quarta-feira, 21 de abril de 2010

Efeitos colaterais de ter um útero


É muito difícil ter um útero. Eu vim do colégio querendo matar ornitorrincos à sangue frio e sem uma vez sequer olhar que cor o céu tem hoje. Chego e morro ali mesma, a cama convidativa como um abraço, e todos os abraços que eu deveria ter tido ontem e não tive. Ontem foi o meu aniversário. Há exatamente 17 anos atrás eu resolvi que nasceria no dia 20 de Abril, dividindo o bolo, de lá pra cá, com a minha Avó, que é aniversariante no mesmo dia. Quando eu tinha uns onze descobri que Hitler também nascera nesse dia. Tentei analisar os três pontos, conclui que vintes de Abril já houveram muitos e pessoas demasiadas resolveram nascer. Não, eu não acho que pessoas demasiadas seja uma expressão que se conecte a "China".

Eu lembro de ter acordado com sede, uma sede de quem beberia o Tietê mesmo se ele não fosse o último dos rios. Vou andando com as mãos na frente sem conseguir abrir os olhos, peguei o copo de matrioshka e a minha pateticidade e bebi uns duzentos ali mesmo, olho para o relógio... Quatro da manhã. Eu nasci às quatro da manhã. E a coisa que sempre irritou sobre mim é essa minha sede e insatisfação e a necessidade de movimento - praticamente tudo que eu faço é conectado com isso, conclui-se que eu vivo nessa relação parasita com os meus defeitos. Tem gente que acha que é qualidade e os inveja. Tentei comprovar a veracidade do fato e segundo o fuso-horário, toda a Poesia de Acordar as Quatro da Manhã com Sede no Horário que eu Nasci perdia seu crédito. Mas eu tinha perdido sete horas da minha vida no avião vindo pra cá, e os cálculos ficaram sendo calculados enquanto eu bebia mais copos como manda o Clube da Luta. Se eu perdi sete horas, então eu tinha ali e naquele momento dezessete anos rigorosos e fieis. Eu acho que as pessoas deveriam se tornar super sayajins em momentos como esses, de exatidão e quando a matemática faz sentido, mas nada aconteceu. Ainda sem conseguir abrir os olhos direito e carregando o meu estado foto-sensível pós-despertado, dormi, desmaiei, qualquer coisa.

De manhã, quando a luz invadia a janela e aquilo me irritava... Não, era um péssimo dia para um aniversário. Eu não sabia se culpava os gregos, pelo calendário ou a Rússia por não ter feriado de Tiradentes - o que sempre me permitiu no Brasil fazer qualquer tipo de festa até qualquer hora que eu quisesse. Culpei os dois. Não sei porque diabos não enforcaram um homem barbudo por aqui no dia 21 de Abril. Que burrice, uma nação inteira.

Peguei umas roupas que eu não usava há pelo menos uns seis meses. Talvez eu devesse começar a me forçar a gostar daquele dia. Dezessete, que número ridículo. Ímpar. Sem simetria. O que não me permitia nem doar sangue, nem dirigir, nem ser presa. Ter dezesseis pelo menos fez mais sentido por um ano inteiro. Mas eu já podia votar. E daí, democracia é um regime que não é comunismo pelas bases de que "vamos ver no que vai dar se fingirmos que todo mundo pode sem repressão realmente dita". Talvez se eu tivesse nascido, digamos, em Marte, teria uma idade par. Mas daí já não sei quão são os lucros de ter uma nacionalidade (abrangendo o conceito) de Marte.

Pela Cultura do Papel, no dia 20 de Abril de 1993 eu havia sido registrada filha da Senhora Minha Mãe e do Senhor Meu Pai. Mas juntando a infância e a sua mania de apagar memórias, a vida começou em seqüências, e não em fragmentos perdidos que não fazem sentido e que são desconectados de tomadadas, aos oito anos. A primeira lembrança que eu tenho da vida é esse corredor de hotel. O Sol lá no fim. Uma loucura, eu ia ter o Sol. Eu tinha três anos, se a loucura não me engana. Desde então eu tenho tentando pegar o Sol, o que creio eu explica toda a minha relação com o Vincent (van Gogh), já que ele me dá a impressão de que os girassois são one way to catch the sun.

E o dia começava tão errado. Todas as pessoas que eu deveria ver, todos os amigos que eu tinha o direito de abraçar, do outro lado do oceano e eu não sabia se eu nadava tudo hoje e dava tempo ou deveria ter começado ontem, e o que acontecia com a distorção do tempo e dos fusos-horários em uma travessia a crawl do oceano Atlântico. Tomei café da manhã, minha mãe e minha irmã parecem gostar de mim. No Brasil eu sempre adorava meu aniversário porque eu acordava cedo e começava a ditar o que eu queria porque era meu dia e ninguém podia me contrariar. Quando passava da meia-noite as pessoas ao meu redor começavam a se sentir aliviadas. A autoridade que se imprime do lado dos outros defeitos continua sã e gorda e saudável.


[Na falta de velas, jogue uma garrafa e faça um desejo, "I want life to be as crazy as it is, I take the good and the bad and I make a party out of it"... Ou você vê lixo, ou vê desejos.]

Mas olha, eu estou aqui olhando para esse balão e a vida aqui do outro lado do Atlântico me deu um aniversário descente. Isso eu só descobri às quatro da tarde. Doze horas depois da sede. Com dezessete anos e doze horas eu caminhava até o Globus para encontrar a Tanya.

Meu deus. Eu-fui-para-a-escola-no-meu-aniversário! Que GAFE! É ÓBVIO que isso não durou duas aulas e eu matei o resto das aulas, permitindo-me pegar um ônibus que me levasse até o outro lado da cidade só para eu ir ouvindo meu mp3 e refletir sobre o significado que aquele dia deveria ter e não estava tendo. Na aula de história meu celular toca e começa a falar em português de novo, desse vez eu sabia quem era, porque o episódio se repetira há alguns dias atrás, e isso vindo da Samantha era muito normal por vários motivos, foi o único parabéns que eu levei a sério naquele dia. Não que eu esteja menosprezando todo o resto, mas foi o primeiro em português, e eu senti que se eu não falasse português no meu aniversário aquilo tudo estaria muito, muito errado. Um senhora se aproximou na parada de ônibus me perguntando qual ônibus ia para a Tsentralni Rinok, lembrei de quando fui encontrar a Natalya e todo o episódio da joanete lá, disse 40. A senhora não me disse Feliz Aniversário, com o balão agora está me dizendo. Na escola gente demais o disse, e alguém gritou em algum momento "S dnyom rozhdenya Hitlera!" [feliz aniversário, Hitler!"]. Não, eu não escrevi Hitler errado, o "a" é uma declinação. Peguei o troleybus porque sabia que ele ia mais devagar que os ônibus comuns e fui ouvindo qualquer coisa entre Blink e Adriana Calcanhoto. Well, I guess this is growing up.

Cheguei no shopping e procurei qualquer coisa material que me desse um mínimo de alegria, era meio-dia. Resolvi que deveria comprar um tênis novo porque o meu all star de cinco anos me diz que não durará o sexto. Entro nessa loja e tem essa prateleira inteira de sapatos brasileiros. Life has a funny way of screwing up with you. Eu ri. Sandália Ipanema, Grandhena, tudo fora de lugar e dimensão, em Kirov, meus caros, eu disse Kirov, uma cidade batizada com o nome de um cara que nunca pôs os pés aqui, a cidade com o maior índice de gêmeos e alcoolatras de toda a Rússia - não sei como as estatísticas de combinam.

