domingo, 26 de dezembro de 2010

Ser circular é difícil

Desgraça, eu disse, me enrolando mais nos lençóis, como se aquilo fosse me prender mais a cama e eu não tivesse que levantar, que desgraça, repito, e pratico um ato de auto-mutilação com pouquíssimo efeito, já que é contra a cama. Saio de casa, coisas na bolsa, e toda a coragem necessária para enfrentar o Sol do Ceará ao meio-dia. Ora, ao menos venta, Rianne, eu me conforto, já que há um mês atrás passei um tempo com os meus avós no Piauí e foi no mínimo panque, minha gente. Por que eu não sei do resto do mundo, mas eu gosto dos banhos que têm prazo de validade de refrescamento de pelo menos uma hora, não gosto quando saio do chuveiro e já começo a suar, e nada realmente concreto consegue vir a minha cabeça ou substituir o pensamento de "QUE CALOR, QUE INFERNO, POR QUE?". Pelo menos venta, continuei. Perdi o ônibus, aparentemente eu tinha que fazer sinal e estava burra e recém-acordada demais para conseguir funcionar. Esperei mais vinte minutos pelo outro, enquanto fazia pequenas notas sobre como Fortaleza precisa de um metrô ou pelo menos de ônibus o suficiente. E sento, de fones, com a minha cara que diz NÃO em letras garrafais. Não sou antipática, mas não gosto de chamar atenção. Em Moscou, e lá vou eu, sou só um fantasma na multidão, ah, continuou, quem não gosta de Moscou não gosta da vida. O ônibus finalmente chegou, vou o caminho pensando que às vezes as escolhas erradas levam para uma escolha mais correta do que a antes disponível, e não fico com tanta raiva de mim. Conheço os meus monstros, e os adestro, com tempo e paciência, ambos os quais eu não tenho. Desço e entro no Aldeota, procurando a menina dos olhos castanhos gigantes. "Vamos, porque esse banco está me incomodando, e acabei de ficar pobre", e assim, uma conversa continua, um "oi" ou um "há quanto tempo" é totalmente dispensável, a nossa saudade luta para existir, pois existe essa conexão que não a permite. E vamos reclamando mesmo, e rindo das desgraças, em direção ao Del Paseo. E eu penso que acordar cedo foi totalmente digno, enquanto M. carrega um CD de forró que ganhou na compra de uns abadás. É lógico que o Del Paseo virou uma selva e não há lugar para sentar na praça de alimentação, então descemos para as Lojas Americanas e analisamos o comportamento das pessoas que demoram para escolher biscoitos, incluindo o nosso. "Eu comprei um tênis que eu gostei", o orgânico ou o totalmente gordo, "mas ele me machuca no calcanhar", o orgânico e um segundo que não estava na equação, "acho que as coisas que eu gosto passam a me machucar, sei lá". Incrível como um tênis às vezes é capaz de produzir verdades absolutas. Sentamos lá fora, falando de tatuagens e seus significados, de como o círculo envolve todas as reações e ações que existem, de como o círculo é uma forma perfeita e finalmente, de como é difícil ser circular. Liberdade, ela fala sobre liberdade, e eu fico contento por ter mantido na vida as pessoas que são eloqüentes o suficiente para gritarem que são livres. E falamos sobre amor, mas a conversa não vale a pena. De repente T., a terceira extensão de nos, personagem ausente de cinco anos na minha vida, aparece, e como quem continua uma conversa pausada há cinco anos, diz: "Vamos, preciso comprar sapatos", na maior naturalidade. Viro para M. e digo: "Isso é o destino usando toda a Ironia disponível", e ela ri porque aquilo é muito aleatório e impossível, "se a gente tivesse combinado, não tinha dado certo". Próxima coisa que eu sei é que o vendedor de sapatos está tirando uma foto nossa, a que vamos olhar daqui há vinte anos e rir. M. vira e diz "meu deus!", como se descobrisse algo totalmente novo, um sapato, talvez, e completa: "... vocês são minha vida inteira...! Vocês são a cara da minha vida inteira!". E apesar dos tênis que machucam, e a dificuldade que há em toda a coisa de ser circular, há espaço no mundo para se ser a vida inteira de alguém. Se me perguntarem, a vida é uma puta com acne vulgaris, mas não é impossível querê-la bem ou que ela traga coisas boas, nem que seja uma vez na vida e que seja na forma dos amigos mais velhos que você tem, agora em formato de joãozinho-de-barro, os únicos que fazem o ninho contra o Sol. E repito as pequenas frases porque amanhã é dia de encontrar um joãozinho-de-barro, apaziguante. Pontuo.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Eu vou consertar sua cabeça.

[Estado de espírito: natalizado e gordo]
[Escutando: Stomach, Current Swell]




[Corretores de joanete, tunando o seu pé desde 1980]

Talvez eu perca a sanidade. Hoje.

Alguém tinha levado um tiro. Tráfico de drogas. Gente que usa bigode. Gente grande. O trambolho debaixo do meu pé, a bala. Afastei o pé esquerdo e a bala ficou entre os dois pés. Estado semi-acordado de consciência.

E os olhos que acordam num domingo às 8 da manhã, sentindo os aparatos de silicone para a joanete.

Eu estava na aula de alemão quando ela me puxou pelo braço, sem escrúpulos quanto a professora e quebrando o clima que as aulas de alemão têm. Ela sempre falava perto demais, doce demais, gentil demais. Foi ali, me encurralando naquele corredor que ela disse que seria bacana falar para toda a escola, na sessão de línguas estrangeiras, um pouco sobre mim. E em cinco línguas, bem bacana.

Entre todas as coisas que se podem acontecer num Domingo, entre todas elas o destino me reserva a tarefa de contar para o mundo, em cinco línguas, seguidamente, como eu vim parar aqui, porque eu não tenho otchestvo [segundo nome russo que deriva do primeiro nome do pai com terminação -ich ou -ova], praguejar sobre paz mundial e unidade humana.

Qual é a sua história.

A verdade é que ali na frente de todos eu poderia ter descoberto uma nova espécie de dinossauro, a Royal Academy preparava um encontro com a Rainha da Inglaterra, mas ali na frente, eu era só um alguém com uma nacionalidade exótica.

Quando entrei na escola, depois de tomar um café tão amargo quanto o dia de Domingo, ela me achou no corredor e veio gritando na minha direção. Vá para a sala 13. Pois que seja a sala 13. Fora o cenário escolhido para a loucura.

O meu entendimento de sanidade nunca fora uma coisa concreta, mas o de insanidade sempre pareceu tão vívido e claro.

Durante as olimpíadas de alemão e inglês, a primeira a qual depois de ganhar o primeiro lugar passei a ser tratada como esse deus grego de porcelana, vendo meu nome em cirílico no mural ocupando o primeiro lugar, aquela fora a minha sina. Eu falava alemão no teste oral, em inglês com o David, em russo com os russos na sala, e por algum motivo de respeito a si mesma, português, em alguma esquina dentro de mim. Minhas pupilas dilataram. Era impossível ligar e desligar uma língua e ligar outra, ficava uma em cima da outra, empilhadas. A verdade era que a estátua de Ceres, naquele salão no vaticano, que apesar da minha falta de catolicismo me maravilhou, fazendo-me usar todos os meus sentidos ao mesmo tempo, a Arte cumprindo seu papel. A verdade era que a maioria daquelas estátuas gregas estavam rachadas. Eu nunca fui um deus grego a ser admirado. A perspectiva de viver a vida sendo uma estátua me deixava sonolenta.

Mas a minha coordenadora que me encurrala achou que seria uma idéia ainda mais grandiosa se agora eu falasse também em espanhol. Via-se sorrisos na platéia, enquanto eu pulava de alemão para espanhol, de espanhol para inglês, de português para russo. Esse garoto logo na minha frente sorria como se tivesse se apaixonando. E todas aquelas pessoas pensavam consigo que enquanto elas perderam tempo de alguma forma, eu aprendera cinco línguas, e sem nenhuma pretensão profissional. Cinco? Quatro, o espanhol por tão perto o fiz distante. Fácil demais, não quero.

A verdade era que eu não sabia o que eu queria da vida, nem se a vida me queria. Ou pelo menos foi o pensamento que adubou as minhas vocações por um bom tempo. Quantas vocações pode-se ter? Quantas vontades pode-se sentir? Quantas coisas uma pessoa tem capacidade de ser? Tinho visto esse cara na TV uma vez que tocava cinco instrumentos ao mesmo tempo. Cinco era muito. Cinco línguas também eram muitas. Mas sem nenhuma pretensão, não mirando a lugar nenhum...

O quadro era de uma vida atrás de uma mesa, de conversas com papéis e submissão a um monte de leis e normas que não era nada naturais, apenas criadas, impostas. Eu não podia, abominava uma carreira de diplomata, de advogado. Alguém nascia brasileiro e tinha que concordar com aquilo tudo, mesmo se não concordasse, e se contrário fizesse, era preso, multado. Nem todos concordam, mas todos se submetem. Ser uma pessoa de papéis, viver essa rotina sem velocidade, 20 quilômetros por hora, ameaçando frear, não era a imagem que eu queria ver no quadro.

E ainda o conceito de nacionalidade. Toda aquela porcaria que chamavam de nacionalidade era nada mais além de papéis. Todos nós éramos tão iguais que a visão de uma multidão dá enjôos. Todos nós queremos rimar, seja em russo, seja em português, seja em inglês, é sempre a busca da harmonia dos sons, uma rima é sempre um som se repetindo. Todos nós éramos patéticos o suficiente, igualmente tolos e vazios. Um papel me dizia que eu era brasileira e isso não me punha em lugar nenhum de desenvolvimento mental do lado de alguém possuindo um papel que afirmava uma nacionalidade russa. Não. Somos todos filhos de Roma. Eu não podia exercer uma profissão sem acreditar no princípio da mesma. Viver a vida como um hipócrita, atrás de uma mesa, eu tinha imaginado mais movimento.

[Yuri com um sorriso do mundo inteiro]

E eu não podia ser um astronauta. Eu iria trabalhar vinte anos na preparação de uma missão que iria durar algum par de horas. Vinte anos depois eu iria me odiar, e não só me odiar, mas tudo que eu tinha visto, o universo inteiro. Não sabia como se criava o ódio pelas estrelas, mas nessa perspectiva, ele era muito provável de ter sentido, era um ódio perigoso. Eu pegava a mini-eu pela mão, que sonhava em usar aquele capacete e sorrir como o Gagárin sorria, dentro daquele capacete, eu iria sorrir e seria tão sincero que o mundo inteiro iria olhar para mim (A vida ainda fez a bibliotecária russa me dar de presente um postal do Gagárin sorrindo). Era um sorriso que dizia adeus, era um sorriso que começava de novo, de onde quer que tenha parado, era um sorriso que ia para onde ninguém antes havia chegado, eu queria virar um cartão postal do lado de Gagárin. Eram pensamentos densos para uma criança de cinco anos, mas eu os manti, só para chegar ao ponto de achá-los irrealizáveis. Deixar crianças sonharem é algo perigoso e desastroso, só para chegarmos à idade adulta e ver toda a impossibilidade. Mas não deixar uma criança sonhar é igualmente cruel. Passar a odiar estrelas é igualmente terrível.

A simples idéia de ser jornalista me dava enjôos, de ter que escrever algo que eu não queria escrever, enchendo páginas e páginas de porcaria urbana, confirmando o fato de que vivemos numa selva de concreto. Eu mal escrevo o que eu quero, vou contra a corrente de mim mesma só para fazer pirraça, só para dizer que eu sento aqui e escrevo quando eu quiser, não quando a vontade quiser, assídua. E ainda os hamsters que vão cagar em todo aquele jornal. Aquilo não podia ser chamado de realização profissional.

Outra profissão que parecia me mostrar o caminho direto para a hipocrisia era a de psicólogo, psiquiatra, um neurocirurgião sem bisturi. Era alguém que tentava ser o reflexo de alguém transtornado, resolver problemas, problemas. Mas se o ser humano anda em duas pernas porque tem a capacidade de ver o problema e achar a solução, quem era aquela pessoa que me pedia para sentar em um divã, me prometendo uma solução? Ninguém é tão estúpido para não achar uma sozinho. Toda essa responsabilidade do psicólogo e do psiquiatra, de ser capaz de resolver os próprios problemas e de seus pacientes, parecia consistir numa capacidade extra-humana, acumulando funções. Injusto e improvável.

