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Mostrando postagens de 2010

Ser circular é difícil

Desgraça, eu disse, me enrolando mais nos lençóis, como se aquilo fosse me prender mais a cama e eu não tivesse que levantar, que desgraça, repito, e pratico um ato de auto-mutilação com pouquíssimo efeito, já que é contra a cama. Saio de casa, coisas na bolsa, e toda a coragem necessária para enfrentar o Sol do Ceará ao meio-dia. Ora, ao menos venta, Rianne, eu me conforto, já que há um mês atrás passei um tempo com os meus avós no Piauí e foi no mínimo panque, minha gente. Por que eu não sei do resto do mundo, mas eu gosto dos banhos que têm prazo de validade de refrescamento de pelo menos uma hora, não gosto quando saio do chuveiro e já começo a suar, e nada realmente concreto consegue vir a minha cabeça ou substituir o pensamento de "QUE CALOR, QUE INFERNO, POR QUE?". Pelo menos venta, continuei. Perdi o ônibus, aparentemente eu tinha que fazer sinal e estava burra e recém-acordada demais para conseguir funcionar. Esperei mais vinte minutos pelo outro, enquanto fazia peq…

Eu vou consertar sua cabeça.

[Estado de espírito: natalizado e gordo]
[Escutando: Stomach, Current Swell]



[Corretores de joanete, tunando o seu pé desde 1980]
Talvez eu perca a sanidade. Hoje.

Alguém tinha levado um tiro. Tráfico de drogas. Gente que usa bigode. Gente grande. O trambolho debaixo do meu pé, a bala. Afastei o pé esquerdo e a bala ficou entre os dois pés. Estado semi-acordado de consciência.

E os olhos que acordam num domingo às 8 da manhã, sentindo os aparatos de silicone para a joanete.

Eu estava na aula de alemão quando ela me puxou pelo braço, sem escrúpulos quanto a professora e quebrando o clima que as aulas de alemão têm. Ela sempre falava perto demais, doce demais, gentil demais. Foi ali, me encurralando naquele corredor que ela disse que seria bacana falar para toda a escola, na sessão de línguas estrangeiras, um pouco sobre mim. E em cinco línguas, bem bacana.

Entre todas as coisas que se podem acontecer num Domingo, entre todas elas o destino me reserva a tarefa de contar para o mundo, em cinco…

Fueda-se.

Mas minha senhora, eu disse, eu tenho que embarcar, não é simplesmente uma vontade! Ela, alta demais para uma mulher e obesa, branca e com o cabelo super claro, eu diria albina, mas a fenótipo dela me importava ao mínimo naquele momento. Acho que eu não estava sendo clara, então me repeti. Que diabos, pensei, por que parei em São Paulo só para comprar um livro? Qual o meu problema? Eu poderia ter pedido essa merda pela internet. Por algum motivo eu estou em Madrid e tenho que embarcar de um PORTO? E não de um AEROPORTO? Ok, isso está offly wrong. NO SHIT.

...

Acordo, suada, meio perdida na definição de um pesadelo. Os meus, pessoalmente, sempre envolvem logísticas e conexões em aeroportos, olhares de impossibilidade vindo de funcionários, um longo suspiro e a desistência da vida. Se houver por aí, minha gente, uma Síndrome do Pânico a Logística Aeroportuária, ela é toda minha. Lembro que tentando chegar ao Brasil em Julho, quando saindo de Moscou, e aliás, nunca contei essa história pro…

A festa é de Jesus mas vim de penetra

Há um ano atrás estávamos em Kamensk-uralskiy, uma cidadezinha russa próxima aos Montes Urais, faríamos estes snowboards de papelão com uma sacola em volta nessa descida ridicularmente infinita, lembro de sentar lá no fim daquela montanha de neve e pensar que isso é felicidade, e quando eu despensei, já não era mais, um momento e já foi. Nós cantávamos canções de Natal em pelo menos cinco línguas diferentes, e ninguém nunca mencionou Jesus, ali éramos nós, usando a desculpa do feriado. Nós jantamos ao ar livre quando fazia cerca de -20 lá fora, comíamos rápido o suficiente para tudo não virar uma pedra de gelo, ao mesmo tempo que corríamos para a fogueira que tínhamos feito. Eu posso lembrar de cada detalhe, do karaokê horrível, do espelhinho do banheiro. Um ano depois, em solo cearense, estou caminhando pela Beira-mar, quando resolvo que tenho que entrar por essa ruazinha, para ter certeza que eu tive o suficiente de um dos meus bairros de infância antes de partir, antes que eu vá e …

A alvorada e a suficiência de sua duração.

