisão que cabia dentro da estranha forma que tinha a caixa da sensatez era entre o melhor perigo, era o que fazia o coração palpitar e dilatar até precisar de espaço e ver o mundo... Boom e Bang. Seria a morte? Talvez sim, talvez não, mas se a música que estivesse tocando fosse boa o suficiente, não importa o que seria, se a sintonia estivesse correta, podia ser praticamente qualquer coisa, até a morte passara a considerar somente outro evento, vista a coleção de mortos que um coração de quinze anos guarda. Ela já conhecia o ritual, já tinham visto muitos filmes, aqueles olhos. E quando o Vesúvio decidisse bocejar novamente e destruir toda a Itália, ela copiaria o bocejo, como um reflexo, e nada ia mudar, nada, nada, nada... Bom ou errado, era só um evento; e ela tinha histórico para absorver e agüentar qualquer pedregulho ou erupção. Ela vivia de emoções, e não paisagens, não condenara Bovary como os aldeões franceses cheios de pressuposições solidamente estabelecidas. Não. "

Trecho 7
"- Nem eu - quis deixar claro que o humor para conversa acabara, parecia que a menção do nome André lhe enfraquecera as vontades, os almejos... poderia morrer ali com a tiracolo no colo, largando o volante, a cabeça se projetando para frente e o sangue sujando a pintura da Patagônia, e quem sabe, espirrando para o Norte, além do Norte."

Trecho 8
"Classe econômica, assento treze, olho para os passageiros ao redor. Se houver bebês, talvez eu sobreviva. Fixo o olhar nas asas, deve ser mais tarde que eu consiga imaginar. Eu fico aqui só voando e voando, passando pelos fusos-horário e vou me perdendo no tempo no meio do céu. Deus, quero álcool. Quero paz. Quero uma casa na Mongólia e um inverno russo para me castigar. Quero martírio só pra me achar de novo. Umas botas novas que não dêem calos e um penteado que favoreça as maçãs do rosto, Deus.

- Balas?

Sim, direto no coração, e se a minha existência for persistente, no meio dos olhos."

Chega! Hehe. 

Comentem, é muito importante eu ouvir pela primeira vez um terceiro.


sábado, 30 de maio de 2009

Digesting


Sounds stupid, three fuckin years late to come and apologize and admit I was wrong. Well, I still am, I have been for three years side a side, put together in a soldier line... I remember back then we were in the car and this music playing and then, I feared. I feared once, I should admit, that you would leave it all behind, me incluided, but I played right with words and made you change ideas. So you did. Just we were never the same. And it said... "remember when we were such fools, just convinced and just too cool? What happened?". Maybe you didn't see a little drop showing up. Unwelcome. Rolling on my cheeks, finding its way and disappearing.

If someone ever asks me to put in words of geometric forms what I felt back then I'd speak of a spiral, trying to become a circle, trying to become perfect, as we know it's what circles represent. And today, my dearest, I close the spiral and make it a circle, I know we had it all, we were in the same tune, just we lost it, and so I propose: let us share guilt. I screwd up, you were unable to forgive, even if a mistake was side a side of a huge love. You were unable to forgive, maybe if you had...

And now reality picks on me, keeps picking on my shirt asking me where the hell are you right now. Have you been smiling a lot? Are you loving someone else? I hope so. I've been unable since then, I'm afraid there is another you, someone as perfect to be loved. How does your face look now when you go to sleep? Do you still wear jogging pants? What books have you been reading? Have you kept my letters and gifts? Do you still remember the parfum? Are you happy, dear? I just hope so.

Let us continue life, that was nothing but dreaming, I should have guessed.



Your scar is still here, your first letter on my knee, and I don't think it'll ever go away, I don't want it to, everytime I look at it reminds me of happiness and of you. And believe it or not, it doesn't hurt anymore, it just lacks. Something...

I'm on my way to find it, just I don't see you in the picture anymore. And yes, yes, yes, maybe I just needed someone to trust, I guess I just learned to trust myself.

Loved you sharply.

Stay put and take care.

I'm gonna find another you, I hope he looks just like you, sing it to me, Mayer.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Esperando Hugh Laurie invadir a sala de cirurgia

Hoje tá muito quente. Foi a primeira coisa que o Sol me falou. Ter que ficar vivendo essa coisa de dormir no calor me arruina o sono, além de ter que acordar de madrugada pra tomar seis doses de remédios em horas diferentes. Eu também queria sentir fome, ou até vontade de comer, mas é impossível.

Oito da manhã, Segunda-feira: 
- Vamos lá - a atendente nos guiou por uma rampa e me jogou na mão de uma enfermeira que tirou meu peso (1okg a menos que no começo do ano), minha pressão (que eu nunca sei dizer quanto é bom e quanto é ruim), e ficou fazendo meu histórico médico. 
- Não, a única cirurgia que eu fiz foi pra tirar uma verruga. [...] Sim, essa é a primeira.
Tentei parar de analisar a linguagem corporal das enfermeiras, tentando entender se elas gostavam do trabalho que tinham. O meu experimento foi interrompido quando me levaram pro Apartamento 02, onde eu botei uma batinha tosca, liguei a TV, tirei meu piercings fora, e ajeitei a cama com o controle.

Eu podia muito bem ter escolhido minhas últimas palavras durante a próxima semana, na qual eu estaria muda. Eu não dei atenção.
- Você tem 52 anos.
Ele sorriu e eu tentei rir daquilo, apesar de não ser o tipo de humor que me faz rir. Era 52 - quilos. Logo depois entrou a médica que ia me operar, ela falou mil coisas das quais eu não lembro, a razão do esquecimento vem logo.

Então me tiraram do quarto e me levaram pro centro cirúrgico, fui andando, cruzei os corredores de batinha e antes de entrar na sala esterelizada botei tocas na cabeça e nos dois pés. Sim, nos pés. O cenário me lembrava um episódio do House, e eu não pude evitar olhar pra cima e procurar uma parede de vidro. Tão logo eu deitei na mesa de cirurgia, ouvi alguma coisa sobre endoscopia e eu não lembro o que aconteceu, por quanto tempo aconteceu aquilo. Uma hora, talvez. Eu lembrei de uma vez que fiquei tão nervosa que comecei a soar nos ombros, foi a última coisa, não tive o cuidado de escolher meus últimos pensamentos, que seriam os últimos de certa forma agradáveis, visto que durante a próxima semana todos estariam bem ligados à dor.


O anestesista mandou o aparelho que mede os batimentos cardíacos calar a boca. Os meus oscilavam entre 63 e 65.

.

..

.

A médica tava histérica, dizendo pra eu acordar, e eu sentindo uma dor sublime, daquelas que te levam pra outro nível. Me botaram em  uma maca, muito rápido. A médica continuava falando, muito. Eu não lembro de nada, é o que anestesia geral te proporciona. Eu lembro de tentar abrir os olhos e aquilo ser a coisa mais impossível do mundo, imaginei que era assim que pessoas se sentiam quando estavam em coma. Cruzamos o corredor e me botaram na cama do Apartamento. A médica falou, falou, falou. Eu não lembro de nada. 

Depois eu virei um verme.