Então eu achei que poderia pilotar aviões. Eu achei que poderia sentar ali na cabine e deixar tudo no auto-piloto. Eu tinha tantas coisas a fazer, tantas estantes a organizar na minha biblioteca mental, antes manter o controle da cabine. E tudo aquilo parecia ter velocidade o suficiente, movimento, o que eu precisava. E eu iria ver as nuvens tão de perto que elas perderiam a forma. Mas se agora eu tinha a habilidade de voar, iria perder a habilidade de ter uma identidade. Um quarto de hotel a cada aeroporto, a mesma mobília, quadros de paisagens, gerentes sorrindo, tudo impessoal demais, sotaques de aeromoças neutros demais, eu iria ser um nômade, mais do que já fui a vida inteira, e as paisagens iriam se repetir, e muito cedo eu teria tido o suficiente das nuvens, e o pensamento de que talvez elas sejam mesmo doces iria evaporar-se para saber que elas eram tão breves que mal podiam ser admiradas. Tudo durava um único momento e as formas de jacaré e trem que as nuvens costumavam ter, como em James e o pêssego gigante, elas tornariam a ser uma mentira. Nem tinha gosto, nem tinha forma. E eu tinha Madame Bovary dentro de mim demais, quero emoções, não paisagens. Eu teria que explicar para dois sentidos meus que eles deveriam parar de sentir as nuvens dessa maneira, depois de tantos anos. Nada pior que viver a vida decepcionada com o céu, onde nós depositamos todas as nossas esperanças de que ainda existe algo incorruptível no mundo, algo inocente, naquele infinito de azul anil. Mas era tudo tão breve.

E eu já tenho todos esses anos nas costas.

A verdade era que eu nunca quis fazer uma escolha para a vida inteira. Toda semana eu quereria mudar de carreira, de profissão, chutar a rotina. Eu não sabia o que fabricar de mim. Nada tinha movimento o suficiente. E se tudo ameaçasse frear? A convivência comigo seria insuportável. Eu quebraria espelhos.
A única coisa que eu fizera da vida fora vir para a Rússia só para desafiar os que diziam que seria frio, que só tinha balé e vodka. Então eu perguntei-me porque não dançar balé e beber vodka no frio. Foi o espírito anárquico que me trouxera tão longe, eu competia comigo mesma para ver quem ia mais longe, mas no estádio eu sozinha corria. Era patético, era um jogo sem nada definido, e a falta de definição, era eu.

Então me disseram que eu poderia viver essa vida sem horários, tratando de pessoas, não papéis, que um dia eu operaria um coração, e no outro dia um intestino e que esses órgãos eram coisas completamente diferentes. Tudo isso me dava uma perspectiva de absolutamente nenhuma rotina, chegando a um ponto que chegaria a me irritar, mas entre eu e o meu espírito anárquico, concordávamos que aquilo prometia uma eterna competição, pouca probabilidade de frear. Nada de vitória e depois a calmaria. Apenas a vida querendo acabar e eu correndo para juntar as abas, me desafiando e mais e mais, eu achando soluções e na maioria das vezes morrendo por dentro para achá-las, é sabido que na história da humanidade a coisa mais difícil de se fazer é consertar um ser humano, em qualquer sentido que a frase possa vir a ter. E eu operaria cérebros. Entre todas as coisas que se consertam: televisão, celular, portas; eu iria consertar cabeças. Eu vou consertar a sua cabeça.

E nada mais me dava a sensação de poder que saber que as pessoas iam pedir para eu consertar as suas cabeças.

Incluí no meu discurso em cinco línguas que eu me tornaria uma médica, sem a parte de consertar cabeças. Os pais que estavam ali deram suspiros, eu fora adotada naquele momento por uma dúzia de casais, a brasileira que falava cinco línguas e quer ser médica, suspiros.

“A garota mais inteligente do mundo”, gritou Elena, enquanto eu vestia o casaco, depois de apanhar minha insanidade naquele auditório, “parabéns, estão todos maravilhados!”, e ela veio falando perto de novo, “a garota mais inteligente do mundo!”. Pro inferno a inteligência, eu queria mais, "mais tequila, mais amor, mais é melhor".

E isso tudo só porque eu era brasileira, imagine quando eu estiver consertando cabeças.

Mais tarde, no Brasil, quando eu tinha, literalmente, um cérebro na mão numa aula de anatomia na UFC, aquilo era simplesmente certo, e todos esses anos de "O príncipe" de Maquiavel na minha cabeceira dosaram-se muito bem.


****

Riri informa que está em processo de edição final de "Pão-com-açúcar", porque finalmente achei o que precisava para o começo, por isso aconselho a quem já leu que releia quando postar o trambolho inteiro aqui, gosto dele muito mais agora. Além de que o final está do jeito que eu queria, com esse meu TOC da primeira frase ter que ter uma conexão com a última, só assim fico satisfeita. Existem pequenos momentos que eu digo "isso está tão bom que está bom demais", um deles foi com um capuccino que fiz outro dia, o outro, espero, quando acabar e ler numa sentada só o que escrevi. Enquanto isso, happy holidays pra mim e para quem quiser.


Aliás,



Cortar a cabeça de um porco no Natal não tem preço. Só para ter certeza que esse post tem a macabridade o suficiente. E sonhar com Mark Hoppus e com um show do Blink que vai ser meu em 2011? Não tem preço. Assim é realmente muito fácil amar o Natal.

Pontuo.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Fueda-se.

Mas minha senhora, eu disse, eu tenho que embarcar, não é simplesmente uma vontade! Ela, alta demais para uma mulher e obesa, branca e com o cabelo super claro, eu diria albina, mas a fenótipo dela me importava ao mínimo naquele momento. Acho que eu não estava sendo clara, então me repeti. Que diabos, pensei, por que parei em São Paulo só para comprar um livro? Qual o meu problema? Eu poderia ter pedido essa merda pela internet. Por algum motivo eu estou em Madrid e tenho que embarcar de um PORTO? E não de um AEROPORTO? Ok, isso está offly wrong. NO SHIT.

...

