terça-feira, 9 de setembro de 2008

A barba branca e todas as coisas relacionadas a ela.

Venho por meio deste texto tentar dissetir sobre a liberdade sem citar Raul Seixas ("viva a sociedade alternativa").
A liberdade é um direito expresso na constituição, aliás, vou além: nos direitos humanos (sim! Porque até árabes e americanos postos lado a lado são humanos!). Sonhou um dia, porém, o poeta que achou que a liberdade, assim como o Paraíso, não tinha suas barreiras e estava alí só esperando a preguiça e a indiferença se despedirem, para ela finalmente entrar em cena. Não, não é bem assim, poeta.
É bonita, sim, a forma de como a nossa democracia quer cuidar de nós, de como os nossos representantes democráticos vestem uma barba branca e velha cheia de idéias ultrapassadas.
Não fume! Não beba! Use cinto de segurança! E como se não bastasse, obedeça a todos os tabus da sua própria sociedade. Liberdade realmente é uma palavra difícil.
O governante democrático deveria saber que o homem vai continuar fumando, bebendo e morrendo no trânsito - pois é a sua sina praticar o proibido (lê-se Gênesis).
Ao governante democrático que interessar possa, digo: o colesterol alto que leva a ataques cardíacos mata mais que qualquer das proibições anteriores. É apenas uma questão de sorte, ou a trágica falta dela, como se acaba morrendo.
Aos humanos: a indiferença é a melhor forma de protesto.
A todos nós: ainda há tempo para comprar uma ilha em Dubai, fazer das próprias idéias fixas as próprias leis, viver sem carteirinha de hipócrita oficial, ter uma vida sem tantos problemas quanto um livro de matemática e finalmente, sem nenhuma interferência da barba branca.

Nota ao leitor: Resolvi protestar porque acabei de levar um choque dos brabos. Não sei se isso me acordou, mas definitivamente ativou uma área bem inacessível do meu cérebro: a revolucionária. Porque, acredite, até escritor de classe média é hipócrita. E por ser da classe média, sonhei um dia eu que quis uma ilha em Dubai! O poeta é um mentiroso (o problema está na verdade no fato de eu ser mais escritora integralmente, o que me sobra pouco tempo para ser hipócrita, só quando levo choques).
Minto, na verdade é a minha arianidade que me faz odiar injustiças, mas me faz desistir de lutar por elas porque um minuto depois já estou em outro projeto.
Está na hora de ouvir os meus jingles de época de eleição, lá vou eu, e te deixo com todas as injustiças do mundo para refletir, mesmo sabendo que tu vais acabar em Dubai.
Porque Deus me fez ariana e isso também é culpa dele, e apesar de atéia, eu sei que alguém de barba branca tá matando pra ser ele!

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

RIANNE (eu,ich, ja, I, yo), A COLONIZADORA.

Toda criança normal tem como lembrança normal algum parque ou algo extremamente colorido. A primeira lembrança que eu tenho é de um corredor de hotel, uma janela no fim. Depois... Perguntaram-me em New Jersey se o que eu falava era brasileiro ou espanhol, peguei a bicicleta, achei graça e ralei o joelho - não exatamente nessa ordem, mas nada que me impedisse de ir comprar comida chinesa em caixinha do outro lado da rua, eu sempre kept the creeps quanto à vendedora, ela era alta demais pra uma chinesa.
Foi nessa época que criei um certo trauma em relação a indianos, o acento indiano é um negócio a se discutir - parei de comer dunkin donuts. Era uma máfia, em todo Dunkin Donut e posto de gasolina só se trabalhava indiano.
Admito que só fazia ESL pra perder aula, mas o mundo inteiro precisava sentar em um teatro e ver a cara da Miss Rudek, quando eu, o Hupert (chinês), e a Katrina (mexicana) passamos a ser crianças sem línguas maternas: Havíamos aprendido duas ao mesmo tempo, com um empurrãozinho da Miss Rudek por não nos permitir fazer prova já que seria exigir demais. Nunca discordei.
Na Florida eu comia ovo cozido todo dia, santo metabolismo o meu que segurou o colesterol. Quando eu voltava a terra da aquarela, no avião uma mulher elogiou meu acento, depois a expliquei sobre New Jersey, ela disse que gostava do meu cabelo e ficou por isso mesmo em um vôo de 13 horas - eu falava norte-americano. A aeromoça era tão neutra quanto a Suiça e só falava inglês, just a water,yes?...
Na conexão com a equipe de bordo mais neutra com aquele sotaque eternamente gripado de São Paulo. Foi quando eu já pegara a outra conexão e agora o ar falava em 31oC, do outro lado do continente meu nome médio era Perigloso.
Agora eu ja era trilingüe... Foi quando eu voltei a Florida-40oC e comprei um cd dos Sex Pistols. Um cara perguntou as horas e eu respondi e ele perguntou se eu era brasileira, e se sim, porque eu gostava de Sex Pistols, só respondi que eram 8 o'clock. Entendi o episódio demais, já que eu andava com uma blusa evidenciando a minha brasileirice.
Me perdi no Picadilli Circus, em Venezia, Madrid, e Windsor (onde eu corri feito um jumento procurando a entrada do castelo) e outros buracos europeus - é assim que se descobre que a Torre Eiffel só é para bobos. Peguei como ponto de referência em Luzern o lago (o lago fica no meio da cidade) - me perdi lá também, e no fim do dia, eu havia ganhado uma experiência estúpida e comprado um moleskine. Mas não se pense que se cansa da Suiça assim. Você nunca consegue ter demais da Suiça. Principalmente quando os primeiros suiços que você conhece estavam na porta do seu hotel com uns drinks simpáticos e você arranhava o alemão ainda, e foi nesse dia que eu descobri que se o brasileiro já achava que alemão era agressivo, precisavam ouvir o acento suiço. Pessoas realmente simpáticas que fazem valer a viagem.
Pararam o trânsito de Monaco só pra eu atravessar. Simpático, pensei. Atravessei com o bowl do guarda e fui tirar foto de "girassóis de Van Gogh" do outro lado da rua.
Outro dia um italiano pediu barra de cereal de chocolate no avião só pra me dar, achei simpático e disse 'prego' (meus conhecimentosem italiano se resumem em 'prego' 'excusa' e 'senza champingnon').
Quando eu tinha 11 anos minha professora de Geografia me disse pra aprender mandarim e acumular uma fortuna. Cara professora, ofereça um daqueles produtos de plástico que vende no centro escrito Made in China a uma ocidental, mas não ofereça a China a uma ocidental, porque no máximo, eu só vou relacionar a sushi, mesmo sabendo que isso é no Japão - o que eu aprendi é que a ignorância as vezes evita situações chatas. Eu ainda sou só a ocidental que come sushi sem nenhum interesse por mandarim.
A primeira vez que eu falei alemão com um austríaco ele não me entendeu - ele falava ratonês.
Com um pé aqui, outro em New Jersey, parentes da Europa, nacionalidade é um conceito relativo hoje em dia, por isso normalmente passo minhas férias no Piauí.
Uma biografia um tanto quanto fragmentada aí pelo mundo, but it's just a way to stay alive, boy.