Não consegui segurar um Pocket pra ler, tampouco a colherzinha de sorvete, faltava força. Tudo o que eu fiz a tarde inteira foi vomitar sangue e ficar estirada feito um verme impotente. Em cima da estante da TV eu vi um potinho e eu sabia o que era. Pedi de qualquer jeito pra dar uma olhada, olhando pra trás eu vejo como eu já estou profissional na mímica. Eram duas bolinhas pretas com uma coisa branca por cima, e o pouco que eu sabia sobre amigdalas me dizia que elas deveriam ser rosas e que essas já deviam ter sido descartadas há tempo. Fiquei virando e rodando o potinho, olha quem tá ganhando, agora.

Uma moça me trazia sorvete a cada hora, uma enfermeira verificava minha temperatura, me dopava, e tirava minha pressão. Eu devo ter experimentado todos os remédios pra dor nesse dia. E cada um deles me deixava mais inútil. Até as 6 da noite eu não consegui me mexer. Sequer segurar um livro de bolso. Eu já conhecia todos os cantos do quarto, se eu tivesse ficado mais tempo ali poderia ter medido os ângulos e descobrir um erro, e um pouco mais teria descoberto quanto tempo esse erro levaria para derrubar o prédio. As pessoas não viram arquitetas só porque passam a manhã e tarde inteiras numa cama de hospital. Eu sei, still.

Passava um campeonato de hipismo na TV. Senti saudade de montar, de usar quepe. Mas aí eu lembrei que eu estava running out of time, e que eu só poderia suprir essa vontade na Rússia. Essa linha de pensamento vem se aplicando a muitas coisas. Eu já me sinto turista aqui.

Peguei a minha roupa pra vestir e tentei entender que tipo de roupa eu deveria ter trago, como se deve se vestir em um hospital, se existe uma etiqueta pra isso. Desci a rampa, dessa vez tonta, dopada, além, alheia. Não, nunca me ensinaram isso durante a vida, tampouco nos cursos estúpidos de etiqueta que eu fiz.

Não coloquei meus piercings de volta, só então eu vi como é estranho ver meu umbigo sem um piercing, realmente faltava uma coisa lá. 

Cheguei em casa. Nada podia me fazer feliz. Dormi pra tentar aliviar a dor, e só tentei, sem sucesso, uma toalha do meu lado tava cheia de sangue e pelo andar da carruagem isso não ia mudar madrugada a dentro.  Resolvi escrever os horários dos meus remédios, diante da impossibilidade de um descanso. Quatro caixas incrivelmente grandes, mesmo que eu tivesse crescido e o mundo tivesse perdido boa parte do tamanho e grandeza que tinha. Tudo tinha encolhido com os anos. No entanto aquelas caixas pareciam abominavelmente grandes. 

Não sei, mas acabei morrendo de qualquer jeito na cama. Acordei três vezes durante a madrugada pra tomar remédios e bater na parede com dor. De vez em quando eu punha a mão debaixo do maxilar e tentava sentir duas bolinhas que não estavam mais lá. 

Consegui lembrar que houvera, sim, um último pensamento antes de me apagarem na mesa de cirurgia. Sempre a melhor escolha, foi o que eu pensei, evitar que essas coisas inflamem na Rússia é praticametne o melhor que eu posso fazer. 

Depois, mais nada.

terça-feira, 5 de maio de 2009

From Waytt to Henry

[going from Henry VIII's daring wishes (could have he been denied of certain desires only for being the King of England, oh, can't a man desire, for crissake?), to Anne Boleyn's guilty in the roll, jumping to Charles Bukowski, Van Gogh, Hitler and looking for my place in the garden of History]


| Henry's love letter to Anne |

Previous Note: Waytt was the last man in Anne Boleyn's life before Henry VIII, and the rest of the story I will trust everyone else should know.

For she couldn't find in Waytt's poetry the purity she seeked, purity she chose to find only in noble blood. And noble blood, as known, rushes throughout the veins like no other, and its ones personal treasure, but poetry... Well, words rush in everyone's mouth, they can be arranged in every way by anyone. So which shall she have picked, dear Anne? Your mind, your presence, like no other, rushes throughout History as ones only treasure. Some might say you have mislead England's history, I say opposite. I say fate is the only constant in every line of History, and you had fate working for you, for your eyes could the king not have enough from distance. and so the eyes of our poor Catherine close with a stab, and you walk through the room, dispousing a man's love, a king's love. Anne, were you searching purity, dear?

And you, Henry, a true Gemni. Going back and forth with France, haven't you? You never really knew your mark, you needed double. Double sides, double wives, double affairs, more boats. You couldn't satisfy yourself with the unique, for you know, out there lived a better one than the unique. You were the true Gemni in History, and made yourself immortal, no doubt.

I sincerely admire too much those who made of their Lives exactly what they wanted and all the others feared or had only not the necessary courage (yes, there is a slight difference betweent these), to put in words. What's so grand about this courage? Is that not all of us have it. I can name some of my heroes: Van Gogh, because he painted exactly what he felt, more of a reflex, than some math-o renaissance work (I don't understimate it, no), and he broke the barriers and woke up during a frozen night, telling himself "I want to leave", then shot himself, and made of life what he truly believed, he left, let's say he even tried to please his family, but he kept looking, during a whole existence, a reason to stay alive, so he wandered around Europe and he could barely find it. Another one would be Charles Bukowski, for he has written what everyone else thought was useless, he wrote every word with no filter, trying to please only himself, hating other poetry-men, he made of life what he truly believed, because he cursed everyone there was to curse, he walked every street there was to walk and he couldn't help but be himself. Hitler, oh, let History make its point, but he, like no other, gave birth to his ideals, and I do not care wether were they good, wether could they have been bad, they were his dreams that he fought to make true. And last but not least, King Arthur, who dared Rome because his beliefs in honor were too great for him to be some catholic roman servent, let's say "he fought the power". Oh, and, Bethoveen, he also fought the classic, and built a new bridge so music could keep walking through a new path, he couldn't care less about critics. Neither could all these men care less about any critic, they did only what they thought was to be done, made of life their own guiding boat. For they were the captain, no doubt.

And so I wake up everyday telling myself "this is life, I won't throw it away", because I know these men have lived it like they trully believed, and now dear Henry entries my Admiration Hall (am I really naming this?), to stay. I daily have to use a part of my courage, when the subject going-to-live-in-Russia takes the table, I see I have some of the courage my heroes had, because as far as I know, I'm the only daring enough person to even give this crazy moving out idea a start, yes, I'm making of life exactly what I want. And the great part of the matter is that I like it, very much, indeed.

What I mean, shortly, is that you don't need anyone else's courage or support to keep going with your own ideals and dreams, if you have yours only, then you already have a ship filled with sailors, even if you're the only living soul in the ship, you are the sailor of yourself, you are the captain of youself, it's so easy to just careless for everyone else's opinion about your choices and what you do to yourself, because it's who you are. When I see someone holding down their dreams I think "what for? Your dreams are your choices, your choices are who you are, are you so ashamed of who you are? What's the world to care? Leave it, live it!", but I never really get the chance to deliver the message, let's say I'm sort of... Always sailing around. And it's an angry sea, but it's a living dream...