O mundo se torna tão tolerável com boa música. Oh, sim. E ainda mais quando assistentes de loja não te enchem com polidez porque você tem fones nas orelhas. A incredulidade deu lugar a veracidade e deixei os calçados brasileiros lá e suas grandes etiquetas "BRAZILYA". Resolvi que precisava mesmo de calças. Uma vendedora ao me ver com calças na mão perguntou se eu não queria que ela pusesse-as no provador. Achei audacioso ela perguntar isso com toda a coisa dos fones nas orelhas. Ok. Comprei as calças e fiquei esperando o troco por dez minutos, o que fez a guria do caixa querer morrer por dez minutos, eu não acho que o meu olhar seja tão esmagador assim. Talvez tenha sido impressão minha. A verdade é que eu não queria comprar nada. Preguiça de lojas. Preguiça de compras. Depois de desistir de ir ao cinema, porque uma vez eu prometi a mim mesma nunca ir a cinema nem a aquapark sozinha, resolvi que ia para casa ver meus e-mails e assistir Hell's Kitchen. Meu facebook me mostrava meus queridos italianos me parabenizando e aquilo começou a fazer sentido, o chef do Hell's Kitchen ficava puto na incompetência de se fazer um omelete. Comecei a rir sem me sentir na obrigação de realmente o fazer. Falei com a Sophia no skype - existe esse horário que eu entro na internet e só realmente quem mora na Rússia está online. Algumas horas depois, duas, talvez, meu irmão e meu pai chegam em casa. Eles têm que viajar e eu que ia de saída encontrar com a Tanya digo que sim para o chá. Subo lá em cima no meu quarto e pego a blusa do Brasil que eu fiquei de dar para o meu irmão, lembrando que no Brasil existe mais a cultura do aniversariante dar coisas do que realmente ganhar. Lembrancinha foi uma palavra que me fez rir pela falta de uso nos últimos nove meses. Comemos uma torta, com a minha mãe também, torta praga, ela lembrou. Eles me deram uns albuns e um cartão, eu definitivamente estava precisando do álbum.

Corri para pegar o ônibus e ir até o Globus encontrar a Tanya.


[Jesus, assíduo freqüentador de aniversários]

Leio uma mensagem dela no ônibus dizendo que chegou atrasada em casa e que só vai 4.30, eu com dezessete anos e doze horas e doze minutos ando para lá e para cá na frente do Globus e resolvi ir para o Aleksandrevski Park, fundado em homagenm ao Aleksandr I, o Senhor que Derrotou Napoleão, na verdade foi mais o Napoleão indo embora que sendo derrotado. Tinha uma igreja onde eu estava sentada, na frente do rio, o tipo de igreja que quem está na Rússia há nove meses começa a ignorar, mas que turistas iam tirar fotos de todos os ângulos. Há cem anos atrás construíram essa igreja com uma capsula do tempo embaixo, é lógico que na época eles não pensaram que em cem anos as pessoas não iam destruir algo de cem anos pela capsula do tempo. A capsula do tempo está lá e provavelmente nunca vai ser desinterrada. Tem uma pintura de Jesus ali em cima e eu penso que não é agradável que ele apareceu para o meu aniversário e que ele não se preocupasse, eu sei que ele só bebe vinho. Senta aí, amigo. Fiquei ali no parque quando eu vi o mesmo balão que está aqui na minha frente se aproximar. Na verdade eu não acreditei, mas vendo a Tanya se aproximar com uma sacola e um balão escrito, em português e com acento "FELIZ ANIVERSÁRIO" ficou muito surreal ao som de Dammit do Blink. Um porta-retrato escrito em volta "forever young, stupid and in rumspringa" tinha uma foto de nós no aniversário da Ilaria, um cartão, e um vinho.

Sentei no monumento "às vítimas da repressão política" e li o cartão. Compramos um abridor de vinho, daqueles que parecem uma pessoinha, no Globus e de lá voltamos pro parque para a cúpula onde a czarina Catarina esteve. Mais convidados ilustres, não bastasse Jesus e Aleksandr I. Com esforço abrimos o vinho, era bizarro ver a paisagem do parque sem neve. Então acabou mesmo, o tal do inverno. Brindamos, falamos da poluição do rio Vyatka, tinha um casal bebendo cerveja do outro lado da cúpula e chegaram um desses grupos de jovens que são unidos pela causa da droga. Eles se aproximaram e pediram para tirar foto com o balão, emocionados por conhecer uma brasileira e uma alemã. Mais convidados ilustres. Ficamos umas horas ali discutindo o sentido da vida e o sentido de voltar para casa e o conceito de família e o conceito de nacionalidade e o conceito de pátria. Coisas que mudaram tanto que querem ser mais do que uma palavra. Ano louco. Ano necessário. Ao passo que a larica ia se aproximando, resolvemos comprar batatinhas, peguei a de churrasco, e foi assim que eu também tive churrasco no meu aniversário. Pasme, um churrasco com Jesus, Catarina, Aleksandr I, o último brigando socando o amigo Napoleão e dando movimento à festa. Descemos a rua totalmente alteradas. Tinha começado a chover, o que fazia do quadro mais deprimente. No meio do parque ainda uns caras perguntaram se eu andava sempre assim, com um balão. Eu disse que era meu aniversário, e ele disse parabéns. Pozdravlyayu. Spasibo.


Resolvemos visitar o Andryusha, o dono do café mais famoso da cidade. A verdade é que eu precisava ir ao banheiro e o café não estava longe. A luz vermelha do lugar lembrava o que quer que fosse o inferno. Subimos para o terceiro andar do bar, e pela leis das terças-feiras, o lugar estava vazio, o que significava que um sofá inteiro era meu e o outro da Tanya. Pedimos uma pizza, a garçonete, menos grosseiramente que parece, perguntou porque falávamos inglês. E aquele som de surpresa pelas nossas nacionalidades. A pizza do Andryusha é a única decente na cidade, e entre os efeitos colaterais foi a única pizza que eu comera em um ano. Há um ano atrás no meu aniversário eu também estava comendo uma pizza quatro queijos, só que agora era chetirye sira. Dei uma fitinha do bomfim para a Tanya, o último toque de brasileirice que faltava.

O barman cutucou a garçonete para dizer que a inostranka [estrangeira] estava chamando. A conta. Resolvemos ir visitar depois o Zhenya, o body piercing. No caminho para a parada de ônibus a Isabela me liga, que bizarro que soa falar português. Pegamos o ônibus, meu balão batia em todas as pessoas existentes, ele estava em todos os lugares, onipresente. Chegamos no studio do Zhenya e já estava fechado, resolvemos ir andando até a minha casa. Chegando na porta, achei que o dia já tinha valido a pena, e perdoei os gregos.

Tomei chá com a minha irmã, que me deu um chaveiro para a minha coleção e chocolate. Ela me contou essa história de pessoas que te sujam de maionese ao invés de pasta de dente em uma colônia de férias. Achei que toda a coisa da maionese fazia mais sentido na Rússia, e por algum motivo me deu vontade de ir para a China. Subi para o meu quarto, avisei aos meus americanos e aos outros para irmos ao restaurante italiano do Renato no Sábado.

Falei com o Kensou no skype e fui dormir sabendo que eu tinha sobrevivido, efeito colateral de um útero materno.

Eu tinha esse costume de escrever um poema a cada anivesário, e por algum motivo eu gosto mais do de quatorze anos.

