quarta-feira, 30 de março de 2011

As minhas gramas são mais verdes



Fazia dois meses que eu estava na Rússia e tudo e todos ainda eram ETs se aproximando por um contato de quarto grau. Eu poderia divagar sobre a sensação de ser uma expatriada, mas seria tão inútil como descrever o gosto de chocolate, com tantos sentidos envolvidos. E lá eu estava, na frente de toda a escola recitando um poema no Dia dos Professores, que é realmente importante na Rússia. Eles podem até não ganhar bem, mas o respeito que recebem dos alunos é infinitamente maior que no Brasil. Dirigir-se a eles apenas levantando a mão, e pelo nome e patronímio (o segundo nome de todo russo: nome do pai + sufixo OVA ou VICH se, respectivamente, você for mulher ou homem). Os alunos haviam preparado um verdadeiro espetáculo, a platéia era pequena: apenas a equipe de professores, e o backstage se apertava com todos os alunos da escola. No dia anterior eu havia passado cinco horas andando em círculos aprendendo um poema que recito até sob remédio de dormir, ainda hoje em dia. Skol'ko vesen uzhe proleteli, etikh let nam ne ostonavit'... A verdade é que na minha twisted mind, tanto no Brasil quanto na Rússia, o mínimo de respeito que eu poderia ter de qualquer professor sempre significou o mundo pra mim. Recitei o poema ao ritmo que os professores esbugalhavam os olhos: a brasileira realmente o fez. Em todos os cinco ou seis, já não sei mais, colégios em que estudei, em qualquer dos três países que nomadiei, fui a geek com sono, tédio e que passava os recreios ora com dois amigos fiéis e únicos, na biblioteca tomando chá com a bibliotecária ou na sala dos professores.

Depois ninguém sabe da onde vem a minha falta de compreensão quando alguém vem dar em cima de mim esses dias, tudo o que eu vejo é uma daquelas pessoas que eu tinha asco por no recreio. Nunca sofri bullying, mas nunca consegui ser compatível com 98% do colégio nem por trinta minutos todo dia. Eu sempre tive sóbum amigo em qualquer colégio, e ninguém queria passar o recreio discutindo física quântica ou falando sobre Brontë.

Por miúdos, li um artigo que fala sobre a retirada da matéria literatura do vestibular russo como matéria obrigatória. Lá funciona assim: do curso que se escolhe adiciona-se duas ou três matérias ás matérias obrigatórias a qualquer curso, que na minha epoca foram russo, literatura e matemática. No episódio do Dia dos Professores sei que eles só caíram para trás porque só meia dúzia dos alunos russos deles mostraram o interesse em literatura russa que a recém-chegada brasileira mostrava. Na minha sala de aula de literatura russa, meus colegas de sala preferiam ajeitar suas maquiagens ou falar do ultimo jogo de hockey que dar valor á literatura que o mundo inteiro caia de joelhos. Imagino, agora, a felicidade deles que literatura não é mais obrigatória. Infelizmente esse padrão não se repete só na Rússia, sinto que temos mania de sermos xenófobos em relação ao nosso patrimônio cultural. No Brasil foi o fim do mundo quando começamos a ler José de Alencar, ninguém "agüentava" a obra do homem que cimentou a cultura do Ceará dando ao índio o seu merecido posto de protagonista. Ninguém nunca havia se dado o trabalho de ir ao Memorial da Cultura Cearense no Dragão do Mar além da vez eles haviam ido em uma excursão com a escola na terceira série.

Acho importante saber se interessar pela cultura alheia, mas acima disso, saber defender a sua própria como tese. Uma vez a professora se literatura russa nos pediu para pesquisarmos um poema sobre amor, é lógico que me virei para Camões. Primeiro procurei uma tradução, que por sinal era excelente. No dia da apresentação, ela só chamaria alguns alunos. Fui chamada, comecei falando: "Esse é o Pushkin da língua portuguesa", e jogue a primeira pedra quem não der ao Luís o título de patrono da nossa língua. O que quero dizer é que Pushkin, Camões, Shakespeare, Goethe - eles sentam lado a lado, mas são únicos a cada língua. E é mais que comum não ser dado valor ao próprio patrono. Lembro que eles amaram o poema que eu recitei, em português e em russo, mas quando uma colega foi recitar Pushkin, todos suspiraram de cansaço - logo o homem que resolveu dar importância a língua russa quando todo mundo só queria falar francês. Nenhum desses escritores que citei são melhores um que o outro, são imcomparáveis.

Não é gostar, é simplesmente admitir a importância. Literatura é a identidade de um povo, sociedade, o que seja. E quem não sabe o que é, náo se dê nem ao trabalho de -ser-.