Let's take Mrs Dalloway: she bought the flowers herself!

I honestly never intented to live the life everyone else expected me to live. I'm not a robot, I have a pumping heart, a working brain and a full book shelf, they tell me what to do.

So upset, yes, I am. There's this exhibition of Henry's letters to Anne in the British Library, until September, and I'm afraid I won't make it there, for in this moment I should be walking around Russia instead, England comes right after, but just not precisely in time to see my dearest hand-writings (yes, his, I do not think he would have let any other write those letters).

And so I come back to the title of this writing, because Waytt had metrics to follow, he had catholic church telling him what was imoral, what was not, he had his hands on cuffs, the worst kinds of cuffs, these invisble cuffs of tabus. And then there's Henry, unsteady Gemni, with an unsteady king's heart, no rules to follow, only the rules he created himself to himself. And still you blame Anne? Who else would she choose? Well, Boleyn was one of mines, she chose the path she couldn't see the end, because living to see it take shape is the best part. For she stayed with Waytt would she only have lived in metrics, hearing the poetry she would learn to unlike, but Henry... in Henry she found the unsteady reality and unpredictableness that makes life worth the living.

Oh dears, you make my heart pump throughout history books, I can even picture your eyes while reading them. Even dirty Charles, who's not in them, but should be.

Well, would some one give this man some space, then?

Charles, dear, here's your seat!

domingo, 3 de maio de 2009

Dez coisas

A prisão branca que é uma sala de espera de médico realmente é coisa de fazer a pessoa mais higiênica roer as unhas de agonia. É uma selva branca, pessoas com olhos baixos, barulho de telefone. E então temos as revistas, e mesmo aquelas que - nunca - willingly compraríamos, é o melhor jeito de não ter uma ataque de ansiedade num ambiente tão podre. Ok, talvez eu só tenha um problema maior com ansiedade, principalmente quando a pílula da felicidade acabou. A primeira coisa notável é ver que todas as revistas falam da Crise, e que, definitivamente, eu não ligo pra isso. Pego uma edição da Revista Época de qualquer forma, do ano passado, e abro nessa página que a Sabrina Sato fala das coisas que todo homem deveria saber. Então pensando com os meus botões, resolvi debatê-las aqui, tentando ser o mais fiel possível ao primeiro pensamento que eu tive lendo pela primeira vez. Here we go.

1 - A primeira coisa pode ser os olhos, mas também olhamos suas partes baixas.

Hehehe amor... Não entrega o ouro!

2 - Adoramos ser a caça, mas vocês já não são os únicos caçadores.

Acho vulgar. Lugar de mulher é no tanque. Viva o machismo.

3 - Pendurar a calcinha no boxe é uma questão de praticidade. Só isso.

Grosseiro. Existe, normalmente, um lugar para se pôr roupa suja. A única função do box é abrir e fechar.

4 - O álcool nos torna ainda mais emotivas, choronas e propensas a… usar o celular.

OMG! Muito verdade.

5 - Malhar o cérebro masculino é tão importante quanto malhar o corpo.

É, mas e daí? Os caras ainda vão achar que ter um braço do tamanho de um tronco de árvore é mais importante. Na verdade, é feio e intimida. Eu já vi caras lindos e burros, digo, descartáveis.

6 - Ficamos ainda melhores com a idade, mais seguras, mais misteriosas.

Não sei, amor, você pretende ficar o resto da vida "disponível"?

7 - Gastamos fortunas no cabeleireiro e passamos horas nos arrumando para vocês notarem.

Na verdade é mais auto-satisfação, mesmo.

8 - Sabemos que sexo e amor podem ser tão diferentes quanto Osama e Obama.

Depende da linha de pensamento. Nem concordo.

9 - A morte do passarinho da vizinha e o final da novela são, sim, bons motivos para chorar.

Mas isso não quer dizer que futebol é uma droga, ou falar também de carro e mulher seja. Aliás, se existe uma coisa que mulher faz é falar de mulher, só que a maioria não admite.

10 - Não adianta ter ciúme das nossas amigas. Elas são cúmplices que ouvem as lamentações sobre vocês.

Tenha segurança o suficiente pra saber que não vai ganhar um par de chifres só porque vai haver uma "girls night out". Insegurança é boring to death.



Mas sério, assistir The Tudors e tentar não querer desistir de carreira, dinheiro e canudo pelo Johnathan Meyers é quase impossível. CUIDADO, material altamente atrativo (radioativo, han, han?).

Preguiça de escrever mais. É Domingo, for crying out loud.

domingo, 26 de abril de 2009

Última vez

[Girassol que ganhei de aniversário da Catarina]


Fazer as coisas pela última vez cria uma responsabilidade de que elas têm que acontecer do melhor jeito que elas possam acontecer... E agora, mais que nunca, eu faço, aqui, as coisas pela última vez e me preparo pra realizar tudo novo em um lugar completamente novo... Ou seja, é quase como querer escrever um epitáfio de memórias boas e motivações pra saudades, sem morrer, exatamente. 



Não planejei nenhuma festa de aniversário, porque vou fazer despedida, e aí sim vou conseguir reunir todos. Vai ser em Julho.

Mas é isso. Tá acabando. 

- And what do we do now?
- Enjoy it.

Talvez "acabando" não seja  a palavra, "tornando mais real" seria o mais certo... Principalmente quando os casacos começam a ganhar espaço no meu guarda-roupa, junto com cachecóis (não sei nem escrever a palavra, nunca a usei ahahhah), botas, meias, moletons e blusas compridas. e também os abraços não são mais tão longos como deveriam ser, ou precisam ser...

Aconteceu uma coisa engraçada, que eu tenho essa borracha que eu comprei em Windsor na Inglaterra em 2006, e ela é uma libra, retagunlar e tudo, e eu sempre dizia pra mim mesma que eu ia usar ela até o fim da faculdade, era uma coisa infantil de se dizer, porque olhando de onde eu estou agora pra aquele momento, eu nunca imaginei que eu faria medicina e tão longe de casa. De qualquer forma, a borracha não chegou nem na metade ainda, com três anos de uso, e eu fiquei me perguntando se ela estava pront pra durar seis anos de medical school. Foi ai que ela se livrou da responsabilidade de durar mais seis anos, porque o Levi me deu uma borracha maior ainda que a borracha da libra de Windsor, escrita "FOR BIG MISTAKES", e eu achei muito simbólico nesse contexto todo. 

Três meses.

Ver a realidade assim, tomando forma, e eu indo em direção a ela é a coisa mais doida...

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Cega por opção

[entrada do meu diário devidamente censurada quanto a portinholas da minha mente que são inacessíveis a todo mundo]

Hoje eu sentei com o José Saramago, uma maça cortada em um potinho e comecei a comer os pedaços de maçã ao passo que as páginas iam ficando para trás, também. Não que José Saramago tenha gosto de maçã, mas é engraçado ver como a maçã ganha outro sabor quando se lê junto. É a imersão que o livro causa dando tempero às coisas. Enfim. Há alguns meses, desde o Érico Veríssimo cair na minha estante que eu não dizia Enfim ao achar um autor decente, e eu disse Enfim e respirei logo em seguida, como se eu tivesse contido ar esse tempo inteiro. 


