sexta-feira, 19 de março de 2010

Tenho um date com Vincent... van Gogh.



"Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único,
este efêmero instante do mundo
estivesse pintado numa tela,
Sempre..." - Mario Quintana



Eu lembro de correr por essa casa e passar por esse quadro lindo, amarelo. E amarelo nem era minha cor favorita. Eu não sabia contar direito porque a Carol tinha me ensinado errado. Primeiro, vamos definir "CAROL".

Carol, substantivo feminino.
A pessoa que eu conheço há 12 anos (eu tenho 16 anos e 11 meses, nota), com quem eu desenvolvi todo o meu espírito maquiavélico, e com quem eu ainda rio das mesmas piadas de 12 anos atrás. Carol, atualmente reside na Noruega, onde mantêm um harém de noruegueses e um fyord se ela sentir vontade de visitar o Édem.

Estávamos na salinha do jardim II, nossa tarefa era desenhar dez peixinhos. Eu viro para a Carol e peço a definição de tal coisa que são dez peixinhos. "É só parar de desenhar quando eu parar também, daí vai ter dez". Desenhei, desenhei peixinhos. Mostrei para a professora. "Aqui têm 20 peixinhos". E porque eu tinha ouvido a Carol, que dez peixinhos se desenhava no tempo em que ela desenhava e que isso era uma Verdade Inabalável, desde aquele momento a matemática nunca realmente sorriu para mim. Talvez o mundo tenha perdido uma engenheira, já eu, não acho que eu tenha perdido muita coisa.

A questão é que eu olhava para aquele quadro e não podia contar que haviam doze girassóis porque eu mal sabia contar até dez. Quando eu tinha 13 ou 14 anos e fui visitar meu pai quando ele tinha se mudado vi o mesmo quadro na parede, sendo o mesmo quadro daquela época, dessas coisas que a gente acha no meio da mudança depois de muito tempo.

Desde então esse quadro ganhou um significado que não chega a ser pessoal mas sim egoísta pra mim. É possível interpretar Os doze girassóis em qualquer humor, ora eles parecem tristes, ora felizes, a verdade é que são melancólicos, se isso for um meio termo de tristeza-felicidade. A verdade é que tanto amarelo deveria parecer tolice, mas tudo parece na medida. Os doze girassóis estão conectados a todas essas memórias de alegrias infantis que nós guardamos, por aí...


[E acho em durante um estado catatônico, se qualquer pessoa fechar os olhos lá estarão os girassóis.]

Então, gospoda, eu vou entrar mais uma vez em mais um trem russo em direção ao Museu de belas artes Pushkin em Moscou, onde eu tenho um encontro com Vincent van Gogh, Monet, Rembrandt, Picasso, Gauguin, Cézanne, Renoir... [suspiro].

Quanto aos girassóis, estão em Amsterdã, e talvez eu seja a única pessoa a querer ir para Amsterdã por um quadro e não por drogas. Não gosto de drogas. Mas o que Moscou tem a oferecer do Van Gogh já parece o suficiente.

Fui pegar o telefone agora que a minha mãe me ligou e... Caí na escada em cima do meu pé joanetado, alguém pisou no dito cujo pé hoje no ônibus, eu disse "filho da puta desgraçado cacete puuuuta merda MANO!!! in... fer... no...", em ambas as ocasiões. Mas sério, o que será que há de errado com as energias do universo, o magnetismo, a aurora boreal, os ventos e suas direções e a primavera que não chega e as pessoas que pisam em joanetes e que inventam escadas para só, depois de mil anos, alguém cair em cima da própria joanete? Alguém, por favor, conserte os aparatos do universo, começando pela parte de não permitir a existência de joanetes. Que é uma existência tão tola, tão tola. Porque um osso querereria (salve a língua portuguesa) mover-se lenta e dolorosamente? Os ossos não devem querer tais coisas. Ossos são ossos e ficam no lugar, abraçados com outros ossos vizinhos.

Então minha mãe me ligou.

- Vi hoje na Ana Maria Braga que quem tem joanete, são pessoas que se preocupam muito com o bem-estar dos outros.
- O que, mãe?
- Vi hoje na Ana Maria Braga...
- Não, eu entendi, só tou tentando compreender.
- O rapaz lia pés.
- Ah, ele lia pés? Ler pés...

E entre todos os talentos do mundo, existem pessoas que lêem pés. E entre todas as pessoas do mundo, talvez eu esteja entre as mais egocêntricas. Ler pés: failure. Se eu me arrependo ou não de ter lido O príncipe do Maquiavél, se isso piorou ou não os meus traços piorados...

- Mãe vou ver um Van Gogh em Moscou, legítimo.
- ele é russo?
- Não, mãe
- Japonês?
- Holandês.
- Ahh...

E quando eu falei que estava indo pro Festival do Pushkin...

- Pushkin é o presidente?
- Não, mãe, Putin é o presidente
- E Pushkin?
- Pushkin é um poeta.

Deve ser porque em português a letra T soa com "ch", e em russo o certo é um T fechado... E hoje minha professora de literatura (e se eu conseguir ir um post sem falar dela!) falava que Pushkin não é um poeta conhecido fora da Rússia. O que faz total sentido. Pushkin não se lê em outra língua, como traduzir, realmente, palavras que ele inventou? Seria como ler Machado de Assis em russo, dá uma ânsea de vômito. Eu achei Saramago em russo aqui. Li, ri.

Eu sempre vou sobre essa coisa de intraduzivelização (?) e juntando as partes agora, tendo em vista que cada língua transmite uma sensação diferente, digo, cada língua tem uma função diferente. Português, nasceu para virar literatura. Inglês, para exprimir reações, definitivamente. Russo, e alemão, eu não sei ainda, mas há de haver. De qualquer forma, toda língua tem uma energia, diferente da das outras. Assim como os quadros guardam essa energia também. Pensava sobre isso outro dia, se metade do mundo não acreditasse nessa tal energia, não faria sentido viajar até Moscou para ver um Van Gogh autêntico, se se pode vê-lo pela internet. É tudo energia. Assim como falar com alguém por telefone ou por msn ou por skype nunca vai ser a mesma coisa que falar pessoalmente. Me chamem de zen, mas eu não acho isso ofensivo realmente.

Lendo Dostoyevsky agora, ou "aquilo que eu vou fazer dentro de um trem por 12 horas". Prestuplenie i Nakazanie, que vocês conhecem como "Crime e castigo". Li "Noites brancas" se eu não erro na tradução (parece que quando eu começo a ler tudo isso em russo o meu conhecimento sobre literatura russa em português é deletado) e mesmo assim não deu vontade de ir para St Petersburgo. Não sei. Eu-líricos românticos me enjoam, acho.

Pois bem, depois do meu humor "zangue-se com o Sol" por causa da morte da Anna Karenina, creio que Van Gogh me deu motivos para assoviar aleatoriamente pelo supermercado.

Gosto dessa música. A questão é que música russa é sempre ruim (desculpa, Rússia). Minha teoria é que o que eles depositaram na literatura não sobrou pra música. Mas aqui eis um achado.

Vou ali curtir Dostoevsky e minha dor joanetada.


[Van Gogh que reside em Moscou]

Mais notícias sobre o meu encontro com Vincent nos próximos dias. Ausência de uma semana, é tudo o que Moscou exige de mim. Até.

"I think you're gonna start crying", disse Tanya, depois que eu descobri que um Van Gogh reside em Moscou. E eu, estou esperando pra ver qual vai ser minha reação, mas com certeza não vai ser nada normal e socialmente aceitável. Me julguem, me julguem, mas isso é um Van Gogh e eu vou perder a cabeça.


Pontuo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Indo atrás de Tolstoi para obter satisfação.


[Meu humor não está pra peixe. Anna Karenina morreu.]

