quinta-feira, 15 de abril de 2010

A geração assistindo Senhor dos Anéis


[Junho, Moscou e o teste de proficiência, e a exagerada importância dada aos papéis. E a submissão do mundo inteiro a isso]

Sentada no sofá do VGG com a minha professora de russo, falando sobre a mentalidade americana de achar que ali é o centro do mundo. Numa aula de geografia a professora fala que hoje em dia o mundo está mais multi-lateral, e alguém, para preservar a dignidade não citaremos nomes, diz que acha que os EUA manda em tudo. Tudo isso me enjoou bastante porque hoje em dia até a Paris Hilton faz discurso anti-americano. Aqui eu convivo com sete americanos e muitas vezes acabamos no assunto de que "você tem cultura e eu não", mas daí eu cito um monte de coisas tais como pop culture, que é o que move a nossa geração, acontece que o mundo inteiro está tão imerso na cultura dos EUA que parece que ela não existe, digo, não dá pra ver de um ângulo de fora para constatar a existência, ela existe e existe tanto que está em todo lugar. "Não importa", falo eu para a Elena, "eu acho que a nossa geração é toda igual: gordos, ateus e bipolares, um chinês nunca foi mais igual a um canadense como nos dias de hoje". E a esse ponto, de que fomos todos sugados pela pop culture, não há que discordar, foi quando eu entrei na sala de conferência de uma editora de livros e comprei uns livros de gramática e coisas que vão me tornar num guru sábio de gramática russa, daí a Camile entra na sala e eu me pergunto, "qual a diferença entre eu e a Camile?", e nada, meus caros, seja ela ou não americana, quando a coisa é sobre juntar todo mundo para assistir os três filmes do Senhor dos Anéis, a Brasileira, a Alemã, a Italiana, o Tailandês e os Americanos se juntam. Somos tão iguais que até os nossos sinais de nascença se envergonham por não conseguir nos discernir como deveriam. Camile comprou uns livros de gramática e ficamos lá ouvindo a conferência, quando em um intervalo para café alguém grita do outro lado da sala "BRASILEIRA!". Será que eu bebi?

Acena para mim uma ex-mãe de um intercambista brasileiro que deixou uma impressão de felicidade com um carimbo verde e amarelo e ensinou-a que "brasileirO" é diferente de "brasileirA". Estavam sentadas a professora Natalya, a ex-mãe; minha professora Elena, minha coordenadora Larisa, a professora dos Americanos Ana Sergeevna, e a minha coordenadora Elena Mixaelnovna. Às vezes os russos não contam com a boa audição de brasileiros, e foi isso que eu ouvi enquanto escolhia uns livros do outro lado da sala:

E.: Não, Natalya, com um mês na escola ela já tinha pegado Turgeenev para ler, a professora de literatura foi à minha sala outro dia me fazer elogios, é lógico que ela vai fazer o teste de proficiência do segundo nível...
N.: Kakay uminitsa (a tradução "que inteligente" soa tola), mas acho que o segundo nível é desnecessário
E.M.: Não, ela vai fazer sim o segundo nível porque está no nível!
A.S.: Os americanos vão fazer o básico
L.: É lógico que ela estudou mais que eles, A.S.
E.: Acho ótimo quando elogiam minha aluna!
[riso geral]... E eu ri também.

Às vezes as pessoas aqui se direcionam com tais elogios mas eu acho que tudo isso é só uma obrigação, estudar é a única coisa que eu tenho que fazer e se eu não fizer isso direito eu falharia na única obrigação que eu tenho, com que cara eu me olho no espelho? Todo o meu esforço sempre me pareceu o mais habitual, mas parece que por aqui as pessoas se impressionaram, eu não posso deixar de tirar sarro comigo dizendo que eu sou brasileira e não desisto nunca. Me aproximei delas. Elena faz um comentário sobre os livros que eu comprei e diz que "depois que você aprendeu russo, tudo é possível", e sentamos lá conversando sobre aprender gaélico. E o coração vai de tum tum tum a montanhas verdes que rolam até o infinito. Gales, gales, gales... Medo de ir para lá e desistir das obrigações de ser alguém, o problema é que isso se dará próximo ano e eu sei que se eu pudesse e não me sentisse na obrigação se fazer alguns sorrisos se levantarem eu largava tudo e ia viver entre ovelhas e livros em Gales. Coisas simples da vida, a gente que complica tudo e cria diplomas e salários. Tudo é só papel, uma ovelha não é papel. Tudo bem, um livro pode até ser papel, mas no seu âmago é pensamento. Mas eu sigo nessa primavera de quase Maio com o sentimento que eu tenho feito as boas escolhas, que antes era "living is easy, leaving is harder" e agora é "leaving is easy, living is harder", apesar do drama tudo tem ido como po maslu ["em manteiga"].