Senta um menino do meu lado, um conhecido, de quando eu ainda tinha algum interesse pelo mundo e saía todos os finais de semana, achava que as luzes da noite me eram suficientes, que eu achava que as emoções se encontravam num poço sem fim, que eu as teria sempre renovadas pra sempre, até tudo me cair na mesmice e eu, como sempe, me obrigar a ir além, além do que eu era. Não consigo ser nada senão mutável, é verdade. Então ele diz oi e pergunta por que eu estou só. Pensei em responder por opção, o que era muito verdade, ou curtindo a solidão, mergulhando num momento epifânico que você acaba de estragar. Mas eu estou nesse processo de não ser tão apática mais, não que esteja funcionando, as minhas expressões faciais não escondem nada, mas não é que eu ache ruim, é que as pessoas não entendem que não é apatia, é só que elas na maioria das vezes são previsíveis demais. Preguiça de socializar, respondi, finalmente. Ele falou sobre como ele não sabia o que queria da vida, e eu pensei em como pessoas sem direção me dão pena, e consenti que eu sou mesmo muito ácida. É preciso ter um foco, e fui empurrando a conversa com a barriga, fiz até um gesto com as mãos. Então depois de muita small talk, ele pergunta qual o problema em socializar, e eu pensei em responder sobre a previsibilidade que o processo da amizade banal se tornou, ou como eu sei como todo mundo está representando o papel e é um filme ruim. Não lembro o que eu respondi, mas acho que deixei a acidez vazar e ele disse que eu era estranha. Talvez eu não siga o padrão, retruquei. E me gastam o tempo e me atrapalham a leitura e esperam simpatia? Não. Eu sei que a minha praticidade pode ter se mutado (?) para essa acidez, mas eu gosto muito do que eu me tornei, passei a manhã pondo as coisas na balança, comendo fibras e Mucilon. Perguntei por onde andavam as pessoas que já estiveram na minha vida e longe foi o que eu consegui obter, de que adianta, já fizeram o que tinham de fazer por aqui, ou devastam ou plantam girassóis, simples

Quis continuar a ler o livro, mas quando eu entro nessas reflexões é difícil me tirar do meu egoísmo e a minha mania de ser introspectiva e hermética.

Cheguei em casa, a imagem do cavalo do quadro que fez cegar um dos cegos da camarata da mulher do médico apareceu na minha cabeça: narinas mais alargadas, olhos com algo de humano (só por que me transmitiam alguma expressão facial, não acredito em expressões faciais de cavalo, só que cachorros sorriem), a pelagem marrom, um desespero, que eu não sei descrever, encontro-me muito pobre das palavras quando cito mentalmente grandes escritores, vejo que tenho que andar muito ainda e não tenho pressa. Então eu fechei os olhos e vi tudo preto, a não ser por uma coisa rosa que ficava rodando, lembrei que a cortina não estava fechada e chateada tornei a olhos semi-cerrados realizar a labuta de fechar a desgraçada, que aquela vista não me apetecia mais o apetite, mas me enjoava, como um sorriso antes brilhoso e branco, daqueles da tevê, torna-se amarelado. Abri os olhos de um jeito certo, não tinha outra, não tinha nada de novo, sequer a música do vento era um tantinho diferente. Fechei a cortina e tornei a fechar os olhos: antes ser cega por opção, que a lucidez pouco me basta, aqui dentro de mim tenho cavalos desesperados correndo por campos de girassóis e isso me apetece bastante, o mundo se torna tão chato quando se descobre que há um tão mais interessante dentro de mim, ah, quanto egoísmo, e disso eu não me largo, do meu egoísmo eu me entendo.

Continuei a cegueira, priorizando os outros sentidos e dormi a tarde inteira.

Em terra de cegos quem tem olho é rei, e dentro de mim (essa bagunça de fobias), como éramos só eu, o cavalo, os girassóis e a cadeira sexagenária da minha mente, proclamei a monarquia com um tintilar de elegância. Talvez esteja ficando louca, louca e cega, mas bem que o sofá da loucura é muito macio e aconchegante, difícil de se despedir...

Puxei a cortina de volta.

"A cidada ainda estava ali"...

Vi a chuva cair e me despedi de cada gota, sabia que nunca mais as reecontraria, que eu só as veria por aquele momento, nunca mais as vou ver, repeti, então sim, estou ficando cega, e quanto a loucura, vai se sobrevivendo, vai se sobrevivendo...

É muito conveniente ser cega em uma terra de reis (muita ironia para a última palavra).

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Fluoxetina

O mundo inteiro é bombeado por fluoxetina. Ora, palavra, pelo menos se vive, pelo menos se vive! Quando eles isolaram felicidade dentro de um comprimido não há porque não tomar, a essência de toda a ideologia ocidental não é a busca da felicidade? Então quando eles isolam a felicidade em um comprimido é o caminho mais fácil. Só que fica a pergunta: o que fazer com a felicidade? Acho que ninguém faz realmente planos para depois por julgar uma coisa tão longinqua. A minha proposta é que ao invés do inútil fluor, ponham fluoxetina na água. As cores vão ficar mais vivas e a audiência do Faustão vai cair.

Digo: mundo melhor, sem demagogia, só com fluoxetina.


terça-feira, 7 de abril de 2009

A liberdade pela glicemia

18/07/2007: 102
20/11/2007: 97
24/01/2008: 91
...
20/01/2009: 88
04/03/2009: 77

Valores normais: 70 a 99


Em plena Páscoa: a liberdade pela glicemia.


...it's one way to catch the sun

domingo, 5 de abril de 2009

Estado de espírito com precisão de casas decimais

Era o meu primeiro dia de inverno. Era o meu primeiro dia de Costa Leste. Era tudo novo e eu ia absorvendo as emoções e moldando um estado de espírito que deveria resistir ao frio, às nebrascas e observando atentamente os flocos de neve geométricos, a perfeição da natureza e tentando, nem que sob ordem judicial, me convencer de que, por que não, eu fazia parte daquela harmonia.

E tinha essa tampa canadense. E todas as crianças queriam saber quem eu era. Eu sou brasileira, oi, tudo bem, é meu primeiro dia na Fountain Woods. E tinha essa tampa canadense no chão, que insistia em aparecer debaixo de tanta neve e eu ignorei a nebrasca e tudo que existia de vivo e ficamos eu e ela, envolvidas em um desses momentos da infância que as emoções constituem as memórias e não as imagens. Guardei-a no bolso e peguei o ônibus da escola. O motorista queria saber sobre mim, entre mil papéis colados pelo ônibus com 330 "THINGS YOU CAN'T DO IN THE SCHOOL BUS: NO YELLING, NO... NO... NO...", existia a pessoa simpática. Por que ele se escondia? E ele tinha esse bigode e esse cabelo branco, usava sempre roupas velhas e eu não consiga me livrar da expressão do rosto dele.

A professora se impressionava porque a tabuada era algo que saía na urina pra mim. Era tudo tragável e o almoço estava ótimo, eu amava a perfeição social em que eu vivia, minha escola era pública, meu almoço era dado pelo governo e aquele lugar me fazia não querer ir pra casa. Eu tinha centenas de cursos para escolher fazer: chaveiros, costurar, hockey, futebol, música, grupo de leitura. I was fuckin dazzled.

