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Postagens

Mostrando postagens de 2011

Uma linha reta é um zigue-zague.

Eles dizem que de um ponto podem partir infinitas retas.
Em teoria, é pura geometria. Na Rússia a teoria é posta em prática de um jeito que bota a paciência de dezenas de pessoas numa panela de pressão até que a panela exploda, a dona de casa contraia uma queimadura facial e paramédicos na ambulância passem a dizer que os médicos que vão tratá-la são os melhores quando eles realmente não sabem se há ali dano em algum nervo facial. Em outras palavras: caos.
Então eu estou sentada em um corredor esperando para tirar uma raio-x de check-up. Há como que três pessoas na minha frente e eu simplesmente sento lá e penso, bem, a partir do ponto que todas elas forem, eu entro, é matemática simples. Chegam mais pessoas. Eu sento, espero, me sinto ansiosa e inútil, com a única expectativa que uma pequena porção de radiação passe, por favor, pelos meu tórax neste confuso dia de primavera (o episódio se passou em meados de Abril). O resto do meu dia não estava planejado, eu acordara apenas pela pequ…

Três detetives e nenhuma solução para a vida

A Tv da cozinha está ligada e eu não sei exatamente com que propósito. Há poucas coisas piores que tv brasileira, e é a russa. Absolutamente nada é legendado, tudo é dublado com um monotom que segue por suas duas horas de filme. Às vezes é só um homem dublando todos mudando a entonação da voz (sim, isso existe). Então eu não sei por que exatamente eu preciso dessa Tv ligada, mas talvez seja pela graça da companhia. São 9 da noite de um feriado que eu não entendo completamente o significado, hoje não tive aula e acordei cedo para estudar. Próxima semana tenho deus sabe lá quantas provas, tudo que eu sei é que minha agenda está cheia de anotações como uma pessoa louca. Nunca fui uma pessoa de reclamar infinitamente e me enterrar nessa conformidade de cara feia, o problema é que eu sei que sou perfeitamente capaz de encarar isso tudo, mas com esse inverno que vem batendo a minha porta o level de dificuldade sobe, a vontade de viver cái.
Meus dias não têm sido tão ruins. Na verdade quando …

Finally awake.

Is this it?, I kept asking myself, burning my tongue with coffee.
Is this everything I believe in?
That was me, as I sat in my kitchen drinking coffee, listening to some Coner Oberst project while the washing machine kept the noise in the background constant. I had just jumped out of bed screaming the word "PANTS" - when you put the real desperation into every syllabe you get the feeling of a normal Monday in Moscow. At least my Mondays. Being a med student was never meant to be easy, but somedays I just wanted to quit. Like I couldn't take that one more. When it was summer I would bike to university, but now it's cold, I'm grumpy and bikes just seem out of place in horrible days in a horrible season. Anyways, I was sticking to that, or at least I kept repeating myself the reasons I had moved here.
So that was everything I believed in: coffee, Conor Oberst and Vanish (well, my white coat was getting somehow whiter and whiter). Everything in that one cenario. I didn…

A escravidão reformulada

Ainda não havia Sol lá fora.
5 da manhã.
Repetia o pensamento: sono é luxo, café, café, café... Peguei os livros e levei para a cozinha. Bom dia, escápula, bom dia, esterno. Em três horas deveria sair para a aula e essa pilha de livros era o mais próximo que eu tinha de um café da manhã. Ninguém nunca falou que ser médico é uma tarefa fácil, aliás, é apenas uma redefinição da escravidão no século VXI, é uma redefinição da síndrome de Estocolmo só que com sequestradores que ainda não sabem que vão nos sequestrar e que nós também não conhecemos até cruzarem um corredor em uma maca.
Não sei se eles foram grandes homens, mas sei que fizeram grandes coisas, pensei nisso, enquanto olhava pela janela entre a décima primeira e décima segunda vértebra.
No mês de Agosto quando tive férias acabei de ver "The Tudors" e "José e Pilar" com um atraso da vida inteira, deu tempo de eu ir e voltar da Suécia e trabalhar na AFS para receber os novos oitenta intercambistas que começam a…