Um estúpido cruzou minha vista hoje. Um idiota careca com uma tatuagem de "Bound by honour" atrás da cabeça, sendo estúpido em todo aspecto da própria existência e tatuagens, chega como quem acha que tem o direito e fala: "pedir desculpas quando se esbarra não é comum no seu país?". A verdade é que eu estava mais perto dele e quem tinha esbarrado no mal-comido fora a Tanya. Disse que eu não tinha entendido mas na verdade não tinha acreditado. Ele repetiu. Olhei para a Tanya... Eu ri, balancei a cabeça. E eu deveria contar aqui quantas vezes um russo esbarrou em mim, quase passando por cima? Eu não preciso mostrar provas quando eu sei que estou certa.

You may not share my intellect, which might explain your disrespect.

"Eu não defendo e nem abomino, eu não tenho absolutamente nenhuma opinião sobre isso", virei para a Tanya depois de alguns minutos de silêncio, "mas eu sei que o ódio a americanos existe e eu não posso negar".

O estúpido tatuado com cara de nazi só nos encheu o saco porque viu que falávamos em inglês. Isso acontece com freqüência: nem todo mundo na Rússia acha que a II nem a guerra fria acabaram. E qualquer dos assuntos pouco me interessa.

"Aquele cara", continuou, "aquele cara, é um estúpido e eu deveria chutar as bolas deles, mundo estúpido que acha que nós somos americanas só porque falamos em inglês, mundo estúpido que julga sem realmente o direito".

Eu não acredito na definição de nacionalidade. Eu acredito na existência de culturas, não na de nacionalidade. Nacionalidade é um papel. Sair na rua e ser julgada por causa de um papel? Melhorem as suas ideologias. Eu nunca poderia ser uma diplomata, sou muito suspeita com as minhas próprias idéias fixas.

"Are you from America?", ouvi de algum lugar do ônibus, lógico que não era na minha direção, olhei para a Tanya e ela repetiu o que a mulher tinha dito. Por que ela estava falando comigo? Achei que as pessoas deveriam me odiar porque achavam que eu era dos Estados Unidos?

Guardei minha carteira e virei para ela.

"No, I'm brazilian, and thanks for being the only nice person that has ever talked nicely to me in a bus"

Fui o caminho inteiro conversando com aquela mulher. Ela era professora de inglês, e eu não consegui ficar brava com ela por dizer "America" ao invés de "USA", o que normalmente me irrita muito. Ela me perguntou do clima, de como eu falava russo, de como ela tinha morado na Alemanha.

"I'm leaving now, it was a pleasure talking to you. Do svidania"

Ela sorriu.

Saí do ônibus, desviando uma poça d´água. Eu e Tanya viramos na mesma hora e falamos "I love that woman!".

Uma hora depois estávamos no instituto Reload, numa conferência. E lá estávamos de novo, em outra conferência, dizendo que...

"Estudar gramática russa não é complicado, o que é complicado é aceitar"

Quando mostrei um vídeo sobre o Brasil deu saudade; mas português, Brasil, tudo isso parece tão distante que o lugar onde eu nasci vai me receber como uma turista.

Tudo se mistura.

Aparentemente o seminário saiu tão bem que eu irei visitar a residência do Tolstoi em Tula, ao sul de Moscow, chama-se "Yasnaya Polyana", quem conhece o autor sabe a importância do lugar. Às vezes eu olho pro tempo e me vejo com 12 anos e penso se naquela época eu alguma vez na vida achei que iria visitar a residência do Tolstoi.

O negócio é deixar a vida desdobrar-se.

Fico muito feliz por nunca ter lido Tolstoi em português, falei hoje para a minha professora de literatura, fico feliz porque a simples idéias de "kniaz" e patrinomico (um nome composto que se forma a partir do nome do pai) são idéias não traduzíveis.

E se Anna Karenina não tivesse morrido?, minha saúde mental está terrivelmente abalada pelo fim do romance. O pior é saber que fosse hoje ainda, ela talvez não tivesse sido julgada de outra forma. A morte é um sintoma da vida. E agora eu vou caçar Tolstoi até a casa dele, e obter satisfação. Não se mata só porque tem que se matar. Não se mata só para acabar um romance.

“Action is character. I suppose it means that we’re only someone if we do something”, ouvi em An Education, indicado do Oscar.

É isso. Ação. Estou indo para Moscow agora em busca de movimento, ação.

Ouvindo Through the roof and underground, fazendo a vida completa.

Já fui e nem fui ver.

Em contrapartida, o clima está na rua e quanto a isso nunca se houve uma única dúvida...

Pontuo.

sexta-feira, 12 de março de 2010

A joanete e todas as coisas relacionadas a ela.



[Eu, Dimitri (o gato), e um bronze que ficaram na infância, na memória e na Florida]


Natalya é uma pessoa sensata. Natalya é, de longe, a única russa sensata que eu conheço. Talvez eu devesse falar antes das russas que eu conheço antes de começar a falar da Natalya. As russas que eu conheço usam salto alto para a escola, maqueiam-se (e eu disse maqueiam-se), e usam roupas que deveriam ser usadas naquela "balada" (odeio essa palavra, vide lista de palavras ridículas: "roqueira", "estilosa", "paquerinha", "velcro", "água com gás", "moçada", "berimbau"). A Brasileira chega, de all star, jeans, uma blusa de souvenir da Florida com um mickey, que tem pelo menos 67 anos, o rosto limpo, de quem acabou de jogar água e escovar os dentes. Quando eu fazia o Ensino Fundamental eu sempre chegava com umas marcas de pasta de dente em todo lugar, eu tenho conseguido controlar ("parabéns, Rianne"), mas parece que isso é uma das coisas sobre mim. Quando eu era pequena, e eu não gosto falar dessa experiência, foi uma coisa realmente embaraçosa, foi, talvez, a primeira vez que eu topei com a palavra HUMILHAÇÃO, genuína humilhação. Então minha mãe era uma pessoa ocupada, muito ocupada, minha mãe nunca estava em casa. Dona Fátima estava sempre em casa, eu tinha sobrevivido a infância dessas babás que jogavam o meu mingau na privada porque não queriam me dar comida, na minha adolêsncia, ninguém sabia porque eu não engordava, se eu comia tanto. Eu sabia, lembrava do bebê faminto (drama, agora). Então eu estudava o primeiro e segundo turno na escola, era tipo colégio interno mas não era. No turno da tarde eu tinha um amigo surdo, O Júlio, e uma amiga muda, A Gina. Eu nunca esqueci os rostos deles. Júlio era gordo e meio indígena, Gina era asiática, branquela. E não sei se os primeiros amigos que eu fiz na vida, sendo eles surdos e mudos, diz algo sobre o meu caráter maquiavélico. A verdade é que eu tinha desenvolvido esse modo de falar com eles, eu falava com as mãos e muito bem, habilidade que hoje fora perdida. Um abraço Gina e Júlio, aí pelo mundo. Nós fazíamos muitas atividades durante todo o dia, natação, teatro, pintura, e tudo que se faz se os seus pais são pessoas ocupadas (nada de festa no apê). A verdade é que até nessa época eu achava estúpido ter o nome de um mês do ano (desculpa, Júlio). Depois da natação fui pôr minhas roupas limpas, mas Dona Fátima só tinha posto meus shorts e uma camiseta. Dona Fátima, onde está a calcinha com babados? Dona Fátima, você não merece o meu amor - eu devo ter pensado. Dona Fátima me fazia acreditar que a luz em cima do Hotel Diogo era a luz da bruxa. Até hoje eu olho para aquela luz com espanto. É o que se leva, é o que se leva. Vesti meus shorts e minha camiseta. Cheguei em casa de noite, que era quando eu chegava sempre em casa, e Dona Fátima foi me dar banho. Dona Fátima gritou do quarto "a bichinha está sem calcinha!", a cozinheira veio correndo pro meu quarto e eu fiquei lá parada com os shorts abaixados e Dona Fátima rindo. Dona Fátima, provavelmente, não sabe o trauma que foi esse dia na vida da Rianne-criança. Eu consigo enxergar Dona Fátima rindo, eu consigo escutar perfeitamente. E mui bem, não me tornei um serialkiller e cresci com todas as faculdades mentais, ou coisa do tipo, se é esse o desfeixe que estão esperando dessa história.

