quarta-feira, 16 de junho de 2010

Assalto e arroz com sangue.



O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar que existe entre nós dois
Para nos unir e separar
Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão
Que não tem fim
Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal


Às vezes eu acordo com frases em letras garrafais passando pela minha cabeça. Do que vai de "Que cupido assíduo", ou às três da manhã, eu me sento de joelhos-índio e digo, apontando um dedo "Olha minha Senhora, eu não sei o que eu quero da vida, nem se ela me quer", e hoje eu acordei falando bom dia da seguinte forma: "A vida é um assalto". Seria pelo fato de que o hospital número 1 (porque foram três tentativas) exigia que o paciente subisse três andares e ao subir aquelas escadas eu me fantasiava de acidentado de carro e imaginava um paramédico dizendo para o acidentado, daqueles de moto ainda, "agora é só subir as escadas", talvez naquele momento eu tenha pensado "isso é um puta d'um assalto". Porque eu falo palavrão mesmo. Mas isso não vem ao caso. Na verdade, vem. Desde que eu passei a falar russoguês (russo + português), o meu vocabulário tem se inclinado muito a palavras xulas, das quais eu me sirvo muito com palavrões. É muito bom falar "mas... puta que pariu". Nesse último ano eu falei "puta-que-pariu!" em vários momentos. Esses momentos envolvem estradas abandonadas e eu nela esperando um ônibus dentro de uma poça de lama, envolvem skinheads, envolvem bisturis, envolvem -45 graus e minhas orelhas doendo por duas semanas porque eu não usei a shapka [gorro] por dois segundos. Muitos capítulos. Daí eu me pego remexendo nessa crença de que criança adora falar palavrão. É meio um status. Só o mais bacana da turma fala palavrão. É, ele é foda mesmo. Eu queria muito acabar com esse post porque eu simplesmente estou escrevendo uma linha de pensamento. Eu não gosto quando as pessoas lêem meus pensamentos. Por muitos anos eu estive tomada da crença de que algumas pessoas tinham essa capacidade. E foi na minha adolêsncia, não na infância, e eu não escondo isso. Essa esquizofrênia da infância eu levei além. Então eu senti que eu precisava pensar em outra língua. Alemão veio em uso. Russo, então. Hoje em dia sou uma pessoa melhor e sei que não há amplificadores saindo das minhas orelhas. Mas hoje em dia eu sou tomada por outra crença. Mas acho que eu vou parar porque eu não gosto de falar de mim assim direto. Acho egoísmo. Na verdade eu sou muito egocêntrica e venho tentando superar isso há muito tempo. Fiz de novo. Então hoje, por razões x, eu perdi a fé na raça humana. E mulheres apresentam vários comportamentos nessas situações. Número 1: ela ligará para todas as amigas enquanto come sorvete e segura o telefone com a orelha assim; número 2: ela chutará móveis; número 3: ela xingará o primeiro ser humano que lhe dirigir a palavra; número 4: ela se entregará ao trabalho bruto, a.k.a., roça ou algo do tipo envolvendo cortar troncos ou tiros; número 5: ela se afogará em chocolate nutella. A verdade é que eu sempre odiei aquele site charges. Eu tinha nove anos e na aula de informática todos entravam no site charges e lá mesmo eu pensava que aquilo era uma merda. Por que é engraçado? Por causa das vozinhas? Os bonecos se mexem engraçado? Eles não se mexem engraçado. Mas o que eu queria dizer é que logo após perder a fé na raça humana eu chutei móveis, comprei um litro de iogurte, abri uma mala que me cabe dentro e comecei a empacotar minhas coisas (trabalho pesado, número 4), quase matei o médico que me tirou os pontos porque ele não estava sendo engraçado e tinha certeza de que estava sendo engraçado e hoje não é um dia engraçado portanto pare, e eu não liguei para nenhuma amiga por causa do fuso-horário. Mas podia ser pior, imagina encontrar algum conhecido no supermercado. É a coisa mais odiável a se acontecer. Há dois dias atrás, por não falar nisso, eu vi um filme chamado "Moscou não acredita em lágrimas", porque eu venho me afogado nessa filmografia soviética. E a filha da protagonista, não que importa que grau de relação ela tem com a protagonista, perguntou para o namorado da protagonista, e esse grau de relação importa muito menos agora, "então você é completamente feliz?" e ele respondeu sem nem respirar "não, mas se eu tivesse um gole de refrigerante, estou com muita sede, eu seria completamente feliz". E eu pausei. Lembrei da senhora do hospital querendo que eu casasse com o seu filho, falando sobre a união soviética, falando como dava-se apartamentos e não se vendia. Utopia. Que é uma palavra que me lembra Lost. Eu sempre fui o tipo de pessoa que segurava o xixi para ver Lost sem pausas. Mas agora acho uma pena termos chegado a esse ponto. Polêmica é uma coisa fácil de se gerar: envolve a igreja católica, maçonaria, viagem no tempo, metafísica, a origem do ser humano e das coisas em geral. Desses elementos usaram Dan Brown e o tal Senhor Roteirista de Lost. Por isso eu dei pause e fui ler um livro sobre serial killers. Que eu não sou a maior fã do assunto mas sou curiosa por natureza então depois da cirurgia achei que caia bem. Aliás, depois da cirurgia eu tenho andado com essa vontade de comer arroz, picanha mal passada e feijão. Mas daí eu esqueço já da picanha e fico pensando no arroz com aquele sangue. Dá fome mesmo se não tenho fome. Ontem vi o jogo do Brasil sem nenhum "Brasil sil sil" e ninguém para dividr um "Ô cala a boca, Galvão". Nunca tinha visto um jogo do Brasil narrado em russo. Aliás, qual o problema dos verbos que se criam de palavras estrangeiras que só vão com a primeira conjugação, deletAR, pausAR, plugAR. Que estupidez. Se eu ainda acordar com qualquer frase por esses dias acho que eu deveria dividir, mas por enquanto digo um e somente: a vida é um assalto. Agora que lembrei que vim aqui postar um texto que tinha escrito no trem... Ah, vai, eu só espero que Chico Buarque ainda salve minha alma e essas coisas afins. Pontuo.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Foi naquele dia mesmo que deixei o apêndice que sempre carreguei em São Petersburgo.