Tinha o Hupert, o chinês e nós nos dávamos muito bem. O primeiro foi só a introdução do segundo e assim se seguiu, um superando o outro. Os dias.

Eu tinha aprendido que o capitalismo era a melhor coisa do mundo. E era. Em que outro lugar do mundo eles venderiam tudo por 99 cents?

Eu rodava por Cherry Hill, Riverside, Philadelphia, Trenton...

E eu era parte daquela geometria toda.

Eu não sei o que eu quero dizer, talvez eu esteja aqui desde a primeira linha tentando descrever o sentimetno que me envolvia quando eu vivia no melhor lugar do mundo e não sabia, mas eu sei que eu vou falhar e que ninguém vai entender. As emoções que remontam as lembranças são só minhas e infelizmente eu não sei convertê-las de neurônios para bits e jogar tudo aqui.

E gastei meu tempo tentando falar do indescritível.

De novo.

E meus dedos têm essa sensação nova quando eu largo o violino depois de tocar. Isso eu também não sei descrever, deve ser a música se fundindo, e Beethoven sabe como fazer isso acontecer.

Ontem... eu dormi sorrindo.

Foi um sorriso de adeus. De satisfação, de quem carimba uma fase da vida pela última vez. Então a Dolly começou a arranhar a porta e eu, comecei a rir da simplicidade que a vida tem quando se faz um esforço.

Quanta besteira pra se falar.

Pior que tem gente que lê e acha algum sentido. É, é, o sentido deve estar por aí.

ABRIL é o meu mês favorito.

E lá vou eu dar carona pros meus devaneios de novo.

terça-feira, 31 de março de 2009

Escutando o tempo...

Hoje eu sentei, posicionei o pulso esquerdo e fiquei assistindo o tempo passar, vendo o ponteiro deslizar e indo "cada vez mais perto, cada vez mais perto". Eu quero a vida que é minha e que reside em Agosto.

Parecido com aquela vez que eu estava em Pompéia, e eles diziam que o mundo ia acabar em Julho, com o World Jump Day porque o impacto ia ser muito grande, e eu estava nesse restaurante, comendo um dos pedaços de pizzas responsáveis pelos dois quilos a mais, e quando eu olhei para o relógio, esperei a terra abrir no meio enquanto eu caía com o meu pedaço de pizza dentro. E eu lembro como a luz italiana entrava no restaurante e como a mesa era redondo e eu me sentava em um canto mais reservado... Nada aconteceu, as previsões não se confirmaram. Mas o episódio me marcou porque teria acontecido em Pompéia, a cidade engolida pelo Vesúvio, e seria uma honra morrer ali.



[Foto: Pompéia]

Depois eu acabei a pizza, continuei a vida com uma sensação de renovação e novos valores, entrei em uma livraria e comprei "A day in Pompeii", o que poderia ter sido facilmente o título do meu dia. Eu estava esperando uma desgraça mundial e nada, só pizza. Não sei se foi alívio, mas a sobrevivência valeu a pena pela oportunidade de ter comprado o livro.

Eu também lembro do sentimento de cruzar o campo de trigo de Burlignton, do sentimento de andar pelas ruazinhas de Riverside, ou sem rumo pela Sunset Avenue, ir até o restaurante chinês só porque eu tinha esse desejo por arroz chinês e a vontade de decifrar a magreza da menina chinesa do balcão, dos meus pés cortando a neve, de ir deixar o lixo para coleta sem casaco ou proteção, só pra mostrar pro mundo que ele não era o cara que ele achava que era, nem sob -10. Mas isso é outra longa história, aliás, é muito difícil parar de dissertar sobre momentos indescritíveis...

Viajar ou estar em outro lugar é uma das coisas mais fascinantes da vida, e ser nômade era the thing a qual não deveríamos ter abandonado. Enquanto tu viaja, todas as coisas que lembram de quem tu é, ficaram em casa, e por dias ou semanas, meses, tu tem que lidar só contigo, conviver contigo, não existem mais os lembretes nem as fotos penduradas, apenas avisos de hotel. E é ali, sem lembrete de quem tu é, que tu se conhece mais. E é incrível, a pessoa que desarruma a mala em casa é outra. O que tu conhece de ti em uma viagem, é a essência, somente a essência, a pessoa que ficava apenas naquele buraco de mundo era repleta de futilidades e quando sái porque sabe agora que o mundo é grande, leva somente a essência e vinte quilos de bagagem.

E dizem que as pessoas voltam irreconhecíveis de viagens ou de ausências, mas é simplesmente porque nunca se conheceram, lidavam demais com as frivolidades e só então tiveram contato com a essência.

Eu também é uma palavra difícil, tanto que Descartes sequer a usou no chavão.

*****

Aos amigos, vocês sabem quem são, já fiz umas lista de convidados, amanhã provavelmente vou esboçar o que possa chegar a ser um convite de aniversário, e já que meu aniversário é na Segunda, e isso é totalmente incoveniente, espero que todos possam comparecer no Domingo aqui em casa para um jantar, uns biscoitos, canapés, twister, pinhatas e possivelmente um filme.

A presença de vocês é imprescindível, inadiável, por favor compareçam por que eu não sei quando será o meu próximo aniversário aqui, e tampouco quando eu terei a desculpa e a oportunidade de encher uma sala com pessoas favoritas e queridas. E eu falo de um prazo de OITO anos, eu não tenho a menor idéia se pelos próximos oito anos eu estarei no Brasil para o meu aniversário, então estejam aqui, cruzem a cidade e batam na minha porta, vai ser divertido e vai ser pela última vez.

O relógico continua se arrastando e eu vou comprimindo minhas obrigações e ultimatos no tempo que eu tenho de sobra. Não dá a impressão de que eu vou morrer? Mas mais pra fenix, que renasce na Rússia.

Eu realmente pensei em fazer uma festa de despedida, mas não é falta de consideração celebrar que alguém esteja indo embora? Sem esse papo de aproveitar os últimos segundos, eu tive todo o tempo do mundo em Fortaleza e se ele não foi aproveitado pelas pessoas a minha volta, então ele vai cotninuar inaproveitado. Sem bota-fora, então.

Provavelmente amanhã vou operar as amigdlas, se isso for de interesse, também. Depois vem a remoção dos cisos, e eu só terei mais uma inutilidade biológica, que é o apêndice. Que pode ficar por aqui mesmo.

Ahr, no mais, eu espero muito que o projeto sobre o vestibular seja aprovado, uma pontada me atingiu dizendo "acredito nisso, no Brasil, enfim".

É isso,

vou ler The Decline and Fall of the Roman Empire, e qualquer compartamento mais tirano e autoritário que o normal pelos próximos dias, será mera, mera, coincidência.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Paz

Bem, paz não consiste em evitar a vida, achar paz não consiste em evitar vida. Paz é estar em concentração isotônica com a vida. Então que as funerárias levem em conta a proposta e parem de pôr Paz no nome. Eufemismo e trocadilhos são coisas do século passado, esse é o século do Sarcasmo.