Acordo, suada, meio perdida na definição de um pesadelo. Os meus, pessoalmente, sempre envolvem logísticas e conexões em aeroportos, olhares de impossibilidade vindo de funcionários, um longo suspiro e a desistência da vida. Se houver por aí, minha gente, uma Síndrome do Pânico a Logística Aeroportuária, ela é toda minha. Lembro que tentando chegar ao Brasil em Julho, quando saindo de Moscou, e aliás, nunca contei essa história propriamente, a Senhora Check-in diz que meu vôo Madrid-São Paulo foi cancelado, e totalmente cheia de resolução me dá o número do vôo que sairia 4 horas depois da minha chegada em Madrid, um novo vôo, totalmente existente. Olho para o Konrad e ele não consegue esconder a expressão de "Holy fuck". Subi o elevador para o Passport Control, faltava muito pouco tempo para o embarque, quarenta minutos para ser precisa, por todo o tempo que a Senhora Check-in se negou a acreditar na situação e rechecou, rechecou até me dar um veredicto que, convenhamos, fodia minha vida de qualquer ângulo e forma que ela falasse. Lembro que o elevador do Domodedov me irritava de alguma forma que só elevadores irritantes são capazes de fazê-lo, querendo ser panarômico demais, saído dos Jetsons demais. Quarenta minutos. Depois de ficar ali vinte minutos numa fila errada, para pessoas acompanhas com crianças, no Passport control, eu penso que esse realmente é o fim, não há, no mundo, situação em qual se põe mais esperança que um vôo, e igualmente, não há, no mundo, situação qual oferece mais improbabilidade que pegar um vôo. Douglas Adams definitivamente tirou a idéia da Coração de Ouro daí. Esperança demais, tudo pronto para dar errado demais. Pensei seriamente em fazer, ali mesmo, um pedido de adoção, mas todos aqueles orientais na fila com crianças não seriam meus parentes nem aqui nem na China (engraçadinha). Como todas as outras filas eram imensamente maiores do que essa, e faltavam o que, dez pessoas, eu não poderia me dar o luxo de simplesmente tentar não ser adotada, vai lá, com a cara e coragem, talvez seja o ato mais brasileiro disponível, e talvez isso acabe por te deixar chegar em casa. Calculei quanto tempo uma pessoa demorava na cabine, e tudo daria certo, digo, se essas árabes não estivessem demorando tanto agora, não, não acho que ninguém entendia ali o quanto eu precisava chegar em casa, o quanto nada daquilo tinha a graça necessária para simplesmente virar uma tragédia, aquilo era um bem construído episódio de terror. As pessoas normais demoravam quarenta segundos, as árabes estavam lá já há cinco. Sim, seria o fim, e lentamente fui abaixando minhas expectativas. Tudo bem, amo Moscou, mas eu tinha outros planos. Eu tinha vinte e cinco minutos. Faltavam mais cinco pessoas na minha frente, com uma dose de fé, talvez eu passasse. Quando finalmente cheguei lá na frente, faltavam quinze minutos. E todos aqueles planos de ir Duty Free? To hell with that. Ela olhou na minha cara, olhou o visto, procurou o carimbo, rechecou, me entregou o passaporte, me deixou ir. Raio-x. E lá vamos nós, o sumo da experiência russa: sempre tirar os sapatos, absolutamente sempre, principalmente quando você está atrasado para um vôo. Tirei os sapatos, joguei o computador no raio-x, botei aquelas sacolinhas estúpidas no pé e fui de sacolinhas com sucesso, sem nenhum apito. Devo aqui relatar que há pouco tempo a maldição do apito resolveu me largar, eu já passava no detector de braços abertos, pronta para ser revistada. Não que eu sentisse falta daquilo. Agora eu tinha que procurar a droga do portão ou simplesmentes os gritos em espanhol, e devo relembrar aqui, estamos em Copa do Mundo. Deveria notar também que todo esse corre corre pelas salas de embarque, devidamente vestida com as sacolinhas, os tênis na mão, o computador no ombro, e o coração na outra. Seis minutos. Lembro desse número com um tanto de pavor, seis, seis, seis. Achei o suposto portão de embarque, mas ninguém falava espanhol, então eu esperei por arrastados minutos que o Ashton Kutcher aparecesse ali e dissesse que eu estava no Punk'd. Vamos, Kutcher. Finalmente, caminhei pelo corredor que dava ao avião, já calçada, e durante todo o vôo tentava processar o trauma, ou seja, dormi. Faço isso muito bem, aliás. Quando cheguei em Madrid minha vida se iluminou novamente, eu tinha que pegar minhas bagagens e fazer o check-in de novo, tudo bem, se eu não estivesse sentada aqui do lado dessa esteira esperando minha bagagem desde as 6 horas, só que agora são 8, o meu suposto vôo para São Paulo sái as 10. Sim, vamos, percam minhas malas. Além disso, eu não tinha a mínima idéia de que horas eram, digo, no meu fuso-horário. Senti que isso pouco importava já que a experiência vinha sendo cheia de adrenalina e como sobrevivente da selva amazônica, eu estava cheia desse hormônio, sobrevivendo. Não se deixe enganar pelo concreto e pelo mármore, aeroportos são, sim, selvas. Oito e meia minhas malas chegaram, pus meus 43 quilos de vida no carrinho, que, admito, compensavam o peso muito bem. Aliás, essa é basicamente uma das únicas boas impressões que tive de Madrid dessa segunda e dramática vez que estive lá. Tentei achar a saída, e é lógico que tudo iria ser complicado. Desci em um elevador que dava para lugar nenhum, tendo que subir de volta, voltar ao ponto de partida e dar uma volta imensa, até achar a entrada do aeroporto, onde eu deveria fingir que falava espanhol e magicamente embarcar naquele belo vôo. Não, eu não falava espanhol, e nem falo. Com as oito pessoas inúteis que falei da companhia X (não sei porque preservo nomes, deveria foder-lhes a vida), falei em inglês, ou simplesmente esperando que eles falassem russo. Depois disso, pensei, eu aprenderei espanhol, essa coisa toda de já falar russo e não espanhol parecia uma válvula de escape. Por algum motivo todos os atendentes da companhia X estavam indo embora porque o seu turno estava acabando, um deles,um dos oito, até me iludiu, lendo cuidadosamente o bilhete, vendo o vôo cancelado, vendo o novo que eu deveria embarcar, pedindo para eu segui-lo, mas ele, como todos os outros, estava indo embora e apenas me encaminhando para outra anta. A oitava atendente, como se aquilo não fosse com ela e realmente não era, disse que o segundo mágico vôo também não existia e que aliás, estamos lotados para São Paulo e a próxima vaga é em uma semana. A copa não era na África da Sul? Por que os vôos não estão lotados para lá? Saiam, saiam, saiam. Eu sei que era Madrid, mas me senti presa numa ilha filha-da-puta. Ela, como diz bom dia com o tom de eu sei que você se fudeu, me encaminhou para a nona pessoa. Onde estão as urnas de pesquisa? Quero preencher essa merda agora. Não, em nenhhum momento gritei com nenhum atendente, apenas ri, aquele riso cheio de desespero. Fui com os meus 43 quilos de vida até o guichê de compra de bilhetes, e naquele ponto, que já eram dez e meia, não valia mesmo a pena procurar por um vôo que nem existia. Lá a Senhora Guichê me disse que o meu vôo havia sido cancelado em Fevereiro e que minha empresa deveria ter me avisado. E como gosto de lembrar, estamos em Julho, e que por esses motivos, por não ser culpa da companhia X, eles não iriam pagar o hotel até o meu vôo, que ainda seria remarcado para deus sabe lá quando. Saí com os meus quarenta e três quilos de vida, a procura, já, de um hotel, puta, no sentido de espírito assassino da palavra, de um hotel, porque eu tiha esquecido a diferença de horário Moscou-Madrid e se eu descobrisse que horas moscovitas eram, eu provavelmente acharia que era mesmo hora de apagar e mandar todo mundo a merda em um final bem trágico. Estou na porta do elevador, para descer até as ruas madrileñas, o último lugar que eu queria estar, quando a Senhora Guichê grita do outro lado do mundo, alguma coisa em espanhol, viro, com as minhas pupilas vermelhas de ódio, só para ouvir que, interessantemente, o vôo que só seria disponível dentro de uma semana, magicamente apareceu para o outro dia, ao meio-dia, e que aqui estava o meu voucher para o hotel. Acho que toda a parte de caminhar tragicamente embora havia funcionado, não que essa tivesse sido a inteção. Ótimo, então eu simplesmente preciso fingir que vou dormir calmamente essa noite em Madrid e amanhã vou mandar todo o espanhol que existe no mundo se fueder. Não sei qual é o problema das pessoas que não falam russo, eu repeti a noite inteira. Ou era dia? Alguém simplesmente tinha me jogado no meio dos fuso-horários. O ônibus para o hotel saia em meia hora, perguntei a todos outros antas onde pegar o tal do ônibus, como eu achava a saída desse lugar infernal, e rodei aquela merda com quarenta e três quilos de vida feito caramujo pra lá e pra cá, porque nessas horas acho que falta de senso de direção, o qual eu possuo em alto grau, deveria ser tratado como uma deficiência e eu deveria ter tratamento especial. Voltei a Senhora Guichê, perguntando do hotel, e despachei minhas malas, peguei o carregador do computador, minha carteira, meu passaporte, minha câmera, desci uma rampa que me lembrava a via láctea, talvez fosse o sono, eu nunca tinha visto a via láctea. Cheguei a rua, quarenta e três quilos mais magra, e deveria eu assinalar aqui que ninguém me cobrou excesso de peso, que eram vinte quilos? Talvez eles estivessem bem NÃO na posição de me cobrar qualquer coisa se não um "foda-se" em letras garrafais. Mostrei o papel do voucher para o motorista, enquanto ele babulciava em espanhol, no meio disso saí e simplesmente entrei no ônibus, se alguém tentasse falar comigo em espanhol ainda hoje, ou que dia fosse, seria devidamente chamado de "cuño" ou seja lá como se escreve isso. Chyrot vozmi [foda-se]. Do aeroporto até o hotel, fiquei vendo a cidade da janela, enquanto ouvia um grupo de estudantes falar em francês, um deles aparentemente era engraçado e todos riam quando ele acabava de falar, as luzes da cidade me agradavam, pelo menos era noite, pensei. Cheguei ao hotel com bagagem estritamente necessária a sobrevivência, mas a fila dos estudantes franceses para o check-in estava gigante então eu pensei que, por que eu não sento aqui nesse sofá, durmo, e quando eu acordar, toda essa papagaiada em francês vai ter subido? Quando acordei, acordei em francês, às 2 da manhã, todos eles haviam sentado ao meu redor. Tentando voltar a minha conduta de ser humano, perguntei a um deles sobre o vôo, o que eu já sabia a resposta, o que levou a uma conversa de onde eu era e como eu estava falhando em chegar em casa. De repente, em alto e bom português, alguém me diz para entrar na fila porque aparentemente vem outro ônibus. Por que você fala português?, perguntei, quando na verdade queria falar what the fuck? Ele era angolano e aparentemente todos aqueles franceses não era franceses, e sim de algum país da África e vinham para jogar futebol. Ok, whatever. Fiquei na fila, quando finalmente cheguei a recepção "no hablo español", entreguei meu passaporte, assinei algo que vendia minha alma e subi. Então depois de tanto tempo sem falar português, meu primeiro contato é com um angolano. No mínimo interessante. Acho que não lembrava que estava com fome, também. Achei umas batatinhas, e como eu queria foder com a vida da companhia X, acabei comendo todas as coisas que tinham deixado lá no frigobar e em uma mesinha, se estivesse tudo envenenado pelo menos morreria em glória, tentei ligar para pedir uma pizza, só que ninguém falava em inglês então mandei Madrid a merda e tentei ir dormir. Fui dormir às 4 da manhã, para acordar às 9. Pouco importa, por aquela hora eu já tinha perdido todas as funções e horários biológicos de uma pessoa normal. Saí para comprar uma roupa, souvenirs com pequenos touros madrileños para que eu lembrasse mais tarde que agradável foi aquela passagem por Madrid... Fiquei andando pela Gran Via até dar dez e vinte, cheguei ao hotel. Perguntei onde eu pegava táxi, só para ouvir que a companhia X também estava me pagando o táxi. Sentei no sofá com alguns poloneses e ficamos conversando até descobrirmos que íamos pegar o mesmo táxi para o aeroporto. Naquele momento não pude deixar de pensar que eu entendia perfeitamente polonês, mas o que aquele taxista babulciava entrava por um ouvido e saía por outro. Fui direto para o salão de embarque, já que tinha feito o check-in na noite anterior, olhando no meu passaporte a estúpida estampa de que eu havia estado em Madrid por um dia. Passei pelo raio-x depois de aprender que computador em espanhol é "ordenador". Passaport control, tudo ia dar tempo, talvez eu realmente pousasse em casa se o avião não caísse. Agora, portão U de embarque. Aquilo não me ocorreu no momento, mas um aeroporto que tem o portão U tem todas as letras anteriores, e o que não me ocorreu mais ainda é que dentro do aeroporto tinha um metrô. Segui todas as placas que me levavam até o portão U, subi infinitas escadas rolantes, onde ninguém tinha o costume moscovita de ficar encostado em um lado da escada, enquanto o outro ficava livre para os que estivesse com pressa correrem. Tudo bem, paz mundial, paz mundial... Elevadores. Escadas. Corredores. Escadas. Onze e vinte, e a idéia de que a merda do vôo saía às doze não deveria me aterrorizar. Achei o tal metrô, perguntando a uma senhora que ouvi falando russo com um sotaque totalmente espanhol. O metrô me dizia que chegaríamos em vinte e dois minutos, e eu com a minha cabeça a prêmio e o computador na outra mão. Cheguei a um lugar todo da letra U, onde eu deveria achar o U27. De repente, ouvi o som das vuvuzelas e vi gente vestida de verde e amarelo. Se aquele não fosse o meu vôo, então eu era daltônica. Chequei. U27. Faltavam seis minutos. As pessoas falavam português e não eram angolanos, e sim brasileiros, de Floripa. Uau, eu tinha esquecido o que era essa coisa de regionalismo. Sentei naquele avião e dormi, dormi, dormi. Quando cheguei em São Paulo, o meu vôo para o Ceará havia sido cancelado também. Haviam aberto minha mala e levado coisas. OK, eu realmente queria sair do inferno agora. Companhia aérea Y me jogou na sala VIP com um cartão de wi-fi e umas... coxinhas? Deus, coxinhas. Vou voltar para a Rússia nadando ou a pé, pensei, quando finalmente cheguei em Fortaleza. Não acredito que as pessoas chamam avião de progresso, pensei, e hoje a noite estou muito a vontade, muito burguesamente instalada no mundo, e dormi, em uma cama, lá fora fazia trinta graus e essa parte ainda me era estranha, mas dormi em cima daquela citação de Sartre, ainda perdida nos fuso-horários. Talvez eu ainda esteja perdida.


(Gostaria muito de contar sobre os eslovacos, mas tenho outras coisas para escrever, e os eslovacos se contarão quando quiserem)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A festa é de Jesus mas vim de penetra

Há um ano atrás estávamos em Kamensk-uralskiy, uma cidadezinha russa próxima aos Montes Urais, faríamos estes snowboards de papelão com uma sacola em volta nessa descida ridicularmente infinita, lembro de sentar lá no fim daquela montanha de neve e pensar que isso é felicidade, e quando eu despensei, já não era mais, um momento e já foi. Nós cantávamos canções de Natal em pelo menos cinco línguas diferentes, e ninguém nunca mencionou Jesus, ali éramos nós, usando a desculpa do feriado. Nós jantamos ao ar livre quando fazia cerca de -20 lá fora, comíamos rápido o suficiente para tudo não virar uma pedra de gelo, ao mesmo tempo que corríamos para a fogueira que tínhamos feito. Eu posso lembrar de cada detalhe, do karaokê horrível, do espelhinho do banheiro. Um ano depois, em solo cearense, estou caminhando pela Beira-mar, quando resolvo que tenho que entrar por essa ruazinha, para ter certeza que eu tive o suficiente de um dos meus bairros de infância antes de partir, antes que eu vá e nada pareça o mesmo. A rua dava para o fundo do meu supermercado favorito, e na esquina abandonada, mal iluminada, e por que diabos estou aqui, vejo um homem corcunda carregando uma sacola, passando bem na minha frente. Parei e comecei a rir, do jeito como a vida abusa do sarcasmo, e duas vezes essa semana. O homem era o mesmo que tentara me assaltar quando eu tinha quatorze anos na Avenida Abolição, enquanto eu gritava "sái!" e saia correndo de volta para a Beira-mar. Não é como se eu fosse acordar um dia e simplesmente aceitar que eu vá ser assaltada, por isso, sem baixas aquele dia, apenas uns rushs de adrenalina e cenas muito rápidas. Há uns dias atrás, vagando com a Maísa, eu disse que tal sairmos daqui e irmos para o Del Paseo, e lá sentamos, discutimos o que é ser circular, a simbologia de escolher um biscoito, o futuro, o passada, a bagagem. E de repente, Taiane, a terceira parte de nos, simplesmente aparecendo, depois de cinco anos, reunidas, pelo acaso. Depois foi algo entre comprarmos sapatos e pedir para o vendedor tirar uma foto, pelo registro. Não me importo e não diminuo nem aumento ninguém, mas encontros casuais são os meus favoritos, seja com assaltantes ou amigos de longa data. E ultimamente Fortaleza tem estado bem propícia, tendo vida própria. Gosto muito da noite aqui. I do. E talvez eu tenha cansado sim de sempre ser passageira, sempre estar chegando, sempre estar indo embora. Mas talvez eu também não conheça outro tipo de vida. Não consigo pôr em um quadro o que é viver na mesma cidade a vida inteira, falar a mesma língua a vida inteira. É por isso que os meus encontros casuais se estendem a uma geografia ultra-mar. A Dolly está dormindo aqui, e eu não tenho nenhum conhecimento transcendental para dividir, por isso, pontuo, e um Feliz Capitalismo para todos, pelas luzinhas, pelos presentes, pelos jantares, e me desculpem, sei que a festa é de Jesus, mas vou de penetra mesmo.

(E quando as lembranças estiverem longe demais, quando Kamensk estiver longe demais, estará simplesmente longe ou já terá se tornado parte integrante de mim?)