Natalya apareceu no VGG (escola de línguas em Kirov), onde eu estava sentada no sofá, virando a cabeça, de um lado e pro outro, observando minhas botas, julgando como estaria aquele calombo estúpido ali debaixo. O meu celular toca. Natalya acena no meio do corredor, eu me levanto do sofá, visto o moletom, o casaco, boto o chapéu, o cachecol (urg.) e pego a bolsa. Estúpido na língua portuguesa dizermos calçar a bota, botar a calça. Otpravlis' [nos mandamos]. Minha conversa com a Larisa, minha coordenadora, a Sra. Responsável pela Manutenção da Minha Vida Russa, há poucos minutos tinha sido um misto de "eu acho que se eu for para um hospital eles vão querer amputar meu pé mas acho que devo ir" e "sim, eu vou mesmo para Moscow e Veliki Novgorod nas férias", a proxima coisa é que ela ligou pra Natalya e nós estamos indo juntas. Andamos pela Lenina, eu e Natalya, eu sentia o calombo mais parte de mim do que nunca, mas só porque eu tinha vindo pensando muito sobre o calombo. Meus pés sempre foram estranhinhos, parecem pés de patos. Pequenos. Não sei. Até a idade de 7 anos eu achava que as pessoas, no mundo lá fora, andavam na ponta do pé. Eu andei na ponta do pé até os 7 anos. Ninguém - nunca - me - corrigiu. Mas um dia eu percebi que aquilo estava errado, mas que era por isso que eu corria mais rápido que os meninos no recreio (o princípio da lebre, amém).

Conversar com a Natalya é como po maslu [manteiga], agradável. Eu praguejo sobre um discurso filosófico sobre o Ensaio da Cegueira, a vida do ponto de vista de um cego, vamos discutindo sobre Anna Karenina, tentando achar a palavra russa para "joanete", passamos por uma descrição sobre "Триугольник всякий на углу ступня... короче, не важно, не знаю как это называется" ["um triangulozinho na ponta do pé, ah, não sei como é isso em russo, esquece"]. Ela me fala de uma viagem a Nizhni, sobre uns amigos americanos que estão vindo pra cá. Eu até esqueço da Coisa no pé. Da i priatno [agradável].

Falando em curtas palavras. Chegamos nesse hospital depois de perguntar muita gente onde ficava, fomos atentidos por esse cirurgião estúpido que achava que eu tinha um calo e disse para eu comprar uma palmilha (aliás obrigado aos seres que se esforçaram em me relembrar dessa palavra), fomos até a loja ortopédica e vimos uma palmilha alemã até nos damos contas que aquilo era ridículo, decidimos ir a outra clínica, que só atendia maiores de 18, desistimos e deixamos pro outro dia. O sistema de saúde russo é um dos resquícios do socialismo: existe um hospital por bairro, e um morador de um bairro não vai pro hospital do outro, assim eles se mantém, sabendo a quantidade de pacientes potencial. Faz sentido. Mas a Natalya acha que é balela, que não funciona direito. Eu saio do hospital praguejando sobre o mau humor do médico, que, "em um momento da vida dele ele fez a escolha de ser médico e talvez não goste dessa decisão agora, mas agora de qualquer forma ele pode fazer a decisão de não ficar de mau humor, de escolher o bom humor, na vida tudo pode ser uma merda e tudo pode ser muito bom, toda situação é a mesma, só existem pessoas e visões diferentes". A Natalya acha meio que engraçado quando a Brasileira - ainda - se indigna com alguns traços da "alma russa", que é o equivalente ao "jeitinho brasileiro" por aqui.

Cheguei em casa, jantei mais alguma coisa que parecia um café da manhã. Viver sobre os próprios pés significa cozinhar. E tudo parece um café da manhã, porque "amanhã eu juro que cozinho algo decente". Queria saber fazer café como manda o Livro, eu só esquento o leite e boto café, eu sei que não é isso que we roll in the Shire. Se alguém quiser dividir conhecimentos, vamoae.

No outro dia depois da aula fui esperar Natalya na Tsentralni Rinok ["centro"], fiquei na parada de onibus esperando ela surgir de um dos milhares ônibus. Basta um tímido aumento na temperatura para ver as garotas aqui já apelando para a mini-saia, era realmente um dia quente. Priatno [agradável]. -2, mas eu não preciso lembrar que temperatura é relativa para quem vem vivendo em dois dígitos de frio a tempo demais. Tem esse cachorro na parada de ônibus que acaba de entrar dentro do ônibus, passageiro ilustre. Nos próximos três segundos ele está saindo pela porta de trás. Não agüentei, ri alto. O cachorro era gordinho andava meio rebolando, juntando toda a improbabilidade da situação... Um cara olhou pra mim. Uma das coisas do protocolo da "alma russa" é não rir em público. O cachorro fez isso mais duas vezes com os próximos dois ônibus, era uma mistura de salsicha com cocker spaniel, um negócinho. No quarto ônibus, depois de eu ouvir uns gritos de umas babushkas lá de dentro, o cachorro não saiu pela porta de trás, e foi ganhar as ruas. Dez minutos depois o cachorro vem a pé [a patas] de volta para a parada de ônibus, filho pródigo. Depois do cachorro, a Natalya desce do ônibus.

Fomos andando pela feirinha, umas pessoas vendendo tudo que podiam vender, medalhas militares da segunda guerra, coisas que deveriam estar em museus. Quando juntam os franceses, os alemaes e os americanos aqui, o assunto sempre sái em II guerra. Mas é o que nós chamamos de "inevitaveis piadas sobre a II guerra" ["neizbezhnie vtoroi mirovoi voini shutki"]. Durante uma guerra de bolas de neve, sim, temos três anos de idade, um dos franceses resolveu tirar o corpo fora. "Vá, mande-se, é o que os franceses fazem", ou quando estamos tentando tomar uma decisão para onde ir e um dos americanos pergunta "ok, elejamos um líder e tomemos uma decisão", a alemã diz "eu vou ser o líder", e só depois de trÊs segundos todo mundo conecta aquele momento a II guerra. Um dos americanos se atrasa e "não se preocupe, a gente sabe que você só chega quando a festa já tá no meio". Tudo, absolutamente tudo, está secretamente ligado a II guerra. Mas a Brasileira fica ali sem sentir nenhum sentimento heróico sobre aquela parte da história mundial, "eu sei que mandaram 10 mil soldados ou coisa do tipo pra Itália", me justifico, mas o Brasil nunca entrou em guerra nenhuma e quando minha professora de literatura pediu para eu escrever uma redação no tema "netos da grande guerra" eu sentei na frente do papel, sem nenhum sentimento de heroismo quanto a guerras. O que acontece nesses momentos é que eu jogo uma de Suiça e posso tirar sarro de todo mundo com as piadas de II guerra. Se me perguntarem, boa coisa que o Brasil não se envolve nesses campos perigosos da natureza humana, boa coisa, boa coisa. Os russos não cansam desse assunto. Se no Brasil quase todos os feriados são religiosos, aqui quase todos os feriados são sobre a II guerra, de uma nação que foi obrigada a ser atéia no regime comunista e perdeu toda a tradição de comemorar Natal e feriados católicos/ortodoxos. Daí se tira. Os russos não comemoram Natal dia 25, mas o Ano Novo no dia 31, e não se diz "feliz natal", mas "feliz ano novo". Eu poderia escrever uma justificativa para muitas das cherta [qualidades] da Rússia, mas isso é uma coisa longa.

Quando nós chegamos no hospital, Natalya me falava de como era a vida na União Soviética, ela só tinha 3 anos quando a coisa toda foi ao chão, mas a mãe dela que conta. Que recebiam, sim, salário, mas tudo era fornecido pelo governo, viajavam muito, não compravam comida mas tinham um "bilhete" onde anotavam o que compravam. E que alguns julgam tempos de ouro, outros vêem essa mancha negra. Quanto vale a sua liberdade?