Ou quase exatamente

Ela não podia ir lá fora, algum ser desfigurado na noite passada havia personificado os medos de uma criança. Se era vermelho, não lembrava, a verdade é que o era e isso já corroia, independente da geometria e aquarela que viesse a adotar. Pôs-se a chorar, não sabia da onde vinha aquela vontade incontrolável de simplesmente berrar e resgatar gotinhas do mar. A verdade é que respirar ficava mais fácil. E ela repetia a sensação de medo dessa memória de nove anos atrás. Há pouco tempo fizera dezoito. Tudo parecia tão longe e tudo era uma eternidade, com barreiras, mas ela insistia em chamar aquela linhazinha do tempo que era a sua vida de eternidade com limites - fosse lá o que isso queria dizer.
Lembrou-se daquele dia longíquo num bairro de infância que pela mania humana de romantizar o passado, a recordava de uma infância com muita neve, rinite na primavera, a chinesa magra demais que vendia comida em caixinha, joelhos ralados e casuais furtos de batata frita da fábrica não muito longe…

As minhas gramas são mais verdes

Fazia dois meses que eu estava na Rússia e tudo e todos ainda eram ETs se aproximando por um contato de quarto grau. Eu poderia divagar sobre a sensação de ser uma expatriada, mas seria tão inútil como descrever o gosto de chocolate, com tantos sentidos envolvidos. E lá eu estava, na frente de toda a escola recitando um poema no Dia dos Professores, que é realmente importante na Rússia. Eles podem até não ganhar bem, mas o respeito que recebem dos alunos é infinitamente maior que no Brasil. Dirigir-se a eles apenas levantando a mão, e pelo nome e patronímio (o segundo nome de todo russo: nome do pai + sufixo OVA ou VICH se, respectivamente, você for mulher ou homem). Os alunos haviam preparado um verdadeiro espetáculo, a platéia era pequena: apenas a equipe de professores, e o backstage se apertava com todos os alunos da escola. No dia anterior eu havia passado cinco horas andando em círculos aprendendo um poema que recito até sob remédio de dormir, ainda hoje em dia. Skol'ko vese…

A hora

É muito difícil se empacotar e se mandar assim, no ritmo da maré que a chuva formou. Mas a minha crescente antipatia e falta de movimento me certificava o tempo inteiro, enquanto eu fechava as caixas, que a hora já tinha chegado e só estava me esperando. Eu estava sentada no chão, cercada por sete caixas cheias de livros, perdida em pensamentos, fazendo uma piada repetida de como aquilo era uma imagem para o tumblr. Tenho repetido muito essa piada. E o que realmente tinha me levado até aqui... As pessoas me perguntam o tempo inteiro e eu, quando sem vontade, digo que quis. A verdade é que primeiro de tudo, quis, sim. Mas antes do querer eu queria também outras coisas. Porque eu iria fazer jornalismo e me decepcionei antes de começar. E todos aqueles livros me lembravam que, para escrever, para ler, eu não precisava ser uma jornalista. Eu precisava simplesmente lembrar quem eu era, e tentar tirar uma foto parada disso no meio da inconstância. Aos quatorze anos, indo para os quinze, eu …

Poema ao meu décimo oitavo aniversário

[Foto boba para uma data boba com um mês de antecedência]
Padrões que seguem
são os
padrões de mim
contados dezoito vezes -

Pixo os muros
cometo delitos
antes que a doença
de ser adulto
me abata
para sempre
grito nomes
recito amores
em breve levanto vôo
e quando eu voltar
não vou saber seguir
os mesmos
ventos

O meu décimo
oitavo
aniversário
é uma linha
sem volta
E eu vou tentar levar
o que der
de mim

Mas quando eu voltar
tenho limite de peso
E venho só com o necessário
Simples
E quando eu voltar
vou ter me amontoado
em outras idéias
e não verei mais a linha
cruzada

Quando eu voltar
não vou ser eu
Vai ser o décimo
oitavo
padrão
de mim

E sem nenhuma
modéstia:
confesso
que vivi
o Ceará
dentro de mim.
Latitude longitude
de sete anos
enfileirados
confesso que cresci
vivi
aqui.

O resto vai
rasgando
rasgando
a carne.