Escrevendo diretamente do purgatório. Vamos direto para um diálogo explanatório.

Rianne: Tou vendo aqui detalhe ssobre o tipo de apendicitomia que fizeram em mim, se eu te contar vc ri, incisões de 0,2 a 1 cm
Maísa: A cirurgia do meu irmão foi assim também, ele tirou a vesícula
Rianne: Uma incisão no pipiu, uma no umbigo e uma acima do umbigo
Maísa: E minha tia tá em metástase, minha avó fez catarata e o mundo vai caindo
Rianne: É o fim do mundo, rolem os créditos... Me explica o que é um apendice
Maísa: Eu acho, particularmente, que é, dentre as duas opções: um antigo órgão atrofiado, sequela da mudança alimentar dos humanos ou algum dos órgãos do corpo cujas funções são desconhecidas tais como evernia, vibração, cordão astral... essas coisas.
Rianne: Já eu, acho que deus gosta de design de interiores.

"Lera, I'm feeling REALLY BAD", e a próxima coisa que eu lembro é de estar dentro dessa ambulância, o paramédico que falava que não sabia nada de português e eu devo dizer que estou surpresa com isso meu senhor? Meu senhor, eu estou verde, amarela, azul e branco e o senhor vem me tentar puxar assunto, meu senhor, cale a boca, TÁ LOUCO, FILHO DA PUTA? DOR. Foi quando ele apertou perto daquele osso do quadril, eu vi a luz do fim da vida. Tão perto. Assinei qualquer coisa com a pior caligrafia que eu tinha e fomos para o hospital, pela janela São Petersburgo não iria anoitecer, as famosas Noite Brancas, e eu pensava que poucas pessoas já tinham visto Piter pela janela de uma ambulância. Eu chego nessa clínica que parece ter saído de uma sessão de CasaCor, com recepcionistas bem alinhadas e com um inglês perfeito, coisa que eu não achei na Rússia em um ano. Talvez eu esteja delirando, penso, e continuo a preencher os formulários com aquela prancheta estúpida. Tudo parecia estúpido, desnecessário e um obstáculo para a minha sobrevivência e constância como ser humano naquele momento. Eu mataria. Eu sabia o que era uma cólica mas aquilo era algo além. De repente do horizonte surge número Um, assim o chamemos. Número Um é um médico de aparência, eufemismando, desconfortante, em um sentido que quando você viu, a baba já está rolando. Talvez seja algum tipo de tratamento, penso. Lógico que não, outra vozinha diz. E a primeira vozinha ri com a segunda vozinha. Eu tenho essas duas vozinhas que são parcelas de mim, mas não adianta, qualquer parcela de mim sai com uma porcentagem infinita de sarcasmo e acidez. Número Um me levou até uma suíte. Era um quarto amplo, com uma TV, um computador, e uma cama que quebrava o clima de hotel cinco estrelas porque dobrava. E eu confabulei com as vozinhas, não sofreremos, companheiros, não sofreremos. Número Dois entra na sala. E em alguma parte do dia surge Número Três. Número Um, Dois e Três foram as alegrias de meus dias enfermos. Eu já tinha feito todos os tipos de exames possíveis no mundo. Os Números estavam realmente preocupados, me falava agora a Masha, minha enfermeira, uma mulher que pelas maneiras e doçura poderia ser confundida com uma mãe, ela tentava desesperadamente achar uma veia, era a oitava fez que ela me furava e eu já não dizia "ouch", agora eu sorria. "Se eu não conseguir agora, vou escrever uma nota", disse, em seu desconserto, "escreva que não há sangue". Ela não riu. Nem eu. O meu humor ia ficando mais negro ao passo de que aquele bebê-monstro vivia na minha barriga, atrás da Masha na tevê eu assistia Simpsons. Foi quando Número Dois entrou no quarto, "zaitsa, u vas est' apenditsit, gotovimsya k operatsii", ou eu ficava surpresa pela existência perfeita do Nùmero Dois ou pelo "zaitsa" [amorzinho?] ou pelo fato de que ele acaba de me dizer que aquele bebê-monstro é uma apendicite. A festa