Poema aos meu décimo quarto aniversário

- - - - todos cantam e sorriem para mim -
esperei muito por este dia
talvez nem tanto
minha mãe -
daqui a pouco tenho que apagar as velas -
todos estes salgadinhos
este bonito bolo
com jujubas
- preciso pensar em um pedido -
só para acentuar esta diabetes
não.
diabetes - não -
eu quero muitas coisas, ó bolo
mas me ouça com atenção
não posso parar o tempo
mas eles estão esperando eu
apagar estas velas
então comeremos, conversaremos, sim -
quero ver lugares que ainda não vi
conhecer pessoas que não conheci
agora - agora
gritavam meu nome.
Feliz ano novo pra mim.
Ganhei uma carta de minha mãe
deixei a festa acontecer e
olhei para a Dolly -
não me olhem assim
só quero desovar alguns pensamentos
de aniversário -
e estou quase alcançando a porta
será que eu mereço essa vida toda pra mim?
bem -
mais tarde minha mãe
mandaria um simpático pedaço de bolo
para o porteiro -
a praia continua a mesma
e eu
tenho todos esses anos
que não conto mais nos dedos -
e todos os meus tios
tias
primos e primas
amigos
começaram a ligar para mim
para me lembrar de todos esses anos -
preciso aproveitar esse momento de desova
antes que o celular anuncie que
o mundo lembrou de mim -
me sinto culpada por
ser branca demais
andando na praia
mas eu tenho todos esses anos em mim
então agora
eu
vou
querer
um

pra
mim -
só pra iluminar a minha
lua
própria que tem quatorze anos
14 anos -
eu
gosto muito de todos vocês
se conservem assim
- - - e veja minhas costas pálidas
enxergam
todos os
meus
anos e artérias




E um ano depois.

Poema aos meus quinze anos

Eu preciso olhar nos teus olhos
ouvir da tua boca
que
quinze é um número gentil
não sei se ele foi exatamente
gentil
foi áspero
chegou sem eu perceber
mas esteve sempre
do meu lado -
e eu, bolo, quero apenas
muito amor
amor sem dor
cacau puro
sem leite.
É estranho,
mas é assim:
vou ser muito - -
feliz.


E ontem.

Poema aos meu décimo sétimo aniversário

Meu amor eu pego o
trem - -
não desacredite em mim
que eu te amo como
os trilhos e seus
parafusos anseiam pela
velocidade as paisagens tão
- - - - - velozes
eu de pulso
de pulso fechado não
não soltei a tua mão
que é feita para agarrar-se a
minha
na bagagem te levo em fotos
ondas
tsunamis de sentimento
que causam a maresia das minhas
estruturas metálicas
aço
alumínio
talvez eu queira ser
mesmo mármore
perguntarei a todos os meus
anos
o que eles acham da destruição desse templo de
- dezessete anos -
e a construção de um de belas pedras
brancas
de
mármore
e serei quebradiça por - você -
Meu amor
fique na estação
que eu
ainda seguro a tua
a tua mão
E entenda que percorrer esses
trilhos do tempo
cruel tempo e suas estruturas
é que
- eu -
Eu nao quero ter onde ficar
porque tenho muito lugar
para ir
e não me conformo
- conformidade -
de estacionar assim
a vida inteira
em você
um só lugar
apesar de você
ser o
melhor
lugar
que existe
Eu pego sua mão e
um trem e
esses dezessete anos
ímpares
- no entanto -
e pela necessidade do movimento
não freio
os anos
e eles que não cessam
a aritmética
e a idade
por isso tenho que ir
- rápido -
enquanto eu tenho idade
vontade
maldade
pulmões saudáveis
por todos esses
trilhos
de anos.
Meu amor
eu só quero mesmo é
perder
a
conta.
(será o dia
em que serei
mais
- - - feliz - - -)

... Toda essa coisa de morar aqui sempre me leva a uma metáfora de trem.

Bem, obrigada a todos que me deram parabéns ou que simplesmente lembraram, e também a todas as pessoas que me falam que gostam de ler esse blog... Spasibo vsem ;)

Pontuo.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A geração assistindo Senhor dos Anéis


[Junho, Moscou e o teste de proficiência, e a exagerada importância dada aos papéis. E a submissão do mundo inteiro a isso]

Sentada no sofá do VGG com a minha professora de russo, falando sobre a mentalidade americana de achar que ali é o centro do mundo. Numa aula de geografia a professora fala que hoje em dia o mundo está mais multi-lateral, e alguém, para preservar a dignidade não citaremos nomes, diz que acha que os EUA manda em tudo. Tudo isso me enjoou bastante porque hoje em dia até a Paris Hilton faz discurso anti-americano. Aqui eu convivo com sete americanos e muitas vezes acabamos no assunto de que "você tem cultura e eu não", mas daí eu cito um monte de coisas tais como pop culture, que é o que move a nossa geração, acontece que o mundo inteiro está tão imerso na cultura dos EUA que parece que ela não existe, digo, não dá pra ver de um ângulo de fora para constatar a existência, ela existe e existe tanto que está em todo lugar. "Não importa", falo eu para a Elena, "eu acho que a nossa geração é toda igual: gordos, ateus e bipolares, um chinês nunca foi mais igual a um canadense como nos dias de hoje". E a esse ponto, de que fomos todos sugados pela pop culture, não há que discordar, foi quando eu entrei na sala de conferência de uma editora de livros e comprei uns livros de gramática e coisas que vão me tornar num guru sábio de gramática russa, daí a Camile entra na sala e eu me pergunto, "qual a diferença entre eu e a Camile?", e nada, meus caros, seja ela ou não americana, quando a coisa é sobre juntar todo mundo para assistir os três filmes do Senhor dos Anéis, a Brasileira, a Alemã, a Italiana, o Tailandês e os Americanos se juntam. Somos tão iguais que até os nossos sinais de nascença se envergonham por não conseguir nos discernir como deveriam. Camile comprou uns livros de gramática e ficamos lá ouvindo a conferência, quando em um intervalo para café alguém grita do outro lado da sala "BRASILEIRA!". Será que eu bebi?

Acena para mim uma ex-mãe de um intercambista brasileiro que deixou uma impressão de felicidade com um carimbo verde e amarelo e ensinou-a que "brasileirO" é diferente de "brasileirA". Estavam sentadas a professora Natalya, a ex-mãe; minha professora Elena, minha coordenadora Larisa, a professora dos Americanos Ana Sergeevna, e a minha coordenadora Elena Mixaelnovna. Às vezes os russos não contam com a boa audição de brasileiros, e foi isso que eu ouvi enquanto escolhia uns livros do outro lado da sala:

E.: Não, Natalya, com um mês na escola ela já tinha pegado Turgeenev para ler, a professora de literatura foi à minha sala outro dia me fazer elogios, é lógico que ela vai fazer o teste de proficiência do segundo nível...
N.: Kakay uminitsa (a tradução "que inteligente" soa tola), mas acho que o segundo nível é desnecessário
E.M.: Não, ela vai fazer sim o segundo nível porque está no nível!
A.S.: Os americanos vão fazer o básico
L.: É lógico que ela estudou mais que eles, A.S.
E.: Acho ótimo quando elogiam minha aluna!
[riso geral]... E eu ri também.

