domingo, 20 de novembro de 2011

Uma linha reta é um zigue-zague.


Eles dizem que de um ponto podem partir infinitas retas.

Em teoria, é pura geometria. Na Rússia a teoria é posta em prática de um jeito que bota a paciência de dezenas de pessoas numa panela de pressão até que a panela exploda, a dona de casa contraia uma queimadura facial e paramédicos na ambulância passem a dizer que os médicos que vão tratá-la são os melhores quando eles realmente não sabem se há ali dano em algum nervo facial. Em outras palavras: caos.

Então eu estou sentada em um corredor esperando para tirar uma raio-x de check-up. Há como que três pessoas na minha frente e eu simplesmente sento lá e penso, bem, a partir do ponto que todas elas forem, eu entro, é matemática simples. Chegam mais pessoas. Eu sento, espero, me sinto ansiosa e inútil, com a única expectativa que uma pequena porção de radiação passe, por favor, pelos meu tórax neste confuso dia de primavera (o episódio se passou em meados de Abril). O resto do meu dia não estava planejado, eu acordara apenas pela pequena porção da radiação. A minha vez chegou, as três pessoas haviam entrado e saído e eu me levanto para entrar. Um ser, do qual a existência, apesar da vontade minha ser maior de fazê-lo mais de uma vez, vou ressaltar que é completamente inútil (e eu fico esperando por aqui mesmo que não só no campo da vida de fazer filas mas em qualquer outra empreitada que ele meta o nariz), gentilmente corta a fila, entrando bem na minha frente. Eu não sou uma pessoa de fazer escândalos e normalmente desprezo as pessoas a distância e isso me basta, mas me senti ali mesmo usurpada, uma corrente fulminante de sangue a me correr pela cabeça anormalmente e perguntei, meu senhor, eu cheguei aqui um tanto antes que você, por que você está passando na minha frente? (adicionar um tom passivo-agressivo aqui). Ao que ele responde: você não marcou o seu lugar na fila.

Então eu entendi.

Na Rússia não há a - cultura - de se - estar - em uma fila. As pessoas chegam e perguntam "quem é o último?", ao que um outro ser responde "eu" e ao que o primeiro ser replica "eu estou logo depois de você". O sistema, obviamente, é ridículo, porque dá o direito às pessoas de irem a qualquer outro lugar e fazer qualquer outra coisa que estar na fila, ou até mesmo de ocupar várias filas ao mesmo tempo (no exemplo do hospital, por exemplo).

O que havia acontecido no caso do raio-x é que o ser insignificante havia perguntando quem era o último e um ser mais insignificante ainda respondera que se tratava dele e deu-se a entender que ele então tinha o seu lugar na fila, e eu, enquanto simplesmente sentava ali sem fazer contato humano, não tinha. Acreditem ou não, eu já vi pessoas grávidas passarem por vexame porque não podiam passar na frente de todas as outras. Nesse segundo episódio eu fiquei realmente violenta e dei o meu "lugar marcado" para a menina grávida e saí e fui fazer qualquer outra coisa.

O buraco é muito mais em baixo.

E eu poderia passar a tarde aqui escrevendo sobre casos que envolvem o mau entendimento da pergunta "quem é o último?", ou simplesmente posso escrever que já vi o sistema falhar em filas de banheiro até a filas do teatro Bolshoi (sim, aquele para onde todas as meninas magrelas de Joinville querem ir).

E eu pulo a parte do banheiro e me retenho à fila do Teatro Bolshoi.

Estava tendo essa simpática tempestade de neve, esse é o fundo da nossa história. Estamos na frente do teatro esperando para que a bilheteria abra, acontece que duas horas antes do espetáculo eles vendem ingressos para estudantes ao preço de cem rublos (=R$6), ingressos que outrora custariam números em margens... orbitais. Chegavam todas essas pessoas dizendo que o seu lugar na fila estava ocupado, porque já havia alguém esperando por elas lá na frente. Interessantemente, os habitantes desta mesma fila debaixo de neve e sob frio começam a fazer uma lista numerada com o sobrenome das pessoas, já que a idéia de simplesmente ficar ali em linha reta é complicada demais. Então eu olho para a lista e ela está completamente molhada, esse garoto altamente ignorante começa a gritar com a minha amiga que perdera a paciência há vinte minutos atrás mas explodira só agora. O Senhor Gentil começa a gritar e eu penso uau, gritar com uma mulher, que cavalheiro. A discussão chegou a um ponto que ele ameaçou eu e a minha amiga contra a grade (música de drama aqui), ao que ela replicava que ia chamar a polícia, enquanto tudo isso acontecia eu mantinha a minha plena cara de WTF. Em algum momento ele desistiu de nos prender contra a grade para que não entrássemos na bilheteria e saiu, enquanto eu desejava que ele morresse de câncer de próstata.

Eu gostaria muito de dizer que isso tudo é ficção, mas esse tipo de bruto existe.

Então nós apelamos para a contra-violência e entramos na bilheteria, conseguimos os dois ingressos por seis reais (sim, seis reais por aquele espetáculo que as meninas de Joinville se matam para ir).

Então, Brasil, é isso: apesar do mundo ser mundo em todos os pontos do mundo e de qualquer ponto poder partir infinitas retas, isso não quer dizer que uma reta é sempre uma reta partida desses pontos, às vezes ela se expressa em completo caos, zigue-zague e desentendimento geral em relação a um sistema que talvez afunde este país. Ou estaria eu apenas tendo um choque cultural? Um argumento poderia ser feito de que não, que aquelas primeiras aulas de geometria que eu tivera na vida realmente estão subindo a minha cabeça e entrando em confronto com a realidade. No mais, tirando a falta do completo entendimento do que é uma linha reta, a Rússia consegue ter sucesso em vários outros campos: por algum motivo eles lançaram satélites e transportaram humanos ao espaço antes de qualquer outro país, mas fazer uma linha reta tem se mostrado um desafio de proporção nacional.

Depois de ter minha carteira roubada e ter de aguentar a atitude de um louco que no meu país provavelmente seria lixado pela respectiva atitude, pretendo recuperar minha fé na humanidade em uma cidadezinha em um ponto x da Escandinávia onde vive minha irmã, e para onde está chegando minha mãe e meu irmão.

Se me perguntarem em qualquer ponto da minha vida uma coisa sobre a Escandinávia eu posso dizer: aparentemente lá as pessoas entendem o conceito de uma linha reta. Eu poderia dizer e ir além que isso afeta diretamente no desenvolvimento de um país, mas eu não me sentiria bem chegando a essa conclusão sem um estudo sociológico próprio.

Então eu simplesmente apresento os fatos e deixo ao leitor mesmo tirar suas conclusões (o que também é conhecido como golpe baixo).

Bem, depois de perder minha última parcela de fé na humanidade nós fomos ao Tsum (um shopping de meninas de alte classe em Moscou) e nos deparamos com uns manequins interessantes em uma loja qualquer. Agora, isso não tem absolutamente nenhuma ligação com o que foi discutido acima, mas o que é exótico e não faz sentido ALGUM deve sempre ser dividido, porque o absurdo é extremamente interessante em qualquer contexto, certo?

Em um tempo breve eu estarei escrevendo sobre um final de semana aleatório com minha família na Escandinávia e sobre poemas russos sobre a segunda guerra mundial e uma brasileiros os recitando para russos (e o fato de que um departamento inteiro de língua russa da faculdade além de me presentear constantemente com chocolates usa constantemente o termo "esperança da nossa universidade na etapa nacional da olimpíada de russo). E eu creio que o chocolate seja apenas parte do plano interessante para aliviar o pânico de toda a responsabilidade que isso venha a trazer. Mas é só uma hipótese.

E eu os deixo com os manequins.

Pontuo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Três detetives e nenhuma solução para a vida

A Tv da cozinha está ligada e eu não sei exatamente com que propósito. Há poucas coisas piores que tv brasileira, e é a russa. Absolutamente nada é legendado, tudo é dublado com um monotom que segue por suas duas horas de filme. Às vezes é só um homem dublando todos mudando a entonação da voz (sim, isso existe). Então eu não sei por que exatamente eu preciso dessa Tv ligada, mas talvez seja pela graça da companhia. São 9 da noite de um feriado que eu não entendo completamente o significado, hoje não tive aula e acordei cedo para estudar. Próxima semana tenho deus sabe lá quantas provas, tudo que eu sei é que minha agenda está cheia de anotações como uma pessoa louca. Nunca fui uma pessoa de reclamar infinitamente e me enterrar nessa conformidade de cara feia, o problema é que eu sei que sou perfeitamente capaz de encarar isso tudo, mas com esse inverno que vem batendo a minha porta o level de dificuldade sobe, a vontade de viver cái.