Aleksei já estava indo embora, palavra, quando descobriu que existia uma espécie rara esperando ser atendida, uma brasileira que tem uma dor no pé, e a Busca pela Palavra "Joanete" em Russo. "Ah, batyushka..." ["Ih, minha filha..."], disse Aleksei, o médico, ao examinar meu pé. "Esse pé é da mãe ou do pai?", pergunta, me lembrando muito os médicos brasileiros, que fazem piadas tolas para que aquilo já não se torne mais desprazeroso quanto já é. Eu ri e respondi, "do pai". "Então agradeça ao papai, você tem Hallux valgus", disse a última palavra com um tom e uma mão de sabedoria. Agora ficou tudo mais claro, como eu nunca pensei nisso? Hallux valgus e o Iluminismo: sempre abrindo caminhos para o nível de conhecimento da Humanidade. Fiz uma cara de que "isso não me diz absolutamente NADA, esplane, disserte". Aleksei entendeu. "Quer dizer que um osso aqui não tá direito, que você precisa fazer fisioterapia, que não deve ver um salto alto nessa vida, e deve comprar isso e isso e isso". Pre-lest [ma ra vi lha], pensei. E perguntei quando eu já sabia a resposta, "e isso se cura?", Aleksei riu, e eu entendi. Ele continuou me fazendo perguntas sobre a vida russa do ponto de vista de uma brasileira com um Hallux valgus. Aleksei disse que eu deveria voltar, esli chto [se houver algum problema]. E como eu sempre falo, na Rússia existe gente muito estúpida, e gente muito simpática, não se fabrica o meio termo. Eu e Natalya saímos, destino, casa. Lembrando no caminho, no ônibus, da trajetória que: eu fui no médico da escola e ela me deu um bandaid; fui num hospital na Lenina e o estúpido achou que eu tinha um calo; e então o Aleksei, que não tem medo de ter um bom humor.

Sabe que na vida acontece muita merda. E isso é inevitável, absolutamente inevitável. E não se controla isso. A única coisa sobre a qual nós ainda podemos manter o controle é manter sempre o bom humor, keep meditating and feeling inspired, maestro, manter os espíritos altos, esquecer dos skeletons [disse Anna Karenina]. Cada é um responsável por fabricar uma pessoa feliz, fabricar a si próprio, ridículo é aquele que culpa o mundo em volta, é muito conveniente fazê-lo, e feliz é aquele, meus caros, que apesar de ver uma placa tectonica abrir-se bem na sua frente, ser molhado por um onibus quando a neve começou a derreter e está tudo lamascento, ri, e ri alto, porque não há o que fazer senão manter os espíritos altos, apesar dos pesares. Eis que pessimismo é uma coisa que eu não pretendo compreender, e não gosto dos adebtos.

Comprei uma coisinha de borracha que separa o dedão, uma pomada, e tenho que fazer uma coisa com iodo todo dia, até o meu leito de morte. E é isso, camaradas, é isso que se leva, mas eu chego em casa com dor no pé e sento com a Anna Karenina.

Agora ela balança as possibilidades de um affair com o Bronski, e a pobre Kiti está deitada em seus aposentos, de coração quebrado, entre a visita de um médico e outro, que não cura os maus do coração. Vejo muito da Madame Bouvary na Anna Karenina, e resolvi que é sobre isso que vou falar no seminário. Madame Bouvary é um livro pelo qual eu me apaixonei, pouco depois de topar com Ana Terra - mulheres de personalidade num tempo que mulheres não deveriam ter personalidade. Nessa vida, deve-se ler.


Amanhã é um dia no qual eu tenho que me apresentar em cinco línguas, seguidamente. Como fazer isso? Tendo um colapso
. Toda vida que eu saio da aula de alemão, e tenho que voltar a falar russo, pensando ora em português, ora em inglês, eu tenho essa expressão facial de quem tá tendo um treco. Mas a minha coordenadora achou que "não seria bacana se você fizesse isso na conferência, sim, sim, seria bacana". Kstati [btw], a quinta língua é espanhol, a qual eu me encontro no mesmo nível que qualquer brasileiro, que se entende tudo, que não se fala muito, mas a minha coordenadora achou que seria mais interessante ainda adicionar mais uma língua a essa canja e me ver ter ataques epilépticos. Pelo menos Dostoiévski também tinha epilepsia, assim sentimo-nos menos debilitados.

Vou deixar um link com os filmes indicados no Oscar desse ano, os quais eu tenho baixado (menos Avatar, acho repugnante) e assistido em homenagem ao ócio. Recomendo a atividade para os que gostam de perder tempo. Quando acabar de assistí-los (menos Avatar) vai que eu chegue a julgá-los, sem nenhum entendimento realmente de cinema, por aqui.

Agora vou ver como está Kiti e saber mais da Anna.

Quem puder ensinar a fazer café de verdade, sério, não se poupe que eu ouço e aprendo e viro aprendiz.

Pontuo.

segunda-feira, 8 de março de 2010

A literatura perigosa


[Dor de cabeça, tomei café demais.]

Começo de estação me lembra que preciso mudar. Não sei o quê. Sei que a primavera começou por causa do dia das mulheres, dia 8, e ontem resolvi dar uma volta, andar só, respirar, transpirar (um dia quente?), celebrar a aparição de uma joanete, comprar leite e geléia e ir para a academia. Algumas coisas dão a sensação de começo: começar a fazer yoga, comprar uma nova escova de dente, etc. Quando entrei na academia tocava uma música da Pink, a janela estava aberta, faziam -10 graus mas todo mundo morria de calor. O Sol bateu na minha cara, e eu comecei a rir. A rir, à toa, por rir. Rudolf começou a rir também. Rudolf é o instrutor que sempre me pergunta como dizer isso e aquilo em português, e sempre fala que "é bem parecido com espanhol". E como uma criança que acaba de ralar o joelho e começa a chorar, para confortá-la, a língua portuguesa, falo que "você é mais que isso". Eu devia estar rindo porque o Sol resolveu aparecer, e o Sol nunca aparecia se não fosse Domingo: é começo de estação e as mudanças me lembram que eu devia mudar alguma coisa. Acontece que muita coisa já mudou. Quando eu cheguei aqui eu não tinha sardas, minhas bochechas nunca tinham ficado vermelhas de frio ou de calor e o meu cabelo não era dessa cor, um estranho tom claro que eu nunca vi na vida - lá fora o Sol ainda brilha, todo mundo ainda morre de calor aqui dentro e Darwin tinha razão. Não é normal um ser humano sair de casa sob -10 graus e achar um dia quente, acontece que eu venho vivendo sob temperaturas negativas há 4 meses, exceto por aquela ocasião excepcional e misteriosa quando fez +7 graus. Não tem o que mudar, muita coisa já mudou, e não só fisicamente. Talvez eu tenha me tornado uma pessoa mais antipática publicamente: russos não sorriem na rua, não espere isso, não haverá um sorriso. Eu já não espero um obrigado ou um sorrisinho de uma pessoa que trabalha no caixa ou de um atendente de loja, e se eles o fizessem, não faria sentido. A mudança te pega pela mão e não te traz de volta de onde você veio. É tudo meio rápido, tudo dura uma estação.