Às vezes as pessoas aqui se direcionam com tais elogios mas eu acho que tudo isso é só uma obrigação, estudar é a única coisa que eu tenho que fazer e se eu não fizer isso direito eu falharia na única obrigação que eu tenho, com que cara eu me olho no espelho? Todo o meu esforço sempre me pareceu o mais habitual, mas parece que por aqui as pessoas se impressionaram, eu não posso deixar de tirar sarro comigo dizendo que eu sou brasileira e não desisto nunca. Me aproximei delas. Elena faz um comentário sobre os livros que eu comprei e diz que "depois que você aprendeu russo, tudo é possível", e sentamos lá conversando sobre aprender gaélico. E o coração vai de tum tum tum a montanhas verdes que rolam até o infinito. Gales, gales, gales... Medo de ir para lá e desistir das obrigações de ser alguém, o problema é que isso se dará próximo ano e eu sei que se eu pudesse e não me sentisse na obrigação se fazer alguns sorrisos se levantarem eu largava tudo e ia viver entre ovelhas e livros em Gales. Coisas simples da vida, a gente que complica tudo e cria diplomas e salários. Tudo é só papel, uma ovelha não é papel. Tudo bem, um livro pode até ser papel, mas no seu âmago é pensamento. Mas eu sigo nessa primavera de quase Maio com o sentimento que eu tenho feito as boas escolhas, que antes era "living is easy, leaving is harder" e agora é "leaving is easy, living is harder", apesar do drama tudo tem ido como po maslu ["em manteiga"].

Então acabou a conferência, Natalya tentou me convercer a não fazer o segundo nível me segurando na sala com exercícios de pristavki e deepristavki [tipo de tempo verbal] e falando "tudo bem, próxima" toda vez que eu acertava. Eu ganhei.

Cheguei em casa e caí em cima dos livros, comprar livro é ultimately mais prazeroso que comprar roupa, a roupa se usa, mas os livros ajudam a usar-se. Na simulação do segundo nível eu passei, e em algum lugar em Kirov a orelha de Natalya queimou, a Brasileira triunfa.

Voltei agora da academia, vi uma pixação de uns rostos do Hitler em um muro que antes tinha uma montanha de neve na frente, aliás, a neve está derretendo, mas a primavera tem me decepcionado... Pois a primavera é a pessoa mais bipolar que eu conheço, em uma semana ela diz que vai ficar assim nesses 15 graus e a vida são flores, na outra, -5. A primavera é definitivamente a maior mentira russa. Então eu vejo os rostos do Hitler, deu preguiça, a existência de nazistas russos é a existência mais confusa, também. Enquanto meu livro de história me fala que "A Rússia salvou o mundo de Hitler e Napoleão", eu ganho as ruas e vejo Hitler. Ei, vocês ganharam a guerra contra os nazistas, não sejam nazistas, é tolo. A credibilidade cái, a bolsa quebra. Bonito é ver o mundo não falando mais de crise suína e quebra da gripe (ein?), em saber que a minha escola entrou em quarentena por causa dessa besteira. Hoje eu tava andando de camiseta, tá fazendo 2 graus mas existe Sol, e a zeladora da escola disse que era pra eu pôr o casaco porque ia gripar. Por algum motivo, a minha condição de brasileira faz todos pensarem que eu vou gripar. Eu vi o inverno passar e vi todos gripados e doentes e pneumoniados, e eu sobrevivi o tal inverno russo que nem Napoleão ficou pra ver. Não, de novo, só porque um papel diz que eu sou brasileira isso não diz nada sobre meu sistema imune.


[Blink, daqui pra eternidade e a não superação do Enema of the State. Por que o Mark não envelhece?]

Então eu cheguei em casa agora e me vi numa situação patética. Computador, hd, celular, câmera, calculadora científica (for nerds only), e agora, adicona-se um mp3, depois da minha vergonha diante de ipods que sempre acham um jeito de se perderem. Acontece que seria bonito e poético dizer que eu não dependo desses aparatos eletrônicos para a sobrevivência tomar lugar, e isso seria uma total mentira. Mas de qualquer forma, diante da prosopopéia da pateticidade da minha geração, o mp3 foi definitivamente a melhor compra do ano. Nada como descer a rua ouvindo a discografia do Blink e lembrar que Well, I guess this is growing up, mas o Enema of the State continua sendo o álbum mais batido e mais ouvido e nunca enjoável de todos os tempos da última semana. Ouvir Blink me lembra de quando eu tinha nove anos e me lembra que agora eu vou fazer os tais dezessete e que isso é assombroso, juro que por um momento achei que eu ia ter dezesseis pra vida toda. Dezesseis é o ponto morto das idades, não diz absolutamente nada sobre você como ter dezoito ou vinte e um. E saber que passado-se metade da minha vida, eu finalmente vou ver um show deles, o que era o amargor do meu futuro leito de morte saber que eu morrera sem ver o trio, uma vez quando um avião balançou eu pensei "ei, eu não posso morrer agora", com um suco de laranja na mão que antes estava cheio mas acabara de derramar metade do liquido com a turbulência, "eu tenho muito livro pra ler, tenho que ir num show do Blink. Que merda, não caia, avião". Metade de uma vida querendo, e chegar à outra metade conseguindo. Bebi o resto do suco de laranja e desembacara viva.

Uma vez eu quis entender porque brasileiro fala igual brasileiro e não como português. O que aconteceu de diferente no Brasil, que não aconteceu em Angola, Timor Leste? Colombo simplesmente abriu as portas dos seus mares ("O navio negreiro", Castro Alves, poema a se ler, abusem-o) e quando brasileiro viu já falava igual a brasileiro. Primeiro destruiu-se o "Vossa mercê", que virou "vossemecê", e gradualmente "vosmecê", "você", e ouve-se "cê". Aconteceu também com o "vamos em boa hora", "vambora", "bora, "bó", e agora um gesto com a mão. Ai, meu velho português e seu avô galego... Não entendo a existência do português brasileiro e dos seus sotaques, mas sei que é bonito e parece música, português, "a língua doce".

Então, por algum motivo, eu resolvi ler Augusto dos Anjos, "Eu e outras poesias". Acontece que Augusto escrevia com uma caneta feita de tripas ou algo do tipo:

Ao meu primeiro filho nascido
morto com 7 meses incompletos.
2 fevereiro 1911.
Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,
Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?!
Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!
Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!

Eu posso assistir filmes sangrentos e coisas do tipo e não sentir embrulhos, mas isso, isso é um engunho.

Também é com prazer que informo que achei a segunda música russa ouvível, porque em oito meses essa é apenas a segunda. Acho que até o feto do Augusto, prematuro fora ele ou não, de oito meses, elegeria mais de duas músicas, mas a Rússia tem um talento para a destruição de músicas com bom potenciais, por isso, feto do Augusto, essa é a apenas a segunda.

Meu aniversário está chegando e nenhum sentimento transcendental ou de mudança, realmente. Acho que vai ser só uma terça-feira, e se fosse uma quinta-feira eu diria que não sei qual é a das quinta-feiras e faria um pouco de sentido porque iria com harmonia com Douglas Adams. Mas é um terça-feira. Nenhum plano. Nenhuma vontade. Uma vez eu li que o aniversário é o feriado mais importante para os adeptos do Satanismo. Mas eu não sou, então serão apenas o acumulo de dezessete anos acontecendo numa terça-feira. Por favor, mundo, não me fazer uma festa surpresa. Eu ficaria três vezes mais feliz se ela não for feita.


[Roskolnikov, tentando superar os próprios montros desde 1866]

Roskolnikov do Dostoiévski me lembra o Alex Delarge do Burgess. Acho que é toda a coisa sobre o castigo e a sua eficiência: ninguém é completamente bom ou mal, diz Alex; o castigo cabe a nos, diz Roskolnikov. Fecha o livro e na vida real as leis são terrivelmente influenciadas pelo catolicismo. Se um dia deixarmos de ser tão biased... Eu queria ver a Imparcialidade como presidente, mas meio-termo não existe, imparciliadade não existe nem em dicionário - quem julgou que 3 mil palavras eram mais importantes do que outras 3 mil e deveriam constar no dicionário? Não sei, Alex, isso tudo parece tolo, e é bom reler Laranja Mecânica rindo das palavras em russo, por isso toca a Nona, brat...