[Entre todas as coisas deslocadas, um Van Gogh deslocado sempre parece estar em harmonia, sendo o único na categoria das coisas deslocadas que tem harmonia, e nesse caso, dois Van Goghs]
Às cinco da manhã, o estranho sono que me acometera às oito da noite, já alimentado, satisfeito consigo e arrotando, me acordou num horário que as pessoas só acordam para tirar leite de vaca, e os gritos bêbados da juventude numa rua vazia, na alvorada do dia, foi o suficiente para me acordar, perfeitamente audível do décimo segundo andar graças a qualquer desgraça que exista nas leis da acústica. Não esculpo só perfeições, e diferente dos gregos antes de Lísipo, acredito demais nas imperfeições e gosto dos seus retratos, e os gritos bêbados conectavam-se devidamente às imperfeições e à realidade, que é minha e não tem planos nem uma via expressa para a perfeição. Somente a poesia inteira que a palavra "alvorada" carregava sozinha parecia perfeita, à frente do Sol, atrás dos prédios, um breve…

Localização: em trânsito, não em uma sala de espera.

[Gales]
Três horas, sempre cedo ou tarde demais para começar a fazer alguma coisa, disse Sartre, de algum modo melhor do que eu parafraseei. Ao que eu vejo que por três horas ele quis dizer só não três horas da tarde, mas da madrugada, essa parte do dia onde há silêncio nas maiores das metrópoles. È verdade que eu poderia começar a falar de estrelas e ser piegas sobre a tranquilidade que elas passam às três da manhã, mas serei piegas de outra forma. Recentemente fui à locadora, porque eles vendem esse iogurte lá agora e não porque eu queria alugar algum filme, creio que assim como as lojas de CDs, as locadoras estão com os seus dias contados, e o ato de alugar um filme ou comprar um CD é hoje em dia meramente simbólico - com uma incrível fonte de ilimitação que é a internet, se faz isso tudo de quatro paredes. Pois bem, vi Julia Roberts, logo quem não atuava há tanto tempo, eu não esperava que ela voltasse, na verdade até esperava, mas queria ter sido avisada. "Comer, rezar e amar…

Um ser herói

Um ser herói
Eu tenho todo o tempo
do mundo
eu posso
ter o
mundo
(rodando
só quando
eu der
corda)
Reino de ser
meu rei
faço castelo
de
areia
e controlo a inflação
das emoções
Nos limites das minhas
rochas
(entranhas)
(paredes)
(limites)
(vontades)
(loucuras com forma desenhada
de mim)
Eu pulo
se cortar não
dói
só corta
Eu conto
os peixes
mas só porque
aprendi a contar
Eu conto as horas
mas só porque
não sei
como
elas
se enrolam
para
passar
Eu tomo esse gole
sabor
de infância
Como era fácil
ser herói
ser rei
desencanto
mesmo quando
o homem
ainda
dançava
a mesma
dança
(disforme)
(e eu tinha que sempre olhar
pra cima
todo mundo era tão
alto
e sabiam melhor)
Como era fácil
ser herói
quando o corte
só cortava
Quando a cicatriz
era
medalha
Quando se jurava uma vez
se acreditava
Como era fácil ser herói
ter acesso
às dimensões
aos buracos negros
da felicidade
Eu vinha, saía,
voava, voltava,
rodopiava, pulava,
licença poética,
que vou pular
(pra lá
de volta
te deixo bilhete
não bebe o café
que ele está
velho)

O céu é tão bonito
que deu essa
sede
de mergulhar
des…

Minha II Guerra Mundial é pessoal.

Esse poema foi a primeira vez que apostaram em mim. Que quiseram me publicar. Ele significa bastante. O bastante. Eu tinha treze anos e foi provavelmente a primeira publicação que saiu da gaveta.