(E eu que prometi publicação oficial até o fim do ano? Esqueçam isso. Tive um breakthrough e agora o buraco é mais embaixo, o tempo é meu, deixa que eu me resolvo com ele, também não tenho planos para morrer, então.)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A alvorada e a suficiência de sua duração.


[Entre todas as coisas deslocadas, um Van Gogh deslocado sempre parece estar em harmonia, sendo o único na categoria das coisas deslocadas que tem harmonia, e nesse caso, dois Van Goghs]

Às cinco da manhã, o estranho sono que me acometera às oito da noite, já alimentado, satisfeito consigo e arrotando, me acordou num horário que as pessoas só acordam para tirar leite de vaca, e os gritos bêbados da juventude numa rua vazia, na alvorada do dia, foi o suficiente para me acordar, perfeitamente audível do décimo segundo andar graças a qualquer desgraça que exista nas leis da acústica. Não esculpo só perfeições, e diferente dos gregos antes de Lísipo, acredito demais nas imperfeições e gosto dos seus retratos, e os gritos bêbados conectavam-se devidamente às imperfeições e à realidade, que é minha e não tem planos nem uma via expressa para a perfeição. Somente a poesia inteira que a palavra "alvorada" carregava sozinha parecia perfeita, à frente do Sol, atrás dos prédios, um breve momento de paz antes do dia se iniciar, o Homus urbanus não planeja, não se preocupa, não conta, não dirige, só dorme e perde a alvorada, pois o restante do dia tem todo o potencial para ser somente imperfeito, e a todos que não acordam às cinco da manhã fica difícil de dizer se existe algo mais além daquilo, a alvorada é tão curta e só por isso é perfeita. Café. Música. Som da respiração, da maquinaria interna. Entre gestos mecânicos, me remeto de volta a cena do dia anterior que eu brigava com um palhaço na rua, totalmente fora do humor para coisas circenses, ele tentava ser engraçado, e eu não ria, então ele tentava mais ainda e ainda e ainda, até que eu disse que ele não era engraçado, e pare, por favor. Acidez. E lá é minha culpa se os palhaços não são engraçados? Toda a montagem, a maquiagem, o nariz, a roupa, feitos para ser engraçados, não são. Previsível demais, e poucos são os que sentam ali e pensam "agora isso vai ser engraçada", não sou um deles. Pare, palhaço. O único palhaço de fato engraçado é o Ronald Mcdonald, pois ele ri e te faz graça enquanto entope suas veias. E somente agora, olhar essa cena de fora, como memória, fazia aquilo engraçado, brigar com um palhaço talvez seja um dos atos de violência gratuita mais extremos. E eu penso que esse café está bom, e que talvez o sono passe a vir cedo, e pelo menos rezo por isso, pois não gosto de pensar que dormi às oito da noite só porque ficara acordada vinte quatro horas seguidas, entre praias e uma festa que não teve previsão para acabar. Às seis da manhã, a alvorada já dá lugar à imperfeição, o café acaba, sento e vou ler Saramago, que sem cerimônia nenhuma, me ensina sobre a natureza humana, como se todo aquele conhecimento viesse de graça (com pagamento tardio, pois ser humano depois de Saramago é tarefa de Hércules). (esse é o meu jeito de dizer) Bom dia (mas ainda gosto mais da noite).

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[escrito no avião]

Semana passada recebi um e-mail, que entre má pontuação, falta de vocabulário e maturidade, entre outras coisas, dizia que eu escrevia mal. Li uma vez, passei para o próximo na minha caixa de entrada. Foi a primeira vez que alguém dissera que eu escrevia mal. Lembro quando eu tinha nove anos e comecei a escrever, no notebook da minha mãe, notebooks eram coisas exóticas naquela época, e eu tinha um mundo inteiro para descrever. Nada do que escrevi naquela época está salvo, mas achei uma cópia impressa de tudo numa pasta dentro de caixas de mudança (ah, as caixas) há algum tempo. Ri de mim, mas vi que comecei a crescer no meu útero, do meu jeito, ali. Lembro, ainda, da primeira vez que senti vontade, ainda aos nove anos, de pegar um papel e simplesmente escrever, era algo sobre melancias e ainda lembro da caneta que usava, do jeito como a janela reproduzia a paisagem naquele dia, era New Jersey, era primavera, eu amava aquele lugar, a caneta era vermelha, as folhas de fichário deveriam já conter um trabalho sobre Rosa Parks, o qual eu não começara fazer, e deus, ainda tinha uma prova de história vindo, quando História e Geografia ainda eram Social Studies. Lembro da forma das coisas, e lembro que só a partir desse dia, dessa época, passei a tratar as coisas não só como coisas, mas como pedaços potenciais de um poema, de uma crônica, de uma prosa, sob o humor negro (que ainda tenho) e o olhar crítico, que impregnou em mim, hoje ambos em estado crônico, sem cura. Lembro que só aquela época batizei o português como algo mais que o inglês, batizei-o de algo, que hoje entendo que dei-lhe o título de língua materna, aos nove anos, como se finalmente eu tivesse que escolher entre o inglês e português. Me pego muito mais que frequentemente pensando mais em inglês o tempo inteiro, que em português, mas quando o papel está em branco, e eu sinto a vontade dos nove anos, então tudo o que eu quero dizer é em português, a língua do meu berço, que viajou o mundo comigo, foi nômade comigo. Experiências a parte, chegando ao Brasil, tive que convencer uma professora de redação na quarta série que eu tinha escrito um artigo sobre como a água iria acabar, já que a Sra Dona havia me dado um sete, corrigindo-o para dez, quando percebeu minha irritação sob a acusação dela, de que eu havia copiado da internet, e eu era só uma criança da minha época, de dez anos, que não mexia em computador ainda, não como as crianças de hoje. Tive professores incríveis, que me incentivaram, viram que eu via mais que apenas um dinossauro (piada interna, devidamente explicada no Pão-com-açúcar, para os que se interessarem assim tão profundamente). Percebi que eu realmente gostava da coisa quando uma professora me escolheu na classe para participar de um concurso que tinha final na Suiça, dava importância à coisa. Na época, eu iria fazer jornalismo, eu sabia disso – aquela época que nós sabemos com tanta certeza coisas demais. Comecei a rondar pelo mundo dos blogs aos onze anos, por essa época, conheci a Maísa, que acreditou em mim, além de segurar minha mão e não ver apenas dinossauros, também. Gosto muito das madrugadas para escrever, é tudo tão quieto, às três da manhã tenho surtos de necessidade de escrever, é uma força que me levanta da cama e me põe de castigo de frente ao computador. Não reclamo, gosto disso demais. Em andamento, nesse momento, o “Pão-com-açucar”, que é do acaso; abandonei a coitada da Erin no “Tresloucada”, mas ela ainda vive dentro de mim e ainda resolveremos os espaços em branco do livro; tenho o “Guarda-roupa anatômico”, que são algumas poesias, que eu estou editando com carinho agora; tenho a Vreni, sem título, de tão esboçada ainda que é, que me desperta de vez em quando de noite para me escravizar; tenho uma coleção de crônicas sobre a Rússia, a coletânea a qual eu chamo carinhosamente de “República do Chá”, e é mais um relato de sobrevivência e how-to que qualquer outra coisa. Tenho mais mil coisas acontecendo na minha cabeça, personagens nascendo, outros eu querendo matar, outros, em sua maioria, com vontade própria... E sei que tenho coerência e um eu-lírico suficientemente bem alimentado e bem-lido para publicar aqui uma coisa ou outra, que não é 2% de todo esse mundo da minha cabeça, que é esse salão oval em mármore branco, com uma cadeira no centro. Pois bem. Se me perguntarem, não quero mais ser jornalista. Não preciso que alguém me publique para eu ser escritora, o que eu preciso é escrever para mim, para evitar úlceras, para quem interessa. Por isso quando li aquele e-mail pensei que era a primeira vez que alguém dizia na minha vida inteira que eu escrevia mal (sendo que o próprio Sr não entendia muito de pontuação ou acentos...), e é nessas horas, minha gente, que o riso é a única reação disponível, e além do mais, gosto do que escrevo maioria das vezes, e isso é muito mais importante para mim. Sou egoísta, egocêntrica, nunca escondi isso. Gosto muito mais ainda de críticas, das construtivas, então, pedido, da próxima vez que me escreverem mensagens odiosas, além de checar a ortografia, cheque o sentido da crítica, que não tinha argumentos, e eu trabalho com argumentos mais que com verdades absolutas e opiniões sem chão, vindo de um estranho totalmente burro. E a crítica que posso vir a aceitar terá de ser vinda de alguém que escreva, que leia,¸que viva esse mundo, que tenho um mundo-eu disponível, nessa úlcera, nesse descontrole de palavras. Campanha: CRÍTICAS – saiba fazê-las ou fique parecendo um completo imbecil na minha caixa de entrada. Não mendigo amor, agarro-o quando ele está disponível, e acima de tudo, não mendigo admiração. O salão oval da minha mente, da onde sái tudo que escrevo, é meu, fica quem gosta, quem não gosta, ou argumenta comigo os porquês e os quês, ou se retira sem fazer barulho, pois isto aqui é um ambiente oval, e faz um eco danado. E se para alguém que escreve coisa tão inútil e se dá o trabalho de me mandar, fico pensando que se lhe sobra tempo para não gostar de mim, vá dar palestras sobre gestão do tempo e fique rico, porque tem gente querendo saber como conseguir ter tanto tempo de sobra a ser desocupado assim (contanto que o resultado das palestras nos ouvintes não seja se tornar um ser patético como o Sr Coitado me pareceu). As pessoas que admiro em sua maioria são escritores, gente que sabe argumentar e montar frases direitinho, e deles (ah, deles) eu receberia todas as críticas do mundo, as piores me pareceriam sonetos. Agora vou fechar o computador, que a bateria quer morrer, e eu estou prestes a pousar em solo cearense, a madrugada vai vstupando [do russo, entrando], e eu corro louca no salão oval da minha mente, borbulhando idéias, formando frases melhores, acabando, finalmente, sem pressa, sem prazos, sem dever a ninguém, o meu primeiro livro publicado a quem interessa. Não adianta, sou assim: pego as opiniões boas para mim, vivo com as minhas certezas argumentadas, e ignoro gente mentalmente inferior sem qualquer cacife para me criticar. Só argumento com gente no mesmo nível que eu, por isso, se se perguntam, não respondi, já falei que a única reação disponível era o riso? Ceará, tou chegando. Me espera, Iracema.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Localização: em trânsito, não em uma sala de espera.