Essa coisa da gente nascer pra ser criatura gentil. De ir pra faculdade, ter filhos, uma pedra nos rins e um carro esporte. Às vezes perde o que nem se tem a perder, a sensação de pegar a estrada, quando não se tem nada a perder, e quando se perde esse espírito, perde-se tudo. Movimento. Ninguém vive sem movimento. Existência monótona em monotom já cumprem os discos de cursos de língua. Essa coisa de ser criatura gentil, Roskolnikov e Alex, é uma coisa sem pé sem cabeça mas quem somos nós senão essa coisa com pé e cabeça.

Quero café.

Pontuo.

domingo, 11 de abril de 2010

Meu nome é Riquinho e esta porra é minha



[Árvore genealógica da primeria parte da dinastia dos Riurikevich, questionando o primordial e o pioneirismo dos primeiros reis: onde estão as mulheres? Não importa de você lê russo ou não, é óbvio que estão faltando as mulheres.]


O mundo é uma coisa tão velha e tão sábia que muita pouca gente entende de que, da onde, porque, quando, porque surgiu isso tudo. Não há muita gente mais sábia que o mundo em si. Tem gente que respondeu "42", sem fazer a pergunta. Tem gente que disse que alguém tinha uma semana de folga e criou isso tudo. Tem gente, ainda, que jura que tinha uma coisa menor que uma ponta de agulha e que explode e pam, estrelas, planetas, céu, estrelas, um arroto da vida. Tem gente, no entanto, que cria Riurick. Agora a pergunta é: Rianne, o que você fez na sua tarde de Domingo?

Enrolei até o ponto em que minha consciência não me deixava mais "perder tempo" lendo um livro e não estudando, estava lendo Absurdistão, rindo autistamente como eu rio quando leio livros divertidos (terrivelmente divertidos). Foi uma coisa chata que aconteceu na escola outro dia, sentada eu no banco, não-socializando, com sono, lendo "Meu tio matou um cara" da Pocket, é um conjunto de contos do Jorge Furtado, Meu tio matou um caro é um deles, mas eu estava lendo outro, chamado "Juízo", infelizmente a versão que eu achei na internet é menor e não tão divertida quanto a que está no livro, portanto comprem o livro e enriqueçam a Pocket. Acho que eu não ria tão alto de uma besteira tão grande vinda de um livro desde meus ataques epilépticos e convulsões com Douglas Adams, o problema é que as duas meninas que fazem alemão comigo estavam esperando a professora de alemão e sentadas do meu lado, quando eu desatei a rir autistamente elas pediram que eu traduzisse, aí eu penso "porra, como traduzir: um dois três, quatro cinco mil, as amebas vão pra puta que o pariu!". Tentei explicar sobre o que era o conto, consegui uns risinhos, mas nada intenso. Leiam, eu não vou contar.

Mas a minha consciência deu pra fazer "cu cu" pelas 2 da tarde quando eu já não podia mais procrastinar e deveria largar meus livros. Sento eu para uma entrevista com o senhor Riurick. O difícil da metafísica nessa entrevista é que ninguém sabe se o Riurick existiu, e isso, isso é uma merda (quebrei uma unha aqui e agora e isso também é uma merda). Vamos à entrevista.

Estamos aqui no estúdio com Riurick, platéia animada, convidado célebre, duas coisas que andam juntas. Este rapaz descobriu a Rússia.

- Riurick! Riurick! Riurick - voscifera a platéia, numa energia calorosa, nos bastidores Riurick róe as unhas.

Muito bom, muito bom! Então, por favor, com vocês, Riurick. [Riurick entra no estúdio]

- Olá, Riurick, boa tarde, se importa se eu te chamar de Riquinho?
- Olá, não, absolutamente não.
- Então, Riquinho, conta aí para gente, como é que é descobrir a Rússia!

Riquinho toma ar e começa:

- Quando eu vi, já era rei.

E termina.



[Que tal Riurick em cores]


Tudo bem, chega disso. Quem é Riurick? É o Colombo da Rússia, um escandinavo que foi parar da cidade de Veliki Novgorod quando o mundo tinha pouca experiência em ser mundo. Mas existem teorias que descompravam a existência do Riquinho, sendo "Ryurick" uma palavra escandinava que significa "velho" ou algo do tipo, então tudo o que foi achado em escrituras pode ser apenas um Substantivo, não um Homem. Então, Riquinho, conta pra gente, ser o pioneiro da História da Rus (que ainda não se chamava Rússia) é responsabilidade, mas que diabos de responbilidade é essa se, sabe-se lá, você nem existiu?

Tudo isso rodopiava e se batia conta as paredas ovais da minha mente, como um peão empenado. Por que eu estou estudando a história da Rússia, sobre alguém que talvez nem existiu? E a coisa vai além. O filho do Riquinho, o Igor, que armou barraco com o Império Bizantino, quebrou tudo, chegou chegando, disse que esta porra é minha, sequer é citado nos documentos bizantinos, e os bizantinos tinham o hábito de registrar batalhas e eventos como esse quando um sujeito que teve uma péssima noite de sono chega botando fogo na moçada. Então, Riquinho, Igor também não existiu? Então que parte da história da Rus tem crédito? Onde estão os fatos?

Os russos não sabem, imagina a Brasileira. Coisas interessantes sobre a história da Rússia é ver todo mundo se matando, a moçada cái na faca mesmo. Eu lembro de quando eu estudava História do Brasil e pensava "que tédio, nada de guerra, nada de sangue, só um gordo que foge e Portugal e vai pra colônia que cospe ouro". Mas daí começo a estudar a russa e toda essa carnificina cansa também. Por que será que nessa vida não se fabrica o meio termo? Polo Norte, Polo Sul, há a linha do Equador e se você tiver interessado visite Quito, mas como levar o nome dessa cidade a sério? Só extremos, nada de Quito.

Quando eu estive nessa linha no Equador em Quito eu tinha oito anos e ficava me perguntando porque o mundo não estava se divindo ali. Talvez se eu tivesse ido para um dos Polos teria ficado satisfeira em ver que tinha neve pra todo lado e me convencer de que aquilo eram os polos, de repente um urso polar me dava tchau e aí eu ia ter mais certeza ainda. Mas fui pra Quito e aquela linha não me convencia, o mundo não estava abrindo debaixo de mim e eu não via as estrelas no chão. Nas fotos desse dia as minhas caras são de pura e crua decepção, com o mundo e suas linhas.


[Linha do Equador e o trauma infantil]


Então eu cheguei até Svetoslav (nome bacana, amigão), que é, se eu não me engancho nos nomes mais bacanas e na matemática, a quinta geração depois de Riquinho. Mas daí tudo aquilo me encheu o saco quando 7 irmãos, ou 8, sei lá, começaram a se matar e a queimar tudo (pra você que achava que os russos só começaram a queimar tudo na época da invasão do Napoleão, o buraco é mais embaixo), e ainda tinha o irmão orfão que ficava ali do lado e não tinha nenhuma terra porque o tio malvado não gostava do pai do filho orfão que tinha roubado o poder, por isso o tio malvado matou o pai do filho orfão, Svetopolk, a facadas e fez sete filhos, disse que esta porra de terra agora é pagã e eu vou ter quantas mulheres eu quiser (daí saem os 8 filhos) e ainda vou ter a mulher do meus irmão, o pai do filho orfão, aquela grega gata que ele roubou dos bizantinos. Mas basta. Daí olhei o trabalho que eu tinha feito a tarde inteira, seis horas seguidas daquilo, nove páginas escritas, coisas que arrancarão sorrisos da minha professora de história. Mas pensar que eu não cheguei nem na primeira metade da primeira dinastia é saber que a professora de história irá se assustar quando eu entregar 78 páginas.