MINHA II GUERRA MUNDIAL É PESSOAL

Acordar em 1938 em meio a um turbilhão de flores com cores
Flores que perdi na Guerra em meio as dores
A tristeza matinal do soldado que voa com os eternos beija-flores
Os beija-flores que em ti encontrei, que em ti perdi
Acordar em meio a uma Guerra,
Soldados lutando pelos seus amores perdidos no canhão, na multidão

Dormir para escapar dessas paredes de cérebro
Que me torturava e me matava mais que o cruel inimigo
Eu era a cópia do soldado mortou ou viria a ser
Eu não era o mocinho nem o vilão, era um soldado infiltrado na multidão

De repente acordo nesse turbilhão de dores sem cores
Depois de 1945 o Mundo nunca mais foi o mesmo
Não é do Mundo que sinto falta, são das flores que não posso proteger
Agora eu era soldado, mas não sabia depois
Talvez caçarei borb…

We don't need whys, but here are some reasons why you should.

I remember it was not so cold anymore and we were having this constant Kafeinya pizza mood, and there we were, ordering another one, dear Andrushka just smiled at us. I was waiting for Tati, Syd and Valya, the girl that just travelled to Portugal, I was to teach her some portuguese before I came back home. I had so much fun with that, I'm so proud of this language, it's sweet, soft, and seems to just play along. And winter just ended. So what now? We had gone crazy indeed. How crazier can we get. So there we were, Tati and Syd eating a pizza while I read some Camões to Valya, speaking one portuguese, the sound of it, was already so awakward, I should probably call Sophia and share that horrible feeling. Where did my mother language go? And doesn't Camões sound the same? But as I said, how crazier could we get. Camões left the room. Me, Tati and Syd started to make a list. Actually, we met just to do that. And I'm so proud of this. The list goes.

(It starts at 51 because…

Cemitério florido por opção.

Era um cemitério. Seus belos epitáfios cobertos de lodo e de negação, a canonização de quem morre é algo tão previsível quanto a morte em si. Passamos a ser os bons maridos, as amáveis esposas, o grande amigo. Quem diz é a pedra. A total ausência de vida debaixo de uma grama tão bem cuidada. Podada. Uniforme. Padronizada. No protocolo. Debaixo dela, Augusto dos Anjos sái das linhas e encontra motes. O interessante sobre o cemitério é que ele não é feito apenas de terceiros, é muito fácil achar partes e pedaços nossos perdidos por ali. Houve essa situação aqui no prédio, a mãe dessas meninas deixou-as mais o marido, ela que morreu de algo como um câncer, e toda vez que eles pegavam o elevador desde aquele dia eles recebiam os olhares, as condolências, que nada amenizam só reavivem, e saiam pela porta metálica carregando sua cauda da morte, que era mais visível para os outros que qualquer coisa. Nunca fui amiga das filhas. Nós nunca seríamos amigas. Eu era estranha demais no colégio par…

Para o Paulinho, escrito há três anos.

Hanging out with the craziest lot
that habitate my mind
So full of companies, so alone, but hidden.
Well done.
You see, it's not you I miss, it's the world I can't forget.
You're the thing I can't ever get.
The world is too big to ignore.

So don't want to make up my stupid bets.
Not again.
This time I have no gain.

The biggest world I've ever been.
The craziest thing I've ever seen.
Planet Earth gets lost and we can't achieve the 2nd square.
Nature is sad for me.
Sorry for what I have been
I shout
- I'm a little jerk.
But that's what we're meant.

Sometimes I get lost in my mind.
Cause it has got streets, cadilacs, people and parties.
And it's far too big, as big as the world feels
Big as the scar planet earth can't heal.

And I think that's what the world is made of.
A little of imagination, cads, people, parties and streets.
That's what I'm trying to step off
Can't scape
But it's what I got.

You came into my thoughts.
You had no hall pa…

Para sempre agora

Me criei. Cresci dentro de mim. Não implodi, mas vivi sempre no meu limite. Me apaixonei para sempre muitas vezes, o para sempre que dura só agora. Quis voar mas tive indisposição, nunca duvidei que fosse impossível. Nasci sem instruções, tive curiosidade e descobri sozinha. Tive pressa. Quis sempre ir até o final. Fui quase inconsequente, mas sou lírica falando apenas em impulsiva. Moro dentro de mim e estudo minhas composições e sei, somente sei, que a única constância das coisas é a inconstância, e pela alotropia das coisas mundanas, por ser grafiti quase fui diamante. Ainda não tenho instruções, não explodo sempre de amor, mas sim o tempo todo, não quero para sempre, quero agora.

Ontem quase explodi de amor, não implodi. Obrigada vocês, componentes obrigatórios da minha pátria.