[Gales]

Três horas, sempre cedo ou tarde demais para começar a fazer alguma coisa, disse Sartre, de algum modo melhor do que eu parafraseei. Ao que eu vejo que por três horas ele quis dizer só não três horas da tarde, mas da madrugada, essa parte do dia onde há silêncio nas maiores das metrópoles. È verdade que eu poderia começar a falar de estrelas e ser piegas sobre a tranquilidade que elas passam às três da manhã, mas serei piegas de outra forma. Recentemente fui à locadora, porque eles vendem esse iogurte lá agora e não porque eu queria alugar algum filme, creio que assim como as lojas de CDs, as locadoras estão com os seus dias contados, e o ato de alugar um filme ou comprar um CD é hoje em dia meramente simbólico - com uma incrível fonte de ilimitação que é a internet, se faz isso tudo de quatro paredes. Pois bem, vi Julia Roberts, logo quem não atuava há tanto tempo, eu não esperava que ela voltasse, na verdade até esperava, mas queria ter sido avisada. "Comer, rezar e amar", lembrei de ter visto esse livro na livraria centenas de vezes e ter achado que era um desses livros com uma dieta parecida com a de South Beach e ter ignorado totalmente. Por Julia Roberts, fui atrás do livro e comecei a lê-lo. É lógico que li na defensiva e é verdade que a narração me parece simples demais, mas na dose suficiente para ter feito o sucesso que me parece ter feito. Acabei que resolvi ver o filme antes de acabar o livro, e tirando o sotaque bizarro do brasileiro, é até notável. Na verdade, é a história de todas as mulheres na Terra. A busca por algo maior, melhor. Para algumas vem em forma de filhos, trabalho, viagens, amor. Mas para as que se identificam com a personagem da Roberts, a busca por algo maior que esteja lá fora pelo caminho mais simbólico possível, uma estrada, uma viagem, é a mais certa. Não deixem de ver o filme ou ler o livro, é uma experiência por associação, e esse tipo de experiência é muito rara, muitas vezes alguém nos conta uma história e pára por aí mesmo, mas raramente alguém nos conta outra história e nós tomamos a experiência para si. O simples vem sempre com essa dose de complicação, mas sempre vale a pena subir exaustivamente uma montanha estúpida pela paisagem. Mais do que nunca preciso ir a Gales, a vontade que não ficou menor depois que vi fotos na Lonely Planet. Não precisa fazer sentido essa vontade minha de ir lá, contanto que ela simplesmente exista, contanto que eu possa simplesmente contar com ela quando eu precisar dessa dose de querer-algo-melhor. Porque se não fosse assim, eu teria que provar da angústia que provou Madame Bovary, sempre tão presa dentro de si e querendo buscar algo onde não sabia exatamente onde achar. O importante é poder contar com a vontade, o importante é saber que não importa se não achamos ainda esse algo-melhor, o importante é saber que ainda estamos na corrida aqui, ainda estamos no meio do movimento, no meio da estrada, e não estagnamos. É importante demais que queiramos ser mais do que somos agora, eu costumo pensar que tudo que eu preciso já tenho, afinal, essa pessoa está em algum lugar já agora dentro de mim, basta eu saber esculpir devidamente. Tenho certeza que Gales me guarda algo incrível, que, orgulhosamente, não sei dizer bem o que é, mas sei que estou no meio do caminho, e adoro caminhar até lá... Não encaro nada disso como se estivesse vivendo em uma sala de espera, encaro tudo isso como se estivesse no meio da estrada. Há várias interpretações para a mesma situação, e com certeza a muitos falta o olhar, a sede, o otimismo de ver além. E aviso logo, seja lá para onde eu estiver onde, seja lá onde esteja o meu algo-melhor, sob qualquer circunstâncias continuarei ignorando pessoas pessimistas e que oferecem nada senão uma nuvem em cima de suas cabeças. Não gosto quando me bloqueiam o Sol e a felicidade, as possibilidades, e muito menos quando chovem perto de mim. Odeio ainda mais quando sei que vai chover, gosto quando a chuva vem desavisada e vira uma aventura, não quando ela é avisada e todos querem ser delicados com seus guarda-chuvas, e quando eu vejo alguém com uma nuvem em cima da cabeça, sei que vou ter que ter um guarda-chuva por perto. Seja lá o que for, e onde for, quero um dia ensolarado ou uma chuva de verão, mas não quero avisos, quero o imprevisível. Esse é o meu algo-melhor. E tenho essa impressão que quando achá-lo, ainda não estarei satisfeita, e nesse caso, insatisfação é o melhor caminho para viver uma vida com algum objetivo. E essa é a minha experiência do livro piegas de mulherzinha que eu não obstante recomendo. Agora preciso dormir, amanhã preciso ir pintar o cabelo em algum horário em que os cabeleireiros ainda funcionem. Pontuo.

PS: A próxima publicação de "Pão-com-açúcar" será a última, e será um tanto longa, simplesmente quero acabar com os periódicos, e ela vem até o final do ano, agora que fui presenteada com dois quilos e meio de tempo livre. Sit tight :).

Primeira publicação
Segunda publicação
Terceira publicação
Quarta publicação



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Um ser herói

Um ser herói
Eu tenho todo o tempo
do mundo
eu posso
ter o
mundo
(rodando
só quando
eu der
corda)
Reino de ser
meu rei
faço castelo
de
areia
e controlo a inflação
das emoções
Nos limites das minhas
rochas
(entranhas)
(paredes)
(limites)
(vontades)
(loucuras com forma desenhada
de mim)
Eu pulo
se cortar não
dói
só corta
Eu conto
os peixes
mas só porque
aprendi a contar
Eu conto as horas
mas só porque
não sei
como
elas
se enrolam
para
passar
Eu tomo esse gole
sabor
de infância
Como era fácil
ser herói
ser rei
desencanto
mesmo quando
o homem
ainda
dançava
a mesma
dança
(disforme)
(e eu tinha que sempre olhar
pra cima
todo mundo era tão
alto
e sabiam melhor)
Como era fácil
ser herói
quando o corte
só cortava
Quando a cicatriz
era
medalha
Quando se jurava uma vez
se acreditava
Como era fácil ser herói
ter acesso
às dimensões
aos buracos negros
da felicidade
Eu vinha, saía,
voava, voltava,
rodopiava, pulava,
licença poética,
que vou pular
(pra lá
de volta
te deixo bilhete
não bebe o café
que ele está
velho)

O céu é tão bonito
que deu essa
sede
de mergulhar
desventura
de um
ser herói
(aposentado)
(no mesmo ritmo
instantâneo
que mergulho
desmergulho
- de birra -
sou
minha demais
o mundo é meu
demais)
Era muito fácil
ser
um
ser
herói
E muito fácil
Não quero

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Minha II Guerra Mundial é pessoal.

Esse poema foi a primeira vez que apostaram em mim. Que quiseram me publicar. Ele significa bastante. O bastante. Eu tinha treze anos e foi provavelmente a primeira publicação que saiu da gaveta.

MINHA II GUERRA MUNDIAL É PESSOAL

Acordar em 1938 em meio a um turbilhão de flores com cores
Flores que perdi na Guerra em meio as dores
A tristeza matinal do soldado que voa com os eternos beija-flores
Os beija-flores que em ti encontrei, que em ti perdi
Acordar em meio a uma Guerra,
Soldados lutando pelos seus amores perdidos no canhão, na multidão

Dormir para escapar dessas paredes de cérebro
Que me torturava e me matava mais que o cruel inimigo
Eu era a cópia do soldado mortou ou viria a ser
Eu não era o mocinho nem o vilão, era um soldado infiltrado na multidão

De repente acordo nesse turbilhão de dores sem cores
Depois de 1945 o Mundo nunca mais foi o mesmo
Não é do Mundo que sinto falta, são das flores que não posso proteger
Agora eu era soldado, mas não sabia depois
Talvez caçarei borboletas... Eu vivia uma II Guerra Mundial contra mim mesmo.
Talvez eu tenha sido um mártir anônimo...
Tempos penosos... O desejo e a habiblidade de viver - não a capacidade

Uma vez que eu levei uns socos
Descobri que eu não era feito de vidro.
Você não se sente vivo a não ser que esteja dando tudo de si, de mim.

Agora, que minha voz perdeu o som da razão, eu tenho sede
Tenho sede de verde no meio desse cinza de fumaça
Que por mais que eu cave no ar com as mãos, não tem fim

Minha sede não é de água
Não sei do que é minha sede
Mas sei o do que não é, é de não-guerra

E o inimigo tinha mãe, tinha irmã, tinha cachorro, tinha desejo
Tinha desejo, tinha tristeza, tinha certezas
Eu e o inimigo éramos iguais apesar dos uniformes
Éramos iguais apesar de agora sermos diformes.

A guerra acabou... Rolem os créditos!
Um soldado, um vilão, um inimigo, eu perdi a mim mesmo no soar do canhão do batalhão
A procura de flores, amores, cores, menos horrores...


Não sei ela jamais irá ler isso, mas gostaria de agradecer a Professora Ana Pimentel. Eu sinto que quando chamo alguém de professor quero dizer muito além disso. Não é só uma palavra, é uma palavra que vem em forma de admiração e agradecimento cada vez que é dita. Obrigada por ter tido um pouquinho de fé em mim, hoje em dia escrevo porque naquela época soube que gostariam de ler o que eu tinha dentro da gaveta. Um abraço à Professora Aurilene, que tem o sobrenome Luz e iluminava uma sala inteira. Vocês foram grandes professoras, grandes mestres, daqueles que incentivam e quando nós vemos, já estamos muito além da onde imaginamos estar. E um priviet e um spasibo para a professora Galina Archaedviena, que quis me escutar sobre Dostoiévski, Tolstói, Turgenev, quando eu tinha essa placa de brasileira na cara e ela dizia que eu me interessava mais e escrevia mais que os russos, um spasibo ogromnoe. Eu não posso dizer exatamente o que aprendi na escola, mas posso contar sobre uma coisa ou outra. Obrigada, professoras.

Isso é enquanto eu enrolo você e não publico a quarta publicação do Pão-com-açúcar. Mas irei me redimir, pois acredite, Domingo a publicação será da extensão do Daqui até o Lá de Acolá. O final já está escrito na minha cabeça. Eu vi tudo. Agora eu preciso de tempo, o espaço para as palavras já há. Domingo, repito, domingo. Caso não, eu estarei falhando comigo. E eu odeio fazer isso. Prefiro que os outros tomem este papel. Pontuo.

We don't need whys, but here are some reasons why you should.



I remember it was not so cold anymore and we were having this constant Kafeinya pizza mood, and there we were, ordering another one, dear Andrushka just smiled at us. I was waiting for Tati, Syd and Valya, the girl that just travelled to Portugal, I was to teach her some portuguese before I came back home. I had so much fun with that, I'm so proud of this language, it's sweet, soft, and seems to just play along. And winter just ended. So what now? We had gone crazy indeed. How crazier can we get. So there we were, Tati and Syd eating a pizza while I read some Camões to Valya, speaking one portuguese, the sound of it, was already so awakward, I should probably call Sophia and share that horrible feeling. Where did my mother language go? And doesn't Camões sound the same? But as I said, how crazier could we get. Camões left the room. Me, Tati and Syd started to make a list. Actually, we met just to do that. And I'm so proud of this. The list goes.

(It starts at 51 because the "Reasons to have sex" group on facebook had already listed 50).

REASONS WHY YOU SHOULD HAVE SEX

51 - Because he's wearing the tight underwear you gave him.

52 - Because you just bought matrioshka underwear.

53 - Because it's goddam fuckin -30 outside.

54 - Because you're drunk and don't respond for your acts.

55 - Because he has a foreign accent.

56 - Because he's going to the army and leaving the country.

57 - Because you don't want to learn [the russian gramatical] cases.

58 - Because it's [blank] holiday.

59 - Because you finished your sudoku book.

60 - Because you're and atheist and god is not watching you.

61 - Because he's related to Price Harry in 15th degree.


62 - Because it's 3am and you want a cup of water.

63 - Because you're pregnant and you can't get more pregnant.

64 - Because you found the perfect sofa after shopping for sex-favorable sofas.

65 - Because it prevents cancer (what? что за бред?)

66 - Because he gave up being a priest (Thank you, Lord!)

67 - Why not?-feelings

68 - Because you finally found two people that agree.

69 - Because you lived in Kirov and you're in MOSCOW.

70 - Because it's finally spring. And it's APRIL. (You've been waiting since Maslenitsa in February)

71 - Because you finally had the guts to kill the fuckin' cats but it's going to the dacha anyway.

72 - Because you're почему-то covered in shampoo and now you're making out.

73 - Because he's not a rapper (a rapist, smart-o)
Even tho the word rapper is scratched we actually met a russian rapper so yeah. Maybe it shouldn't be scratched at all). And we actually though rapper standed for rappist before Syd arrive - she's american, or as we used to say, ALASKIAN.

74 - Because that random guy had three condoms and there's an empty приезд [stairway]

75 - Because you desesperately want to use the instrumental языком [with tongue]

In russian there are gramatical cases that decline the word. The nominative word of "tongue", without declination, is "yazik", but if ou use the instrumental case, that is needed when you use something to complete and action, the it is "yazikom". We had "yazikom" in my first russian-english phrasebook in the sex part. There was a lot of respect going on for that little book for travelers. This is actually how much you can respect a phrasebook

76 - Because it's made for sharing.

77 - Because Angelina Jolie adopted another kid.

78 - Beucause you found two, and plus you, it's a three-some.

79 - Because they just started making out on TV.

80 - Because his name is not Manfred (in german) or Evilásio (in portuguese)

81 - Because you're coming home after a long time and he said he's gonna tune your guitar, and you really don't care if it's a |G| or a |D|.

82 - Because they're TWINS. Sophia quote: "I've always wanted twins. [pause] Not kids."

83 - Because his dad is hot and he's halfway through.

84 - Because this is how we roll in The Shire.


85 - Because he's in rumspringa.