Meus dias não têm sido tão ruins. Na verdade quando a semana começa ruim, ela acaba me surpreendendo pelo final. Semana passada roubaram minha carteira e eu fiquei sem cartão de crédito, documento e passei um longo sábado na delegacia do campus vendo over and over os caras saindo do provador do prédio de esporte nas filmagens de segurança não só com a minha carteira, mas das outras meninas também. Quando eu cheguei ao provador todas elas já estavam gritando e eu vi que não havia sentido em me desesperar... Elas não quiseram ir a polícia então eu fui só. Mas depois que eu cheguei lá e começamos as burocracias eu me perguntei pra quê diabos? Acabei saindo em um carro de polícia com três detetives de volta ao "local do crime", onde basicamente falávamos sobre a política na Rùssia e não sobre o crime (eu apimentaria a conversa dizendo que uma e outra não estão muito separadas...). Voltei pra casa e já estava escuro (os dias se encurtam ridiculamente) e lembrei que no hospital tem gente morrendo por muito mais coisa que a falta de uma carteira. Me acalmei e aceitei a tragédia. Lá pelo final da outra semana os dias ficaram melhores. Passei para a segunda fase da olimpíada de russo para estrangeiros e cheguei em uma sala muito hospitaleira: era uma mesa de conferência com bombons, café e chá. Éramos seis e duas professoras fazendo perguntas sobre os artigos que haviamos escrito para a primeira fase. Meu artigo era sobre como a anatomia da medicina estava longe de ser só sobre músculos e ossos, sobre a profissão que nunca se torna médico, somos sempre estudantes, tentei achar o conceito de conhecimento, botei a alma que não está nos livros de anatomia nem fisiologia, delirei em Platão e deu certo, elas gostaram, agora ali estava eu. A verdade é que eu resolvi participar sem saber exatamente aonde isso ia dar, mas depois de uma semana de cão, às vezes não se negam elogios, bombons e cafés. Começamos às 5pm e saí de lá às 8pm. Ganhei um perfume da Armani e algumas palavras entre "representar a nossa universidade na olimpíada nacional". Liguei para uma amiga no Brasil e nós falamos por quatro horas. Samantha sempre foi parte integrante da minha vida e eu nunca vou conseguir me desfazer dela nem que eu ampute uma perna, eu tenho orgulho disso, nós funcionamos, nós nunca brigamos, nem uma vez para contar história, e agora eu sentava na cozinha só e era como se ela estivesse na cadeira ao lado, minha gato saltava de um lado para outro e nós falávamos das desgraças e graças da vida, das duas coisas com um tom de humor - quando não estamos só é muito fácil de aguentar seja lá o que for, a maior desgraça vira um episódio comico-trágico. Algumas coisas nunca mudam, existem amizades mais sólidas que o tempo... Acabei a semana pensando que não é o tempo que se move, somos nós, não se mover, seguir reclamando é parar de evoluir. Quem quer estagnar? E que no meio do dia achei uma joaninha vermelha na janela e isso me alegrou um tanto, de noite saí com uns amigos para o nosso restaurante favorito do campus, encontrei pessoas mais queridas ainda, apesar da música ruim, elas eram melhores que aquilo, acabei a noite falando sobre restaurações de obras de Michelangelo e discutindo sobre expressionismo e arte moderna com pessoas da ex-Iugoslávia...... Não, a vida não estava tão ruim, afinal.

E quanto tudo resolver voltar ao seu lugar, eu não reclamo, mas por enquanto, vou vivendo a bagunça que tenho na mão, café na outra.

E ontem falava a um amigo, tentando citar Saramago, que "dando-se tempo ao tempo... esqueci", dois segundos depois relembrei "dando-se tempo ao tempo, todas as coisas do universo voltam ao seu lugar", e eu devo concordar com ele que a primeira versão saiu com muito mais poesia que a original... Que dando-se tempo ao tempo e já esqueci.

Deixa o inverno vir, deixa eu empalidecer, deixa que eu amo essa cidade imprevisível do jeito que ela quiser se apresentar, deixa eu sentir a falta do vento do Ceará exatamente às 5.20 da tarde, deixa tudo isso passar através de mim... E essa é a solução que o detetive nunca vai me dar, a consciência de que o Ceará está comigo, faça -30, faça +30. Deixa vir, deixa, deixa.

Pontuo.



terça-feira, 25 de outubro de 2011

Finally awake.

Is this it?, I kept asking myself, burning my tongue with coffee.

Is this everything I believe in?

That was me, as I sat in my kitchen drinking coffee, listening to some Coner Oberst project while the washing machine kept the noise in the background constant. I had just jumped out of bed screaming the word "PANTS" - when you put the real desperation into every syllabe you get the feeling of a normal Monday in Moscow. At least my Mondays. Being a med student was never meant to be easy, but somedays I just wanted to quit. Like I couldn't take that one more. When it was summer I would bike to university, but now it's cold, I'm grumpy and bikes just seem out of place in horrible days in a horrible season. Anyways, I was sticking to that, or at least I kept repeating myself the reasons I had moved here.

So that was everything I believed in: coffee, Conor Oberst and Vanish (well, my white coat was getting somehow whiter and whiter). Everything in that one cenario. I didn't believe in us anymore, which kinda bothered me. We were like this one strong institution, like this world potency and now they're just words.

Then I gave that one crappy Monday a chance. I hadn't anything to give, anyway. I said I'm just gonna live this life here. It's nice. Nice is good. I'll take it. I'll clone you If I have to. Well, this doesn't mean you're replaceable, I'm just underlining that I definitely don't know how to live without you, so this is my sick way to show it.

It's halloween, it's full moon, whatever it is, I'm not looking for a new excuse to start it all over. I'll just take my turn.

I had had my morning rituals, so I was trying to empty my wallet before leaving the house from coins. I hate them. They're worth nothing and they're dirty and I just hate them. And I found this one coin from some bar I used to go to play pool. So I had the answer all along: someday I was just going to find that one coin anyway and would ask myself where did it come from, from which country, which occasion. And then I would remember everything, and laugh alone, like when you know that one street from that one travel or that one bar will never be the same when you come back there the next summer. Like it was all tourism and you can't repeat it all. Or can't even continue where you stopped from. And then I got gladly happy that trying to "unwrap"my earphones was the most complicated thing I had to deal with. And to hell with it, with that one coin was there to see me have the time of my life, I had just found this place in Moscow to play pool with some really nice new people. We reconstruct. We start over. We adapt. It's all too human, it's everything all over again.

And then the concept of love someday will be too strange and I'll be asking myself what was with that one bar I loved back home anyway... That it was just a bar. That was just some months. Like the streets would refuse to witness in our favor. Like there's nothing left to look for.

So this was it, as I left the house, listening to Radiohead, giving a chance to myself, to Mondays - even if both of us were hopeless.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A escravidão reformulada

Ainda não havia Sol lá fora.

5 da manhã.

Repetia o pensamento: sono é luxo, café, café, café... Peguei os livros e levei para a cozinha. Bom dia, escápula, bom dia, esterno. Em três horas deveria sair para a aula e essa pilha de livros era o mais próximo que eu tinha de um café da manhã. Ninguém nunca falou que ser médico é uma tarefa fácil, aliás, é apenas uma redefinição da escravidão no século VXI, é uma redefinição da síndrome de Estocolmo só que com sequestradores que ainda não sabem que vão nos sequestrar e que nós também não conhecemos até cruzarem um corredor em uma maca.

Não sei se eles foram grandes homens, mas sei que fizeram grandes coisas, pensei nisso, enquanto olhava pela janela entre a décima primeira e décima segunda vértebra.

No mês de Agosto quando tive férias acabei de ver "The Tudors" e "José e Pilar" com um atraso da vida inteira, deu tempo de eu ir e voltar da Suécia e trabalhar na AFS para receber os novos oitenta intercambistas que começam a mesma estrada que eu começei há dois anos na Rússia, completando aniversário todo ano na mesma época, e tudo isso se juntou.

Então estava lá eu no aeroporto, exatamente dois anos depois, do outro lado da cerca. Recebi os alemães e os americanos e os levei para o hotel, pelas quantas eu sou apenas uma pessoa e há outras pessoas trabalhando para a AFS por aqui.

Foi uma semana de orientação com esses oitenta novos intercambistas e eu via cada cena se repetir, as mesmas perguntas, as mesmas dificuldades, a mesma cara de paisagem, a mesma reação com a comida russa (a pior).

E eu passara os últimos dez dias numa espécie de viagem do tempo, conversando, orientando, sendo DJ, falando cinco línguas ao mesmo tempo, dormindo pouco. Havia ainda tanta coisa que eu deveria ter dito a eles, tantos conselhos que eu deveria ter dado, mas tudo isso seria inútil, como diz a música que andava em repeat no meu ipod:

"Someday you might listen to what people have to say
Now you learn the hard way"

Poucos dias depois que voltei do trabalho, pelo final do mês, uma amiga italiana esteve em Moscou e depois de um ano nos vimos, nada havia mudado, as nossas piadas ainda eram em russo, nós amávamos a Praça Vermelha de um jeito como só se ama muito e sem explicação. E o mais importante é que nós concordávamos sem muitas delongas que aquele ano fora o ano da nossa vida, não foi o melhor, porque o melhor deve ser sempre o último, mas exatamente aquele ano de intercâmbio definiu tudo que veio depois. Existem esses anos-fio, se é que eles se podem chamar assim.

E foi exatamente aí, depois de Suécia, AFS, amigos de intercâmbio, que me reecontrei, em casa com calma, com Henrique VIII e Saramago, os dois, por acaso, falando sobre a força que é essa força do tempo.

Henrique VIII, digo Johnathan Rhys Meyers, disse:

"O tempo é a única virtude que um homem não pode recuperar";

Enquanto Saramago ao viver uma experiência quase-morte dizia "e se eu morrer agora, não escrevo mais livros, acabou-se".

Não sei se José Saramago e Henrique VIII foram grandes homens, e falo de caráter, mas sei que fizeram grandes coisas. É um erro achar que apenas homens de bom caráter realizam enormes conquistas, nem todo homem deve copiar o tão aclamado caráter de Jesus Cristo; e segundo, ninguém realmente conhece um homem por completo para poder, de fora, julgar-lhe o caráter, se nem ele sabe exatamente o que acontece ali dentro. Então restam apenas os atos, os livros, as árvores que ficam.

E agora que minhas aulas haviam voltado, das nove às oito da noite, em um dia comum toda manhã o assunto sempre vem a tona: quantas horas dormimos na noite passada e se vamos ter tempo ou não de almoçar hoje. As respostas variam de nada a 5 horas e para a segunda pergunta, uma risada com um tom de desespero. A verdade é que não nós incomodamos com nenhuma dessas renuncias, é possível viver qualquer coisa: intercâmbio na Rússia (e não precisa ser necessariamente a Rússia, intercâmbios são, em essência, os mesmos em todo o mundo), seis anos de medicina... Tendo as pessoas certas, sem sono, sem comer. E não temos absolutamente, Henrique, a sensação de estar perdendo tempo dedicando absolutamente todo o nosso dia e noite e madrugada ao trabalho de ser médico, e esse, Saramago, é o livro que a gente escolheu escrever. Imagina passar a vida inteira apaixonado por uma profissão que para quem vê de fora, não se imagina dedicando metade do tempo que nós botamos nisso tudo...