Vácuo de você

acho que não te achei
por completo
porque você se esvaireceu assim
sem permissão

que corta a rua como quem corta
o caminho fácil
faz desvio
ri alto sem vontade
se cerca de todo mundo
que pareça vazio
o suficiente

quero o seu nome
completo
te quis
por completo
mesmo assim

às vezes nem sei
se você existe
ou se é algo
que eu simplesmente
quis

e eu não te quis (a
só quis o vácuo (idéia
para tirar férias (de você
de mim

tão vazio
que morreu
em vida

tão vazio
que eu acabei só
(te imaginando)

sou assim
apaixonada
pela idéia
de amar

nunca amei ninguém
só o querer alheio
só a disposição alheia
de querer
me amar
para sempre
nem que seja agora

não te amei
só te imaginei
em toda a forma do
meu
querer
amar
imaginar
por completo

procura-se quem
quiser
ser amado
assim
só para personificar
o meu amor
pela pela paixão
do meu vício

e no final
quem eu estava procurando
não será você
eu só
te
imaginei
pior que platônico
eu amo a idéia
e o amor
é um vírus
que só quer
se alojar
achar casa

o amor sou eu,
meu amor
eu sou o
amor



Hipertextualidade dos chaveiros

[Esse post falta linearidade de pensamento]

Um pequeno pinóquio da Itália. Uma coisa da estação de trem Kazanskaya de Moscou. Um touro de Madrid. Um medalhão de Kirov. Um urso com uma blusa escrito 'London'. Uma minúscula boneca tirolesa. Um mini, mini, mini chimarrão. O brasão da polícia de New Jersey, de um career day. Uma miniatura que esbanjava a riqueza de Monaco e Monte-carlo. Uma mini gôndola me lembrando de Veneza. Um cachorro Bernardo com um barril de bebida e uma camisa com a bandeira suiça. Pelo menos cinco tipos de Mickeys. E mais uns tantos, a caixa começava a ficar pequena.

Eu precisava me proteger. Quis casulo. Isso era eu, mexendo na caixa das botas que eu tinha comprado no inverno passado, que em um ataque de euforia de verão, joguei fora assim numa lixeira no meio da rua, botando havainas. Na caixa verde musgo, chaveiros dos noventa e cinco cantos do mundo, uns com nomes de ex namorados (amei mais de dez vezes pra sempre), mas imprescindívelmente, todos contand…

A viagem de Paris ao Ceará

[Madame Déficit, como ficou mal-conhecida, em toda a pompa de sua juventude, época em que Versalhes ainda se servia da sua inocência]
Pelas passagens secretas que ligavam o seu apartamento com o do rei, ela fugiu do povo francês pela primeira vez, com gritos de desejo de morte à rainha subindo pela escada. Fora do mundo banhado a ouro e diamantes de Versalhes, os gritos e a indignação do povo francês finalmente invadiam o castelo, como se todo esse tempo, apesar da Rainha viver em seus jardins no Trianon a céu aberto, nunca tivesse aberto a janela e realmente enxergado (e convenhamos, Versalhes não é Paris). Maria Antonieta, que opinava e tomava lugar em reuniões junto ao rei, viveu de jogatina e idas a festas em Paris, ambos os lados. E no fim, sucumbiu a fofocas e à fome de Paris. A figura feminina junto ao poder naquela época assustava, e diante de um rei covarde e tímido, ela falou alto e foi ouvida, também. Me pergunto se a revolução teria sido inevitável, quando o rei e a rainha …

A cidade sou eu, meu amor.

[Sobre o apagão no Nordeste dia 4 de Fevereiro]


[Dolly no meu lugar favorito do bairro, que hoje virou uma ponte, mas antes eram só pedras e mais hardcore]
Cheguei em casa, saindo do taxi, num tom de desespero, perguntei ao porteiro se eu teria que subir de escadas. Ao que ele respondeu que lógico que sim. Era o Meireles totalmente escuro e extremamente familiar. A idéia de subir doze andares de escada me pareceu insana então resolvi deitar no banco, no escuro, ninguém sendo dono de ninguém, com a minha música e a verdade de que os postes sugam a beleza das estrelas, e que elas foram teto por tanto tempo e só agora resolveram aparecer. Verdade seja dita, naquela seqüência de dias estava faltando só um apagão massivo para continuar na mesma linha de insanidade. Segunda-feira fomos assaltados, por algum esqueleto desses ambulantes viciados em crack na Beira-mar. Cartão postal. Já haviam tentado me assaltar, mas nunca tinham levado nada. E aquelas matérias de jornal de meio-dia dizendo par…