Não condeno ninguém, acho que tive a chance de morar em várias diferentes gramas e soube dar valor a cada uma, ao ponto de ainda andar com com uma câmera em uma cidade na qual morei sete anos. Quanto àqueles que não observaram sua grama do lado de fora, a solução é esperar que um dia saibamos admirar mais o que é nosso que o dos outros. A grama tem que ser mais verde do nosso lado, é uma questão de ponto de vista.

Pontuo.

quinta-feira, 24 de março de 2011

A hora

É muito difícil se empacotar e se mandar assim, no ritmo da maré que a chuva formou. Mas a minha crescente antipatia e falta de movimento me certificava o tempo inteiro, enquanto eu fechava as caixas, que a hora já tinha chegado e só estava me esperando. Eu estava sentada no chão, cercada por sete caixas cheias de livros, perdida em pensamentos, fazendo uma piada repetida de como aquilo era uma imagem para o tumblr. Tenho repetido muito essa piada. E o que realmente tinha me levado até aqui... As pessoas me perguntam o tempo inteiro e eu, quando sem vontade, digo que quis. A verdade é que primeiro de tudo, quis, sim. Mas antes do querer eu queria também outras coisas. Porque eu iria fazer jornalismo e me decepcionei antes de começar. E todos aqueles livros me lembravam que, para escrever, para ler, eu não precisava ser uma jornalista. Eu precisava simplesmente lembrar quem eu era, e tentar tirar uma foto parada disso no meio da inconstância. Aos quatorze anos, indo para os quinze, eu estava cozinhando essa carne e percebi que gostava daquilo, de ficar mexendo na carne. Daquela situação eu poderia ter tirado várias conclusões: 1) O fato de que eu realmente gostava de cortar e ver o sangue sair me iniciava como serial killer; 2) Eu tinha um dom para culinária; 3)Eu poderia ser médica e além de ver a carne, a carne se mexeria. E what the hell, quais eram as chances. A decisão de quatro anos atrás já tem forma e eu gosto do que vejo. As caixas se empilharam, eu me compactei para caber nos limites da tarifa do vôo.

Terça-feira vou visitar meus avós e chego sexta-feira em São Paulo. Dia oito de Abril, a sexta-feira depois daquela, dezoito horas depois, no dia nove, estou em Moscou. Durante e enquanto isso, vou escrevendo sobre esses dias e o que mais vier a minha cabeça.

É hora de ir, a hora já me chamou.

Pontuo.

Poema ao meu décimo oitavo aniversário

[Foto boba para uma data boba com um mês de antecedência]

Padrões que seguem
são os
padrões de mim
contados dezoito vezes -

Pixo os muros
cometo delitos
antes que a doença
de ser adulto
me abata
para sempre
grito nomes
recito amores
em breve levanto vôo
e quando eu voltar
não vou saber seguir
os mesmos
ventos

O meu décimo
oitavo
aniversário
é uma linha
sem volta
E eu vou tentar levar
o que der
de mim

Mas quando eu voltar
tenho limite de peso
E venho só com o necessário
Simples
E quando eu voltar
vou ter me amontoado
em outras idéias
e não verei mais a linha
cruzada

Quando eu voltar
não vou ser eu
Vai ser o décimo
oitavo
padrão
de mim

E sem nenhuma
modéstia:
confesso
que vivi
o Ceará
dentro de mim.
Latitude longitude
de sete anos
enfileirados
confesso que cresci
vivi
aqui.

O resto vai
rasgando
rasgando
a carne.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Vácuo de você

acho que não te achei
por completo
porque você se esvaireceu assim
sem permissão

que corta a rua como quem corta
o caminho fácil
faz desvio
ri alto sem vontade
se cerca de todo mundo
que pareça vazio
o suficiente

quero o seu nome
completo
te quis
por completo
mesmo assim

às vezes nem sei
se você existe
ou se é algo
que eu simplesmente
quis

e eu não te quis (a
só quis o vácuo (idéia
para tirar férias (de você
de mim

tão vazio
que morreu
em vida

tão vazio
que eu acabei só
(te imaginando)

sou assim
apaixonada
pela idéia
de amar

nunca amei ninguém
só o querer alheio
só a disposição alheia
de querer
me amar
para sempre
nem que seja agora

não te amei
só te imaginei
em toda a forma do
meu
querer
amar
imaginar
por completo

procura-se quem
quiser
ser amado
assim
só para personificar
o meu amor
pela pela paixão
do meu vício

e no final
quem eu estava procurando
não será você
eu só
te
imaginei
pior que platônico
eu amo a idéia
e o amor
é um vírus
que só quer
se alojar
achar casa

o amor sou eu,
meu amor
eu sou o
amor