[Sobrevivi, também, esse inverno sem gripar uma única vez. A não ser por uns ataques de rinite, mas que sempre estiveram comigo. E chego no fim do inverno com uma joanete. ]

E eu não peço nenhuma explicação mas toda vez que comparo um pé com um outro confirmo a existência da joanete. Eu esperava qualquer outro tipo de doença, mazela, não uma joanete. Às vezes as pessoas se abrem comigo e dizem o quanto gostariam de uma mudança de clima, mais frio. Ninguém sabe das mazelas do frio, e talvez eu devesse contar. Um dia eu saí e não consegui respirar porque as minhas narinas haviam congelado, tirando o episódio do nariz-sangue, também. Uma vez meu olhos congelaram e eu não consegui fechá-los. Apareceu no meu dedão uma ferida de frio, eu não sabia que essas coisas existiam, mas demorou séculos para cicatrizar, porque é quando a pele seca tanto que corta por qualquer contato físico com qualquer coisa, e eu não acho que seja uma boa idéia botar a foto aqui, mas na primeira foto desse posto dá pra ver umas que apareceram faz pouco tempo nos dedos. Além do volume de roupas que precisa-se usar, a simples idéia de "ir alí e já volto" torna-se inrealizável com todo o bota sapato, meia-calça, chapéu, suéter, cachecol, luvas, casaco. A pior sensação de impotência deve ser morrer de hiportemia. Se me perguntassem, preferia eu morrer de calor ou de frio, sem pensar muito eu diria calor. Mas agora acabou. Quando eu for pro Brasil em Julho se alguém estiver me procurando, eu estarei na praia, sem protetor solar, procurando um câncer de pele, não um bronze.

Sobrevivi na vida não só esse inverno, o mais frio dos últimos 15 anos na Rússia, mas ultimamente eu tenho evitado muito o que eu chamo de literatura perigosa - outra coisa a se sobreviver. Teve essa época da minha vida que eu somente li literatura perigosa. Esse tipo de literatura é exatamente aquele livro que depois de ler conseguiu mudar opiniões e algumas verdades que até então não se faziam presentes e se escondiam e se tornam tão óbvias, beirando o insuportável. Lembro quando eu estava lendo Descartes, era um livro minúsculo, "Discurso do método", eu poderia ter lido em 2 horas, mas eu demorei uma semana. Eu sentava e lia um parágrafo e começava a viajar longe. Minha mãe ia me pegar na escola e eu ia em silêncio, confabulando com o Descartes, livros de filosofia são sempre assim, densos, perigosos, por muitas. Eis uma lista de literatura que eu considero perigosa:

1. Charles Bukowski, meu velho Buk. Acreditem quando eu digo que depois de conhecer Henry Chinaski ninguém sobrevive a si mesmo. E eu li todos os livros do Bukowski, com ou sem o Henry Chinaski, na mesma época, eu nunca me tornara tão ácida a vida inteira. O meu sarcasmo tinha se tornado antipatia. Eu citava Bukowski mentalmente em todas as ocasiões, "tudo morre cagando", "If I'm an asshole, I should say, if I don't, somebody else will, if I say it first, that disarms them", "Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade", "And my own affairs were as bad, as dismal, as the day I had been born... ". Eu podia fazer aquilo como se eu mesma um dia tivesse dito essas frases pela primeira vez. Eu não recomendo ninguém ler Bukowski, mas ao mesmo tempo recomendo terrivelmente. Ele está sentado em uma das cadeiras da Minha Academia de Letras. Não des-senta nem se quisesse.

2. "O retrato de Doryan Gray", Oscar Wilde. Sempre ouvi sobre esse livro mas por um motivo ou outro nunca tinha lido, até que me emprestaram aqui, em russo. O livro está mais cheio das verdades do que um ser humano comum é capaz de aceitar, em um único livro. Porque é tão fácil viver só na ignorância... "A alma do homem sob o socialismo" também levou um pouco da minha sanidade.

3. Godwin, entre outras coisas, me disse que "o casamento é a pior forma de propriedade". Eu poderia ter continuado vivendo sem essa frase e talvez ver o casamento com o olhar neutro de antes. Não deu.

4. Saramago é um homem perigoso também. Peguei "Ensaio sobre a cegueira" para ler a contragosto - odeio bestsellers. Mas li, e li em dois dias. A próxima coisa que eu lembro é estar lendo seguidamente todos os livros do Saramago. Não só pelo jeito excêntrico de pontuação, mas pelo jeito que o dito cujo transformava uma coisa eloquente como o delivery de um elefante, diga-se com ignorância, numa viagem na natureza e hipocrisia humana.

5. Dawkins. Eu sempre passava pela Siciliano por aquele livro de capa simples e nunca realmente quis comprá-lo, "O gene egoísta". Pra quê? Depois dessa eu só consegui enxergar as pessoas como animais cheios de instintos. Dawkins escreve uma releitura de Darwin, mais ou menos, só que bem mais atual, é horrível concordar com tudo. Quase tão traumatizante quanto Bukowski.

6. "Cartas a Theo", Van Gogh. O que eu mais amo nesse livro é uma partezinha onde o Vincent fala do conceito de pátria, que, ignorantemente reescrevendo, não existe, é só esse amotoado de memórias, é aquele campo, é aquela cadeira, é aquele sorriso. Vincent era um viajante "por destino, não por vontade", e irmão foi o joãozinho-de-barro na vida. Ver a vida dele por entre cartas é viver todos os desgostos e expectativas com ele.

Não estou lembrando de mais nenhum, não ter a minha estante de livros aqui é complicado - consegui lembrar dos mais traumáticos da literatura perigosa. Eu não digo que ninguém deveria NÃO ler esses livros, e talvez o que defina um livro bom ou ruim é a capacidade de mudança sobre o leitor, como as obras de arte deveriam ser feitas. Tem que saber dosar. O interessante é que esses livros estão entre os meus favoritos, apenas o que eu definitivamente não recomendo é ler a bibliografia inteira do Bukowski de uma vez, palavras de uma sobrevivente. Pensei em por Douglas Adams aí, mas ele realmente não é perigoso, só deixa o leitor extremamente horrivelmente insuportavelmente sarcástico e retórico; pensei em Clarice Lispector, mas ela realmente não tem culpa por ter dito o indizível.

Existe o tipo de literatura inútil, que é onde se encaixa "O Diabo veste prada", "Freakonomics" e "Por que os homens têm tetas?". Ás vezes servem para dar uma faxina no salão oval da sua mente que virou um amotoado de idéias pululantes que não não te permitem se concentrar em nada. Funciona.

A literatura obrigatória é a nuvem onde habitam os semi-deuses. Na minha eu vejo sempre o Sr. Veríssimo (pai), Machado de Assis, Drummond, Ariano Suassuna, Vinicius, Camões... E além, e além. É o tipo de literatura que faz a pergunta "por que EU não escrevi isso antes?". Desses vale a pena comprar a edição capa dura.

Enquanto isso, as minhas relações com a minha língua materna me tiram do sério. Não conseguia encontrar a palavra para "aquela coisa que se tem várias cervejas juntas", depois de martelar isso desde o começo da tarde surgiu a palavra "engradado de cerveja". Nâo sei se essa é a certa, ainda. No outro dia senti um cheiro estranho que me lembrava de... Merda, qual o nome do bicho? Aquele, aquele... Que mija. Fui andando puta da vida, até que quando eu menos esperei a palavra "Potó" reapareceu. Até hoje eu não consigo lembrar qual a palavra em português para "строгий" [strogii], deve ter sido a primeira palavra que eu esqueci. A primeira coisa que eu comecei a esquecer foram nome de pessoas famosas, e depois palavras excêntricas feito "catavento". Ultimamente eu tenho olhado no meu dicionário mais para saber como se dizem as coisas em português, que saber como se diz em russo. E ainda saber que eu sou completamente analfabeta depois da maldita reforma... Tudo isso dá uma sensação horrível de excomungação.

Quanto a literatura perigosa atual, eu tenho em mãos o "Lobo da estepe", desisti de ler no primeiro capítulo - eu reconheço o perigo de longe. Peguei "O diabo veste prada" em russo que eu nunca tinha lido, tentando ocupar minha cabeça com futilidade o suficiente. Não consegui ir tão baixo, apesar de ter gostado assim do livro, mas me distraiu. Estou lendo agora Anna Karenina, com muita preguiça do Tolstói, eu precisava de um tempo dele depois de Guerra e Paz, mas minha professora organiza um debate dentro de uma semana sobre mais um livro dele, e eu como boa samaritana vou seguindo e cantando a canção.