E nós sentávamos ali no hospital dividindo umas uvas que alguém tinha trazido, não importava e não importa da onde todos nós viemos, pessoas são só pessoas e são muito mais incríveis quando aprendemos a ignorar a nacionalidade de cada um. Já morei em tantos lugares e talvez eu realmente não tenha um senso de direção e não saiba andar pela rua da maioria dessas cidades, mas as pessoas são impossíveis de esquecer. Eu lembra de cada ruela e cada beco de cada conversa, cada defeito, cada qualidade. O caminho está nas pessoas, esqueçam o asfalto.

E nós fazíamos piadas estúpidas com termos de anatomia em latim, ríamos dos anos que vão vir, porque é tão óbvio que nós faremos tudo isso juntos - e é isso que importa, não o lugar, nacionalidade, mas sim as pessoas.

Pessoas são somente pessoas. Esse pensamento me deixa absolutamente contente, e a cada vez que penso nele, e a cada vez que ele se confirma. Sempre pessoas.

O telefone tocou às 2 da manhã no Domingo, daquele Sábado que começara às 5 da manhã, e ele me perguntava se eu ia dormir hoje. Olhei para os livros na minha frente e nós decidimos não estudar aquela madrugada de Domingo. Nos encontramos e vimos um documentário sobre uma cirurgia de separação de bebês siameses que durava vinte e três horas, cortamos rins de vacas que acharamos no supermercado 24h para procurar veias, se isso não era viver aquile que se ama, então nós não saberíamos qual era a sensação de ter escolhido a profissão certa se não fosse essa.

Passe o tempo que passar, o sono que não vai ser dormindo, mas a virtude de alguns homens é exatamente usar o seu tempo, a sua medíocre vidinha, para aquilo que se ama. A virtude não tem de ser exatamente o tempo, a virtude é a capacidade de fazermos decisões, a virtude é usar o tempo.

Nós pertencíamos ali, naquele Domingo de insônia por opção, eu não tinha dúvidas. Nós certamente não tínhamos todo o tempo do mundo, mas tínhamos uma vida inteira que queríamos viver, insone, se fosse o caso...

Pontuo.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Ou quase exatamente


Ela não podia ir lá fora, algum ser desfigurado na noite passada havia personificado os medos de uma criança. Se era vermelho, não lembrava, a verdade é que o era e isso já corroia, independente da geometria e aquarela que viesse a adotar. Pôs-se a chorar, não sabia da onde vinha aquela vontade incontrolável de simplesmente berrar e resgatar gotinhas do mar. A verdade é que respirar ficava mais fácil. E ela repetia a sensação de medo dessa memória de nove anos atrás. Há pouco tempo fizera dezoito. Tudo parecia tão longe e tudo era uma eternidade, com barreiras, mas ela insistia em chamar aquela linhazinha do tempo que era a sua vida de eternidade com limites - fosse lá o que isso queria dizer.

Lembrou-se daquele dia longíquo num bairro de infância que pela mania humana de romantizar o passado, a recordava de uma infância com muita neve, rinite na primavera, a chinesa magra demais que vendia comida em caixinha, joelhos ralados e casuais furtos de batata frita da fábrica não muito longe, mas que valia a batata frita só pela aventura e a pequena sensação de estar ali em um grupo que furtava batata frita.

Hoje provara, envenenara-se, amara para sempre tantas vezes, chorara rios em uma quarta-feira de Sol e se pôs a nadar neles logo após. A questão é que o tempo, o limitador, havia a transformado, não em essência, a quantidade de matéria nela era a mesma, mas havia tudo se agregado de tal forma que apesar de ser composta pelas memórias imutáveis e cicatrizes no joelho, era outra ou apenas crescera, ou apenas chorava menos. Que agora quando se cortava pensava em hemoglobina e fatores coagulantes e não no imediatismo de como aquilo doía e sangrava, e simplesmente sangrava.

Em pensar que chorara pelos maus dos mundos - e imediatamente se corrigiu - as doenças crônicas do mundo, o imutável. Por dois segundos se pôs a apontar o dedo a igreja católica que ah, como era fácil propagar uma religião que personificava o bem e o mal, não exigia nenhum pensamento mais profundo de quem tinha a mínima vontade de acreditar em algo. Desde que o tempo é tempo o mundo vem vivendo sob as mesmas leis, e da gravidade e dos lirismos. É verdade que em constante mutação geométrica, mas nunca diminuindo-se ou aumentando, como escreveu Saramago "houve uma época de niilismo mais ou menos líricos, mais ou menos sangrentos, mas o que temos hoje pela frente é terrorismo puro e sangrento". E agora iria encontrá-lo, ajeitava o cachecol, calculava nós, em auto-piloto seguia pela porta para o seu lugar favorito da universidade, provavelmente os dois iriam querer deixar claro o quanto sentiam a falta um do outro, mas o sentimento era simplesmente repetido. Não, queria sim estar com ele, mas sentia falta do coração batendo forte e dos casuais dramas e dos rios de lágrimas numa quarta-feira. Havia se tornado uma pessoa tão compreensível que antes de explodir mastigava e digeria tudo dentro de si, e o resultado era apenas a maldita compreensão e praticamente nenhum drama - queria saber explodir de novo, quebrar móveis e socar pessoas.

O amor se repetia, tudo se repetia. Confissões de amor? Mecanismos contra o tédio (jurara que lera isso no dicionário, ou será que vivera isso demais e a nova definição sobrepusera a do dicionário? Camões se revirava). Vivera relativamente pouco e parecia que havia lido o livro da vida inteiro e agora apenas se punha a reler, não despertava as mesmas coisas, não chorava mais quando espetavam a mocinha com uma lança. Era apenas a lança, agora, e apenas a mocinha, que na verdade merecia a lança. E ficava ali do lado dele, ah, poderia numerá-los, o olhava nos olhos pensando que ele era lá o número trinta e dois, e tentando sentir tudo de novo, mas sabendo como seria a sensação de cada sentimento que estava por vir. Que na verdade amar não é questão de amor, mas questão de cronometragem, de querer as mesmas coisas e ter tempo. Se ele levantasse ali e agora e dissesse um adeus da forma mais indiferente possível, ela não choraria e apenas replicaria: adeus, trinta e dois.

Crescer, pensou, é aprender a parar de chorar, é andar em direção a total petrificação. Que as crianças choram e se livram de toda a toxina das gentes e das coisas, mas como entendem pouco sobre o tempo e a duração da vida e as coisas que devemos ser no meio disso tudo, não se esforçam em manter o hábito, até que quando sabemos muito, vivemos demais, não nos repetimos a chorar pelas mesmas coisas, é aí que paramos inteiramente de funcionar, como se aquela aguinha do mar fosse o combustível, não deixasse enferrujar. E finalmente nos petrificamos, mortos, viramos pedras.

Pensar que antes tinha essa visão da sua própríssima versão de si mesma adulta, e ela parecia mais esguia e fosca. Chegando finalmente a esse ponto da vida, onde ser adulta significa mais ou menos que da próxima vez que faltar leite em casa ele não vai ser comprado por mais ninguém senão você e usar o seu tempo livre para escovar os dentes, não imaginara que seria exatamente a mesma, a mesma que acordara a nove anos atrás com medo do vermelho. Morava no vermelho-Moscou agora, qual era a diferença? Não era mais esguia, sequer de qualquer forma fosca - essas idéias pareciam absurdamente pensadas. O eu-lírico ainda reagia a dentes de leão, só que sem tempo para assoprá-los, apenas para correr passando por eles atrasada para algum lugar. A sua versão adulta não era nada de incrível ou diferente ou mutado, era simplesmente ela. Nem sua voz havia mudado. Ainda cantava mal. Ainda se cortava o tempo inteiro. Ainda escutava a mesma banda de nove anos atrás. Ainda usava a mesma mochila que usara para ir para a primeira série - agora estava na faculdade. Ainda gostava de guardar fotos de pessoas queridas na carteira. Ainda lia livros de anatomia e preparava aparatos com sulfato de amônia - exceto que agora ela não lia "Como construir o seu próprio Frankeinstein, uma aventura" e sim "Anatomia e Fisiologia Humana", e não tinha mais o kit de química com o qual gostava de passar o recreio só, se queimava com ácidos numa escala diária. Ainda não gostava de pessoas e passava os intervalos não gostando e com pessoas selecionadas. Ainda gostava, na maior parte do tempo, de ficar só lendo ou de ir andar de bicicleta - exceto que agora não ia roubar batatas mas ia despretensiosamente ao parque que fica ao lado. Ainda era cheia de manias e obsessão com horários e anotações. Ainda queria quebrar móveis e socar pessoas, apenas havia direcionado isso para uma arte macial. Ainda não era católica e ainda amava uma mesa de natal. A única coisa que havia mudado a agregação do que a compunha fora amar demais.

Ainda era, quase exatamente, a mesma. Ainda vagava pelo vermelho. Ainda.

Continuou sentada olhando o prédio mais colorido do bairro junto a ele, o estádio na frente cheio de pessoas correndo e o campo de futebol... As cores da primavera... procurando novas cores, mas a aquarela se repetia e se repetia. Beijou-o, deitou a cabeça no seu ombro, fechou os olhos e criou uma nova variação de vermelho, simplesmente para se satisfazer e se convencer do contrário, que não crescera, que o amava como nunca havia amado ninguém. Sim, deveria ser isso.

Ou quase exatamente.