Moscou nunca morre

[Verão passado em Moscou, em uma fonte que fica na Praça Vermelha, pryamo vot tak!]
Precisávamos no mínimo falar MUITO e ouvir QUALQUER COISA em português. A distância da definição e do reconhecimento de uma língua materna só aumentava e francamente, a neve consegue piorar qualquer coisa, não importa o que ela seja. Seria uma noite calma no hotel, deixar o booze de lado, então ficamos no quarto vendo Jean Charles, aquele filme do brasileiro que é morto no metrô de Londres porque fora confundido com um terrorista. Na manhã seguinte estávamos em Moscou, depois do atentado ao metrô, as palavras que se podia pegar no ar eram: bomba, metrô, Lubyanka (a estação). Entendi isso quando cheguei a estação, em outro trem, e ela estava cheia de flores. E se eu tivesse acordado mais cedo? Daqui a pouco o Jornal Nacional estaria lamentando a minha morte. Poupei o Brasil disso, gravamos um vídeo na frente da estação (preguiça de upá-lo, mas é uma chacota do tipo "Eu estou aqui na frente da estaçã…

Peixe de asfalto

[Mais que justamente dedicado a todos os moradores do Meireles em Fortaleza]

Well I go to the country to find myself
Crawl back to the city to lose myself again
Under lights this joke is wearing thin
Well it's easy to be a winner when you don't know what you've lost
It's easy to be a believer
In you
Lá fora chove, provavelmente a evolução nos presenteou com mais sessenta e cinco espécies de peixe encontrados única e exclusivamente em enchentes, nadando sobre o asfalto. Que o mundo perdeu o equilíbrio é muito claro: existe uma cratera no final da Abolição, há quem fale em meteoritos mas foi só a vontade da água. E ainda quando falta luz em um bairro inteiro, que não sabe funcionar sem seus semáforos, você realmente se pergunta "what the hell". No entanto, enquanto eu olhava pela janela minuto sim, minuto não, ouvindo música do mp3 e deixando ao léu um computador sem internet e duas horas de bateria, em uma dessas vezes as luzes de todos os prédios começaram a se acen…

O cão que rebolava e outras coisas

[Escrito em meados da primavera de 2010]


[Incrível é descobrir o verde depois de seis meses de branco, em Abril]
Então eu tive que ficar em pé. Depois da conferência, eu sentia que eu tinha perdido aquela energia protetora. Eu andava nos ônibus pela cidade, e ninguém me lançava o olhar acusador ou curioso de espécie única, brasileira. Agora eu sentia que, depois de conferências demais, eu já tinha sido descoberta. E aquele pensamento de achar que todos os tipos aleatórios de pessoas nunca saberiam que cruzaram, nessa vida, com uma brasileira, já tornara-se duvidoso.
Na última semana, tive três conferências. De repente eu sou uma pessoa muito interessante e as pessoas querem me ouvir.
Sem nenhum objetivo, anda pelo centro comercial. Compro meias, calcinhas com tema Rússia (uh?), adesivos de matrioshkas para pregar em ovos para a Páscoa que se aproxima. Não sabia o quanto da minha dignidade e identidade ainda sobravam depois desse domingo.
Elena, a coordenadora que me estendeu a insanidade,…

Flor impossível, e ponto.

Estado de espírito: Modern Drift, Efterklang


Hoje entendi que meu pai vai morrer. Não chorei, mas isso não quer dizer que não tenha perdido o chão. É como sentir falta de ser inteira, sentir falta de uma estrutura que eu nunca tive realmente, e o mais, pensar que é impossível saber como é tê-la. Fechei os olhos, ao invés de chorar, vi um mar inteiro, um dia ensolarado, e de repente o impossível, uma flor nascia no meio da areia e eu podia me agarrar ao impossível, era tão real que as pétalas, palavra, eram macias, feito veludo. Hoje entendi que meu pai vai morrer e juntei tudo que eu tinha dele: as lembranças, o rosto que é a xerox, a joanete igual, o temperamento. E vi que apesar de não ter tido a estrutura-pai, depois de ter juntado tudo que eu tinha dele, e que era tudo que eu tinha, do pé a cabeça, literalmente, então talvez eu seja a estrutura, talvez eu tenha tido essa mania de querer ser forte, de querer ser o "açougueiro com a tatuagem de rosa no braço". Nasci na falt…