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A literatura perigosa


[Dor de cabeça, tomei café demais.]

Começo de estação me lembra que preciso mudar. Não sei o quê. Sei que a primavera começou por causa do dia das mulheres, dia 8, e ontem resolvi dar uma volta, andar só, respirar, transpirar (um dia quente?), celebrar a aparição de uma joanete, comprar leite e geléia e ir para a academia. Algumas coisas dão a sensação de começo: começar a fazer yoga, comprar uma nova escova de dente, etc. Quando entrei na academia tocava uma música da Pink, a janela estava aberta, faziam -10 graus mas todo mundo morria de calor. O Sol bateu na minha cara, e eu comecei a rir. A rir, à toa, por rir. Rudolf começou a rir também. Rudolf é o instrutor que sempre me pergunta como dizer isso e aquilo em português, e sempre fala que "é bem parecido com espanhol". E como uma criança que acaba de ralar o joelho e começa a chorar, para confortá-la, a língua portuguesa, falo que "você é mais que isso". Eu devia estar rindo porque o Sol resolveu aparecer, e o Sol nunca aparecia se não fosse Domingo: é começo de estação e as mudanças me lembram que eu devia mudar alguma coisa. Acontece que muita coisa já mudou. Quando eu cheguei aqui eu não tinha sardas, minhas bochechas nunca tinham ficado vermelhas de frio ou de calor e o meu cabelo não era dessa cor, um estranho tom claro que eu nunca vi na vida - lá fora o Sol ainda brilha, todo mundo ainda morre de calor aqui dentro e Darwin tinha razão. Não é normal um ser humano sair de casa sob -10 graus e achar um dia quente, acontece que eu venho vivendo sob temperaturas negativas há 4 meses, exceto por aquela ocasião excepcional e misteriosa quando fez +7 graus. Não tem o que mudar, muita coisa já mudou, e não só fisicamente. Talvez eu tenha me tornado uma pessoa mais antipática publicamente: russos não sorriem na rua, não espere isso, não haverá um sorriso. Eu já não espero um obrigado ou um sorrisinho de uma pessoa que trabalha no caixa ou de um atendente de loja, e se eles o fizessem, não faria sentido. A mudança te pega pela mão e não te traz de volta de onde você veio. É tudo meio rápido, tudo dura uma estação.


[Sobrevivi, também, esse inverno sem gripar uma única vez. A não ser por uns ataques de rinite, mas que sempre estiveram comigo. E chego no fim do inverno com uma joanete. ]

E eu não peço nenhuma explicação mas toda vez que comparo um pé com um outro confirmo a existência da joanete. Eu esperava qualquer outro tipo de doença, mazela, não uma joanete. Às vezes as pessoas se abrem comigo e dizem o quanto gostariam de uma mudança de clima, mais frio. Ninguém sabe das mazelas do frio, e talvez eu devesse contar. Um dia eu saí e não consegui respirar porque as minhas narinas haviam congelado, tirando o episódio do nariz-sangue, também. Uma vez meu olhos congelaram e eu não consegui fechá-los. Apareceu no meu dedão uma ferida de frio, eu não sabia que essas coisas existiam, mas demorou séculos para cicatrizar, porque é quando a pele seca tanto que corta por qualquer contato físico com qualquer coisa, e eu não acho que seja uma boa idéia botar a foto aqui, mas na primeira foto desse posto dá pra ver umas que apareceram faz pouco tempo nos dedos. Além do volume de roupas que precisa-se usar, a simples idéia de "ir alí e já volto" torna-se inrealizável com todo o bota sapato, meia-calça, chapéu, suéter, cachecol, luvas, casaco. A pior sensação de impotência deve ser morrer de hiportemia. Se me perguntassem, preferia eu morrer de calor ou de frio, sem pensar muito eu diria calor. Mas agora acabou. Quando eu for pro Brasil em Julho se alguém estiver me procurando, eu estarei na praia, sem protetor solar, procurando um câncer de pele, não um bronze.

Sobrevivi na vida não só esse inverno, o mais frio dos últimos 15 anos na Rússia, mas ultimamente eu tenho evitado muito o que eu chamo de literatura perigosa - outra coisa a se sobreviver. Teve essa época da minha vida que eu somente li literatura perigosa. Esse tipo de literatura é exatamente aquele livro que depois de ler conseguiu mudar opiniões e algumas verdades que até então não se faziam presentes e se escondiam e se tornam tão óbvias, beirando o insuportável. Lembro quando eu estava lendo Descartes, era um livro minúsculo, "Discurso do método", eu poderia ter lido em 2 horas, mas eu demorei uma semana. Eu sentava e lia um parágrafo e começava a viajar longe. Minha mãe ia me pegar na escola e eu ia em silêncio, confabulando com o Descartes, livros de filosofia são sempre assim, densos, perigosos, por muitas. Eis uma lista de literatura que eu considero perigosa:

1. Charles Bukowski, meu velho Buk. Acreditem quando eu digo que depois de conhecer Henry Chinaski ninguém sobrevive a si mesmo. E eu li todos os livros do Bukowski, com ou sem o Henry Chinaski, na mesma época, eu nunca me tornara tão ácida a vida inteira. O meu sarcasmo tinha se tornado antipatia. Eu citava Bukowski mentalmente em todas as ocasiões, "tudo morre cagando", "If I'm an asshole, I should say, if I don't, somebody else will, if I say it first, that disarms them", "Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade", "And my own affairs were as bad, as dismal, as the day I had been born... ". Eu podia fazer aquilo como se eu mesma um dia tivesse dito essas frases pela primeira vez. Eu não recomendo ninguém ler Bukowski, mas ao mesmo tempo recomendo terrivelmente. Ele está sentado em uma das cadeiras da Minha Academia de Letras. Não des-senta nem se quisesse.

2. "O retrato de Doryan Gray", Oscar Wilde. Sempre ouvi sobre esse livro mas por um motivo ou outro nunca tinha lido, até que me emprestaram aqui, em russo. O livro está mais cheio das verdades do que um ser humano comum é capaz de aceitar, em um único livro. Porque é tão fácil viver só na ignorância... "A alma do homem sob o socialismo" também levou um pouco da minha sanidade.

3. Godwin, entre outras coisas, me disse que "o casamento é a pior forma de propriedade". Eu poderia ter continuado vivendo sem essa frase e talvez ver o casamento com o olhar neutro de antes. Não deu.

4. Saramago é um homem perigoso também. Peguei "Ensaio sobre a cegueira" para ler a contragosto - odeio bestsellers. Mas li, e li em dois dias. A próxima coisa que eu lembro é estar lendo seguidamente todos os livros do Saramago. Não só pelo jeito excêntrico de pontuação, mas pelo jeito que o dito cujo transformava uma coisa eloquente como o delivery de um elefante, diga-se com ignorância, numa viagem na natureza e hipocrisia humana.

5. Dawkins. Eu sempre passava pela Siciliano por aquele livro de capa simples e nunca realmente quis comprá-lo, "O gene egoísta". Pra quê? Depois dessa eu só consegui enxergar as pessoas como animais cheios de instintos. Dawkins escreve uma releitura de Darwin, mais ou menos, só que bem mais atual, é horrível concordar com tudo. Quase tão traumatizante quanto Bukowski.

6. "Cartas a Theo", Van Gogh. O que eu mais amo nesse livro é uma partezinha onde o Vincent fala do conceito de pátria, que, ignorantemente reescrevendo, não existe, é só esse amotoado de memórias, é aquele campo, é aquela cadeira, é aquele sorriso. Vincent era um viajante "por destino, não por vontade", e irmão foi o joãozinho-de-barro na vida. Ver a vida dele por entre cartas é viver todos os desgostos e expectativas com ele.

Não estou lembrando de mais nenhum, não ter a minha estante de livros aqui é complicado - consegui lembrar dos mais traumáticos da literatura perigosa. Eu não digo que ninguém deveria NÃO ler esses livros, e talvez o que defina um livro bom ou ruim é a capacidade de mudança sobre o leitor, como as obras de arte deveriam ser feitas. Tem que saber dosar. O interessante é que esses livros estão entre os meus favoritos, apenas o que eu definitivamente não recomendo é ler a bibliografia inteira do Bukowski de uma vez, palavras de uma sobrevivente. Pensei em por Douglas Adams aí, mas ele realmente não é perigoso, só deixa o leitor extremamente horrivelmente insuportavelmente sarcástico e retórico; pensei em Clarice Lispector, mas ela realmente não tem culpa por ter dito o indizível.

Existe o tipo de literatura inútil, que é onde se encaixa "O Diabo veste prada", "Freakonomics" e "Por que os homens têm tetas?". Ás vezes servem para dar uma faxina no salão oval da sua mente que virou um amotoado de idéias pululantes que não não te permitem se concentrar em nada. Funciona.

A literatura obrigatória é a nuvem onde habitam os semi-deuses. Na minha eu vejo sempre o Sr. Veríssimo (pai), Machado de Assis, Drummond, Ariano Suassuna, Vinicius, Camões... E além, e além. É o tipo de literatura que faz a pergunta "por que EU não escrevi isso antes?". Desses vale a pena comprar a edição capa dura.