Sim, sim, sim...

quarta-feira, 30 de março de 2011

As minhas gramas são mais verdes



Fazia dois meses que eu estava na Rússia e tudo e todos ainda eram ETs se aproximando por um contato de quarto grau. Eu poderia divagar sobre a sensação de ser uma expatriada, mas seria tão inútil como descrever o gosto de chocolate, com tantos sentidos envolvidos. E lá eu estava, na frente de toda a escola recitando um poema no Dia dos Professores, que é realmente importante na Rússia. Eles podem até não ganhar bem, mas o respeito que recebem dos alunos é infinitamente maior que no Brasil. Dirigir-se a eles apenas levantando a mão, e pelo nome e patronímio (o segundo nome de todo russo: nome do pai + sufixo OVA ou VICH se, respectivamente, você for mulher ou homem). Os alunos haviam preparado um verdadeiro espetáculo, a platéia era pequena: apenas a equipe de professores, e o backstage se apertava com todos os alunos da escola. No dia anterior eu havia passado cinco horas andando em círculos aprendendo um poema que recito até sob remédio de dormir, ainda hoje em dia. Skol'ko vesen uzhe proleteli, etikh let nam ne ostonavit'... A verdade é que na minha twisted mind, tanto no Brasil quanto na Rússia, o mínimo de respeito que eu poderia ter de qualquer professor sempre significou o mundo pra mim. Recitei o poema ao ritmo que os professores esbugalhavam os olhos: a brasileira realmente o fez. Em todos os cinco ou seis, já não sei mais, colégios em que estudei, em qualquer dos três países que nomadiei, fui a geek com sono, tédio e que passava os recreios ora com dois amigos fiéis e únicos, na biblioteca tomando chá com a bibliotecária ou na sala dos professores.

Depois ninguém sabe da onde vem a minha falta de compreensão quando alguém vem dar em cima de mim esses dias, tudo o que eu vejo é uma daquelas pessoas que eu tinha asco por no recreio. Nunca sofri bullying, mas nunca consegui ser compatível com 98% do colégio nem por trinta minutos todo dia. Eu sempre tive sóbum amigo em qualquer colégio, e ninguém queria passar o recreio discutindo física quântica ou falando sobre Brontë.

Por miúdos, li um artigo que fala sobre a retirada da matéria literatura do vestibular russo como matéria obrigatória. Lá funciona assim: do curso que se escolhe adiciona-se duas ou três matérias ás matérias obrigatórias a qualquer curso, que na minha epoca foram russo, literatura e matemática. No episódio do Dia dos Professores sei que eles só caíram para trás porque só meia dúzia dos alunos russos deles mostraram o interesse em literatura russa que a recém-chegada brasileira mostrava. Na minha sala de aula de literatura russa, meus colegas de sala preferiam ajeitar suas maquiagens ou falar do ultimo jogo de hockey que dar valor á literatura que o mundo inteiro caia de joelhos. Imagino, agora, a felicidade deles que literatura não é mais obrigatória. Infelizmente esse padrão não se repete só na Rússia, sinto que temos mania de sermos xenófobos em relação ao nosso patrimônio cultural. No Brasil foi o fim do mundo quando começamos a ler José de Alencar, ninguém "agüentava" a obra do homem que cimentou a cultura do Ceará dando ao índio o seu merecido posto de protagonista. Ninguém nunca havia se dado o trabalho de ir ao Memorial da Cultura Cearense no Dragão do Mar além da vez eles haviam ido em uma excursão com a escola na terceira série.

Acho importante saber se interessar pela cultura alheia, mas acima disso, saber defender a sua própria como tese. Uma vez a professora se literatura russa nos pediu para pesquisarmos um poema sobre amor, é lógico que me virei para Camões. Primeiro procurei uma tradução, que por sinal era excelente. No dia da apresentação, ela só chamaria alguns alunos. Fui chamada, comecei falando: "Esse é o Pushkin da língua portuguesa", e jogue a primeira pedra quem não der ao Luís o título de patrono da nossa língua. O que quero dizer é que Pushkin, Camões, Shakespeare, Goethe - eles sentam lado a lado, mas são únicos a cada língua. E é mais que comum não ser dado valor ao próprio patrono. Lembro que eles amaram o poema que eu recitei, em português e em russo, mas quando uma colega foi recitar Pushkin, todos suspiraram de cansaço - logo o homem que resolveu dar importância a língua russa quando todo mundo só queria falar francês. Nenhum desses escritores que citei são melhores um que o outro, são imcomparáveis.

Não é gostar, é simplesmente admitir a importância. Literatura é a identidade de um povo, sociedade, o que seja. E quem não sabe o que é, náo se dê nem ao trabalho de -ser-.

Não condeno ninguém, acho que tive a chance de morar em várias diferentes gramas e soube dar valor a cada uma, ao ponto de ainda andar com com uma câmera em uma cidade na qual morei sete anos. Quanto àqueles que não observaram sua grama do lado de fora, a solução é esperar que um dia saibamos admirar mais o que é nosso que o dos outros. A grama tem que ser mais verde do nosso lado, é uma questão de ponto de vista.

Pontuo.

quinta-feira, 24 de março de 2011

A hora

É muito difícil se empacotar e se mandar assim, no ritmo da maré que a chuva formou. Mas a minha crescente antipatia e falta de movimento me certificava o tempo inteiro, enquanto eu fechava as caixas, que a hora já tinha chegado e só estava me esperando. Eu estava sentada no chão, cercada por sete caixas cheias de livros, perdida em pensamentos, fazendo uma piada repetida de como aquilo era uma imagem para o tumblr. Tenho repetido muito essa piada. E o que realmente tinha me levado até aqui... As pessoas me perguntam o tempo inteiro e eu, quando sem vontade, digo que quis. A verdade é que primeiro de tudo, quis, sim. Mas antes do querer eu queria também outras coisas. Porque eu iria fazer jornalismo e me decepcionei antes de começar. E todos aqueles livros me lembravam que, para escrever, para ler, eu não precisava ser uma jornalista. Eu precisava simplesmente lembrar quem eu era, e tentar tirar uma foto parada disso no meio da inconstância. Aos quatorze anos, indo para os quinze, eu estava cozinhando essa carne e percebi que gostava daquilo, de ficar mexendo na carne. Daquela situação eu poderia ter tirado várias conclusões: 1) O fato de que eu realmente gostava de cortar e ver o sangue sair me iniciava como serial killer; 2) Eu tinha um dom para culinária; 3)Eu poderia ser médica e além de ver a carne, a carne se mexeria. E what the hell, quais eram as chances. A decisão de quatro anos atrás já tem forma e eu gosto do que vejo. As caixas se empilharam, eu me compactei para caber nos limites da tarifa do vôo.

Terça-feira vou visitar meus avós e chego sexta-feira em São Paulo. Dia oito de Abril, a sexta-feira depois daquela, dezoito horas depois, no dia nove, estou em Moscou. Durante e enquanto isso, vou escrevendo sobre esses dias e o que mais vier a minha cabeça.

É hora de ir, a hora já me chamou.

Pontuo.

Poema ao meu décimo oitavo aniversário

[Foto boba para uma data boba com um mês de antecedência]

Padrões que seguem
são os
padrões de mim
contados dezoito vezes -

Pixo os muros
cometo delitos
antes que a doença
de ser adulto
me abata
para sempre
grito nomes
recito amores
em breve levanto vôo
e quando eu voltar
não vou saber seguir
os mesmos
ventos

O meu décimo
oitavo
aniversário
é uma linha
sem volta
E eu vou tentar levar
o que der
de mim

Mas quando eu voltar
tenho limite de peso
E venho só com o necessário
Simples
E quando eu voltar
vou ter me amontoado
em outras idéias
e não verei mais a linha
cruzada

Quando eu voltar
não vou ser eu
Vai ser o décimo
oitavo
padrão
de mim

E sem nenhuma
modéstia:
confesso
que vivi
o Ceará
dentro de mim.
Latitude longitude
de sete anos
enfileirados
confesso que cresci
vivi
aqui.

O resto vai
rasgando
rasgando
a carne.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Vácuo de você

acho que não te achei
por completo
porque você se esvaireceu assim
sem permissão

que corta a rua como quem corta
o caminho fácil
faz desvio
ri alto sem vontade
se cerca de todo mundo
que pareça vazio
o suficiente

quero o seu nome
completo
te quis
por completo
mesmo assim

às vezes nem sei
se você existe
ou se é algo
que eu simplesmente
quis

e eu não te quis (a
só quis o vácuo (idéia
para tirar férias (de você
de mim

tão vazio
que morreu
em vida

tão vazio
que eu acabei só
(te imaginando)

sou assim
apaixonada
pela idéia
de amar

nunca amei ninguém
só o querer alheio
só a disposição alheia
de querer
me amar
para sempre
nem que seja agora

não te amei
só te imaginei
em toda a forma do
meu
querer
amar
imaginar
por completo

procura-se quem
quiser
ser amado
assim
só para personificar
o meu amor
pela pela paixão
do meu vício

e no final
quem eu estava procurando
não será você
eu só
te
imaginei
pior que platônico
eu amo a idéia
e o amor
é um vírus
que só quer
se alojar
achar casa

o amor sou eu,
meu amor
eu sou o
amor



domingo, 27 de fevereiro de 2011

Hipertextualidade dos chaveiros

[Esse post falta linearidade de pensamento]

Um pequeno pinóquio da Itália. Uma coisa da estação de trem Kazanskaya de Moscou. Um touro de Madrid. Um medalhão de Kirov. Um urso com uma blusa escrito 'London'. Uma minúscula boneca tirolesa. Um mini, mini, mini chimarrão. O brasão da polícia de New Jersey, de um career day. Uma miniatura que esbanjava a riqueza de Monaco e Monte-carlo. Uma mini gôndola me lembrando de Veneza. Um cachorro Bernardo com um barril de bebida e uma camisa com a bandeira suiça. Pelo menos cinco tipos de Mickeys. E mais uns tantos, a caixa começava a ficar pequena.

Eu precisava me proteger. Quis casulo. Isso era eu, mexendo na caixa das botas que eu tinha comprado no inverno passado, que em um ataque de euforia de verão, joguei fora assim numa lixeira no meio da rua, botando havainas. Na caixa verde musgo, chaveiros dos noventa e cinco cantos do mundo, uns com nomes de ex namorados (amei mais de dez vezes pra sempre), mas imprescindívelmente, todos contando histórias. Fui guardar o mais novo chaveiro irlandês, presente de uma amiga que foi colonizar Dublin... Eleito a chaveiro da chave da minha casa, porque nunca se tem demais da Irlanda. Os chaveiros, longe, não cumpriam a sua única função de existir como chaveiros, souvenirs. Eles falavam, lembravam, reviviam, contavam, despertavam, arrancavam sorrisos de canto de boca de quando éramos felizes, ou éramos felizes de outro jeito, e que somos felizes de outra forma e cor agora.

