quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Hoje joguei um tanto de coisa fora

Hoje joguei um tanto de coisas fora. Umas partes de mim que eu não queria mais. Aquelas folhas da história comidas por traças, que já não se lê, algum dia houve algo grandioso escrito aí - dos méritos, das quedas, em letra bonita, dourada.

Hoje eu joguei um tanto de coisa fora, mais porque sei exatamente do que preciso. Porque eu vivo de pessoas, não de coisas, e os primeiros – quero não muito longe, perto o suficiente.

Eu vou reciclar a minha vida inteira.

Mas vou te manter intacto, com os teus defeitos, as tuas manias, até o que me irrita, as tuas faltas de várias grandezas de caráter. Assim. Porque eu te encontrei assim: defeituoso, antes de tudo vivo, meu, eu - tua.

Hoje eu joguei um tanto de coisa fora. Hoje durmo em paz.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Um telegrama de Moscou

A todos os "como é que andam as coisas por aí" e a impossibilidade de replicar uma resposta que caiba em uma conversa de elevador - não cabe: eu expando. Licença poética para expandir

- Como é que está aí
- Aqui está tudo sendo
A nossa órbita
gira em contra-mão
Vamos além do tempo
Sem permissão de ser
Ainda assim: sendo
(teimando)

Só do ar gelado
Até o chá repetido
Para aquecer a alma e outras vontades
Eu não te passo
O que é, como é
Só te digo: estamos sendo.

Outro dia nos cruzamos
E pelos novos trejeitos
Pelo inédito sorriso que agora
alarga mais (perfura a cara)
Pelo abraço mais forte
que todos os anteriores (juntos)
Você vai ver
Como é que estive
sendo

O tempo
a distância
desfiguram (a nós)
montam de novo
mexem-se juntam-se no caldo da vida
tempera de novo
Sái um bicho novo
Um bicho melhor
pior
Calma
sou eu
continuo
sendo.

sábado, 25 de maio de 2013

A study of human behaviour as a rational insightful machine. A doctor's most important lesson.

Earlier this year I was diagnosed with a chronic disease, that is, something I will be carrying around until it takes me down, or takes  the possibility of doing something of my life I had planned and now I need to hurry - running out of time? Sadness, denial? Maybe, but what the hell, mostly: it is incredible how the possibility of death or the simple barrier between you and your dreams make you alive. Life gets more colorful. You smile more, god knows when you'll cross that person again, or see that place again. Maybe next time you won't be in a good shape at all, let it be in 60 or 80 years, whatever. What do you know? I thank the threat of death for making me see life brighter. My biggest fear of dying asking myself "what if" has been cross checked. Life's good, I don't feel betrayed by it, I think it gives me a chance. Thanks, I'll take it. That's all there is. 

I'm not a very dramatic person that makes a big deal out of stuff and maybe this is nothing at all, but insightful experiences always leave a mark on you. And that's the good stuff, by the way. Maybe this is not killing anyone AT ALL, but just killing some possibilities, for some people, that's death dressed not in black, but in some other color.

Doctor's recommendation: smile at the face of death.

A book to read: Saramago, As interminências da morte.

quarta-feira, 13 de março de 2013

O homem que salvou a palavra do silêncio


Antes da palavra, existia o silêncio. A palavra foi criada no silêncio. A palavra é constantemente ameaçada pelo mesmo. Dedico esta publicação ao homem que salvou a palavra da mudez, porque a palavra dói, e ela sozinha não quer existir porque é árduo ser a palavra. Por isso nada a substitui. Ela simplesmente se empresta à gente, e enquanto faz isso nos ameaça todo o tempo: se me vou, vocês serão animais - diz - se me vou, vocês serão apenas o ser, e o ser sozinho não é nada, o ser precisa da extensão. A palavra não é de ninguém, ela sozinha é dela. A palavra se empresta, é diferente. Mas a palavra nunca se cala, ela é tão  presente que é impossível deixar de sentir-la. Mas eu sei de uma coisa: eu prefiro toda a crueldade da palavra ao silêncio. O silêncio é nada, o silêncio nos estagna. O silêncio apaga línguas da face da terra, o silêncio apaga culturas: a palavra é a cultura, a palavra é toda a história. Sem a palavra, sobra o vão.