Paz não é estática. Uma mesa não é estática, é uma loucura de átomos se reagrupando, etc etc. Não existe sintonia nem em uma mesa, talvez até exista paz no Tibet, mas é mais provável que seja uma ilusão, eles vivem sempre presos a própria mente, é muito fácil. Realmente muito fácil.

E se o amor é só um monte de hormônios, há de se convir que a paz também deve ser. Um hormônio que possivelmente só é ativado nos tibetanos, e foi isolado em um laboratório por monges que clamam, nesse momento, estar meditando. Eles mentem.



E para nós, ocidentais que só comem sushi à noite: paz é uma coisa quase alcançável durante o sono. Mas basta pegar as estatísticas e ver que quase todo mundo tem insônia. Ou simplesmente não sabe dormir.

Paz é utopia, plenitude não existe, mas é um ótimo combustível para se viver, assim como a Morte.

E não é uma questão de semântica.

As pessoas vêm entendendo e interpretando as coisas erroneamente por séculos, basta ouvir alguém falar da Bíblia. Ninguém realmente entende o que está alí, ninguém entende que é a grande Metáfora, que era a escrita da época: a metáfora.

A verdade é que discutir sobre paz, bíblia, futebol e política dá cabelos brancos. E cabelos brancos é coisa de todos os séculos.

BTW, eu tinha esquecido de como o blog do Mark é basicamente o melhor blog there is.

É isso, PAZ.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Chegou a hora, Joaquim




Então eu me fiz de pé, caminhei até o canto da parede do meu quarto, Gemma Hayes cantava At Constant Speed, eu tinha uma garrafa de água na mão, eu bebia, e caia mais lágrimas, fechei os olhos, descarreguei o peso do meu corpo no canto e depois disso, mais nada.

And it all comes to me right now... Like a starving dog crawling for attention.

E do nada, a Yasmin, que eu não vejo há 8 anos, bate a porta do meu quarto, eu deixo o meu canto e me arrasto até lá, sem dizer uma palavra, ela me abraça e eu penso: obrigada, eu já ia cair no chão se alguém não me segurasse.

- Tu ainda lembra de mim?
- É lógico que eu lembro, Yasmin.
- Que bom, eu tava com saudades.

And the thing about destiny is that it never ever makes mistakes...

E eu continuo, volto pro canto e reinicio o processo.

Obrigada, pai.

Pela parte da minha existência e por todo o vasto resto.

E se eu pareço essa pessoa forte, às vezes eu tenho a certeza que é fortaleza de cal. Outra coisa sobre os arianos é que eles engolem o choro pra quando estiverem a sós. Funciona, quero dizer, na maior parte do tempo.

But if I keep at constant speed...



Chegou a hora, Joaquim
de mergulhar no profundo desencanto sem fim
dos homens todos do mundo.

Chegou a hora, Joaquim
de perguntar pelo trigo
Pela aurora pendoada
na messe do teu jazigo.

Chegou a hora, Joaquim
de perguntar pela bomba
que foi jogado do céu
por cima da tua sombra.

Chegou a hora, Joaquim
de perguntar pela flor
Pela estrela germinando
nos olhos do pescador.

Chegou a hora, Joaquim
de perguntar pela paz.







Fico enchendo as bochechas pra ver se pego algum ar.

domingo, 15 de março de 2009

Metódica

Eu ri bastante quando entrei no Stuff White People Like e tinha um post sobre moleskines, que por acaso eu tenho, comprado na Suiça sem motivo algum, acho que porque já tinha ouvido falar sobre o valor histórico que eles tinham e como Modigliani tinha um. É realmente útil e lá eu congelei algumas idéias fixas, desenhei o Big Ben, a Torre Eiffel, tentei descrever coisas indiscritíveis mas de alguma forma, um dia o guardei na minha estante de livros e ele caiu no esquecimento, de forma que eu nunca mais escrevi nele.

Eu tenho esse problema que eu sou metódica, e vou logo antecipando que ser metódica não implica em ser organizada. Ser uma pessoa organizada exige um esforço, mas quando você é uma pessoa metódica não existe esforço, existe apenas o fardo, que é o esforço que se aproxima muito da obrigação, como se não existisse outra escolha. Ser metódico custa muito mais caro que ser organizado. O metódico precisa organizar os pares de meia em degradê, o organizado, precisa simplesmente organizá-los, lado a lado, não necessariamente em degradê.

Então, expliquei a gravidade da minha condição. E eu acredito que eu tenha parado de escrever no meu moleskine porque eu só escrevo com caneta preta. Vide dias que eu não estudei porque não tinha caneta preta. E a minha condição de metódica não pára por aí: quantas vezes alguém já entrou no meu quarto, começou a olhar os meus livros me perguntou como eu os organizava, e eu respondi: organizo pelo tamanho. E não é só, se alguém quiser me encontrar, às três da tarde, eu estarei na frente ao bebedouro, bebendo os meus sagrados dois litros de água, é lógico que isso vai além sobre horários de refeições (eu janto às seis, se for seis e meia, esqueça, não haverá janta). Ou sobre como eu já tenho minha cozinha inteira planejada e eu não suportaria a idéia de ter conjuntos de pratos diferentes, de forma que se fosse esse o caso, eles não poderia coexistir, então eu jogaria um dos conjuntos inteiros fora e ficaria com o outro, fosse porque eu perdi uma única peça do primeiro ou porque o segundo ganhei de presente. Eis a gravidade da coisa, caro humano. E eu criei esse método de estudo, e se eu não o seguir eu não considero que estudei e tenho que repetir o processo inteiro de novo, só que dessa vez, incluindo o método.

Ser metódico tem um quê de prisioneiro muito maior que ser organizado, se é que me entendem agora. Ou simplesmente me compreendem.

Enfim, moleskines a parte, eu fiz a vida tomar um rumo muito mais interessante desde que eu voltei de viagem do carnaval.

Mudei de colégio, condição meramente provisória enquanto eu tiver que dar satisfações ao MEC, vi a Maísa, comprei calças novas, cortei o cabelo (ou a Ana Luísa cortou) e isso tudo porque eu vi que tinha cento e oitenta dias na terra/Terra, que agora estão em cento e cinquenta e oito.

A minha maior prioridade é aproveitar a vida por aqui enquanto ainda houver a vida por aqui.

O meu aniversário continua não-planejado, mas a lista de convidados eu sei de cor, por isso, pelo menos a diversão está garantida. O que eu antecipo é: haverá twister, porque eu sou a helpless nerd.

E por último: estou escrveendo um novo livro, a idéia me surgiu às seis e meia de um Sábado, o que quer dizer que a idéia me acordou e me fez escrever três páginas seguidas até me deixar dormir de novo, o outro livro ainda está sendo escrito e em estado bem avançado, sessenta e cinco páginas devidamente organizadas, todas as idéias estão feitas na minha cabeça, mais outras tantas páginas de capítulos avulsos escritos que serão incluidos nas sessenta e cinco páginas e é isso, na minha cabeça o livro já está escrito, falta organização, e eu não tenho pressa, como tinha quando comecei a escrevê-lo, em meados de 2008, só sei que me agrada até agora.
E o outro livro me dá mais liberdade de estrapolar e eu pareço ter criado um estilo para mim mesma, sem perceber, sobre protagonistas mulheres problemáticas, psicologicamente aleijadas, que pouco se conhecem e que buscam emoções, não paisagens, entre outras constâncias que eu pude notar entre os dois livros.
Mas é isso.