Como um chaveiro, nem uma palavra quer ser só uma palavra, vem a tona querendo ser auto-relevo, viva, em toda a liberdade da função de ser uma palavra. Lembro que uma das primeiras palavras que aprendi a escrever foi "melancia", parecia gigante, uma estrada. Não lembro da primeira conta que fiz. A matemática me passou alheia, não deixou impressões... Mas as palavras sempre andaram vivas, nunca somente impressas ou escritas. Lembro do impulso de querer comprar um livro, de abusar do que eu acabara de aprender: ler. E as barbies que me perdoem, passei direto. Fui mais a fundo da própria definição de "hipertextualidade" para pensar sobre isso...

Segundo definições, hipertextualidade é a capacidade de um texto de oferecer a não-sequencialidade, caminhos e uma ordem que o leitor possa criar. O texto dentro do texto. Na atualidade, isso se aplica a livros eletrônicos com hiperlinks e uma leitora, digamos, personalizada. Isso não é de hoje, quem leu "O jogo da amarelinha" ficou louco e notou, mesmo sem conhecer a palavra, a hipertextualidade da coisa.

Ou quando uma palavra oferece um caminho que cabe o leitor ignorar, como ignorara as barbies, ou de ir andando na estrada da palavra "melancia".



Todas as linhas de pensamento me levam a crer que os sumérios não tiveram a menor idéia de ondem estavam se metendo, com essa coisa de escrever, simplesmente escrever, não falo de fazer literatura. E foi quando eu resolvi questionar a civilização da roda, da escrita, os sumérios. Não imagem um talkshow, eu me sentiria idiota. Em o "Estandarte de Ur", o primeiro HQ da humanidade, não foi intencionalmente uma obra de arte, mas apenas a contação de história, e a contação de história não foi só a contação de história de vitória do Grande Rei, foi a ostentação do poder, foi a hipertextualidade do primeiro quadrinho da história. A coisa dentro da coisa, dentro de outra intenção. Foi isso que eu entendi e comecei a ver o conceito matrioshka em tudo quanto é lugar. A idéia dentro da idéia. A intenção dentro da idéia. A vida é toda hipertextualizada e não sabe. A coisa de fazer a história como nos apetece. E eu fiquei tão obcecada com a coisa que achei ter achado a resposta pra vida (lógico que não).

Então eu notei que imagens poderiam também ser hipertextuais. Quero dizer, mostrar uma coisa e oferecer variados caminhos de entendimento da coisa. Como o Estandarte dos sumérios. Mas olhando ali pra caixa, percebi que os chaveiros falavam mesmo e que eles, sabe-se lá por que eu deixei, me definiam. Eu tenho essa teoria que todo mundo tem a escolha de se definir em uma frase "Meu nome é Rianne e eu tenho uma certa obsessão com impressionistas", a segunda oração poderia ser qualquer coisa, mas ainda mais sinteticamente, as pessoas podem escolher uma palavra para se definir, uma palavra da qual vai partir toda a hipertextualidade de sua definição. A minha poderia ser Norte, ou Girassol. Ou Direção, ou a falta dela, mas creio que seja mesmo Bússola.

E eu vou para a faculdade com a mesma mochila que eu ia parar a segunda série do fundamental. Talvez eu não tenha mudado tanto, mas eu vi muito e não amei pouco. Absorvo, vira exoesqueleto e eu absorvo de novo, só mudo o chaveiro... Dentro sou a mesma. Não mudei, talvez só faça mais força para evitar alguns defeitos, e o mesmo para as qualidades. No fim do dia, a nossa bússola aponta para o mesmo norte, os exoesqueletos se acumulam, mas a direção continua sempre para o norte.

E por isso eu precisava do casulo. Me proteger. Do casulo nasço de novo e produzo outro exoesqueleto. E quantas vezes for necessário, até eu chegar sabe-se lá onde o norte tenha fim.

Alguns dos meus casulos têm nome, sobrenome, outros têm latitude e longitude, outros têm formas de abraços, outros guardam ruguinhas de sorrisos. A verdade é que não jogo fora nem a mochila, nem me desfaço dos chaveiros porque quero que eles estejam sempre ali para me lembrar que não mudei, mas me acumulei, e não planejo implodir.

Pontuo.

[Idéias nascidas da matéria "Inovações no velho suporte", revista da Livraria Cultura do mês de Fevereiro]

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A viagem de Paris ao Ceará


[Madame Déficit, como ficou mal-conhecida, em toda a pompa de sua juventude, época em que Versalhes ainda se servia da sua inocência]

Pelas passagens secretas que ligavam o seu apartamento com o do rei, ela fugiu do povo francês pela primeira vez, com gritos de desejo de morte à rainha subindo pela escada. Fora do mundo banhado a ouro e diamantes de Versalhes, os gritos e a indignação do povo francês finalmente invadiam o castelo, como se todo esse tempo, apesar da Rainha viver em seus jardins no Trianon a céu aberto, nunca tivesse aberto a janela e realmente enxergado (e convenhamos, Versalhes não é Paris). Maria Antonieta, que opinava e tomava lugar em reuniões junto ao rei, viveu de jogatina e idas a festas em Paris, ambos os lados. E no fim, sucumbiu a fofocas e à fome de Paris. A figura feminina junto ao poder naquela época assustava, e diante de um rei covarde e tímido, ela falou alto e foi ouvida, também. Me pergunto se a revolução teria sido inevitável, quando o rei e a rainha tiveram tantas oportunidades de se apresentar frente a Assembléia Constituinte e assinar qualquer coisa que parecesse uma constituição, sua tão pedida constituição, ou seria apenas uma idéia fixa de uma nação inteira? Como se a resposta estivesse em um conjunto de normas, como passos de dança para a harmonia, tão cegos por isso que não viam mais nada. E mesmo assim, esse foi um dos muitos momentos que a monarquia poderia ter sido salva. Me surpreendi com a figura de Maria Antonieta no livro de Joan Haslip, e não sou suspeita pela minha mentalidade contemporânea que pede paz, mas não a condenaria a morte, mas com certeza ela não teria se tornado o ícone que foi sem o contexto do seu fim. Maria Antonieta não fora a única rainha louca por diamantes, mas os quis em um momento histórico que o resto da França queria apenas pão e uma assinatura que tiraria seus poderes políticos, mas não tiraria sua posição. Não digo que a França deveria ter uma monarquia como a inglesa, que é teatral e turística, mas queria ter visto Versalhes cheia por um pouco mais de tempo. E ela ainda vive, não sái de moda...

Tenho praticado um certo nomadismo por bibliotecas ultimamente, ao que o volume de livros que eu já tenho me põe a pensar quando é que eu vou ter a estrutura de levar todos comigo... E tenho descoberto livros que não ajudam na rinite, mas me acrescentam muito. Fui além da Maria Antonieta.

Descobri os amigos do meu pai. Às vezes acabamos por conhecer melhor as pessoas quando conhecemos os amigos próximos, e é verdade que eu vivo disso em relação ao meu pai. Foi em uma noite que nos rendemos a Hitchcock ("Rope" e "Psycho, numa tacada só) - eu particularmente nunca consegiu ver filmes antigos - na biblioteca do avô de uma amiga, que acontecia por ser escritor, que me deu três livros com dedicatórias que foram engolidos no dia seguinte. Barros Pinho é saudosista em relação a sua infância no Piauí, as margens do rio Paraíba, e não precisa ser do Piauí para achar o sentimento de pátria nos versos do mesmo, pois céu é céu em todo lugar, e ele incansavelmente, sempre na dose certa, fala dos céus, do azul. E do azul não só do céu. Eu creio que cada um de nós acabar por adotar uma cor, por ser uma cor depois de uns tantos anos de vida, e é difícil se desgrudar dela e não mostrar preferência, é difícil não admitir que ela sempre esteve ali a vida inteira, se fazendo presente, vivendo junto. Por isso me interessei, já que a minha cor está na palheta dos 12 Girassóis, e é interessante ver o lado de alguém que considera a sua uma cor fria. Aqui alguns trechos que me sinto obrigada a dividir, dos livros "Planisfério - poesia", "Carta do Pássaro" e "Natal do Castelo Azul":

"A lua
tudo mais que sonho
menos que poesia
a lua é profissão
de cosmonauta
que deve ter vida e horário de trabalho"


Especialmente no "Planisfério" há muitos poemas com o tema cosmonauta, e em algum lugar das entrelinhas, de como é estranho ser o primeiro homem mais só do mundo, e não um cosmonauta, vendo o mundo pela janela. Aliás, o sorriso de Gagárin sempre me fascinou e é o cartão postal favorito da minha coleção.

"gagárin
abriu caminho
na indecisão das noites cósmicas
[...]
lá embaixo os homens pequenos
esperam manchetes dos jornais
e o planeta é um passaporte diferente"

"a vida
cápsula de coragem"


Ou ainda sobre a finada Stalingrado, hoje com nome de Volgogrado, uma cidade reconstruída, e a minha experiência de ter estado lá alguns dias me fez amar ter nascido em um país na América que pouco sabe o que são as guerras européias. Havia esse monumento com o nome de todos os mortos, com uma estátua maior ou menor que o Cristo, na mesma pompa.




[Soldados em Volgogrado | Monumento com o nome das vítimas e seus respectivos cargos | Maio de 2010]


" [...] avança soldado leva a alemanha além do volga
[..]
russo nem um passo atrás
e a neve se movimentando sufocando a tirania
e a liberdade ainda agora é uma promessa"


E saindo da temática soviética; lírico.