Então acabou a conferência, Natalya tentou me convercer a não fazer o segundo nível me segurando na sala com exercícios de pristavki e deepristavki [tipo de tempo verbal] e falando "tudo bem, próxima" toda vez que eu acertava. Eu ganhei.

Cheguei em casa e caí em cima dos livros, comprar livro é ultimately mais prazeroso que comprar roupa, a roupa se usa, mas os livros ajudam a usar-se. Na simulação do segundo nível eu passei, e em algum lugar em Kirov a orelha de Natalya queimou, a Brasileira triunfa.

Voltei agora da academia, vi uma pixação de uns rostos do Hitler em um muro que antes tinha uma montanha de neve na frente, aliás, a neve está derretendo, mas a primavera tem me decepcionado... Pois a primavera é a pessoa mais bipolar que eu conheço, em uma semana ela diz que vai ficar assim nesses 15 graus e a vida são flores, na outra, -5. A primavera é definitivamente a maior mentira russa. Então eu vejo os rostos do Hitler, deu preguiça, a existência de nazistas russos é a existência mais confusa, também. Enquanto meu livro de história me fala que "A Rússia salvou o mundo de Hitler e Napoleão", eu ganho as ruas e vejo Hitler. Ei, vocês ganharam a guerra contra os nazistas, não sejam nazistas, é tolo. A credibilidade cái, a bolsa quebra. Bonito é ver o mundo não falando mais de crise suína e quebra da gripe (ein?), em saber que a minha escola entrou em quarentena por causa dessa besteira. Hoje eu tava andando de camiseta, tá fazendo 2 graus mas existe Sol, e a zeladora da escola disse que era pra eu pôr o casaco porque ia gripar. Por algum motivo, a minha condição de brasileira faz todos pensarem que eu vou gripar. Eu vi o inverno passar e vi todos gripados e doentes e pneumoniados, e eu sobrevivi o tal inverno russo que nem Napoleão ficou pra ver. Não, de novo, só porque um papel diz que eu sou brasileira isso não diz nada sobre meu sistema imune.


[Blink, daqui pra eternidade e a não superação do Enema of the State. Por que o Mark não envelhece?]

Então eu cheguei em casa agora e me vi numa situação patética. Computador, hd, celular, câmera, calculadora científica (for nerds only), e agora, adicona-se um mp3, depois da minha vergonha diante de ipods que sempre acham um jeito de se perderem. Acontece que seria bonito e poético dizer que eu não dependo desses aparatos eletrônicos para a sobrevivência tomar lugar, e isso seria uma total mentira. Mas de qualquer forma, diante da prosopopéia da pateticidade da minha geração, o mp3 foi definitivamente a melhor compra do ano. Nada como descer a rua ouvindo a discografia do Blink e lembrar que Well, I guess this is growing up, mas o Enema of the State continua sendo o álbum mais batido e mais ouvido e nunca enjoável de todos os tempos da última semana. Ouvir Blink me lembra de quando eu tinha nove anos e me lembra que agora eu vou fazer os tais dezessete e que isso é assombroso, juro que por um momento achei que eu ia ter dezesseis pra vida toda. Dezesseis é o ponto morto das idades, não diz absolutamente nada sobre você como ter dezoito ou vinte e um. E saber que passado-se metade da minha vida, eu finalmente vou ver um show deles, o que era o amargor do meu futuro leito de morte saber que eu morrera sem ver o trio, uma vez quando um avião balançou eu pensei "ei, eu não posso morrer agora", com um suco de laranja na mão que antes estava cheio mas acabara de derramar metade do liquido com a turbulência, "eu tenho muito livro pra ler, tenho que ir num show do Blink. Que merda, não caia, avião". Metade de uma vida querendo, e chegar à outra metade conseguindo. Bebi o resto do suco de laranja e desembacara viva.

Uma vez eu quis entender porque brasileiro fala igual brasileiro e não como português. O que aconteceu de diferente no Brasil, que não aconteceu em Angola, Timor Leste? Colombo simplesmente abriu as portas dos seus mares ("O navio negreiro", Castro Alves, poema a se ler, abusem-o) e quando brasileiro viu já falava igual a brasileiro. Primeiro destruiu-se o "Vossa mercê", que virou "vossemecê", e gradualmente "vosmecê", "você", e ouve-se "cê". Aconteceu também com o "vamos em boa hora", "vambora", "bora, "bó", e agora um gesto com a mão. Ai, meu velho português e seu avô galego... Não entendo a existência do português brasileiro e dos seus sotaques, mas sei que é bonito e parece música, português, "a língua doce".

Então, por algum motivo, eu resolvi ler Augusto dos Anjos, "Eu e outras poesias". Acontece que Augusto escrevia com uma caneta feita de tripas ou algo do tipo:

Ao meu primeiro filho nascido
morto com 7 meses incompletos.
2 fevereiro 1911.
Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,
Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?!
Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!
Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!

Eu posso assistir filmes sangrentos e coisas do tipo e não sentir embrulhos, mas isso, isso é um engunho.