Minha professora de literatura é um ser que eu amo sem tamanho. Eu sempre amei todos os meus professores de literatura, mas essa é a primeira russa, portanto. E eu não a condeno por ter me dado esse programa intensivo de literatura russa, eu não me seguro de orgulho da literatura brasileiro e acabo citando o "Triste fim de Policarpo Quaresma" comparando-o com "Pais e Filhos" do Turgeneev em uma redação sobre Bazárov - eu entendo o orgulho e a eloqüência dela quanto a sua literatura nacional. Todo mundo morre de orgulho daquilo que faz parte de si mesmo, ou daquilo que construiu uma parte, ou que reflete um aspecto da cultura que provavelmente só o nativo é capaz de compreender. É por isso que eu não morro de suspiros quando leio Pushkin - os russos morrem de suspiro quando lêem Pushkin, a Brasileira se esforça, mas só morre de suspiros mesmo lendo Camões (mil vezes Camões) e Fernando Pessoa e Drummond. Nós somos o que somos e o que define isso, eu atesto é: lingua materna, clima, religião. Eu me arriscaria dizendo que esses são as variantes de uma cultura.

A verdade é que as pessoas são bem imprevisíveis mesmo se definirmos as variantes. Aqui vão dois exemplos contrastantes. Em Ekaterinburg uma babushka (como chamam as velhas estúpidas: babushkas) disse que eu a Sophia deveríamos parar de falar em português, virei pra ela e a xinguei em alto e bom português. No dia das mulheres, cruzando a rua com a Tanya um sujeito nos para e deseja um feliz dia das mulheres, depois de perguntar se falávamos russo porque estávamos falando em inglês. Vai entender? A questão é que ele nos fez ganhar o dia.


[Dia da mulher: vamos dividir um shake a celebrar a falta de irlandeses?]

E ainda o Jenya vendeu um coturno para a Tanya com desconto só porque era dia das mulheres, depois de um caloroso "HI GIRLS!" quando entramos no estúdio de piercing e tatuagem do Jenya; depois de praguejar sobre o Meyers, chegamos no Kafé Letnee que oferecia uma bebida chamada "irlandskii", o que deu motivo para rir feito duas hienas. Sim, um irlandês, com creme, e um sotaque sexy.

Tem gente que decidiu ter uma mudança de sexo; tem gente que decidiu começar a fazer yoga e ser vegetariano; tem gente que decidiu fazer uma viagem para a Tailândia com destino à paz interior; tem gente que leu Guerra e Paz e vai ler Anna Karenina, seguidamente. Decisões drásticas, engajamentos impossíveis, alguém tem de cometê-los. Seminários, alguém tem de fazê-los.

Aliás, a minha joanete tem rendido história, mas não é hoje que eu pretendo contar. Anna Karenina acaba de desembarcar em Moscow (no livro) e eu devo ir zabrat'sya [pegar] ela na vokzal [estação].

S.O.S - Como se diz a coisa que se põe debaixo do pé, dentro do sapato? Começa com P, eu acho. Sério, que m***a.

Pontuo.

Por que ser um ornitorrinco que fala russo até 2012?

[Estado de espírito: tomando um shake de banana]

"Haverá tsunamis", continua Tatiana, "e especialmente onde tem oceanos, haverá tsunamis", bebeu mais um gole de chá, "esse inverno, por exemplo, foi muito frio, em 2012 defintivamente tudo se acabará". E ela disse isso com a calma de quem continua bebendo chá. Eu, recupero a sanidade e a paciência e imagino Yupaghyztrepafufericonlilos.


[Maias, you're doing it wrong.]

Tinha um calo enorme na mão, não bastasse a areia entrando no olho, os mosquitos não tiravam férias e não voavam para o Sul por causa do inverno, porque ali já era o Sul, aquilo tudo foi enchendo-lhe a paciência aos poucos, largou os papéis, digo, pedras, deu um salto com a ponta do pé e sabendo que tinha gastado a vida toda calculando cinco mil anos de um calendário, matou os mosquitos, o vento, o Sul, o Norte. Seu nome era Yupaghyztrepafufericonlilos, nacionalidade: maia, e foi ele quem teve preguiça de continuar fazendo o calendário e resolveu matar todo mundo. J.K. Rowling matou todo mundo (e deus não te perdoa por matar um dos gêmeos, que isso não se repita), Bernardo Guimarães matou Margarida, Angela Gutiérrez atirou para todos os lados, Luzia-homem não matou, mas arrancou o olho de Crapiúna; Bukowski não matou o Chinaski porque precisava de um motivo para continuar bebendo; os suecos que têm a vida perfeita e não têm mais o que adicionar aos capítulos dessa vida de perfeição, têm um notável nível de suicídios; Virginia Woolf, depois de querer matar todo mundo, matou-se - digo, as vezes os autores matam só para acabar o livro, logo. E aquele senhor, que eu chamarei de Homos Calendarus, estava puto depois de calcular 5 mil anos de calendário e resolveu matar todo o mundo. É uma merda quando o mundo inteiro resolve dar ouvidos ao Jim Jones de novo. Agora se 2012 chegar e uma tsunami me engolir, me matem porque eu estava errada - o que eu quero dizer é que, entre eu e o Mundo Querendo Morrer Em 2012, quem ganha sou eu, senão o Mundo pode me matar. É por isso que em 2012 tenho uma expedição planejada de Moscow até Pequim, e de Pequim até o Tibet; enquanto isso em Amsterdã o Homo sapiens vai a loucura aproveitando os últimos dias, ou o Homos burrus acreditandus profecius. E tudo isso, meus caros, devido a procrastinação de um único maia, o Homo calendarus. Não procrastinem e continuem calculando calendários mesmo se cinco mil anos já foram calculados, e a raça humana agradece e pode continuar a ser medíocre, a clonar seres humanos, fazer nano celulares, cérebros eletrônicos e tudo que o Homo acreditandus spp acredita serem sinais para o apocalipse. Se ter celular, ipod, internet, kindle, wi-fi é o que se encontra no meio da estrada que acaba no fim do mundo, então que assim seja, AMÉM. Esqueçam os maias e Jim Jones e façam jus ao nível evolucionário e esqueçam toda a coisa sobre 2012 e suicídios em massa. Golfinhos não cometem suicídio em massa, nem formigas, nem onitorringos, seres subjugados e evidentemente superiores e que não fazem calendários e portanto não procrastinam. Sejam onitorringos e me encontrem no Tibet em 2012.


[Luzia-homem é cabra-macho: tem cabelo na axila e arranca olhos]

E já que estamos em 2010, até 2012 suponho que até uma ameba consiga aprender russo. E porque meter-se nessa empreitada? Dez motivos para aprender russo até 2012 (não que o mundo VÁ acabar em 2012, mas já que o número está sendo abusado hoje, que continue sendo abusado).

1. Ninguém vai acreditar que você fala russo. As pessoas estão tão cheias de si mesmas e acham que russo é uma língua que só existe na 87a dimensão (a mesma onde encontra-se o Papa jogando pinball), mas a questão é que o Papa joga, sim, pinball, e a língua russa existe.

"Você fala RUS-SO?"
"Sim."
"NOSSA! Não conheço ninguém que fala russo"
Pensando para si mesmo, vocÊ se repete: eu conheço umas 27 Olgas, umas 67 Tatianas, 84 Mashas e Sashas e Kolyas e Olyas e Pavels que falam russo.

2. "Por que não?", é o que eu sempre me pergunto antes de qualquer empreitada.

3. Você irá se deliciar com os seis casos, e o pior disso tudo é que depois de estudá-los vai por-se de joelhos na frente do seu livro de gramática e dizer "você tinha razão" e concordar que todos eles são necessários para a comunicação, e COMUNICAÇÃO é o que move o Planeta Terra, esqueçam da Lei da Inércia. Aqui vai um exemplo que vai fazer a língua portuguesa sentir que... falta alguma coisa nessa língua?