"se as rosas
se rebelarem
contra os espinhos
haverá muito
perfume pelo ar"

"olha a laranja
olha a banana
olha a saudade"

"o circo que passou
eco do palhaço
que às vezes somos"

"gosto do mar
mistério azul"

"sou poeta
não escrevo
nas nuvens
[...]
poesia toca
o hímen da terra
[...]
a beleza é a pedra
no rígido espaço azul"


Agradeço pelo azul, por sair um pouco dos meus "12 Girassóis" e continuar achando incrível. Invejo tremendamente a biblioteca, preenchida, nunca completa, uma biblioteca não acaba, e fico muito feliz por descobrir assim sem pretensão autores brasileiros de tanto talento. A única vez que tive a mesma experiência foi quando esbarrei com Francisco Carvalho em um sebo. Levei trinta reis para a Bienal, saí com oito livros e com tudo o que havia achado de Francisco Carvalho, que falou por mim, que falou pela cidade de Fortaleza, que falou sobre o meu pai, para quem nunca leu o poema "Chegou a hora, Joaquim", que já postei umas milhões de vezes por aqui. É muito satisfatório saber que tão perto de nos existem pessoas tão interessantes, aliteradas e escritoras de um certo nível que a cada página é uma surpresa não saber porque o mundo já não descobriu a iguaria. Iguaria... Iguaria é achar um bom livro, iguaria é descobrir cores nele. Recomendo a toda alma viva. E honra é descobrir que em algum lugar do tempo, seu pai conheceu essa pessoa, apesar de você não ter tido a chance de conhecer nem um, nem outro da maneira como gostaria. Bons livros unem e reencontram. Quero que minha biblioteca não se complete, assim como a de Barros Pinho, e quero descobrir sempre, sempre iguarias.

Ah, e planos. Planos para meu o aniversário, um dos que corre os risco de ser o último em solo brasileiro por um bom tempo, tenho um rascunho de um Poema ao Meu Décimo Oitavo Aniversário e boas companhias garantidas. Muitos poderiam dizer que minha vida começa agora, especialmente por eu estar me mudando mesmo um dia depois do meu aniversário, mas devo parafrasear aqui: confesso que vivi. Nas palavras de quem sabe mais:

"e vida
quando transformada
em verbo
é uma enorme solução"


Ia falar de Eça, do "A cidade e as Serras", assim voltaríamos a Paris, onde começamos esse post, mas essa conversa vai longe e eu rabisquei o livro inteiro com pedaços de pensamentos. No time for conversation, too much to say. Ninguém imagina a minha eloqüência com um lápis e um livro bom. E aliás, o tema homem urbano já está bem pisoteado por aqui, vou dar um tempo nisso.

E só para ter certeza que comecei esse post em Paris e acabei mesmo no Ceará, para ficar, mesmo estando partindo... A viagem é que é uma viagem:

"não é rotina que queremos
sonhar talvez talvez"


Pontuo.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A cidade sou eu, meu amor.

[Sobre o apagão no Nordeste dia 4 de Fevereiro]


[Dolly no meu lugar favorito do bairro, que hoje virou uma ponte, mas antes eram só pedras e mais hardcore]

Cheguei em casa, saindo do taxi, num tom de desespero, perguntei ao porteiro se eu teria que subir de escadas. Ao que ele respondeu que lógico que sim. Era o Meireles totalmente escuro e extremamente familiar. A idéia de subir doze andares de escada me pareceu insana então resolvi deitar no banco, no escuro, ninguém sendo dono de ninguém, com a minha música e a verdade de que os postes sugam a beleza das estrelas, e que elas foram teto por tanto tempo e só agora resolveram aparecer. Verdade seja dita, naquela seqüência de dias estava faltando só um apagão massivo para continuar na mesma linha de insanidade. Segunda-feira fomos assaltados, por algum esqueleto desses ambulantes viciados em crack na Beira-mar. Cartão postal. Já haviam tentado me assaltar, mas nunca tinham levado nada. E aquelas matérias de jornal de meio-dia dizendo para que você não reaja a um assalto... Eu nunca dei ouvidos. Trocando por miúdos, na sexta-feira, saindo do Muay Thai, dia do apagão, porque agora eu achava que qualquer pessoa queria me assaltar e precisava saber socar e chutar com técnica, saí de casa dizendo para a minha mãe que ia ao Pão de Açúcar comer sushi, que não tinha comida em casa. Era a primeira vez que eu andava na Beira-mar de novo depois do assalto, e pânico é a melhor palavra. Cheguei ao Pão de Açúcar, não serviam mais sushi. Com a fome de quem realmente não havia comido nada o dia inteiro e eram onze da noite, peguei um Nescau e sentei no café, liguei o iPod e abusei do wi-fi. Depois de alguns minutos um homem veio sentar comigo, simpático, e eu teria sido também se não fosse a coisa pós-assalto e a surreal vontade que ele simplesmente levantasse e me deixasse em paz. Fé na humanidade: abaixo de zero. Quando eu já estava só, prolongando a minha refeição-Nescau, as luzes do supermercado se apagaram, e eu só podia pensar que "ÓTIMO. arrastão". Continuei sentada, afinal, o que eram dois assaltos em uma semana, eu lembraria daqueles dias com apreço... A luz voltou em alguns minutos com o gerador, e a minha idéia começou a parecer absurda. Era quase meia-noite, peguei um taxi até o Subway da Beira-mar. As luzes já haviam voltado e eu finalmente conseguiria jantar-almoçar. Assim que pus os pés no Subway, a cidade ficou no escuro, e o que eu não sabia na hora, o Nordeste inteiro. O segurança disse que não era para que eu entrasse, já que eles não iam servir ninguém no escuro. Tive que ficar do lado de fora do Subway, esperando que todos os assaltantes tivessem a boa vontade de me dar um vale-assalto pelo dia. Fiz o segurança sentar comigo na mesa, fiquei lá meia-hora, até ele dizer que o Subway só ficava aberto até a meia-noite. Cruzei a rua e peguei um taxi no hotel da frente, de lá até a minha casa deu quatro reais. Mas se minha vida estiver valendo quatro reais, então que seja. E agora essa era eu, deitada no banco do meu prédio, com fome, no escuro. Pelo menos eu tinha as endorfinas e as estrelas. Sentimento estranho... Nunca vou esquecer de rir ali sozinha, autista, e de amar esse lugar como amei naquele segundo. Seria nossa despedida, uma coisa dolorosa, já que eu e a cidade havíamos nos fundido. A cidade sou eu, meu amor. Lembrei de outro dia quando eu tinha quase uma década de idade, deitada na neve, em New Jersey, fazendo um anjinho de neve, e o sentimento de absoluta felicidade era o mesmo, e que seja dito, o mesmo sentimento reproduzido sobre fome, assaltos, e que nesses dois pequenos momentos eu gostara de estar sozinha comigo genuinamente. As luzes dos carros eram as únicas coisas vivas na rua... A cidade sou eu, eu sou a cidade, meu amor.


[Eu no Arbart, em Moscou]

Bulat Okudzhava, compositor russo, escreveu sobre o Arbat, uma rua de Moscou. E creio que o meu equivalente seja o Meireles. Todo mundo tem esses lugares onde tem-se a impressão de que o vento não simplesmente passa, mas vem te encontrar.
Achei uma tradução que talvez passe a mensagem.

Somewhere around our last destination,
maybe, we'll thank our fate anyway,
only I wish that our homeland's transgression
wouldn't be turned to an idol some day.
Well, never mind, that's the way we are destined,
such is our fate: now we feast, now we fight...
Don't give up hope, hold it out, maestro,
keep meditating and feeling inspired.
Short are the years of our blithe adolescence

We’ve anything at all:
smiles, joys and everything,
one common moon for all,
one summer and one spring.

...Like songs, years go by very quickly.
I've changed all my views and my mood.
The yard is too small for me, really,
I’m going to leave it for good.

A minha maior infelicidade daquele dia foi a luz ter voltado. As estrelas desapareceram e tudo voltou a normalidade. All good, all wrong. Uns minutos depois me ligaram e fomos em uma dessas lanchonetes que funcionam como reposição pós-balada e finalmente jantei-almocei. E francamente, viver essa vida inteira no claro... Dá pra atingir a loucura facilmente.
Pontuo.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Moscou nunca morre


[Verão passado em Moscou, em uma fonte que fica na Praça Vermelha, pryamo vot tak!]

Precisávamos no mínimo falar MUITO e ouvir QUALQUER COISA em português. A distância da definição e do reconhecimento de uma língua materna só aumentava e francamente, a neve consegue piorar qualquer coisa, não importa o que ela seja. Seria uma noite calma no hotel, deixar o booze de lado, então ficamos no quarto vendo Jean Charles, aquele filme do brasileiro que é morto no metrô de Londres porque fora confundido com um terrorista. Na manhã seguinte estávamos em Moscou, depois do atentado ao metrô, as palavras que se podia pegar no ar eram: bomba, metrô, Lubyanka (a estação). Entendi isso quando cheguei a estação, em outro trem, e ela estava cheia de flores. E se eu tivesse acordado mais cedo? Daqui a pouco o Jornal Nacional estaria lamentando a minha morte. Poupei o Brasil disso, gravamos um vídeo na frente da estação (preguiça de upá-lo, mas é uma chacota do tipo "Eu estou aqui na frente da estação e estou viva. Pronto? Viva. Oi mãe"), só para que o Brasil tivesse certeza de que estávamos vivas. Aliás, toda essa coisa de assistir Jean Charles, mortes no metrô...? Ficou na nossa cabeça. Moscou estava vulnerável, quanto a nós, pior ainda.


[Lugar onde ocorreu o atentado no Domodedovo e eu dormindo]

Domingo escrevi no twitter que ia viajar e aconteceu o maior mal-entendido, gente achando mesmo que eu estava do Domodedovo chegando em Moscou. Acontece que eu ainda nem saí do Brasil. E ainda por cima, a Globo faz o favor de relembrar todos os atentados que ocorreram na Rússia, isso quer dizer, recebi ligações de parentes esperando que eu desse um bom motivo para continuar morando lá. Eu não tenho um. O único que eu tenho consiste na hipótese de que a energia do lugar me apazigua muito e a Praça Vermelha é uma das melhores visões do mundo.