Enquanto isso, as minhas relações com a minha língua materna me tiram do sério. Não conseguia encontrar a palavra para "aquela coisa que se tem várias cervejas juntas", depois de martelar isso desde o começo da tarde surgiu a palavra "engradado de cerveja". Nâo sei se essa é a certa, ainda. No outro dia senti um cheiro estranho que me lembrava de... Merda, qual o nome do bicho? Aquele, aquele... Que mija. Fui andando puta da vida, até que quando eu menos esperei a palavra "Potó" reapareceu. Até hoje eu não consigo lembrar qual a palavra em português para "строгий" [strogii], deve ter sido a primeira palavra que eu esqueci. A primeira coisa que eu comecei a esquecer foram nome de pessoas famosas, e depois palavras excêntricas feito "catavento". Ultimamente eu tenho olhado no meu dicionário mais para saber como se dizem as coisas em português, que saber como se diz em russo. E ainda saber que eu sou completamente analfabeta depois da maldita reforma... Tudo isso dá uma sensação horrível de excomungação.

Quanto a literatura perigosa atual, eu tenho em mãos o "Lobo da estepe", desisti de ler no primeiro capítulo - eu reconheço o perigo de longe. Peguei "O diabo veste prada" em russo que eu nunca tinha lido, tentando ocupar minha cabeça com futilidade o suficiente. Não consegui ir tão baixo, apesar de ter gostado assim do livro, mas me distraiu. Estou lendo agora Anna Karenina, com muita preguiça do Tolstói, eu precisava de um tempo dele depois de Guerra e Paz, mas minha professora organiza um debate dentro de uma semana sobre mais um livro dele, e eu como boa samaritana vou seguindo e cantando a canção.

Minha professora de literatura é um ser que eu amo sem tamanho. Eu sempre amei todos os meus professores de literatura, mas essa é a primeira russa, portanto. E eu não a condeno por ter me dado esse programa intensivo de literatura russa, eu não me seguro de orgulho da literatura brasileiro e acabo citando o "Triste fim de Policarpo Quaresma" comparando-o com "Pais e Filhos" do Turgeneev em uma redação sobre Bazárov - eu entendo o orgulho e a eloqüência dela quanto a sua literatura nacional. Todo mundo morre de orgulho daquilo que faz parte de si mesmo, ou daquilo que construiu uma parte, ou que reflete um aspecto da cultura que provavelmente só o nativo é capaz de compreender. É por isso que eu não morro de suspiros quando leio Pushkin - os russos morrem de suspiro quando lêem Pushkin, a Brasileira se esforça, mas só morre de suspiros mesmo lendo Camões (mil vezes Camões) e Fernando Pessoa e Drummond. Nós somos o que somos e o que define isso, eu atesto é: lingua materna, clima, religião. Eu me arriscaria dizendo que esses são as variantes de uma cultura.

A verdade é que as pessoas são bem imprevisíveis mesmo se definirmos as variantes. Aqui vão dois exemplos contrastantes. Em Ekaterinburg uma babushka (como chamam as velhas estúpidas: babushkas) disse que eu a Sophia deveríamos parar de falar em português, virei pra ela e a xinguei em alto e bom português. No dia das mulheres, cruzando a rua com a Tanya um sujeito nos para e deseja um feliz dia das mulheres, depois de perguntar se falávamos russo porque estávamos falando em inglês. Vai entender? A questão é que ele nos fez ganhar o dia.


[Dia da mulher: vamos dividir um shake a celebrar a falta de irlandeses?]

E ainda o Jenya vendeu um coturno para a Tanya com desconto só porque era dia das mulheres, depois de um caloroso "HI GIRLS!" quando entramos no estúdio de piercing e tatuagem do Jenya; depois de praguejar sobre o Meyers, chegamos no Kafé Letnee que oferecia uma bebida chamada "irlandskii", o que deu motivo para rir feito duas hienas. Sim, um irlandês, com creme, e um sotaque sexy.

Tem gente que decidiu ter uma mudança de sexo; tem gente que decidiu começar a fazer yoga e ser vegetariano; tem gente que decidiu fazer uma viagem para a Tailândia com destino à paz interior; tem gente que leu Guerra e Paz e vai ler Anna Karenina, seguidamente. Decisões drásticas, engajamentos impossíveis, alguém tem de cometê-los. Seminários, alguém tem de fazê-los.

Aliás, a minha joanete tem rendido história, mas não é hoje que eu pretendo contar. Anna Karenina acaba de desembarcar em Moscow (no livro) e eu devo ir zabrat'sya [pegar] ela na vokzal [estação].

S.O.S - Como se diz a coisa que se põe debaixo do pé, dentro do sapato? Começa com P, eu acho. Sério, que m***a.

Pontuo.

Comentários

Anônimo disse…
Sola do sapato? :/
Carolina disse…
PALMILHA.
tambem nao consegui lembrar ehehehehehhe

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