[Um tamanduá, um pato ou uma coisinha? Não, isso é um ornitorrinco]

Nominativo:
(em português) Meu amigo é um ornitorrinco
(em russo, alfabeto cirílico) Мой друг утконос_
(em russo transliterado) Moi drug utkonos_

Acusativo:
Meu amigo come um ornitorrinco
Мой друг ест утконоса
Moi drug est utkonosa

Dativo:
Meu amigo escreve uma carta ao ornitorrinco
Мой друг пишет письмо утконосу
Moi drug pishet pis'mo utkonosu

Prepositivo:
Meu amigo vê pintas cor de rosa no ornitorrinco e acha que ele possa estar doente.
Мой друг видет розовые пятна в утконосе и думает, что может быть он болеет.
Moi drug videt rozovie pyatna v utkonose i dumaet, chto mozhet bit' on boleet.

Genitivo:
Meu amigo procura os remédios do ornitorrinco na pochete do ornitorrinco.
Мой друг ищет лекарства утконоса в сумочке утконоса.
Moi drug ischet lekarstva utkonosa v sumochke utkonosa.

Instrumental:
Meu amigo freqüentemente viaja com o ornitorrinco.
Мой друг часто езжает с утконосом.
Moi drug chasto eszhaet s utkonosom

Agora vamos ver como fica ornitorrinco em português e em russo:
Utkonos = ornitorrinco
Utkonosa = ornitorrinco
Utkonosu = ornitorrinco
v Utkonose = ornitorrinco
Utkonosa = ornitorrinco
s Utkonosom = ornitorrinco

Uma vez me perguntaram sobre cientistas brasileiros famosos (?). Brinquei com os polegares, pensei, refleti, viajei por aulas distantes da quinta-série e só consegui pensar em Santos Dumont, enquanto um lado da minha mente me falava que não, foram os Brothers Wright. Disse Santos Dumont, o pioneiro da aviação, de qualquer forma. A pergunta é: será que uma língua utterly mais complicada não influencia no desenvolvimento intelectual de uma nação? Não vou além disso e deixo a reflexão em aberto: A Rússia tem muitos cientistas famosos. [pausa para reflexão aqui]


[Os russos foram até o espaço. Santos Dumont voou alguns metros acima da terra.]

4. Você, que lê Dostoiévski em português e acha que foi uma experiência suficientemente filosófica, não saiu de patamar intelectual. Ler, seja, Dostoiévski, Turgeneev, Pushkin, Nakrasov, Tolstói, Górki em outra língua senão em russo, é um gasto de papel e de tempo.

5. Porque no próximo inverno, quando fizer -35 pela primeira vez e alguém te parar da rua para falar que o seu nariz está sangrando, assim: "Кровь идиёт из вашего носа", é melhor você entender, porque não se sente nenhum músculo do corpo sob essa temperatura e o sangue vai continuar a sair do seu nariz e você não vai sentir. A coisa só fica melhor se envolvermos hemofilia.

6. Porque você vai passar por essa fase de leitura socialista e vai descobrir que Stálin é GEORGIANO e não RUSSO. E que a Rússia esconde esse fato do mundo para conservar um pouco de auto-estima.


["Stalin" Google - você quis dizer: o georgiano que tinha um grande país e um grande bigode]

7. Você vai poder ler os rótulos de água e não comprar água com gás ao invés de água sem gás. Visto que água com gás, desde o começo, sempre foi uma idéia muito estúpida de se fazer água.

8. Não importa se você se formou em Harvard, descobriu a cura para o câncer, clonou o primeiro ser humano ou o primeiro ornitorrinco, as pessoas sempre vão lembrar de você como "aquele sujeito excêntrico que fala russo".

9. Você vai poder se comunicar pelo espaço do maior país do mundo, mas no meio do processo vai descobrir que o maior país do mundo é uma balela, e que aqueles menininhos de olhos puxados que vêm do oblast da Bashkíria têm o próprio presidente, têm uma língua própria e não se parecem nada com os russos que se dizem russos. Isso não seria condenável se fosse só o oblast Bashkir, mas basta caminhar mais um pouco pelo... hm, maior país do mundo e ir para o oblast de Cheboksary e saber que eles também têm o próprio presidente e a própria língua; que em Kazan também acontece isso, e que por acaso, na Sibéria também. Então, da próxima vez que um russo se vangloriar dizendo que a Rússia é o maior país do mundo, você rirá cruelmente consigo mesmo, e descobrirá na próxima aula de geografia que não era só Bashkir, Cheboksary e Tartarstão, e que existem 21 repúblicas independentes dentro da Rússia total e culturalmente independentes. E você ri, mais uma vez, cruelmente, olhando para o outro lado do oceano, sabendo que o Brasil, pelo menos, por toda a sua extensão, é Brasil, fala português, tem só um presidente e come arroz com feijão.

10. Você vai poder viajar de trem. Acontece nos trens, às vezes, de você viajar com a seleção de hockey, com soldados, conhecer um senhor simpático de cabelos longos que gosta de Sepultura, mobilizar um vagão inteiro a procura das suas Havainas que caíram da sua bicama durante a noite, conhecer um romeno que não fala romeno, ou jogar conversa fora com um russo jogando cartas enquanto ele perde o senso da vida e o comum bebendo a segunda garrafa de vodka. Nada disso seria possível se você não falasse russo.


[Trens russos: you're missing out. Chícaras para chá e água quente são fornecidas no trem, além de uma cama mais ou menos e uma mesinha onde se desenrola não uma viagem, mas um contato com russo(s) excêntrico(s). Only russian speakers allowed.]




E não é que no Brasil tem colônias russas (vídeo)? Tem, e eles estão presos no tempo em que a Rússia era mais ortodoxa que hoje, vítima da mesma coisa que aconteceu em qualquer país do mundo: pra quê religião se eu posso ganhar dinheiro? A verdade é que ao Brasil não chegaram seres tão ilustres e não formaram colônias tão ilustres, lendo "1808", viaja-se pelas entranhas das fobias de João VI e pergunta como diabos as Forças que movem o universo e fabricam alimentos enlatados deixaram que aquele homem tornasesse rei. A resposta é simples. Alimentos enlatados ainda não existiam, já que Pasteur ainda estava por vir, por isso as Forças não funcionavam com total eficiência. Eu diria que o livro é um dossiê Brasil, mas que faltou desenvoltura do Senhor Laurentino Gomes no modo de escrita, um tanto bobo como quem somente conta a história e não viaja por ela.

Assistindo The Tudors, não só pelo Meyers, His Majesty, vê-se alguém que deveria ser rei, diferente do nosso João VI, Henrique VIII enjoava de uma esposa como se falassa "You'll be the queen if you let me cut your head off soon", e guilhotina. Apesar das falhas da série (fatos errados etc.), eu recomendo para qualquer ser que se interesse ou não por monarquias a série de cinco livros A Autobiografia de Henrique VIII, ainda pondo papeizinhos na caixinha de reclamações do Senhor Laurentino Gomes, Margaret George soube viajar pela história sem acabar soando lunática. Para ler um volume por dia.

E agora meus caros, jantar-me-ei (não me condenem aqui pelo uso inadequado de mesóclise, é só pelo ego de engrandecer a língua portuguesa mesmo), 6 horas antes de vocês todos, pontua aqui, o Ser do Futuro.


[Ser do futuro: "Quantas utilidades teriam olhos nas mãos?"]
Deixo em aberto o mistério que são os ornitorringos, o Santo Graal, e... Olhos nas mãos?

Por favor se alguém souber de cientistas brasileiros, que me informe, eu como embaixadora do Brasil por aqui, nessa parte estão me faltando os argumentos e os motivos para empinar o nariz.

Pontuo.

sábado, 6 de março de 2010

De volta (se um dia eu cheguei a ir)


[Estado de espírito: de bikini sob -4 graus, e além]
[Tocando: trilha sonora de August Rush]



Pensando comigo porque negros sempre são hábeis para cantar, enquanto a trilha sonora de August Rush toca no shuffle, depois de uma semana de muito Jonathan Rhys Meyers, durante a qual, a Sra Que Acaba de Baixar o Bittorrent baixou a filmografia do mesmo. Mergulhou e não falou com o mundo durante uma semana. Ainda não muda os critérios para gostar de um filme: pro inferno o roteiro, o que eu quero saber é quem está no filme.