86 - Because you just witnessed FIVE weddings in Aleksandrovskiy Park and really need to have some imoral sex out of wedlock.

87 - Because he can make sushi (tell Isabela's twin brother priviet)

88 - Because you have [blank] and you're not afraid to use it.

89 - Because you want a place in hell to be reserved for you.

90 - Because he's not wearing a belt.

91 - Because he speaks welsh and raises sheeps.

92 - Because he's not a rapper

Obviously the russian rapper episode didn't go so well and ended awakwardly

93 - Because he started being an orthodox priest.

94 - Because he's a russian that doesn't smoke.

95 - Because he can toss a pizza.

Tati, did I ever mention your weird english vocabulary for a german?

96 - Because he has more than five piercings. And you just decided you like the number five.

97 - Because even tho he isn't russian he always knows the genitive case plural for substantives

More russian grammar involved. You don't want to know about that, it's been known to drive russian learners to deep depression.

98 - Because he wears a turtle neck (but isn't gay)

99 - Because he's a russian sailor.

100 - Because what happens in Russia, stays in Russia. In Russian.



And must I end it, saying: Because someone's gotta be the man. And yes, girls are mean. And we like it.

Last Quote: "I'm doing this AFS presentation and I'm having a hard time finding sober pictures!", Tati

I miss the german part of me.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Cemitério florido por opção.



Era um cemitério. Seus belos epitáfios cobertos de lodo e de negação, a canonização de quem morre é algo tão previsível quanto a morte em si. Passamos a ser os bons maridos, as amáveis esposas, o grande amigo. Quem diz é a pedra. A total ausência de vida debaixo de uma grama tão bem cuidada. Podada. Uniforme. Padronizada. No protocolo. Debaixo dela, Augusto dos Anjos sái das linhas e encontra motes. O interessante sobre o cemitério é que ele não é feito apenas de terceiros, é muito fácil achar partes e pedaços nossos perdidos por ali. Houve essa situação aqui no prédio, a mãe dessas meninas deixou-as mais o marido, ela que morreu de algo como um câncer, e toda vez que eles pegavam o elevador desde aquele dia eles recebiam os olhares, as condolências, que nada amenizam só reavivem, e saiam pela porta metálica carregando sua cauda da morte, que era mais visível para os outros que qualquer coisa. Nunca fui amiga das filhas. Nós nunca seríamos amigas. Eu era estranha demais no colégio para que isso acontecesse. Mas talvez isso tenha sido ótimo. Eu nunca quis reparar nas suas caudas de morte, achava-as fortes agora, sobreviventes, pelos quantos pedaços delas haviam sido enterrados com a mãe. Ser um zumbi não é uma escolha. Ontem no Dia dos Finados, e pouco me importa por que diabos esse dia existe, se a energia me parece a mesma, se as estações não mudam e se o Sol se põe na mesma hora. Eu pensei em pessoas que morreram. Não as que morreram de fato. Mas as que morreram porque passei a não conhecê-las mais. E eu não sofria mais as suas mortes porque eu sabia exatamente que elas não voltariam. E outras pessoas que por trapaça do destino continuam vivas, mas poderiam muito bem estar mortas para que não tivessem ficado para ver o colosso todo rolar na direção errada. Essa pessoa que definiu a história da minha vida. E que me dói, apesar de eu estar anestesiada há treze anos. Eu ri, e foi um riso frustrado, quando me falaram que eu nunca tive grandes problemas. Ás vezes as pessoas te conhecem e não sabem a história que a vida te proporcionou, e te julgam só pelo o que elas viram, e não as culpo, veja bem, não as culpo. Mas existem pessoas e pessoas. Eu creio que qualquer problema pode deixar uma bela cratera ou só um arranhão, e isso nós meio que controlamos. Mas quando se tem cinco anos não se sabe nada disso e a cratera fica simplesmente lá e só depois de anos você entende o que diabos é uma cratera. Então eu ri, porque aparentemente eu nunca tinha tido grandes problemas. Problema, aliás, que é palavra que é escrita do mesmo jeito em todas as línguas que eu consigo falar. Problema, problem, das Problem, проблема. Não sei se isso implica que somos todos humanos e os sentimos do mesmo jeito, e eu não quero falar realmente da unidade humana e de como pouco importa que falamos línguas diferentes, vamos dar as mãos e convencer os grandes líderes a enterrar suas bombas atômicas. Felicidade é um assunto overrated. Tão overrated que escrevi sobre isso sem no auto-piloto na segunda-feira. E o pior é saber que as pessoas vão aprovar o que escrevi quando lerem só porque é exatamente o que elas querem ler. Era algo sobre dinheiro e felicidade. Eu ia sobre algo como esse imperador chinês que criou a cédula e declarou sentença de morte àqueles que não acreditassem que poderiam comprar bens com um pedaço de papel. E se as coisas que desejamos são materiais, parte delas, então dinheiro é - uma - das formas de se sentir plenamente feliz. Mas vejamos os índios. Que não entendem a idéia de lucro. Felicidade para eles é medida em outra moeda. Projetamos a felicidade naquilo que nos ensinaram a valorizar, tivemos diferentes imperadores. Se eu acredito ou não que um Mac vai te fazer feliz, até acredito, mas por quanto tempo? Até as coisas não-materiais têm validade de felicidade. Amor vem e enjoa de você e pega o beco. A pergunta é até quando as coisas materiais ou não-materiais vão te fazer feliz, se todas elas estão programadas para durar um determinado tempo. Se me perguntarem, eu digo que felicidade é renovação, é reciclagem, é movimento. É também um sentimento tardio que é promovido pelo contraste, quando vimos que fomos felizes ou que somos muito felizes agora porque fomos tristes. Movimento e contraste. Se é um Mac ou amor que vai promover isso, bring it on. Então nesse Dia dos Finados projetei esse sentimento quanto as pessoas que eu já não conhecia e se tornaram estranhos, que vocês morreram e eu não vou ressucitá-las. E não falo de Jesus, nem do Goku. Eu pego o que eu tenho agora e junto os pedaços e espero que o curador ache que esse pedaço de arte valha a pena ser exposto e seja bonito mesmo, quase melancólico. No Dia dos Finados valorizei mais quem é vivo para mim. Quem, em vida, ainda se faz vivo. Pois há os que em vida, simplesmente morreram. E eu, licença, quero estar viva minha vida inteira, não estou por aí dando pedaços meus para serem enterrados. Eu sei que a grama está bonita e podado e estar debaixo dela é quase tentador, mas eu gosto mais das flores, e das árvores centenárias, que eu posso ver daqui do outro lado, que só nesse plano eu tenho a disposição suas sombras e seus cheiros. Estar vivo realmente vale a pena. Não precisa ser por ninguém. Pode ser pela árvore, pelas flores. Ou para simplesmente estabelecer o contraste da vida ali, em pé naquela grama, o contraste da morte e da vontade de viver. Os polos. E você que morreu, isso me dói o coração, mas doeria ainda mais dar continuidade a um luto ou cultivar a tal cauda da morte. E que você nunca mais vai ser o mesmo porque o combo de vocês não existe mais, porque a outra metade morreu, é verdade. Mas a gente não precisa esquecer para seguir em frente. Inevitavelmente, se aquilo persistir, nós crescemos em volta, e o importante é que crescemos e sobrevivemos. Somos esse monte de exoesqueleto e por algum truque da evolução não os descartamos, como memória imunológica. O que eu sei é que a cada patada, a casca fica mais dura. È por isso que nós tornamos pessoas melhores, esquecendo ou não. É patada sobre patada. É exoesqueleto sobre exoesqueleto. Eu não quero condolências. Apenas aceito as suas respectivas mortes e escolho ser o outro polo do contraste da vida. Por isso digo, era um cemitério, pois agora vejo somente a grama e as pedras já não falam comigo com seus epitáfios mentirosos porque sabem que não me convencem, eu sei todos os motivos que levaram a sua morte, e o epitáfio é como essa criança louca e positiva demais (talvez não precise vir de uma criança, apenas de uma pessoa com as tais características, quando a carapuça serve) que beira a cegueira da canonização, quando é muito óbvio que se fôssemos mesmo santos, nem teríamos que morrer para começo de história. Ou me deixam escrever as falhas junto às glorias no epitáfio, ou as pedras simplesmente pouco me interessam. Gosto das flores demais. Preciso escrever demais. Pontuo.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Para o Paulinho, escrito há três anos.

Hanging out with the craziest lot
that habitate my mind
So full of companies, so alone, but hidden.
Well done.
You see, it's not you I miss, it's the world I can't forget.
You're the thing I can't ever get.
The world is too big to ignore.

So don't want to make up my stupid bets.
Not again.
This time I have no gain.

The biggest world I've ever been.
The craziest thing I've ever seen.
Planet Earth gets lost and we can't achieve the 2nd square.
Nature is sad for me.
Sorry for what I have been
I shout
- I'm a little jerk.
But that's what we're meant.

Sometimes I get lost in my mind.
Cause it has got streets, cadilacs, people and parties.
And it's far too big, as big as the world feels
Big as the scar planet earth can't heal.

And I think that's what the world is made of.
A little of imagination, cads, people, parties and streets.
That's what I'm trying to step off
Can't scape
But it's what I got.

You came into my thoughts.
You had no hall pass
Well, you're part of the world too
Feels fair, sounds fair.

I will break into my thoughs
Can't see what's written on my heart
This can't heal
This doesn't prove to be any real
Guess I'll start something new.

It's not you I miss
It's a world I can't forget
But it's what I got

You were a whole goddam planet
At least you had moons and stars
Printed on your washed face.

It was what we got.

domingo, 3 de outubro de 2010

Para sempre agora

Me criei. Cresci dentro de mim. Não implodi, mas vivi sempre no meu limite. Me apaixonei para sempre muitas vezes, o para sempre que dura só agora. Quis voar mas tive indisposição, nunca duvidei que fosse impossível. Nasci sem instruções, tive curiosidade e descobri sozinha. Tive pressa. Quis sempre ir até o final. Fui quase inconsequente, mas sou lírica falando apenas em impulsiva. Moro dentro de mim e estudo minhas composições e sei, somente sei, que a única constância das coisas é a inconstância, e pela alotropia das coisas mundanas, por ser grafiti quase fui diamante. Ainda não tenho instruções, não explodo sempre de amor, mas sim o tempo todo, não quero para sempre, quero agora.

Ontem quase explodi de amor, não implodi. Obrigada vocês, componentes obrigatórios da minha pátria.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Feliz Natal.

Ultimamente músicas de natal têm tocado o tempo inteiro na minha cabeça. Acho que é o instinto de sobrevivência depositado no natal, essa capsula de mentira que dura uma virada de noite. Várias coisas me irritam, apesar de eu achar que amo mais que desprezo. Mas em especial, as pessoas com cautela têm me irritado. As pessoas que calculam suas ações, guardam dinheiro, etc. Queria que em pleno Outubro todo mundo incorporasse aquele tio bêbado do natal e fosse menos cauteloso. Um Natal, um feliz Natal, muito amor e paz pra você.

Feliz Natal.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Até em 2010, o Brasil não tem direito de querer ser ou admirar mais a Itália de 1534. O Brasil é, na falta de adjetivo mais lisonjeiro, só brasileiro.