O ultimato é que eu estou aproveitando a vida como ela tem que ser aproveitada quando se sabe que o Atlantico será cruzado em um tempo que se encolhe a cada segundo. E para a idéia tomar forma: a cada segundo estou mais perto, o que me aproxima mais e mais da loucura, que ninguém entende, eu acho.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Girassóis de Cardiff



Abençoei o início do dia com café: não havia rezado antes de dormir, não o fazia há sete anos. Nenhum remorso, nenhuma dívida.

Tomei o primeiro gole e olhei pela janela: o Sol brilhava debaixo dos meus doze girassóis. Arrumei a bolsa e embarquei no portão B para a realidade, enquanto o elevador descia, a realidade ia me fazendo lembretes. Lembrentes de um mundo. Não, eu nunca fui do tipo Bono Vox/Angelina Jolie que ajuda a Africa, muito pelo contrário, aliás, nem sei se a minha opnião dá cadeia. De qualquer forma, o lembrete não era que as pessoas tinham fome, não trabalhavam ou se trabalhavam, era em regime escravo numa fábrica de sapatos nas Filipinas; o lembrete, o que eu queria ver, estava estampado em papel post-it na testa de todos: a auto-convivencia, a hipocrisia, a submissão, a ambição cega por alguma coisa que não se sabe ao certo, que já deveria ter sido alcançada dez mil vezes...

Finalmente ganho a rua.

O mundo ainda parecia estar na sola do meu pé, quanto a isso, ele tentava me chatear com o vento - assanhando meus cabelos - em vão. Nem o pior dos furacões realizaria esta proeza.

Parei na padaria para comprar outro café. Sim, eu precisava de outra dose de realidade. Com adoçante, moça.

Então finalmente desceu: mais um gole de realidade e eu não iria agüentar... O som da guerra ainda tocava, e eu me sentia ridícula por ter vivido nos Estados Unidos quando a guerra começou, e o melhor que eu fiz foi mudar o canal.

As pessoas ainda me cercavam e eu sabia que apesar do comportamente previsível de todos, apesar do combustível da vida ser a morte, era sobre isso tudo que eu sempre escrevi durante a vida. Foram sempre os humanos que eu quis decifrar, para de alguma forma, chegar até mim. Inútil.

Então eu planto alguns girassóis esperando que eles me mostrem a direção ou me deixem mais perto do Sol; mas só sabem sorrir e esticar o pescoço para o Sol, e apesar de saber que esticam-se para o Leste... De que me basta o Leste? Eu já estive no Norte, no Sul, no Oeste, além do Norte... E o Leste não me diz nada. Uma fileira de doze girassóis no meu quintal gritando "Leste!" não me leva a nada. Ainda não sei a direção que se deve tomar para entender as pessoas. Apenas que, quem eu sou, foi o que eu fiz comigo e que sou somente esse bando de cidades.

Ah, acho que a melhor ação que eu vou conseguir fazer na vida é doar meu corpo para a ciência, e isso nem vai ser em vida, vai ser em morte. Ah, mas eu gosto desse ser humano dentro de mim, é forte, e eu não preciso de mais nada.

Mais um reveillon assim e vai ser demais, pensei.

Paguei.

Saí.

Preferi esquecer o mundo. Ignorância é alegria, é confete, é carnaval. Mas de vez em quando é preciso tomar um ou dois goles de realidade, porque é impossível vomitar um mundo com tanto em volta.

Enquanto o café deslizava pela minha garganta, em algum lugar de Oxford alguém tentava descobrir a cura da Aids. Apesar da Aids e da melodia da guerra, eu ainda tinha meus girassóis.

Inércia - a primeira propriedade de tudo. O mundo era inerte, era quadrado, e pela primeira vez discordei com Galileu e Newton - Sabe, parceiro, os astros são bonitos demais pra estarem a somente anos luz da Terra, um lugar tão feio, e se a gravidade realmente está me segurando aqui, porque ela não me impediu de pensar tão alto?

Só os girassóis se mechem nesse mundo inerte, Galileu, o resto é sobrevivência ou mitologia.

E então minha sorte ficou superdensa, imitando o chumbo, de forma que eu me afundei em mim, sem resistência.

Depois, Leste.

Depois, mais nada.




Moscow, depois Cardiff - certeza da vida.


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I'm standing in front of you, I'm a million miles away, in one straight line. Hello, how do I do, how do I keep going, who am I. Who am I: man, I did it to myself, so stop looking at me that way, I'm not the answer, I'll be your anchor. I won't pretend I love living straight, won't forget myself so soon, it's who I am. I'm all those cities inside me, yet I go to the country to find myself; crawl back to the city to lose myself again, under lights this joke is wearing thin. Well, it's easy to be a winner when I don't know what I've lost. It's easy to be a believer in myself. Maybe I'll fall, maybe I'll fly. Yet it's so hard to fly if we don't believe all the time: it's just one way to catch the sun, to find out who I am - I kinda leave it in the air. Well, man, we've had one hell of a ride, go chase your dragon and I'll chase mine. Find yourself (a compass), shall be fine.

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domingo, 1 de março de 2009

Transbrasiliana



(foto: Mãe e Pai perdidos em algum lugar da Europa)

- Antes de você ir embora, venha passar mais uns dias aqui.

Eu vinha trazendo minha mala e uma mochila e quando meu tio me ajudava a botar as coisas no carro minha vó disse isso. Ir embora é uma palavra que ganhou forma vindo dela e sinceramente, me corroeu o caminho inteiro.

Eu bem sei que muita coisa não vai mudar, quero dizer, eu sempre passo, afinal, um mês na casa dos meus avós todo ano; e eu sei que vou passar férias no Brasil todo ano, mas parece que a idéia sozinha de ir morar na Rússia é que cria essa distância que não deveria existir.

Enquanto eu tava em Pedro Segundo com os meus amigos, na serra, ficava me passando o tempo inteiro conservem-se assim, conservem-se assim pela cabeça. E que droga, parece que só por esses dias os números tomaram forma: não sei se ainda estou na casa dos 170 mas depois vem 160, 150... E aqui vou eu.

Que agora vou ter que ficar cruzando o país o tempo inteiro porque meu pai se mudou pra São Paulo, não bastasse minha família ser espalhada pelo Brasil inteiro, choveu essa em cima de mim.

Minha vó falou alguma coisa sobre eu estar muito calada, e quando eu achava que tinha acabado de dialogar comigo o assunto Adeus, Brasil; passa um ônibus do nosso lado chamado Transbrasiliana, que me remete a Transiberiana e me quebra em duas, bem ali. Eu não deixo transparecer, mas eu sei que, pelo menos nas paredes ovais da minha cabeça, eu venho acrescentando uns espirros de tinta pra ver se isso me distrai dos outros cômodos que existem dentro de mim.