Folheando as páginas da Esquire no Kafe 12 com o Zack, Alice e Katie, "the guy gets what he gets", continuei folheando as páginas onde o Mister DiCaprio falava sobre aquecimento global, "he gets go be fuckin rich because every single movie he's in turns into gold, not because he has this magic golden finger, but because the guy can act, we owe him that much". E a conversa continuou, questionando os engajamentos ambientais-revolucionários do Mister DiCaprio, quando de repente, não mais que de repente, Garota de Ipanema começa a tocar. A Brasileira acha tudo aquilo zamechatelno¹, continua bebendo o seu suco de maçã, fresco como a morte da Branca de Neve (tentando conectar Branca de Neve e suco de maça: system failure).

A Brasileira pensa, "ah bem, The girl from Ipanema walked em todos os cafés do mundo, it's not that much, really". DiCaprio, suco de maçã, vira a página, mais peixinhos no mar... E xazêm, a próxima página me mostra o absurdo do absurdo que só existe na 87a dimensão: O papa jogando pinball, o papa tirando dinheiro de um caixa eletrônico, o papa pegando um refrigerante numa Máquina de refrigerantes - tudo isso dentro do vaticano, Zack tem um ataque de riso em meio a uma sopa de brócolis, a coisa se espalha, de repente todos estão morrendo sem ar. "Puta merda mano", saiu, em português, quando isso acontece, eu me vanglorio de mim mesma, me dou um abraço com tapinhas mentalmente e digo "muito bem, parece que ainda temos uma língua materna²". Mais uma série de tapinhas.

Água de beber, água de beber... Começa a tocar. Que porra é essa? O que há de errado com as ordens das estrelas hojes? Quantos planetas se alinharam? Apocalipse, Papa, eu disse, A P O C A L I P S E.Que porra é essa?



[Os cavaleiros do apocalipse vão atrás do Papa]

No mesmo dia, depois de um plano frustrado de assistir Alice no País das Maravilhas e uma volta pelo Museu da Karla Marksa (isso mesmo, e ainda tem a rua Lenina, e todos os clichês socialistas imagináveis), onde eu comprei (aqui eu quase escrevi "kupei"³, conjugando um verbo russo em português, vai, guria, corre pro abraço, agora, vai.) cartões postais que nunca serão mandados e irão direto para a minha coleção.

Nas próximas horas nos encontramos com o Parlamento da Juventude, onde Boris (pronuncia-se Ba-rís em russo) discutiu conosco um projeto para mandar para a Duma ("parlamento") de Kirov. O Parlamento da Juventude é um grupo de advogados-estudantes que dão voz a juventude russa naquele prédio de arquitetura clichê grega perto da universidade naquela rua que eu descobri outro dia que chama-se Krasnoamerskaya, sim, sim, esse mesmo.

Boris é uma pessoa a se conhecer. E no meio da minha eloqüência de quem pode falar sobre política por horas - a filha de políticos, - e da dele, passaram-se 3 horas, em russo, o assunto tinha inclinado-se sobre como nos, Heróis de Pátria, lemos Guerra e Paz, mas hurray para a Brasileira, que leu em russo (foto). Obrigada, estou comovida, parem, garotos. O tema, enquanto eu parei para dar uma olhada na janela para ver a estrada e larguei o volante, mergulhou em apocalipse e 2012, quando peguei na direção o desastre já estava feito. Os russos amam achar que o mundo realmente vai acabar em 2012. A Brasileira pouco crê, pouco crê.



[Tolstoi te despreza]

Sim, garotoS. Havia ainda três, e um que acabou de chegar, meio sem jeito, tentando pegar a conversa no meio do percurso. O projeto não vale a pena comentar não foi exatamente o lucro da noite. O lucro da noite é que se conhece pessoas inteligentes e conversáveis e eloqüentes naquele prédio na Krasnoamerskaya. Eu e Boris nos encontraremos novamente para uma conversa com abas e sentidos, e política. E em russo... Bom saber que existe vida inteligente lá fora. Daquela que, até na Rússia, não consegue confraternizar e dizer bom dia à burrice que deve-se a idade de seus colegas de sala.

Ainda agora. Com uma sacolinha com pasta de dente e escova de dente, o meu talento me levou até o fim da Profsoyuznaya, quando a porta do ônibus fechou na minha frente fazendo-se em vão minha corridinha de obeso até a saída do ônibus. Merda, cacete, catzo, SHYORT. Fui parar no fim do mundo, e agora eu estava apertada entre alguns rapazes bêbados e o meu talento de se perder, sob qualquer circunstância. Dizem os rumores que eu tenho PhD, quanto aos fatos, parecem que não me negam o título, realmente.

No meio do nada, depois de ter cruzado uma ponte que eu nunca vi na vida, vi uma parada de ônibus que deveria me levar para casa. Olho a hora. Só um ônibus ainda passa. O número de sorte é 21. Vamos, 21. Vinte e um. Dvadzt odin. Um carro pára. Mas puta merda, pragueja. Pelo menos fazem -4 graus e isso anima os meus ânimos, vestidos de bikini, depois de uma temporada em Perm sob -45, volta-se para Kirov com um começo de Primavera que chegou a esquentar a zero graus. Foi o dia mais quente da minha vida, voltei para casa suando feito um porco, como os porcos suam (e soam).

14. Quatorze. Que mal faz o 14? Entro no ônibus. Vai cortando a cidade. Engraçado esta merda ter cruzado a exata rua que deveria entrar. Muito engraçado, mas escuta, 14, eu vou te dar uma chance e eu sei que por algum beco você vai acabar na Rua Lenina, desgraçado. Ele se ofende. E ele nunca foi parar na Rua Lenina.

Com a minha sacolinha com pasta de dente e escova de dente, desço na Gertsena, derrotada, puta da vida, feliz com o clima, fazendo bows para o meu talento de se perder, passando por um Yorkshire vestindo blusinha e um casal que sái as 9 da noite para passear com o Yorkshite vestido de blusinha.



[Aos Yorkshires que vestem blusinha.]

Quem canta na minha cabeça é Jonathan Rhys Meyers, "This time", chego em casa, faço um mingau, preocupada com o jeito que minhas pernas já se perdem dentro das minhas calças, procurando "sustança" (essa é pra minha avó) para dar um pouco de matéria prima para se fazer pernas. Deixo a sacolinha no Hall, e ficamos eu e o meu kasha*, quando eu ligo o computador e escuto a trilha sonora de August Rush (para quem já quebrou um Ipod, perdeu o segundo, musica agora só no computador - you get what you get), que é onde eu comecei a escrever, agora, realmente.

É bom estar de volta em casa depois do incidente 14, é bom estar de volta ao blog, ou seja lá o que for que esse estado de espírito do tamanho de uma frase (normalmente cabem dentro de uma palavra só) signifique.



Declaração/Homologação aleatória do dia: Os mesmos criadores do cassino criaram o pinball para garantir novos clientes, observa-se o design da inocente máquina e logo se vê.

E você, querido leitor, quantas vezes se perdeu e quantos vezes já viu o Papa jogando pinball, ou quantas vezes se perdeu depois de ver o Papa jogando pinball? Ahr, será que foi castigo do além?

Foi.

Castigara-me, o Satanás.

Chega de eloqüência, pontuo aqui.



Dicionariando
¹Zamechatelno: do russo, notável
²Língua materna: é a primeira língua que toma frente quando o mundo precisa ser xingado, é a única língua que você saberá a palavra "licranço".
³Kупить (покупать): Я куплю, Ты купишь, он/она купит, мы купим, вы купите, они купят (verbo Kupit' do russo, comprar)
*Kasha (каша): do russo, mingau.