quarta-feira, 13 de março de 2013

O homem que salvou a palavra do silêncio


Antes da palavra, existia o silêncio. A palavra foi criada no silêncio. A palavra é constantemente ameaçada pelo mesmo. Dedico esta publicação ao homem que salvou a palavra da mudez, porque a palavra dói, e ela sozinha não quer existir porque é árduo ser a palavra. Por isso nada a substitui. Ela simplesmente se empresta à gente, e enquanto faz isso nos ameaça todo o tempo: se me vou, vocês serão animais - diz - se me vou, vocês serão apenas o ser, e o ser sozinho não é nada, o ser precisa da extensão. A palavra não é de ninguém, ela sozinha é dela. A palavra se empresta, é diferente. Mas a palavra nunca se cala, ela é tão  presente que é impossível deixar de sentir-la. Mas eu sei de uma coisa: eu prefiro toda a crueldade da palavra ao silêncio. O silêncio é nada, o silêncio nos estagna. O silêncio apaga línguas da face da terra, o silêncio apaga culturas: a palavra é a cultura, a palavra é toda a história. Sem a palavra, sobra o vão.

Eu tive um sonho terrível de que ele não existia. De que havia só uma casa branca, o mundo perdia a forma, porque a casa sem ele era incapaz de moldar o mundo. O mundo pende na palavra a cada segundo. E se ele se prestava a palavra, mais porque a palavra queria prestar-se a ele. Sem ele, o escritor, o mundo era disforme.

Ao acordar, perdi portanto os parâmetros de existir. A parede assim assim não se quebrava, o prédio assim assim não desaparecia, os lençóis da cama pareciam surreais, eu não sentia o meu corpo, era como se eu fosse apenas OLHOS. Portanto acordei sentindo saudades. Saudades de existir.

O nariz, entretanto, sangrava. Mas não me choquei: qual é o ser humano que se choca com sangue? Não há nada que se chocar ao admitir que somos esse ser, esse animal que somos. Afinal, eu acordara a primeira vez na vida em Portugal, desfiguradamente e sem certeza da própria existência durante aqueles estranhos minutos entre o dormir e o despertar, mas eu certamente estava em Portugal. Ou eu teria simplesmente imaginado o português? (afinal Portugal era o português, ou talvez fossem só vozes, talvez eu me imaginei).

Era o país do mundo que fora construído em cima de um pântano de palavras únicas que fora "forrado" com concreto para que o humano aí habite. Sim, em Portugal a palavra veio antes que o homem, a palavra falava sozinha, porque a palavra nascera no SILÊNCIO. Era o pântano do silêncio, sem pontas, sem perímetro.

Mas ele, ele que ameaçando não existir me despertou em desespero, ele ERGUEU a palavra. Quase me matou de medo (e por isso o sangue?) acordar a primeira vez em  um lugar que não existia mais porque se não existisse a palavra, seria vão.

A casa branca (dos meus sonhos) erguia Portugal. A casa branca dele, erguida longe de tudo pela mania misantrópica  (Ele SABIA que a palavra precisava do silêncio para nascer, por isso a ergueu longe).

E por isso hoje escrevo este relato de como me assombrou a idéia de um mundo sem as palavras que moldaram a língua portuguesa (ou seja o mundo inteiro).

E senti que finalmente despertei quando senti a presença do Elefante Salomão. Há vida porque Saramago está vivo como os mortos que NUNCA MORREM.

Voltei a dormir, o mundo poderia morrer por inteiro, mas enquanto existisse a palavra (e eu despertei brevemente só para confirmar-lo), todo o resto poderia explodir.

Sujei o travesseiro do hotel de sangue com uma gotinha, pontuando toda a perturbação.

Publicação dedicada ao escritor português José Saramago e à sua casa branca, onde aí morreu.

3 comentários:

Sônia Silva - O Universo dos Pensamentos disse...

Olá, Rianne, retribuindo a visita...


Nossa!!!

Excelente escolha de postagem, adorei mesmo este artigo.


Boa noite, bjo

Matheus C. disse...

Qual o problema do silêncio? Ele completa a linguagem. E muitas vezes ele é necessário,ao menos para mim.

Gosto de não precisar entender ninguém de vez em quando,e se tiver que "falar" uma linguagem,que sejam notas musicais.

Aux. Irmão Brayan disse...

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