Eu tive um sonho terrível de que ele não existia. De que havia só uma casa branca, o mundo perdia a forma, porque a casa sem ele era incapaz de moldar o mundo. O mundo pende na palavra a cada segundo. E se ele se prestava a palavra, mais porque a palavra queria prestar-se a ele. Sem ele, o escritor, o mundo era disforme.

Ao acordar, perdi portanto os parâmetros de existir. A parede assim assim não se quebrava, o prédio assim assim não desaparecia, os lençóis da cama pareciam surreais, eu não sentia o meu corpo, era como se eu fosse apenas OLHOS. Portanto acordei sentindo saudades. Saudades de existir.

O nariz, entretanto, sangrava. Mas não me choquei: qual é o ser humano que se choca com sangue? Não há nada que se chocar ao admitir que somos esse ser, esse animal que somos. Afinal, eu acordara a primeira vez na vida em Portugal, desfiguradamente e sem certeza da própria existência durante aqueles estranhos minutos entre o dormir e o despertar, mas eu certamente estava em Portugal. Ou eu teria simplesmente imaginado o português? (afinal Portugal era o português, ou talvez fossem só vozes, talvez eu me imaginei).

Era o país do mundo que fora construído em cima de um pântano de palavras únicas que fora "forrado" com concreto para que o humano aí habite. Sim, em Portugal a palavra veio antes que o homem, a palavra falava sozinha, porque a palavra nascera no SILÊNCIO. Era o pântano do silêncio, sem pontas, sem perímetro.

Mas ele, ele que ameaçando não existir me despertou em desespero, ele ERGUEU a palavra. Quase me matou de medo (e por isso o sangue?) acordar a primeira vez em  um lugar que não existia mais porque se não existisse a palavra, seria vão.

A casa branca (dos meus sonhos) erguia Portugal. A casa branca dele, erguida longe de tudo pela mania misantrópica  (Ele SABIA que a palavra precisava do silêncio para nascer, por isso a ergueu longe).

E por isso hoje escrevo este relato de como me assombrou a idéia de um mundo sem as palavras que moldaram a língua portuguesa (ou seja o mundo inteiro).

E senti que finalmente despertei quando senti a presença do Elefante Salomão. Há vida porque Saramago está vivo como os mortos que NUNCA MORREM.

Voltei a dormir, o mundo poderia morrer por inteiro, mas enquanto existisse a palavra (e eu despertei brevemente só para confirmar-lo), todo o resto poderia explodir.

Sujei o travesseiro do hotel de sangue com uma gotinha, pontuando toda a perturbação.

Publicação dedicada ao escritor português José Saramago e à sua casa branca, onde aí morreu.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Não tenho mais o tempo que passou

Mas temos muito tempo, temos todo o tempo do mundo, cantava o meu alarme às 8 da manhã, e sair para um mundo com uma temperatura negativa não era um incentivo, a única coisa que eu levara em conta fora o tempo que eu estava perdendo, apesar de ter todo o tempo do mundo.

Eu juntei umas coisas, comi e saí de casa, poderia ter ficado. Eu esperei o sinal abrir para cruzar a rua, poderia ter continuado andando sem calcular v=s/t. Eu fui seguida por um cachorro que era um desses cachorros que anda sem coleira, continuei o caminho, ele do meu lado, subiu em uma montanha de neve e ficou ali, eu poderia ter perdido a aula e ficado ali, também. 

Eu passei o meu cartão, entrei no hospital e disse bom dia, eu poderia ter passado por debaixo da catraca e ter me focado em não expressar nenhum sentimento de afeto. Eu vesti jaleco, eu troquei os sapatos, eu fui para a sala, abri os livros, eu poderia ter entrado de sapato sujo e ter dormindo com as pernas cruzadas em cima da mesa. 

Eu esperei a professora, subimos, vimos pacientes, descemos, subimos, eu poderia ter dito que tinha gastrite  ou só uma úlcera e ficado lá embaixo.