Feliz Natal.

Ultimamente músicas de natal têm tocado o tempo inteiro na minha cabeça. Acho que é o instinto de sobrevivência depositado no natal, essa capsula de mentira que dura uma virada de noite. Várias coisas me irritam, apesar de eu achar que amo mais que desprezo. Mas em especial, as pessoas com cautela têm me irritado. As pessoas que calculam suas ações, guardam dinheiro, etc. Queria que em pleno Outubro todo mundo incorporasse aquele tio bêbado do natal e fosse menos cauteloso. Um Natal, um feliz Natal, muito amor e paz pra você.

Feliz Natal.

Até em 2010, o Brasil não tem direito de querer ser ou admirar mais a Itália de 1534. O Brasil é, na falta de adjetivo mais lisonjeiro, só brasileiro.

Em 1534 Michelangelo começou a pintar o teto da Capela Sistina, que é realmente bonito e como não-católica eu admito o fato quantas vezes me pedirem. Eu tenho um poster. Eu disse eu tenho um poster. Em 1534 o Brasil ia e vinha com a história das capitanias hereditárias, esse trecho que todo mundo leu em um livro da terceira série até o terceiro ano do ensino médio. O que realmente me bota para pensar como é injusto querer acompanhar isso, até hoje em dia. Brasil querendo ser alguma outra coisa que não é Brasil, Brasil querendo pintar tetos de capelas numa terra nem declamada porque as capitanias deram lugar para tetos de capelas que nem existem. Jurei que não faria uma crítica patriótica do tipo, porque nós já ouvimos isso, mas no dia da independência do Brasil, e nesse dia não havia mais nada acontecendo, nenhum brasileiro no meu campo de visão se pôs de pés pelo seu país. Eu sei que passei meses reclamando de como os russos tinham que ser patriotas sobre uma guerra que do meu ponto …

Há dois quilos

Há dois quilos de você
escondidos no meu coração.
E penso em você com o travesseiro
Meu bate-bate dorme tranquilo, sorrindo.
Há dois quilos de você
dobrados
cuidadosamente
na minha imensidão
Há dois quilos de densidade de você
que me esmagam
escondidos no meu coração.

A independência do Brasil e a independência da poesia brasileira

Estou sentada aqui com uma bandeijinha de café-da-manhã e são 22:32 da noite, quando lembrei de que tinha me prometido postar hoje e não amanhã, que está programado para acontecer em uma hora e meia. Tinha prometido falar do livro dos poemas brasileiros, "Os cem melhores poemas brasileiros do século", que me encantou as tardes e a sanidade. Li-o gradualmente, dosado. Tem doses de boniteza que só se absorve gradualmente. Olha, e só confirmo o que eu sempre dizia quando detalhava as funções das línguas que eu falo: o português é língua para poesia. Nasceu assim, traçado, predestinado para versos. O que me intrigou logo ao abrir o livro foi não conhecer o organizador e seguidamente não achar nenhuma nota no próprio livro sobre Italo Moriconi, que me desculpem os bons se ele é um desses seres famosos, mas que ele ainda não pousou no meu mundo e por aqui não fez fama, defendo eu. Depois achei de muito bom gosto e charme a divisão do livro, o que já me fez esquecer Italo, olhares …

Harém amarelo

Para isso fomos feitos [...]
Por isso temos braços longos para os adeuses

Abro as portas que não têm nada de galante ou imponentes, e lá estão eles. São pessoas que se podem conversar. Acho que nos dias de hoje as pessoas estão mais desesperadas por uma conversa do que por sexo. De alguma forma que vai contra a Evolução e Darwin, eu tenho a impressão de que todo mundo vai ficando mais burro. Sou chata, péssima, mas até adoro. Nada de cor vermelha nesse aposento. A conexão entre o vermelho e o erotismo é piegas demais. Piegas como querubins e conselho de tia. Abram espaço para os homens da minha vida. Eles nasceram, ou vieram ao meu conhecimento por meio do meu ócio. A única coisa que eu tenho feito ultimamente é ler livros, tocar violão e seguir uma lista de filmes de uma revista francesa que eu mal consigo pronunciar o nome. Mas eu resolvi dar um jeito nisso, a minha filosofia de vida é: "quem aprendeu russo, aprende x", sendo x um número real e que se estende até pelos imagi…