Nisso tudo uma coisa me intrigou. Eu estava olhando a árvore genealógica das dinastias russas para me orientar na internet, e pra ver o tempo passar desço, desço, desço (eles eram muitos), e lá no final acabamos em "Medvedev" e depois, onde não deveria haver mais nada, entre os anos 2012 e 2020: "Putin". Mas por que eu não fiquei realmente surpresa? Porque o Putin faz o que quer, até compra nerds que fazem esses tipos de site para preverem, sedimentar logo na história que nem aconteceu, que nas próximas eleições é ele que se elege. Vou percorrendo outros pensamentos e rio do avião que caiu com o presidente polonês, que até pra quem não assiste televisão a notícia chegou fresquinha, porque alguém (sem nomes) me disse que o Putin planejou tudo. E de novo, por que eu não estou surpresa? Talvez ele até me prenda por esse post.

E agora que eu deixei os filhos, netos, bisnetos e etc. do Riquinho de lado, voltei aos meus livros para festejar um número satisfatório. Esse ano eu resolvi fazer metas, absurdas em sua maioria, as quais eu devo cumprir e sobreviver no caminho disso tudo. Eis a lista.

1) Aprender a fazer sushi
2) Yoga
3) Ler no mínimo 100 livros
4) Aprender italiano
5) Comprar uma câmera profissional
6) Ir a show do Queens of the Stone Age
7) Ver um Van Gogh de verdade
8) Aprender a consertar bicicletas
9) Ver um eclipe num telescópio
10) Tocar violão em um passeio público
11) Subir em um telhado
12) Aprender a lutar capoeira
13) Aprender a tocar pandeiro
14) Fazer algum esporte radical

Então vamos falar de fatos. Número 1 se realizará em Julho, porque por enquanto o meu tailandês aqui é incapaz de me ensinar isso, imaginem que este é um tailandês que não gosta de sushi (eu sei que sushi é japonês, mas), e é um tailandês, o qual os pais têm uma empresa de peixes e ele não come peixe, por isso o meu Doutorado em sushi teve de ser adiado para Julho; número 2 começara em Setembro, número 4 está sendo encaminhando e molto bene, número 5 está esperando patrocínio, número 6 será em Agosto (coração bate a 899 batidas por minuto), número 7 será em São Petersburgo em Junho; número 8 está indefinido, mas está de acordo para os meus planos de Julho de 2011, quando, hopefully, sumirei por 2 meses, ninguém vai ouvir falar de mim, estarei em Gales com uma bicicleta e um mochilão, quem sabe trabalhando numa fazendo de um Senhor que fala apenas gaélico e pouco inglês, sem salário, só pela experiência, pela história, pela excentricidade, e se a bicicleta quebrar, eu devo saber consertá-la; número 9 será em Novembro, quando teremos um eclipse e eu tenho um telescópio e a mania de não dormir e usá-lo; número 10 será em Junho em Moscou na Arbat, se você estiver passando por lá ouvirá algo entre Nando Reis, Seu Jorge e Jack Johnson; número 11 precisa ser pensada; número 12 será em Julho na praia em Fortaleza (sério); número 13 vai ser fichinha e ainda se aprende a sambar no caminho, talvez na escola de samba de São Paulo em Julho; número 14, sabe-se lá, talvez eu acabe fazendo aquela coisa divertida de um barco te puxando no mar na praia e ainda ganhe uma cor, se isso for possível ainda no meu caso sem salvação (doe melanócitos, doe vida).


[Chega de achar que você é maneiro. Todas as pessoas maneiras do mundo são integrantes do Queens of the Stone Age]


Então é isso, eu me divirto fazendo essas listas e cumprindo todas as frivolidade que pede a minha alma que não consegue viver sem movimento e odeia rotina. Agora vamos falar da número três e do tal número satisfatório. Estou anotando os livros que eu li e já cheguei a 24, o que é um número bom para essa altura do ano, mas se tudo der errado, é capaz que eu passe meus feriados de Natal e Ano Novo em casa lendo os livros que faltam para completar 100, mas pelo ritmo e pela dedicação e essa coisa que eu tenho de querer provar a mim mesma, é bem capaz que eu ultrapasse os 100 e pro próximo ano estabeleça ler 200.

E talvez eu desenrole o realizar dessas coisas por aqui mesmo, escrevendo, vomitando, essas coisas.

Bem, últimas impressões sobre Roskolnikov: é que a mentalidade do Estado ainda é muito cristã e a sua teoria não caiu bem, apesar de não ter nenhuma furada lógica.

Quando eu for pra Piter pretendo contar os passos só pra desafiar o Dostoiévski. Próxima parada na literatura russa indefinida, por enquanto vou lendo Absurdistão e uma trilogia que a minha professora me deu, e lógico, cruzando os séculos e deslizando no sangue derramado das dinastias russas.

Pensamentos de Sidarta:

"E ele, Sidarta? Qual seria o seu lugar? Participaria ele da existência de outrem? Haveria pessoas que falassem a mesma língua que ele? Desse minuto, durante o qual o mundo que o cercava se dissolvia em nada, durante o qual Sidarta estava só como um astro no firmamento, desse minuto, transido de frios e de temores, emergiu Sidarta, mais eu do que nunca, mais firmem, mais concentrado. Sentiu nitidamente: aquilo fora o derradeiro tremor do despertar, o último espasmo do parto. E logo tomou a caminhar, em marcha rápida, impaciente, afastando-se da sua terra, do lar paterno, de tudo que jazia atrás dele"

Pontuo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O que fazer quando um atentado terrorista não estragou suas férias

[Estado de espírito: cheio]


[O caminho para o fim da sua dignidade: cuecas com tema Rússia!]


Cheio, apesar da dor nas costas e da música do site do Placebo que acaba de me deixar surda. Sério, ó Mundo, não-ponha-música-nos-seus-sites! Acontece que as pessoas podem estar ouvindo qualquer outra coisa e isso irrita muito, mais que dor nas costas (que é crônica). E os motivos para eu estar no site do Placebo? Hm, hm! Diz aquela que irá para um festival com Placebo, Blink, Queens of the Stone Age na Alemanha em Agosto, morrendo apartir desse minuto até lá! E como se não bastasse Josh Homme em sua ruividade, acrescenta-se Mark Hoppus e Travis Barker e para não dizer que não valeu a pena, Brian Molko, o hétero mais gay de todos os tempos (não me levem a mal, adoro Placebo, respeito o Molko, mas ele usa mais maquiagem em um dia que eu usei na vida toda!).

Bem, eu deveria começar com desculpas sobre a minha ausência, mas não vou, depois falo disso. Estava eu hoje sentada ali na aula de literatura, quando me dou conta de que... Estou lendo Sidarta e que estou marcando um livro com um flyer de cosméticos. Nesse momento minha professora olhou pra mim, quando eu me desatei a rir sozinha (esse momento deu-se mais autista do que eu consigo descrever), e meio que riu de canto de boca, porque ela não pensa ruim de mim, pelo contrário, eu ouvi um dos elogios que eu nunca esperei ouvir na vida, primeiro, porque eu não sei aceitar elogios.