começou, pensei. Me enrolaram uns panos na pernas e eu não tinha realmente força, eu não tinha comido absolutamente nada naquele dia. "Agora vamos dormir", disse a enfermeira. Dois minutos se passaram, "por que você não está dormindo?". eu ri de desespero pela minha resistência a anestesia, de repente esse conjunto de nuvens surgiu no meu campo de visão e uma citação no Sartre em letras garrafais se imprimiu "Esta noite estou muito a vontade, muito burguesamente instalado no mundo", era meia-noite. As nuvens saíram do fundo vindo em minha direção e ficou tudo branco. Eu devo ter dormido. Agora eles me cortam a dentro e eu não tenho nenhum universitário citando Augusto dos Anjos. Que cena errada. Eu nem sabia com o que se parecia um apêndice. Eu sabia que era inútil. Eu sabia que eu tinha tirado as amígdalas, os cisos e agora tirando esta coisa não me sobrava mais nada. Significava que eu tenho 17 anos e sou invencível. Há 7 horas atrás eu diria "I'm 17 and I'm fuckin' tired", mas agora eu sou invencível. Agora DOR. As nuvens se dissolveram, eles pediam para eu ir para a outra maca, "YA NE MOGU", [eu não consigo], eu realmente estava leve, leve demais, sem força, com fome. Mais tarde a enfermeira me diria que eu falava bem russo. E eu não me lembro de ter falado com ela, isso quer dizer que quando eu lembro de ter dormido naquela maca de volta pro quarto eu estava em papos a dentro com a enfermeira. Dizem que algumas pessoas têm talentos não despertos. Talvez o meu seja falar russo sob anestesia. Não, isso não é uma cena tenebrosa. Eu devo ter acordado as 4 da tarde do outro dia. O Sol me tirava a paciência. Não importa se eu passei seis meses trancafiada num inverno, eu ainda odeio veemente o verão. Naquele dia, não comi nada. Nem no próximo. Ordens médicas. Cada vez que o Homer Simpson falava de comida eu sentia que ia morrer, ou quando a Marge começava a falar de bolo de carne. Conheci uma senhora, quando já comecei a andar no terceiro dia, que ficou encantada e queria me apresentar para o seu filho. Eu eu penso que eu estou aqiu andando de batinha de hospital, com a cara amassada, indo pegar café e essa senhora ainda tem fé em mim, realmente, penso, sou filha de políticos. Eu digo que vou pra Moscou dia 20. Ela diz que ele mora em Moscou, e eu sem saída deixei meu celular. Senti que era uma mãe desesperada querendo casar o seu filho, pelas quantas ela já ia me perguntando se eu tinha noivo e eu repetia que eu tenho dezessete anos (e sou invencível). Comi todas as minhas comidas favoritas nos próximos dias, já havia fechado as cortinas, eu moraria aqui, pensava, as coisas aqui funcionam, eu digo que gosto de salmão e duas horas depois meu almoço é salmão. Gosto daqui. Gostaria de falar sobre o sentimento de estar voltando para casa sem um apêndice, sem os cinco quilos que eu deixei no hospital em são Petersburgo... Onde vi não só um Van Gogh, mas uma sala inteira. Onde conheci chineses que irão me visitar no Brasil. E é isso, Brasil, chego em duas semanas, as crazy as it sounds, com uma lista de coisas a fazer, de metas até o fim deste ano. Ô meu velho português. Que isso me lembra dos portugueses que conhecemos no Museu Russo, a Sophia com cara de pasma do outro lado do salão porque eu estava do lado do grupo e não havia detectado o português e ela sim, do outro lado. Depios a guia está se referindo mais a nós, as senhoritas brasileiras, que às pinturas. Preguiça de escrever. Tirarei os pontos amanhã. Vou embora da Rússia tendo deixado meu coração em pedaços, partezinhas em todos os pedaços do mundo. É difícil amar tanto em todo lugar. Mas há tanta gente incrível nesse mundo que eu não consigo, eu repito, eu não consigo. Com um sorriso no rosto, pontuo.