Então eu disse tchau pra minha avó e pro meu tio, tentei dormir durante a viagem, mas nem nisso eu consegui me concentrar, abri minha bolsa e dei de cara com meu livro de russo.

Não é que eu esteja me sentindo sufocada, mas eu acho que eu só preciso de mais um tempo do lado das pessoas que me ajudaram com curativos quando eu precisava de quatro mãos para fazê-los.

E é bizarro porque eu lembro que - não faz muito tempo - e é isso que dói, que faltavam 260 dias para que eu fosse embora, e agora já são 170 e pouco.

Eu chego em casa e percebo que minha mãe levou o mesmo choque de realidade, nunca a vi tão compreensível, e quando eu fico só, fico me perguntando o que houve com a sanidade metafísica do mundo, por quantas anda o aquecimetno global, o que é que há com a crise, como vai o Obama; mas por trás desse jornal de notícias, estou simplesmente eu, fitando as pessoas da minha vida sorrindo, mentalmente, e são slides bonitos, acreditem.

Quanto a Dolly, eu não consigo imaginar o tamanho da saudade que eu vou sentir. A Dolly tá sempre do meu lado, no começo, quando ela chegou aqui em casa, eu achava que era por causa da comida, mas quando eu fico só em casa, e isso tem acontecido com mais freqüência, ela me acompanha pelos cômodos, deita e fica me olhando com os olhos trocados que são só dela, e sorrindo do jeito que os cachorros sorriem.

Tenho pensado bastante no meu avó Antônio que eu nunca conheci, e agradeço por que, de alguma forma, eu cheguei aqui por causa dele.

O que me conforta é saber que tudo isso vai valer a pena e que todo mundo vai sorrir no fim, seja por mim ou não.

Eu desejo muito sinceramente que o tempo passe mais devagar e me dê uma chance qualquer de gravar as últimas imagens pro meu slide mental que eu preciso pra cruzar o oceano.

Ontem mesmo, durante a viagem, enquanto parte do mundo ficava pra trás, eu fiz uma grande decisão: de perdoar atos que eu julgava ontem de tarde mesmo imperdoáveis, mas eu não quero arrastar essa nuvem negra comigo pra onde eu for, eu quero um dia nublado e uma platéia que não falte ninguém por coisas que já passaram e que já deviam ter sido perdoadas por todos, inclusive eu, principalmente quando o que foi feito é irreversível. Pra continuar vivendo o mínimo que se faz é abaixar os olhos e perdoar. Eu não quero ser a garota com a nuvem negra. I don't wanna be that girl.

Eu faço parte do grupo de pessoas que acredita que as grandes decisões são feitas assim, de uma hora pra outra; porque antes mesmo delas serem julgadas grandes, elas são impactantes. E nada mais conveniente a um impacto do que uma decisão feita de uma hora pra outra, voltando pra casa.

Eu também simplesmente não queria ser a pessoa que vai embora, eu convivi com esse tipo de gente minha vida inteira, todo mundo sempre indo a um aeroporto e eu ficando; eu sei que eu já mudei de país, mas é diferente. E eu sei que eu vou pegar o papel da pessoa que vai embora, eu só espero que eu não vire lenda ou uma vaga lembrança, que quando eu entrar no meu quarto de novo ele ainda tenha a atmosfera de quando eu habitava, que o mundo permaneça estático e espere por mim, enquanto eu ajeito as saletas da minha mente e tento pintar as paredes de branco novamente, mesmo que eu tenha confabulado bastante ultimamente sobre laranja...

Espero não trazer mais a tona assuntos que me torturam a alma.

Quarta-feira tem um encontro da AFS e...

Não tem "e".

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Desovando



Estado de espírito: de cabeça-pra-baixo

O meu vôo é meia noite e me peguei fazendo uma coisa que, subconscientemente ou não, eu só notei as coincidências agora, tipo, right now... Começou com uma prateleira no meu quarto onde eu deixo remédios e essas coisas. Daí eu vi que tinha um monte de caixas vazias e comecei a ir jogando no lixo, só que o lixo começou a faltar espaço, então peguei um daqueles sacos azuis de lixo e fui jogando fora um tanto de coisa no quarto das quais há um ano atrás eu me via prendida. Então eu abri um armário, e eu já estava no terceiro saco de lixo. Foram quatro sacos grandes e eu andando torta tentando levar todos pro elevador e deixar lá embaixo, uma cena patética, eu sei, mais ainda porque eu estava arrastando os malditos, bem aí "pobre diabo" se aplica a mim. Quando eu subi de volta, deitei de alívio, e sem querer só acordei de tarde. Eu acredito que essas coisas que a gente vai acumulando nas gavetas acumulam energia e só as jogando fora mesmo. A última vez que eu fiz isso acho que eu tinha doze anos, bem, eu tenho quase dezesseis e foram quatro anos de maré alta e turbulenta. Achei diários antigos, li, ri, reli - o melhor de ver o tempo passando é rir de si mesmo, rir das convicções ultrapassadas. Mechi em fotos de quando eu era pequena, branquela, igual. Vi fotos de Burlington, de Miami, deu saudade de forma que eu as guardei de qualquer jeito...

"... E parecia-lhe que certos lugares da terra deviam dar a felicidade, como planta peculiar ao solo que não se dá bem em outra parte "

É bem isso.

Eu cresci com os livros e eu nunca fui lá muito fã dos clássicos, mas Flaubert realmente tem me impressionado.

Pois bem, agora que as estantes do meu quarto, os armários, as gavetas e as prateleiras estão limpas, falta eu fechar os olhos e ir ajeitar os cômodos da sala oval que é a minha mente. Agora isso vai exigir sacos, caminhões e transportadoras...

Eu sequer falei da coincidência. Eu ainda muito assim, mudando de assunto e indo fundo no assunto, até achar outro e... Bagunça. De qualquer forma, a coincidência é que eu planejava "desovar" só quando estivesse mais perto de eu ir para a Rússia, deixar tudo de forma que quando eu voltasse estivesse habitável para a segunda pessoa que irá voltar. No entanto, parece que meu subconsciente assimilou que eu entro em um avião hoje e deu pane, me pondo a "desovar" seis meses antes...

Se o meu ano for antecipado assim, eu consigo prever um ano impecável a frente. È o que diz meu horóscopo anual, me enchendo de esperança, e especificando meses ótimos exatamente no segundo semestre.

Ironias da vida; levar a sério ou só rir e segiur em frente. Eu levo a sério rindo e vou seguindo em frente...

E é só o começo, quatro sacos agora, eu não sei até aonde eu vou conseguir ir e o quanto eu vou conseguir juntar...

I'm on my way.

Eu quero dizer, a quantas vai estar meu coração quando eu ouvir no pouso "Bem vindos a Moscow, são cinco da tarde no horário local, o clima está congelante e obrigada por escolher nossa companhia aérea"

Bem, quando eu ouvir isso eu tenho certeza que só os cacos vão se dirigir pra pegar a bagagem. Vamos ver o que vai sobrar de mim.

ALIÁS, eu quero seguidores do blog, senão eu ameaço não postar nessa joça enquanto eu estiver na Rússia.

Hoje acordei meio tirana. hahaha.