A dona Galina Arkadyevna, da qual eu sempre falo e a qual deixou sem dúvidas uma impressão na minha vida comparável a minha professora dos EUA Miss Rudek, e minha professora de russo Magdalena e seu sobrenome polonês complicado, e minha professora de redação Aurilene e Ana Pimentel, que em algum momento acreditaram em mim.

Galina Arkedyevna disse que "nunca", ela começou, "nunca, tendo conhecido tantos estrangeiros, nunca vi ninguém se interessar tanto por uma cultura que não é sua, que nunca vi alguém tentar tão silno (não acho a palavra em português)". E eu lembro que há 8 meses atrás eu me atrevi a ler Turgenev com um vocabulário de russo insatisfatório até para quem quer comprar hamburger no Mcdonalds ou pedir uma água mineral - não, tudo bem, admito que não era tão ruim assim, mas Turgenev era Turgenev. Ainda o é, só que decifrável, inteligível, compreensível, brilhante, surreal.

E eu fico pensando que as pessoas passam na nossa vida e "nado umeet vzyatsya" [é preciso saber escolher] quem deixa as impressões, roubando as palavras de Tolstoi. Por muitas vezes eu sempre pensei que literatura era a ponte mais fácil para entender um povo, ora, quem lê Machado de Assis logo entende a alma carioca, e Rio de Janeiro, apesar dos meus longos monologos e motivos para não gostar da Cidade Maravilhosa, eu não posso negar que ela é parte do Brasil - é que as vezes acho injusto ao olhar pra Salvador e ver essa cidade TÃO brasileira, enquanto o Rio leva todo o crédito, e além de umas experiência quase-morte por lá (envolvendo tiros, traficantes, polícia, um taxi, balas cruzadas e eu dentro do taxi, "nossa, são fogos?").



[Curtindo um trem, conhecendo protestantes e velhas que criam pássaros e exportam plantas, sempre digo que trem na Rússia não é só trem, é uma experiência]

Então eu acho que tenho vivido o nirvana - e não é pra me gabar. Em Moscou eu achava, semana passada, agora eu tenho certeza. E não é so por toda essa coisa de estar lendo Sidarta, é porque tudo parece estar - dando certo - e é bonito de se ver. Abrindo minha agenda encontra-se algo que eu escrevi há uns dias atrás:

"Felicidade é um sentimento tardio que requer o contraste para existir, ao que a tristeza ajuda a existência da felicidade"

Não sei da onde, mas esse tipo de coisa sempre cai feito raio na minha cabeça. E eu tenho razão. (na maior parte da minha vida acho que não tive medo de parecer metida porque o resto do mundo tinha, então, me julguem)

Moscou, meus caros, MOSCOU... [suspiro longo, interminável]. MOSCOU...

É uma experiência pessoal - como são todas as experiências - mas é essa a cidade, meus caros. Eu, bivshaya [que estive] em Paris, chegando na Torre Eiffel, esperando e esperando aquele sentimento transcendental vir, daquele sentimento que falavam que só Paris transmitia. Então eu insisti mais. Subimos a Torre Eiffel, eu, lá em cima, conheci um brasileira que trabalhava no elevador, e cheguei. E nada, seguramente, nada.


[Praguejando na Praça Vermelha]


E agora eu, subindo as escadas do metrô com saída para a Praça Vermelha, e digo sem prepotência que a alma se enche, que cada pedra parece posta no lugar certo demais criando a energia necessária demais. Eu tenho esse problema com energia. Só esse ano, tive que mudar de academia duas vezes porque o caminho tinha "uma energia ruim", e eu constato isso sem nenhum parâmetro, mas "you know when you know". Eu tentava sempre ir por um caminho diferente, mas não deu, tive que trocar, agora estou na terceira, a energia parece agradável até agora.

Menos de mim, mais de Moscou. E ainda andar por aquela cidade enche mais a alma que parece pote de pepino posto na água morna pra abrir quando de repente a tampa PULA. Eu nunca declarei que haveria alguma decência nas minhas metáforas. Entre conhecer pessoas aleatórias na rua que sabem dizer 'obrigado' e 'brasileira', é lindo de se ver. E foi numa noite no hotel assistindo Jean Charles, uma noite antes do atentado... Eu sentava ali na vokzal [estação] e pensava mais ou menos o que se segue:

Progresso. Com os dedos cheios de açúcar de algo entre caipirinhas e itailanos bêbados, foi a palavra que achei ao segurar a bandeira brasileira no quarto do hotel. Progresso, quando Deus tentou se aproximar de mim no trem, ora em forma de um grupo de protestantes, ora em forma de uma senhora velha que cria pássaros e exporta plantas. Progresso, com um som melancólico ganhava a realidade em forma de um trem que agora ia de Moscou a São Petersburgo, e eu sentada ali na estação, do lado de uma estátua do Lenin, dessa vez mais intimista (mas não mais competente), apenas a cabeça, nada de busto, como se Lenin não tivesse chutado cadeiras e usado suas pernas e dado murros e usado seus braços, como se aqueles outros membros não fossem importantes, como se só a cabeça tivesse trabalhado. Progresso, ali, com a Stefani gemendo de dores de gastrite e uma pequena multidão murmurando em italiano a sua volta, e eu me perguntando se atentados terroristas, um dia antes, até menos de 24 horas, ali, significava tanto progresso quanto Lenin e seus trens. Progresso, era eu andando por uma centena de xrams [catedrais] russos e perguntando se algum dia eles iriam superar todo esse sentimento de estar para o ortodoxismo assim como Itália está para o catolicismo, e se seria por acaso fora ofensivo trazer aquele bando de italianos e aquelas brasileiras católicas e aqueles alemães luteranos e aqueles tailandeses budistas para ver tais cúpulas. Muitas vezes o progresso faz muito pouco sentido, mas pode ter muitos significados em horas completamente aleatórias, por isso junto todos estes na tentativa de explanar sobre a semana mais sem eiras e beiras de toda uma vida de quase dezessete anos...

Fim.

Esse é o primeiro parágrafo de um conto que eu venho me pondo a escrever.

No dia seguinte ao atentado, passando pela mesma estaçao, a Lubyanka, a qual fora explodida, flores por todos os lados, tudo meio fora do lugar, mas os trens do metrô sempre pontuais, prontos para a próxima. Tudo parecia fora do lugar mas os trilhos e os trens seguiam a labuta como se fossem muito indiferentes às mazelas humanas, e já que o são, pois bem. Em nenhum momento achei que ia morrer, não, bred, vzdor [besteira]. Mas saber que existiu a possibilidade é atormentador, a vida ali andando numa corda bamba, apenas que eu tenho joanete e as minhas chances seriam mais para cair que continuar corda-bambando. Porque por pouco eu não estava naquele metrô no dia anterior, e é meio aterrorizante estar no dia seguinte, e a mesma voz falando mecanicamente "ostorozhno, dver zakrivauitsya" [cuidado, as portas estão se fechando] tão mecanicamente, tão rotineiramente. A questão é sempre voltada para o egoísmo: mas é lógico que a cidade não ia parar. Porque assim como as portas, as pessoas estavam sendo tão mecanicamente como foram ontem, ignorando uns assentos vazios em hora de pico. Eu não sou fã de conflitos, e eu sempre entro nesse discursso besta-Suiça de como o Brasil é neutro e de como eu não entendo as guerras e os seus motivos e todo o mercado bélico. Na verdade entendo, mas não compreendo, não faço questão de concordar, nem de abaixar a cabeça como que num gesto de consentimento. Eu não entendo as pessoas que explodem-se e também não corro atrás da explicação, mas estando expatriada há um tempo já agora eu os digo: Senso comum não é tão comum assim. Não sei nem porque chamam assim. Hoje mesmo uma babushka zangou-se comigo no ônibus porque eu estava procurando minha carteira na bolsa e ela queria passar e ela foi violentamente gratuita como são as babushkas e eu disse "morre no inferno, velha infeliz", nisso uma garota da minha escola estava perto e sabendo da minha identidade secreta brasileira que ninguém mais naquele ônibus sabia, meio que deu umas risadinhas assim, e eu me senti tremendamente excepcional depois de mandar pela primeira vez, uma babushka pro inferno. Meu deus, devia ter feito isso se soubesse que era tão terapéutico. Ou como o cachorro idiota que me seguia e latia atrás de mim, bastou que eu virasse para o coitado e falasse "olha, filho da puta, te mando pra china e tu vira churrasco", não sei se foi o tom ou o olhar (porque essas mazelas do acaso realmente me irritam), mas o cachorro foi embora.