[Matt Damon sobrevivendo Moscou, e adiantando o próximo post, com o melhor sotaque de americano falando em russo que Hollywood conseguiu produzir até hoje]

É difícil ser um país com relevância geopolítica, as bombas vêm junto. Não se engane pelo concreto e pelas edificações, Moscou e qualquer cidade na mesma linha é uma selva e o resto é sobrevivência.

E enfim acabei de escrever a última palavra no "Pão-com-açúcar", vou manter o título, mas mudei a história um tanto, por isso deletei o que já estava publicado aqui, e não sei se quero publicar antes de Abril, gosto de deixá-lo assim de molho, até eu sentir que está mais que OK. Não gosto dos meses antes de Abril. Não sei explicar, não gosto das cores deles (sim, eles têm cores). E tampouco gosto de carnaval. Ano passado descobri que era Carnaval quando algum russo me perguntou no corredor se estava todo mundo pelado no Brasil e eu perguntei por que diabos estariam todos pelados.

Fiquem na espera, se ela existir.

Leituras interessantes: "Psicanálise dos contos de fadas", "Mulheres que correm com lobos" e uma edição de capa dura linda dos contos dos Irmãos Grimm. Me joguei nisso e amei. Agora estou relendo Senhor dos Anéis de novo, só para me reafirmar na frente de Harry Potter.


E francamente, Moscou vai sobreviver. Essa cidade já foi bombardeada pelo menos mil vezes antes, recontemos as guerras? Não. A gigante vermelha continua.

Pontuo.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Peixe de asfalto

[Mais que justamente dedicado a todos os moradores do Meireles em Fortaleza]

Well I go to the country to find myself
Crawl back to the city to lose myself again
Under lights this joke is wearing thin
Well it's easy to be a winner when you don't know what you've lost
It's easy to be a believer
In you

Lá fora chove, provavelmente a evolução nos presenteou com mais sessenta e cinco espécies de peixe encontrados única e exclusivamente em enchentes, nadando sobre o asfalto. Que o mundo perdeu o equilíbrio é muito claro: existe uma cratera no final da Abolição, há quem fale em meteoritos mas foi só a vontade da água. E ainda quando falta luz em um bairro inteiro, que não sabe funcionar sem seus semáforos, você realmente se pergunta "what the hell". No entanto, enquanto eu olhava pela janela minuto sim, minuto não, ouvindo música do mp3 e deixando ao léu um computador sem internet e duas horas de bateria, em uma dessas vezes as luzes de todos os prédios começaram a se acender e foi um espetáculo, palavra de quem já viu a Torre Eiffel piscando e se surpreendeu mais com isso. Na verdade, a Torre Eiffel não me causou grandes impressões e não estou sendo cruel. Eu só conseguia pensar no Saramago naquela escuridão e de quantos ângulos é possível analisar um ser humano no escuro. Quando a luz voltou, pareceu-me que voltávamos a ignorância, apesar de toda a coisa da eletricidade ser progresso, mas sempre sinto que no escuro os pensamentos ficam mais claros. À noite. De dia somos mecânicos. À noite tudo depende da lua. Voltava para casa a pé debaixo de chuva, tentando não deslizar nas calçadas de prédios escorregadias e tentando botar algum perspectiva na minha vida tetraplégica, consegui sentir a cidade mais. Se fosse de noite seriam os dois elementos: o escuro e a noite, que nos fazem cavar tão fundo dentro de nos até acharmos o que procurávamos e não sabíamos exatamente o que era. Senti do nada um cheiro de jambo vindo de uma dessas árvores que continuam plantadas para nos lembrar de um pouco da nossa humanidade e desafiando o asfalto, o sentimento se completou. Se a cena pudesse ser reproduzida, eu recorreria a ela como terapia sempre que necessário. É um sentimento de pertencer, as ruas gentis desse bairro que antes de ter um nome oficial, chama-se lar, cada esquina dele. Mas já que isso não é possível, resgtar todos esses elementos ao mesmo tempo, na maior parte do tempo, entregue ao Acaso e às suas vontades onde eu não tenho voz nem tenho a autoridade de chamar a noite, o escuro, a chuva e o cheiro de jambo quando quero, serei mesmo deslocada como um peixe de asfalto, beirando a inexistência. Pontuo.

PS: Depois quero falar da parte russa de hollywood e dos livros que li esse ano, engolidos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O cão que rebolava e outras coisas

[Escrito em meados da primavera de 2010]


[Incrível é descobrir o verde depois de seis meses de branco, em Abril]

Então eu tive que ficar em pé. Depois da conferência, eu sentia que eu tinha perdido aquela energia protetora. Eu andava nos ônibus pela cidade, e ninguém me lançava o olhar acusador ou curioso de espécie única, brasileira. Agora eu sentia que, depois de conferências demais, eu já tinha sido descoberta. E aquele pensamento de achar que todos os tipos aleatórios de pessoas nunca saberiam que cruzaram, nessa vida, com uma brasileira, já tornara-se duvidoso.
Na última semana, tive três conferências. De repente eu sou uma pessoa muito interessante e as pessoas querem me ouvir.
Sem nenhum objetivo, anda pelo centro comercial. Compro meias, calcinhas com tema Rússia (uh?), adesivos de matrioshkas para pregar em ovos para a Páscoa que se aproxima. Não sabia o quanto da minha dignidade e identidade ainda sobravam depois desse domingo.
Elena, a coordenadora que me estendeu a insanidade, ainda naquela manhã me falara sobre o crime na Rùssia. E agora que eu vejo esse Senhor bêbado se aproximando talvez chegue a concordar com ela que o crime aqui é sempre relacionado com alcoolismo.
No começo do século XX houve uma conferência para resolver o tal problema. Ainda acontecem conferências desse tipo, o que quer dizer que o problema existe e custa apenas seis reais a garrafa de vodka.
Comparando com o crime no Brasil, no entanto, tudo isso chega a ser uma coisa muito doce e mansa. Entre drogas e tráfico de armas, o alcoolismo parece a melhor das mazelas. Mas quanto às drogas, não tenho certeza, ainda.
Sentada debaixo de uma árvore em algum dia quando ainda não estava frio demais, ou seja, há algum tempo, em um acampamento, vejo esses dois garotos cheirando algum pó. Eles perceberam que eu olhava, e como que usando de desculpa para falar com a brasileira, apresentaram-se. Eu não disse “prazer”, apenas perguntei “por que a cocaína de vocês não é branca?”, no final das contas, era tabaco, e eles me fizeram tocar umas músicas brasileiras, entre o velho explicar a vida além do futebol e do samba.
Então o senhor bêbado não está mais se aproximando, vou pegar minhas meias e ir para casa. O celular toca.
Mas não foi só isso, os três garotos do acampamento me chamando para ir beber no próximo final de semana, fiquei indagando, sem saber se é só juventude, ou alcoolismo.
“Dentro de uma hora”, respondi a Tanya, que me perguntava que horas eu iria para a academia. Era só uma estimativa.


[Em Fevereiro me juraram que estávamos na primavera]