Em 1534 Michelangelo começou a pintar o teto da Capela Sistina, que é realmente bonito e como não-católica eu admito o fato quantas vezes me pedirem. Eu tenho um poster. Eu disse eu tenho um poster. Em 1534 o Brasil ia e vinha com a história das capitanias hereditárias, esse trecho que todo mundo leu em um livro da terceira série até o terceiro ano do ensino médio. O que realmente me bota para pensar como é injusto querer acompanhar isso, até hoje em dia. Brasil querendo ser alguma outra coisa que não é Brasil, Brasil querendo pintar tetos de capelas numa terra nem declamada porque as capitanias deram lugar para tetos de capelas que nem existem. Jurei que não faria uma crítica patriótica do tipo, porque nós já ouvimos isso, mas no dia da independência do Brasil, e nesse dia não havia mais nada acontecendo, nenhum brasileiro no meu campo de visão se pôs de pés pelo seu país. Eu sei que passei meses reclamando de como os russos tinham que ser patriotas sobre uma guerra que do meu ponto do vista eles não ganharam, mas que pelo menos eram patriotas, cegos, sim, por acharem que salvaram o mundo de Napoleão e Hitler, mas patriotas, do jeito que tenha que vir. Eu lembro de estudar nos Estados Unidos e repetir todo dia "I pledge allegiance for the flag of the United States of America...". E eu lembro de estudar no Brasil em Setes de Setembro, em vários repetidos, onde meus queridos colegas torciam suas bocas ao som do hino nacional, que diga-se de passagem, não falta em composição, beleza, palavras encaixadas, certas, palavras sobre o Brasil. Agora eu não tenho paz porque os carros eleitorais invadem o meu espaço privado que se localiza no décimo segundo andar, e não é a política que eu queria ver. Eu passei a dizer que se eu fosse me candidatar, surgiria com a única proposta: banir carros de som. Eu seria eleita. O problema, e a solução. Então o que eu tenho num Sete de Setembro é mais um Brasil querendo ter um teto pintado por Michelangelo em 1534, um Brasil que se sente atrasado, injustiçado, roubado. E eu não me sinto menos, não me sinto menos quando olho as jóias da rainha da Inglaterra. Teve esse Dia do Índio que alguns índios foram a nossa escola, e eles não entendiam nada ao redor, pra quê todo aquele plástico, e a maquiagem, os sapatos indicando status, a hierarquia não pela ordem, mas para acumular mais poder. Nós dançamos essa nossa... dança... indígena com nossas penas fabricadas de nailon, enquanto eles se sentiam tão honrados. Porque ali eles estavam com as suas penas e roupas não feitas de nailon, eles estavam anos luz atrasados diante de todo aquele desenvolvimento e todo o plástico e todos os sapatos. Eu queria que o brasileiro fosse muito como o índio, os índios, desse dia. È mostrado pela história e pela burrice do gene branco repetidas vezes que nós deveríamos muito copiar os valores e prioridades de um índio, índio sabe melhor. Eu queria que o meu tal brasileiro-índio gostasse das suas penas que não são vivida e sinteticamente coloridas, mas que são suas penas, que estão no seu passo, no seu alcance. O Brasil não podia ter uma Capela Sistina em 1534 porque o colosso ainda ia rolar. É verdade que os nossos artistas vieram depois, daqueles que bateram no peito e se chamaram de brasileiro, eu não me arriscaria de mencionar nomes antes do século XX, ou pelo menos analisar se eles já não se sentiam longe o suficiente da Europa se fosse antes disso. Ser brasileiro é uma coisa nova, a nossa conquista pode não vir em forma de Capela Sistina, mas vai vir. E veio, em forma de Ouro Preto, se o problema for comparação. E agora, se eu me permito mesmo a comparação, nós bem que estamos no encalce da Itália esses dias, se é desenvolvimento que estamos falando, a distância diminuiu quilômetros se compararmos a distância entre a Capela Sistina e o frágil sistema de capitanias hereditárias. E o sentimento de ser brasileiro, que ainda, sim, é uma coisa nova, nunca esteve tão acumulado. Nunca uma geração teve direito de ser mais brasileira que a nossa, pela força do tempo, pelo acúmulo das conquistas, pelos poemas escritos e dedicados, pelo Cristo erguido, pela São Paulo que um dia teve sua língua oficial como tupi-guarani e não era nada mais do que uma simples vila indígena. Nós não comparamos, Brasil. Nós juntamos tudo o que temos e botamos para exposição, não para os outros, mas para nós mesmos, para sentirmos o sentimento de ser tudo isso num ser só, de ser verde e amarelo e só depois nós chamamos Michelangelo para a exposição, e ele não estará menos satisfeito. Nós estamos no encalce do mundo, Brasil, e eu não vou mentir e dizer que estou pouco decepcionada em saber que nesse Sete de Setembro poucos civis se levantaram pelo seu país, mas que muitos só compararam e apontaram os erros. Não. O bom e o ruim, e só assim se tem o todo, e você vai querer ter o todo, ninguém quer metades. Eu dou um prazo para o brasileiro, que daqui a quase onze meses, o brasileiro vai ser igual ao índio humilde das penas não-sintéticas, que vai amar o que tem e vai apontar só o bom, e quando apontar para o ruim, que venha com uma solução embutida. Infelizmente, apenas reclamar tem se mostrado um péssimo jeito de resolver problemas. E as políticas? Que são o nosso motivo de descontentamento. Eu também prometi não tocar no assunto, afinal, o brasileiro deve saber em quem está votando, mas não é segredo para ninguém de quem vai ser a cabeça da minha pinhata nas noites de eleição. O Brasil precisa de alguém que vem sendo brasileiro e tem experiência e cacife para isso, não alguém que viveu de profissão papagaio-no-ombro-do-comandante-desta-embarcação por tempo demais. Votem com consciência. Votem com consciência para que a Capela Sistina venha, e venha de uma forma brasileira que todos nós viemos esperando desde 1534. Quanto aos finais, recomendo uma leitura breve de Foucault, que não tem nada a dizer com o assunto relatado nessa publicação, "A História da Sexualiadade", mas que, de algum ponto, fala como as coisas acabam sendo como as coisas são, o acúmulo. As coisas, Brasil. A Capela Sistina brasileira não foi feita por Aleijadinho, não queremos cópia se temos uma Ouro Preto inteira, mas espero que tenha gente disposta com um pincel, afinal, quem pinta o Brasil somos nós...Pontuo.


Enquanto a terceira publicação não vem.
Pão-com-açúcar, primeira publicação
Pão-com-açúcar, segunda publicação

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Há dois quilos

Há dois quilos de você
escondidos no meu coração.
E penso em você com o travesseiro
Meu bate-bate dorme tranquilo, sorrindo.
Há dois quilos de você
dobrados
cuidadosamente
na minha imensidão
Há dois quilos de densidade de você
que me esmagam
escondidos no meu coração.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A independência do Brasil e a independência da poesia brasileira

Estou sentada aqui com uma bandeijinha de café-da-manhã e são 22:32 da noite, quando lembrei de que tinha me prometido postar hoje e não amanhã, que está programado para acontecer em uma hora e meia. Tinha prometido falar do livro dos poemas brasileiros, "Os cem melhores poemas brasileiros do século", que me encantou as tardes e a sanidade. Li-o gradualmente, dosado. Tem doses de boniteza que só se absorve gradualmente. Olha, e só confirmo o que eu sempre dizia quando detalhava as funções das línguas que eu falo: o português é língua para poesia. Nasceu assim, traçado, predestinado para versos. O que me intrigou logo ao abrir o livro foi não conhecer o organizador e seguidamente não achar nenhuma nota no próprio livro sobre Italo Moriconi, que me desculpem os bons se ele é um desses seres famosos, mas que ele ainda não pousou no meu mundo e por aqui não fez fama, defendo eu. Depois achei de muito bom gosto e charme a divisão do livro, o que já me fez esquecer Italo, olhares de esquina, potencial romance, sua esquisitice e ele ficando para trás na minha vida, só apontou assim para uma sala onde eu encontrei gente, e não macacos. Uma das maiores amarguras da minha vida é sentir preguiça de alguém no meio de uma conversa, acontece sempre quando a pessoa é burra demais. Burrice é um negócio que não se tolera, corre-se de. Não é presunção, talvez seja, mas que eu estou fazendo demais senão sobreviver nesse mundo do jeito que eu entendo a sobrevivência? Cuidado você, que vai começar uma conversa comigo no meio da rua. Cuidado você, que vai puxar assunto comigo na rua e começa a falar pausado, que eu estou escutando poesia em absolutamente TUDO. Depois de voltar da Rússia notei como ficaram só os amigos que eu acabava ali no fim da noite sentada numa calçada jogando conversa fora. Esses se conservam, os outros, ditos colegas, passam pela sua vida, não deixam muitas impressões, parecem só figurantes de uma lembrança boa com outro alguém. As divisões do livro, enfim, são quatro. Começamos com a primeira: Abaixo os puristas. A procura da identidade nacional. É uma coisa que só desatei os nós esse ano: quando foi que o sentimento de ser brasileiro nasceu? Foi quando o hino entrou na escala certa? Foi quando os negros, sem querer, sambaram o samba? Foi quando o primeiro sorriso sem caso fez-se de dentes? Porque como eu disse (tento me citar não soando egocêntrica e isso não funciona), a minha condição de brasileiro é pendente e hoje eu não estou nem pro presidente... Ah, difícil é achar o momento-fio para isso, identidade nacinal é uma coisa que se constrói, os elementos vão se juntando em um centro magnético e depois as pessoas aparecem e tomam aquilo para si. Leva-se séculos. E quem discordar, que jogue a primeira pedra quem achar que o Kosovo já tem uma identidade nacional. Aliar costumes, tradição, cultura, velocidade em que se anda na rua, açucar ou não no café e se bebe-se café em geral, literatura nessa tal identidade com o simples nome de um país e uma nova bandeira não é coisa de tetris e não é simples. Que me chamem de exagerada, mas um nome e uma bandeira despertam muito do tal sentimento nacional, quando ainda encontra-se a mercê desses, é difícil até de usar a palavra patriota.

Brasil, país em que pode se absorver boa poesia diariamente, disse Italo, e de súbito, por uma única idéia em comum, já não éramos tão estranhos e eu já não o condenava pela sua estranheza nesse meu mundo. Agora vamos cruzar a primeira parte, abaixo os puristas. O Brasil, com seus sotaques e sua entonação própria, achou em si uma poesia que ia parelala à portuguesa, a européia, não era a "brasiliense", agora era brasileira. Isso aconteceu há menos tempo do que todo mundo pode estar supondo: terceira década do século XX. Me resta somente concluir que a nossa identidade nacional, como santa colônia e filhos das américas e do novo mundo, é tão nova que nossos avós foram lá, sim, experimentos dessa transição.

Mundo mundo vasto mundo ,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução
Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é meu coração
- Drummond


Passamos por Ismália, Augusto dos Anjos, que eu descobri que divide a mesma data de aniversário comigo. Aperto de mão, jovem. E a esse ponto dessa publicação, vou me sentindo meio mal por estar marcando um livro com um coaster da Brahma (sofrendo por ter esquecido isso em português falando sobre literatura). Descobri o fato sobre o Augusto procurando o local de nascimento na internet de cada autor do livro, afinal, um poeta sempre vai escrever sobre reminiscências de infância e sobre as paisagens nelas contidas, e sei que não é surpresa, minha gente, mas ninguém veio do Acre.

A segunda parte, educação sentimental, ganha um ritmo de bossa nova e cara de mpb, encontrei Vinicius, Cecília, Mario e gente que meio giving a fuck pra métrica, só pro ritmo, se é que me entendem, também não ligo se não entenderam. Desse ponto passo mais a gostar da poesia, um ser livre, sem estar tão presa em sonetos. Um poema precisa só de ritmo e passada, ou uma simples seqüência de imagens, por isso gosto das coisas do Buk, que sem nenhuma classificação acadêmica eu chamo de poesia de rua.

Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar
Quem faz um poema salva um afogado
- Mario Quintana


A terceira parte é o cânone brasileiro, que é o climax, o gol, o orgasmo, o que seja. Drummond, que é um ser ímpar, ainda aparece por aqui. Encontra-se em todas as quatro partes do livro. Como quem não quer nada, como quem cabe em qualquer roupa, como quem é onipresente e ubiquo, usando os sinônimos só para se reforçar. Gostei muito do "Serventia das idéias fixas" do João Cabral de Melo Neto, em que ele relaciona muito bem as palavras faca, relógio, bala, meio como as coisas que matam.

Ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca.


E o mais célebre verso do Ferreira Gullar


azul
teu cu


e


que a vida
passava por sobre nós,
de avião.


Que homem.