Pois entre atentados, babushkas e cachorros estúpidos, tem gente que sobrevive.

Eu tinha mais 30 minutos em Moscou, passeando pela Arbat depois de uma tentativa frustrada de ir ver o Van Gogh... Chegamos eu e Sophia no museu só para ouvir que "on uexal v evropu" [ele foi para a Europa], e eu vi meu castelinho de areia sendo levado por uma onda de maré estúpida, trazendo um monte de estrelas-do-mar consigo, os seres mais burros e inúteis desse planeta. Aposto que se tirarmos essas coisas da cadeia alimentar não haverão protestos. Pois tão inutil quanto estrela do mar foi o meu encontro com Van Gogh, frustrante. Mas sinceramente, nada iria me abalar naquele dia. Eu e Sophia haviamos pedidos barcos de sushi, ido na Starbucks, num pub irlandês, com ou sem Van Gogh, o dia foi sensacional o suficiente. Pois foi nesse mesmo dia, quando eu tinha que pegar o trem em uma hora que vi um Tattoo Shop na Arbat, uma rua em Moscou, e entrei.

Habitava no Tattoo Shop uma dessas gurias que parecem com a Kate von Dee (ou como se escreva seu nome, minha querida). Eu disse para ela que tinha 15 minutos para fazer um piercing e ela disse que só precisava de dois. Sentei no sofazinho por 15 segundos, tempo o suficiente para um russo-aleatório que comia sushi perguntasse se eu e a Sophia éramos italianas. Não. Ele deu um sorriso errado e pegou o próximo sushi, a Kat von Dee nos chamou.

MERDA! Eu tinha esquecido como doia furar o nariz. Fora a terceira vez que eu fizera o mesmo furo, chega a ser um número ridículo. Primeira vez não lembro porque tirei, devia estar inflamado mas eu tinha uns doze anos então não importa, a segunda vez que eu tirei foi ano passado na cirurgia para tirar as amigdalas e enquanto eu virava vegetal naquela cama de hospital curtindo os subprodutos de uma anestesia o furo fechou e eu fiquei com essa idéia de que lógico que eu vou fazer de novo, daqui a pouco... E daqui a pouco não veio, até que na Arbat tudo se decidiu em 15 minutos. "Jivaya?" [viva?], perguntou Kate von Dee, e com o catéter no nariz balancei a cabeça pronunciando um "da" [sim] tão covarde como a minha coragem naquele momento. Acho que a gente é mais porra louca quando tem uns onze ou doze anos, essas dores de piercings não são mais pra mim. E em dois minutos, como a Kate von Dee prometeu, sai com o meu piercing, ela fez ainda o da Sophia na boca, e como que sendo a prosopopéia da cereja num dia perfeito, põe-se a cereja-piercing no bolo. Não faltou nada. E apesar do terrorismo, Moscou é a cidade, meus caros, e tenho dito, palavra.

Cansei de falar minhas inconcreticidades, vou estudar e ler Dodô (para os íntimos atende Dostoiévski), feliz por ter achado minha "Bucket list", diz-se, coisas que devo fazer antes de morrer e lá no meio achei "ler dostoiévski em russo", pus um x-zinho do lado como quem marca o território que ganhou. Aliás, hoje tive que escutar um discurso xenofóbico estúpido de russos sobre franceses numa aula de história.

Tudo bem, Napoleão foi vencido pelo cansaço, pelo frio, pela fome, mas chega dessa coisa de achar que o resto da França pensa, age, e bota a mãozinha na barriga igual ao Napoleão. Eu me encontro muito com essas situações aqui que "nós não somos racistas, sõ não gostamos de gente negra". E há uns dois dias atrás estava eu sentada no intervalo quando um garoto senta do meu lado e me pergunta como foram as férias, segue-se:

- Viajei pra Moscou - respondo
- Eu prefiro Piter (São Petersburgo) - absolutamente todos os russos dizem isso quando se menciona Moscou, o garoto não era excessão. Na verdade, num país recem-saído do socialismo todo mundo parece muito igual mesmo se você espremer os olhos para procurar as diferenças. Kirov tem uma população 97% russa. Os outros três por cento provavelmente somos eu, Tanya, Todd, Ilaria, e os sete americanos, nossa "little colony", como chamamos.
- Ah, eu estou indo pra lá só em Maio, não posso julgar...
Então o garoto, que vamos chamar de Estúpido, engatou num discurso sem que realmente ele me perguntasse eu me elegera como público.
- Prefiro Piter porque em Moscou tem muitos imigrantes - continuou, falando para a estrangeira - lá tem muitos asiáticos - Estúpido botou o dedo nos olhos puxando-os para o lado - eles estão em TODA esquina! Em Piter nunca vi isso.
- Estúpido - interrompo-o - mais da metade da Rússia encontra-se na Ásia, e por acaso, o país é mais asiático do que você pensa, chega de achar que isso aqui é Europa.

Então eu recolho minha bolsa, meus livros, minha paciência, e deixo Estúpido falando só.

E a minha ausência deu-se por inúmeros fatores que começam em Crime e Castigo, passam por Sidarta, exames de russo e história da Rússia, e parecem acabar em algum lugar em ler contos russos que são a perfeita cópia de contos da Disney, só que enrussados.


[Dostoiévski na aula de literatura, olhar que te perfura e te analisa, meio que sombrio demais]


Estranho saber que eu vou pro Brasil em Julho e apesar de estar morrendo de saudades de todos, vai ser estranho ter que voltar pra cá, porque nesse ponto da vida parece que eu me acostumei à falta, e ver todos de novo vai ser peso 2. Saber que a vida é impossível sem a Dolly, minha avó, meus pais, Kensou, Ana Luísa... Mas depois descobrir que é mais ou menos maneável e então começar todo o processo de novo... "Ninguém disse que ia ser fácil", falou o Rusan na academia, e alguns clichês-frases caem bem sempre.

Depois de conhecer os protestantes no trem que haviam ido para São Paulo em fevereiro, na mesma noite sonhei com Deus. Deus disse que estava muito desapontado comigo, eu teria dito que eu sou atéia ou pelo menos não católica, mas acordei, foi como desligar o telefone na cara de um amigo, acredito que por esse ponto ele só esteja mais decepcionado, mas o fato de eu estar lendo a bíblia em russo que os protestantes me deram parece aliviar o meu crédito na praça.

Moral da história e de Moscou, é que a vida brilha absurdamente quando se juntam latino-americanos e italianos (próxima vez que me pedirem dica de viagem digo exatamente essa fórmula) e que Roskolnikov (protagonista de Crime e Castigo) é um louco e já me encheu o saco, mas vou acabar de ler esse livro logo.

Pontuo.