Os algodões-doces se misturavam no azul anil. Tudo se misturava num céu de primavera. De ter cruzado o oceano e os fusos horários e se encher do sentimento em português de saudade, o desafio dos poetas. Camões pode ter morrido tentando. Notícias do mundo de lá, que agora vinham no meio de comunicação que é a voz da minha avó.
Hoje é domingo, pé de cachimbo, o cachimbo é de ouro, que deu no besouro, o besouro é valente, que deu no tenente, o tenente era fraco, caiu no buraco, o buraco era fundo, acabou-se com o mundo.
Minha vó cantava, em alguma parte do salão oval da minha mente, de vestido rosa, assim como eu a vi pela última vez, em Teresina, o termômetro indicando 32 graus, eu dentro do ônibus e olhando pela janela, e ela de vestido rosa.
Talvez eu nem devesse estar ouvindo vozes, afinal.
E o que era alegria e céu limpo, transforma-se em neve e irritação. Dois passos mais e eu entro pela porta da academia.
“Essa vida que nós levamos”, falei ao encontrar com a Tanya na academia, “é uma vida de semi-deuses”, sobre por que diabos nos botam em conferências e por que diabos russos se surpreendem que nós falamos russos se isso é só uma obrigação.
A verdade é que as pessoas sempre esperam a burrice de você, mas se você chega mostrando algo além de burrice, então já é motivo para surpreender um público. Era como se eu tivesse escalado o Everest. Talvez aprender russo não seja tão diferente. no fim do meu caderno havia desenhado um Everest, na última folha, talvez seja isso mesmo. E realmente, a última vez que eu havia checado, apenas um pequeno grupo de pessoas havia realmente chegado ao topo do Everest.
O meu pé me dizia que a minha joanete poderia me transformar num curupira. Como a idéia me repugnava, pus os sapatos logo.
“Talvez esse seja o sentimento de chegar ao topo do Everest”, Tanya concluiu, ficando vermelha, roxa e amarela levantando um peso, “talvez seja esse o sentimento de chegar ao topo do Everest, em russo”.
Viver a vida sob o alfabeto cirílico parecia estranho de fora, mas para quem tinha chegado ali ao topo, se não fosse desse jeito, não faria sentido. Alguns sentimentos não se traduzem.
Há tanto de cultura dentro de uma língua que a existência da profissão de tradutor de qualquer sorte é uma negação. Talvez tenham traduzido a palavra “mir” que significava “mundo” e “paz” ao mesmo tempo, do título de Tolstoi errado. “Guerra e mundo” ao invés de “Guerra e paz”. Guerra, paz, mundo...
O mundo lá fora, impossível passar um inverno russo sem sentir falta de verão brasileiro.
“Escrevi uma carta ao meu pai”, cortou a minha linha de pensamento, Tanya.
E eu sabia que existia ainda esse romantismo incondicional no ato de escrever cartas, mas já tinha inventado o e-mail...
“Ele não tem computador”.
“Ele mora em uma caverna, também?”, falei, da bicicleta. Eu estava terminantemente proibida de correr, jogar futebol, lutar karatê, dançar balé, andar na ponta do pé como eu fazia até os sete anos de idade, e tudo que usasse as extremidades do pé. Eu ia levar esse estilo de vida ao túmulo. Pedalar até a morte.
“Toda essa coisa,” continuei, “de aparência e estoque de gordura, talvez nós devêssemos viver medievalmente, artesanalmente, vamos,” desafiei, “e me diga um homem das cavernas que era acima do peso. Talvez nós nunca devêssemos ter evoluído, afinal, e ter abandonado essa vida de caçar carne e viver em cavernas”.
“Eu iria caçar frutas, então”.
Por um minuto, palavra, esqueci que ela era vegetariana. Eu não conseguia sentir pena de algo que fora burro o suficiente para deixar-se matar, pelo contrário, botava curry e brindava à carnificina.
“Mas você não comeria seu próprio cachorro”, disse Tanya, era o argumento terminal de qualquer vegetariano.
“E não me venha com esse argumento, eu também não comeria um parente meu, porque eu não preciso, eu vou ao supermercado e eles me dão esse monte de carne já morta e saborosa, eu não preciso matar meu cão ou um parente”.
Ainda na bicicleta, pedalando rápido e indo para lugar nenhum, planejávamos um acompanhamento para vinho para levar no trem para a próxima viagem, doze horas, na Segunda-feira.
Esse garoto estava em pé no meio da sala há algum tempo. E ele não queria estar ali. Ele nos olhava e lançava aquele mesmo olhar que nos julgava semi-deuses por falarmos outra língua. Talvez, pelo corpo magricela ou por achar que não era merecedor de dividir uma sala com semi-deuses, como que perguntasse a Zeus se poderia sentar dois minutos na sua nuvem, foi embora, magricela, desapontado.
“No seu país não é normal perdir desculpa quando se esbarra em alguém?”, quem dizia isso era um ser duas vezes maior que eu e a Tanya juntas, com um “Bound by Honour” tatuado na cabeça careca. No entanto, ele era estúpido em toda a sua existência. Nazistas russos eram estúpidos em toda a sua existência, por simplesmente quererem existir. Então vocês ganham uma guerra contra os nazistas e depois de algumas gerações estão atuando no papel errado. Você está fazendo isso errado.
Então um estúpido cruza a minha vista hoje. Um idiota careca tatuado, sendo estúpido em todo aspecto da própria existência e tatuagens. A verdade é que eu estava mais perto dele e quem tinha esbarrado no mal-comido fora a Tanya. Disse que eu não tinha entendido, mas na verdade não tinha acreditado. Ele repetiu. Olhei para a Tanya... Eu ri, balancei a cabeça. As vezes a vida te bota em um caminho que é cheio de bosta para pisar, e isso é uma merda, o que resta é ir pisando na bosta e rir das cócegas que a bosta faz entre os dedos. Continuei rindo e olhando para a minha alemã. Um riso que dizia “you may not share my intellect, which might explain your disrespect”.
"Eu não defendo e nem abomino, eu não tenho absolutamente nenhuma opinião sobre isso", virei para a Tanya depois de alguns minutos de silêncio e dores musculares, "mas eu sei que o ódio a americanos existe e eu não posso negar".
O estúpido tatuado e nazi viu que falávamos em inglês e só por isso quis mijar para garantir o terreno. Isso acontece com freqüência: nem todo mundo na Rússia acha que a II nem a Guerra Fria acabaram. E qualquer dos assuntos pouco me interessa, a minha nacionalidade me diz que eu nunca estive em uma guerra e que eu nunca vou entender o sentimento de heroísmo ou rancor ou a necessidade de um exército.

[Simpatia russa, we haz it (totalmente contagiante)]

"Aquele cara", continuou, "aquele cara, é um estúpido e eu deveria chutar as bolas deles, mundo estúpido que acha que nós somos americanas só porque falamos em inglês, mundo estúpido que julga sem realmente o direito".
Não acredito na definição de nacionalidade. Eu acredito na existência de culturas, não na de nacionalidade. Nacionalidade é um papel. Sair na rua e ser julgada por causa de um papel? Melhorem as suas ideologias. Eu nunca poderia ser uma diplomata, sou muito suspeita com as minhas próprias idéias fixas.
No caminho para casa, cruzei com o cachorro que pegava o ônibus no outro dia, o reconheci pelo rebolado, e dessa vez ele fez os cálculos errados e achando que entrava pela porta do ônibus, fora esmagado pela frente do mesmo. Achei que aquilo deveria ter me comovido, mas aquele cão não tivera uma chance. Vida de cão. Ele tinha que ganhar as ruas a cada minuto, e a vida já era questionável com o esforço que se faz dentro de quatro paredes... Uma pequena multidão se formou em volta do cachorro do rebolado na parada de ônibus. Tudo aquilo era tão patético porque todos agiam como se importassem. Questionando se a total liberdade de cão era um presente de vó, ou um presente grego, chegamos ao fim da linha.
"Are you from America?", ouvi de algum lugar do ônibus, lógico que não era na minha direção, olhei para a Tanya e ela repetiu o que a mulher tinha dito. Por que ela estava falando comigo? Achei que as pessoas deveriam me odiar porque achavam que eu era dos Estados Unidos.
Guardei minha carteira e virei para ela.
"No, I'm brazilian, and thanks for being the only nice person that has ever talked nicely to me in a bus", lembrei do estúpido na academia e de toda a violência gratuita vinda das babushkas [idosas] nos ônibus.
Fui o caminho inteiro conversando com aquela mulher. Ela era professora de inglês, e eu não consegui ficar brava com ela por dizer "America" ao invés de "USA", o que normalmente me irrita muito. Ela me perguntou do clima, de como eu falava russo, de como ela tinha morado na Alemanha.
"I'm leaving now, it was a pleasure talking to you. Do svidania"
Ela sorriu.
Saí do ônibus, desviando uma poça d´água.
“E aqui nós nos separamos”, disse a Tanya, quando cheguei a esquina da minha casa.
Sentada na poltrona, pensando que eu deveria cortar as unhas, pensando que somos todos filhos de Roma, que ser um vira-lata é... Adormeço.
Vi minha vó dando aquele adeus de vestido rosa e adormeço. Era mais fácil ser expectadora daquele mundo de sonhos a ser protagonista daquele mundo real, acordado e atento e que te julga. Vi o cachorro rebolando pela última vez e minhas cortinas-retinas se fecharam.
Ter um filho, arranjar um trabalho, ter pedra nos rins, divorciar-se, comprar um carro esporte, e eu mal podia sair ilesa em um Domingo... Tudo se misturava. Era um mundo grande, lá fora.
E lesada, pois que seja lesada, havia sobrevivido um domingo, antes de todo mundo no Brasil - nunca me canonizaram, fuso-horário. Adormeci, os meus pés de curupira riam de mim, uma pilha de meias e calcinhas novas fazia sombra em cima da cama.
Porque hoje é Domingo, acabou-se com o mundo...

sábado, 1 de janeiro de 2011

Flor impossível, e ponto.

Estado de espírito: Modern Drift, Efterklang


Hoje entendi que meu pai vai morrer. Não chorei, mas isso não quer dizer que não tenha perdido o chão. É como sentir falta de ser inteira, sentir falta de uma estrutura que eu nunca tive realmente, e o mais, pensar que é impossível saber como é tê-la. Fechei os olhos, ao invés de chorar, vi um mar inteiro, um dia ensolarado, e de repente o impossível, uma flor nascia no meio da areia e eu podia me agarrar ao impossível, era tão real que as pétalas, palavra, eram macias, feito veludo. Hoje entendi que meu pai vai morrer e juntei tudo que eu tinha dele: as lembranças, o rosto que é a xerox, a joanete igual, o temperamento. E vi que apesar de não ter tido a estrutura-pai, depois de ter juntado tudo que eu tinha dele, e que era tudo que eu tinha, do pé a cabeça, literalmente, então talvez eu seja a estrutura, talvez eu tenha tido essa mania de querer ser forte, de querer ser o "açougueiro com a tatuagem de rosa no braço". Nasci na falta, me estruturei assim, na falta. Hoje entendi que meu pai vai morrer, e olhando tudo o que eu tenho, que é tudo dele, entendi que vou sentir a sua falta, que não ser dar um ponto final, que apesar de toda essa prosa, essa história ser invisível para mim, de alguma forma, o ponto final dela vai me afetar com direção em todas as células, que são dele. Hoje entendi que meu pai vai morrer, hoje entendi que, de uma forma entre as formas disponíveis, eu também. Toda a tua força, a própria definição de self-made, toda a tua perseverança em aprender a voar e finalmente conseguir, todo o teu eu, que todo mundo teve a chance de amar, pela cronologia das coisas. Sò porque sofro em silêncio não quer dizer que sofro menos, apenas de outra forma. E chegou a hora, Joaquim de mergulhar no profundo desencanto sem fim dos homens todos do mundo. Chegou a hora, Joaquim, de perguntar pela bomba que foi jogada do céu por cima da tua sombra. Chegou a hora, Joaquim de perguntar pela paz. E esse ponto final, me pontua feito uma faca, que eu posso ter guardado aquela dor ali, que é fácil rir, que é fácil ser feliz a maior parte do tempo, mas quando ela vem, ela vem como se nunca tivesse ido embora, e agora, o silêncio e o mar inteiro e a flor nascendo da areia é a minha única reação disponível, é impossível pontuar quando você esteve o tempo inteiro no meio da história, e não do começo. Pontuar é a impossibilidade, mas talvez pontuar também seja a flor.

(Não haverá bandeira branca, não haverá bandeira branca, só haverá amor, e sempre o houve, nunca houveram dúvidas)

(E a vida inteira, amei sempre o que tive de disponível)

(Obrigada, pai)



(Você é o melhor e o mais distante girassol)

(Não vou chorar, você me mandaria parar, e aprendi a ser forte contigo, apesar de ser fortaleza de cal. Só vou sofrer até onde você deixar).

Com todo o amor do mundo, há dois passos da onde eu não queria estar.