A quarta parte, "fragmentos de um discurso vertiginoso", o sentimento nacional já existe como se sempre tivesse estado lá de forma que a maior preocupação dos poetas que apareceram nessa última parte é falar sobre si mesmos. Como o cearense que ignora a praia que sempre esteve lá, falou a cearense de coração (que não ignora mais a praia). Eles são agora sobre gerações. Sobre qualquer coisa que cerque qualquer coisa. O Brasil, deixa a ilha Brasil... Affonso Ávila, com "Antifamília", não poderia ter usado melhor a antítese. Em trechos intercalados ele descrevia a tal da família mineira, e no próximo, o oposto disso, usando de semelhanças entre os versos.

a demagogia do presidente
as orgias do presidente)
[...]
o ar degas do deputado
as adegas do deputado)


Já nem quero começar a falar de política. Deixa o Affonso pra lá, que o fantasma da louca da Dilma vem me assombrando. Essa parte do livro, além de ter o poema do Augusto dos campos, "LUXO", em tamanho real que desdobra e sái do livro, tem um tal poema de um tal de Paulo Henriques Britto, que era meu desconhecido e me ganhou dez minutinhos de reflexão com "A geração paissandu", que já postei aqui, em algum post não muito longe desse, ou googlem isso, dedos podres.

aí chegou esta hora
que as gerações já sabem de tudo
e é péssimo
ter pertencido à geração do meio
[...]
e sabendo que apesar de amaldiçoados
éramos todos inocentes
- Jorge Wanderley


Ao mesmo tempo que gente que eu nunca havia ouvido falar vai aparecendo, fico feliz em saber que o potencial poético do Brasil não se depositou e acabou totalmente naqueles que chamamos pelo primeiro nome como Vinicius, Carlos, Mario. O colosso ainda rola. O último poema, de ótimo tom, é "Guardar", de Antonio Cicero, nada melhor do que guardar e sem ansiedade ter que aguardar que a poesia brasileira ofereça tanto mais, que ela se acumule em cima daquela tentativa de achar uma identidade, que ela passe mesmo depois disso a priorizar as coisas pequenas e fazer poesia sem métrica e curta assim e só por fazer e por necessidade e pra não virar úlcera. O português, ainda mais com a entonação cantada brasileira, que até meus amigos além-mar ao escutar a versão brasileira e a portuguesa falam que o brasileiro é mais bonito e rítmico. Desculpa Portugal, mas eu gosto das curvas do meu português. E ele nasceu tarde e só nasceu pra isso: pra virar poema. Pra guardar.

Pode parecer loucura, mas o que faltou nesse livro nem faltou por direito pátrio, faltou Camões! Mas que eu tenho certeza que está tão adotado pelos brasileiros que já está mesmo é no ar, não precisa entrar no livro, esse bom português. Viu, Portugal, já vou me redimindo, assim assim.

Não vou postar mais "Pão com açucar" hoje, tenho que revisar, aliás, tenho que levantar daqui da minha mesinha de café da manhã e pegar meu hard drive que o rascunho está lá e isso é tanto movimento e o dia já está acabando e já são 23:21, está na minha hora de pegar o telescópio, dizer boa noite às estrelas, ou eu sento aqui com o Vincent (não sei se é lançamento da Pocket, mas peguei mais um da série com cartas dele e venho andado toda melancólica absorvendo-o), ou assistir um filme daquela lista da revista francesa que eu já sei pronunciar o nome ou ler os Drangonball relançados em oito tons. Meu francês anda assim sem pretensão, mas sendo mais uma desculpa para que eu adie o espanhol, ele vem tão bem vindo e bem pretencioso. Deixemos o Pão com Açucar para Domingo, para completar uma semana direitinho. E entre coisas que vêm me surpreendendo e apaziguando a alma: cinema nacional. Você que pagou ontem uma entrada para ver mais um hollywoodiano, perdeu. Não perca mais. Não quero entrar no assunto cinema porque não vou sair tão fácil, então é melhor me reservar só pra isso, mas dica de despedida e última hora: baixar indicados e vencedores do Festival de Berlin, só para ir além mesmo do cinema brasileiro e do hollywoodiano.


Fiquem com a poesia, não com a boa noite, fria e sem Deus, porque não sei você, meu caro, mas eu prefiro quem gritou a independência da poesia brasileira a um grito de independência do Brasil que foi só um grito, o grito da poesia foi gritado e está sendo gritado por muitos, alguns dos quais a gente trata como amigo como se conhecesse e penetrasse a alma, alguns outros vamos conhecendo e que nos surpreendem, poesia é questão de hospitalidade, há sempre um espaço, e viva a Independência da Poesia Brasileira, a que Dom Pedro II não gritou e foi gritada por esses e outros não citados aqui, sem vocês teríamos morrido todos afogados, agora salvos pela poesia, e em época de eleição, nada melhor que se afogar em poesia, vai, mergulha, agora. Pontuo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Harém amarelo

Para isso fomos feitos [...]
Por isso temos braços longos para os adeuses


Abro as portas que não têm nada de galante ou imponentes, e lá estão eles. São pessoas que se podem conversar. Acho que nos dias de hoje as pessoas estão mais desesperadas por uma conversa do que por sexo. De alguma forma que vai contra a Evolução e Darwin, eu tenho a impressão de que todo mundo vai ficando mais burro. Sou chata, péssima, mas até adoro. Nada de cor vermelha nesse aposento. A conexão entre o vermelho e o erotismo é piegas demais. Piegas como querubins e conselho de tia. Abram espaço para os homens da minha vida. Eles nasceram, ou vieram ao meu conhecimento por meio do meu ócio. A única coisa que eu tenho feito ultimamente é ler livros, tocar violão e seguir uma lista de filmes de uma revista francesa que eu mal consigo pronunciar o nome. Mas eu resolvi dar um jeito nisso, a minha filosofia de vida é: "quem aprendeu russo, aprende x", sendo x um número real e que se estende até pelos imaginários. Sou quase criptonita, por isso venha o francês. Acho que o primeiro deles apareceu na minha primeira memória de vida de todos os tempos, na verdade é uma sequência. Eu corro pro fim desse corredor de hotel, eu teria uns três anos, era uma coisa louca, o Sol lá no fim numa janela que me prometia o que seja lá que buscamos aos três anos de idade e eu corria e só me lembro da sensação de estar na direção certa, não de realmente chegar lá. Talvez alcançar o Sol não fosse tão emocionante quanto correr atrás dele. O processo é muito mais que o resultado. O resultado é estático. O processo é movimento. Não sou estática, sempre fui nômade, por isso não tive pátria, só discos. Ontem encontrando algumas das pessoas mais importantes da minha vida no Antares, recebi elogios que me fizeram pensar que talvez se eu morresse não teria deixado uma má impressão, "a gente se sente honrada de conhecer uma pessoa dessas, porque você só nasceu no Brasil", e eu não podia deixar de concordar. Alguém saiu me levando pelo mundo desde que os meus olhos lembram. Foi divertido. Existiu o movimento. Eu nunca fiquei, eu sempre estava indo para algum outro lugar, eu sempre estava no processo, não estacionada no resultado. A próxima memória dessa sequência de memórias primordiais são os 12 girassóis de Van Gogh, Vincent ali na parede que dava para o fim da escada de madeira envernizada, eu não sou magnata por isso era só uma cópia, mas era de um amarelo que me fascinou aos cinco anos. A próxima memória marcante, eu estou no Equador, indo escalar um vulcão, o Cotopax, eu tinha seis anos, e eu me perguntava se era essa a direção certa, se era Norte, que diabos que era Norte, quem dizia que era Norte (e os problemas com autoridades), porque se eu quisesse eu gritava ali mesmo que era Sul e ia ecoar porque aquele era um desses paraísos perdidos com ecos. E se eu me sentisse a vontade, dizia mesmo que era leste. Não disse nada, só me perguntei qual era a direção. Então em algum momento da minha vida como eu a conheço, reencontrei o mesmo quadro do Van Gogh, dessa vez ele me acompanhava, ora eu olhava para ele com extrema felicidade e ele estava em sintonia, ora com melancolia, desistência e ele era dessa vez melancólico e me acompanhava no caminho, também. E os girassóis sabiam o caminho, o caminho do Sol, não importava se era Norte, Sul, Leste ou Oeste, eu ia alcançar o Sol. Alguns poderiam dizer que esses foram sintomas para o parto de uma alma poética, eu acho que se não fosse Van Gogh, teria sido Rafael, Renoir. Eu teria sido a mesma, só que com outras cores. Então Van Gogh está sentado aqui nessa sala que como já comentei, não é vermelha, e agora é amarela. A sala é o meu harém. Eu só gosto de chamar assim, mas ali só se encontram meus heróis pessoais, eles que sabem melhor. Depois vem Camões elogiando o Tejo e a primavera, conversando com Vinicius no bar, a conversa mais longa se dá entre poetas, é uma introspectividade que os afoga e não os traz mais de volta. Saramago devidamente analisa a raça humana, as escórias, as constâncias, os gestos. E eu acabei de ceder uma cadeira para Conor Oberst, que acaba de entrar numa briga com o Buk. O filho-da-puta mereceu a cadeira [e a briga?]. E se eu quiser, pode ser 8, 9, 10 horas da noite do dia, pode ser Sol, pode ser Norte, Sul, eu sempre vou ter uma boa conversa ali, no tal do Harém Amarelo, a luz como me agrada, igual a da Starbucks. Ah, eles são muitos, só não sei se esse host de blog tem linhas infinitas pra me aguentar... Porque hoje em dia as pessoas estão mesmo desesperadas por uma conversa, mais que por sexo. Fecho com um poema que saiu sem querer outro dia da última semana. De repente fico muito introspectiva como o Vinicius e o Camões e ao invés de não conseguir sair de mim, sái esse tipo de coisa, que é em português, que pra mim é uma língua que a palavra "pátria" tem mais força do que em qualquer outra. Pátria, pátria, pátria. Outro dia foi o Vinicius que me falava sobre isso. Vamos deixar o poema mais pra frente. Tenho mais do que praguejar, porque a poesia brasileira vem ocupando boa parte das minhas tardes, eu fico com pena até de acabar o livro, mas me dá esse alívio em saber que não é que a poesia seja infinita, eu sei que ela tem uma ponta aqui e outra ali que é o final, mas é nessas horas que eu me desespero em ser mortal e saber que eu não vou ler tudo, que um asteróide vai cair a qualquer momento e eu não vou ter vivido aquele poema. Recomendo terrivelmente "Os cem melhores poemas brasileiros do século", é um negócio melhor que café-da-manhã. Alimenta, nutre, melhora. Acho que o meu apego por coletâneas não parou por aí, entrou aqui em casa um "Bukowski, textos autobiográficos" (assim sem hífem e bizarro, mas eu não quero falar sobre essa reforma horrível), que ontem eu disse "vou ler um pouco e deixar o coitado em paz", quando vi, já tinha comido todas as quase 400 páginas. Descobri ainda uma série de quadrinhos boas pra ler na sala de espera do oftamologista, "O chinês americano" e "Scott Pilgrim" deixaram as melhores impressões. Há umas três semanas peguei uns livros budistas com umas chinesas simpáticas demais, uma dessas pessoas para ouvir por um dia inteiro, a preguiça me impede de ir olhar o título, mas se às vezes me parece clichê demais, eu lembro que não foi há muito tempo que eu concordei comigo que os clichês só são clichês porque são verdades absolutas que sobrevivem tanto que viram meio que ditado popular. Quando eu acabar de ver pelo menos uns 20 filmes da lista de 100 da tal revista francesa eu abro a boca pra praguejar, por enquanto, vou guardando minhas notas mentais. E agora o tal do poema que quase se engasga.


A felicidade sempre
é póstuma.
Ou
o entendimento de que
nós
fomos feliz,
por
muito
pouco
muito
felizes
é
um sentimento
[tardio].

A felicidade para sempre
é agora
e
o momento em que nós
somos
muito
felizes
é
para sempre
[agora].

Agora
para sempre
somos
o momento
é agora
a felicidade
para sempre
[ao contrário].

O sentimento
não é novo
é só atual
porque atual
é menos
novo
que
novo
você agora
é um
ser
atual
[banal].

Agora.


Dá até pra ler umas partes ao contrário, me diverti com isso, por causa da Clarice naquele café-da-manhã no saco do pão. Aliás, minha gente, estou esperando para fazer um experimento, ver se o Muniz sobrevive à lista de livros de romance de formação que eu passei pra ele, se vai ser taquicardia ou paixão ou revolução ou o que seja, vamos vendo.

Polêmica: qual dos termos está certo, "risco à vida", "risco de vida", "risco de morte", "risco a morte"? Meu argumento ontem foi que risco "à vida" era risco a algo que não tinha nascido, e risco "de vida" era risco a algo que já estava vivo. Lembrei que Drummond disse que "viver é pra mim é vontade de morrer". Daí me veio "risco de vida e morte", aí eu calei a boca. Queria opiniões.

E pontuo.