Mais do que nunca, eu tinha que fazer tudo baseado na consciência, sem ninguém ao meu lado para ensinar o certo e o errado - suponhe-se que eu já os sei. Se eu errasse, eu limpava. Se eu ficasse doente, não tinha carona e eu só ia ao médico se eu mesma me levasse. Se eu tivesse fome, eu tinha que encher a geladeira. 

E eu tinha certeza: se alguém tivesse dito a uma criança que isso era ser adulto, nenhuma delas ia perder o seu tempo brincando de casinha. 

Ali, com um jaleco socado dentro da mochila voltando pra casa, um mp3 prestes a descarregar eu culpava o meu alarme por dar aquele fio de esperança de que éramos jovens. Fomos jovens. Deveria mudar a música do alarme, acrescentei.

Eu poderia viver uma vida adulta, e vivo, não tem "mas",  nessa versão da realidade já não tinha mais para onde correr.  São felizes os irresponsáveis, que literalmente estão cagando para tudo isso e continuam a viver a versão da realidade inconsequente, continuam a se atrasar, a cruzar a rua sem o sinal verde,  a dizer que têm úlceras e até gastrite.

Todo o resto do mundo segue a música, que apesar de dizer que somos jovens, só nos faz dar conta de como o tempo pesa mais ainda. 

Eu deveria falar com o meu advogado sobre essa cláusula de ser adulta, pensei, enquanto cozinha o meu jantar. Logo em seguida, mudei a música do alarme. E o tempo não ficou mais leve - apenas disforme, pesado, invisível, onipresente, esmagador.

(E agora eu tinha que sair e comprar pão, porque o pão não se compra só, apesar de que quando se é criança, a comida tem essa tendência de simplesmente aparecer na geladeira.)

Quando é que a gente supera não ser mais criança?

Em frente.

Pontuo.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A arte de sobreviver na medicina

De ida ao Museu Pushkin de Arte, agarro meu moleskine de 7 anos de idade, suiço de nacionalidade, de uma viagem a Lucerna. Aí estão reportadas todas as minhas versões em distintas partes do mundo, ou apenas minhas versões imóveis que seja, sedentária, em alguma parte do mundo. A última entrada é sobre a ansiedade de entrar na faculdade em 2011, do que não se sabe, do que se vai aprender, tudo cheio de simbologia, Saramago, perguntas. Um se põe a ler e não se reconhece: e isso passa todas as vezes que abro esse moleskine - uma pessoa o fecha, e meses depois outra pessoa o abre, sendo que são as mesmas mãos! Será mesmo que esse fenômeno vai seguir sempre? Será mesmo que as visões e as perspectivas mudam tanto, será que é possível que um passe a vida inteira crescendo e não se exploda porque já não há espaço no mundo (ou nas limitações da carne)? Se for, quantas vidas vivemos em uma 

Hoje a minha visão sobre a medicina é totalmente outra, e é a seguinte, sem medo a digo: todo médico precisa escapar-la de tempos em tempos, todo médico necessita de arte. A arte que seja! Música, pintura, literatura, teatro, cinema, escolham. A medicina é uma tal senhora que lhe sufoca (e não, não importa o quanto você seja apaixonado por ela).

Fiquei de férias depois de cinco longos meses enterrada em livros, sem tempo para abrir um livro sobre qualquer outra coisa que não tratasse de músculos, nervos, arterias, veias, tendões, cérebro, ciclos bioquímicos, fisiologia. 

E se não sobra tempo para a arte?

Se não sobra tempo para a arte -  que classe de médicos nos tornaremos? Por isso venho aqui declarar que basta. Basta, medicina. Eu vou tirar um pedaço de você para ter esse pequeno pedaço que seja de arte na vida.

É isso, caros leitores: a medicina cura, mas te transforma de tal modo que uma imagem abstrata não é apenas uma imagem abstrata, mas se parece a alguma célula ou orgão, ou uma artéria; quando antes aí haviam flores, ou um avião, ou coisas comuns.

Um entra em uma vida com uma pilha de livros e um cadáver - isso nos muda, sem dúvidas. Mas o que nos esfria não são os cadáveres ou todos os tecidos mortos - é exatamente a falta de arte.

Pontuo.