quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A arte de sobreviver na medicina

De ida ao Museu Pushkin de Arte, agarro meu moleskine de 7 anos de idade, suiço de nacionalidade, de uma viagem a Lucerna. Aí estão reportadas todas as minhas versões em distintas partes do mundo, ou apenas minhas versões imóveis que seja, sedentária, em alguma parte do mundo. A última entrada é sobre a ansiedade de entrar na faculdade em 2011, do que não se sabe, do que se vai aprender, tudo cheio de simbologia, Saramago, perguntas. Um se põe a ler e não se reconhece: e isso passa todas as vezes que abro esse moleskine - uma pessoa o fecha, e meses depois outra pessoa o abre, sendo que são as mesmas mãos! Será mesmo que esse fenômeno vai seguir sempre? Será mesmo que as visões e as perspectivas mudam tanto, será que é possível que um passe a vida inteira crescendo e não se exploda porque já não há espaço no mundo (ou nas limitações da carne)? Se for, quantas vidas vivemos em uma 

Hoje a minha visão sobre a medicina é totalmente outra, e é a seguinte, sem medo a digo: todo médico precisa escapar-la de tempos em tempos, todo médico necessita de arte. A arte que seja! Música, pintura, literatura, teatro, cinema, escolham. A medicina é uma tal senhora que lhe sufoca (e não, não importa o quanto você seja apaixonado por ela).

Fiquei de férias depois de cinco longos meses enterrada em livros, sem tempo para abrir um livro sobre qualquer outra coisa que não tratasse de músculos, nervos, arterias, veias, tendões, cérebro, ciclos bioquímicos, fisiologia. 

E se não sobra tempo para a arte?

Se não sobra tempo para a arte -  que classe de médicos nos tornaremos? Por isso venho aqui declarar que basta. Basta, medicina. Eu vou tirar um pedaço de você para ter esse pequeno pedaço que seja de arte na vida.

É isso, caros leitores: a medicina cura, mas te transforma de tal modo que uma imagem abstrata não é apenas uma imagem abstrata, mas se parece a alguma célula ou orgão, ou uma artéria; quando antes aí haviam flores, ou um avião, ou coisas comuns.

Um entra em uma vida com uma pilha de livros e um cadáver - isso nos muda, sem dúvidas. Mas o que nos esfria não são os cadáveres ou todos os tecidos mortos - é exatamente a falta de arte.

Pontuo.