Também é com prazer que informo que achei a segunda música russa ouvível, porque em oito meses essa é apenas a segunda. Acho que até o feto do Augusto, prematuro fora ele ou não, de oito meses, elegeria mais de duas músicas, mas a Rússia tem um talento para a destruição de músicas com bom potenciais, por isso, feto do Augusto, essa é a apenas a segunda.

Meu aniversário está chegando e nenhum sentimento transcendental ou de mudança, realmente. Acho que vai ser só uma terça-feira, e se fosse uma quinta-feira eu diria que não sei qual é a das quinta-feiras e faria um pouco de sentido porque iria com harmonia com Douglas Adams. Mas é um terça-feira. Nenhum plano. Nenhuma vontade. Uma vez eu li que o aniversário é o feriado mais importante para os adeptos do Satanismo. Mas eu não sou, então serão apenas o acumulo de dezessete anos acontecendo numa terça-feira. Por favor, mundo, não me fazer uma festa surpresa. Eu ficaria três vezes mais feliz se ela não for feita.


[Roskolnikov, tentando superar os próprios montros desde 1866]

Roskolnikov do Dostoiévski me lembra o Alex Delarge do Burgess. Acho que é toda a coisa sobre o castigo e a sua eficiência: ninguém é completamente bom ou mal, diz Alex; o castigo cabe a nos, diz Roskolnikov. Fecha o livro e na vida real as leis são terrivelmente influenciadas pelo catolicismo. Se um dia deixarmos de ser tão biased... Eu queria ver a Imparcialidade como presidente, mas meio-termo não existe, imparciliadade não existe nem em dicionário - quem julgou que 3 mil palavras eram mais importantes do que outras 3 mil e deveriam constar no dicionário? Não sei, Alex, isso tudo parece tolo, e é bom reler Laranja Mecânica rindo das palavras em russo, por isso toca a Nona, brat...

Essa coisa da gente nascer pra ser criatura gentil. De ir pra faculdade, ter filhos, uma pedra nos rins e um carro esporte. Às vezes perde o que nem se tem a perder, a sensação de pegar a estrada, quando não se tem nada a perder, e quando se perde esse espírito, perde-se tudo. Movimento. Ninguém vive sem movimento. Existência monótona em monotom já cumprem os discos de cursos de língua. Essa coisa de ser criatura gentil, Roskolnikov e Alex, é uma coisa sem pé sem cabeça mas quem somos nós senão essa coisa com pé e cabeça.

Quero café.

Pontuo.

Um comentário:

Thales disse...

Não digo que a cultura americana que foi incorporada nessa tribo global e sim o capitalismo e a produção de cultura, ou talvez "cultura", em massa e para as massas. Curioso pensar no telefone criado por um ingles, transformado em portatil por um israelense, produzido por uma empresa holandesa, montado na Tailândia e vendido no Brasil ou até um livro escrito por um inglês se utilizando de diversos mitos europeus, comprado por jovens nerds brasileiros e transformado em filme em estudios ianques por um neozelandês. Isso me faz dizer que bairrismo patriota ou egocentrismo cultural são engodos de uma autovalorização quase narcísica.
Adoro essa construção cosmopolita que me da acesso a bens humanos antes inalcançaveis. Mas é inegavel o fato dos EUA serem o centro desse modo de produção e comercio cultural, mas não da cultura em si.

Não sei quanto a Gales, mas a visão quixotesca de moinhos holandeses a girar me causam o mesmo efeito. Até porque, de certa forma, vir a ser alguém apartir dos outros cansa. Me cansa a mensuração de cetimetros, metros, medias globais, anos de estudo, paginas lidas, creditos acadêmicos, quocientes de inteligência, quantidade de papel com animais em extinção ou presidentes mortos, tudo para talvez realizar um grande dever que as vezes me parece infimo. Provavelmente depois de mensurado, pesado e com o devido codigo de barras irei estar entre moinhos procurando gigantes seja na Holanda ou em um jardim de girasóis e violetas a poucos metros de distancia de uma porta ou janela.

E o elefante branco continua a vagar. Acho que nenhum movimento de supremacia ideologico, governamental, cultural ou racial consegue me surpreender, devido a sua natureza mimética. Alias apenas um judeu nazista o faria.

Toda a juventude de todo e qualquer tempo foi igualmente patética, indo ao suicidio não intensional de Ícaro ao premeditado de Werther, tão imitado pela elite alemã de sua época. É quase igual a mortal busca da juventude pelo seu lugar sob o sol ou o pessimismo suicida moderno. O curioso é que os vemos coexistindo nas figuras de Hendrix, Kobain, John Bonham e varios outros.
Mas veja pelo lado positivo, você pelo menos nunca sonhou com o show de cadaveres.

Em relação ao Augusto, sempre que o lia era como uma realidade inevitavel e desnuda, nunca me acostumei com os eufemismos da vida. Antes escrito,usando suas palavras, com uma "caneta feita de tripas" que se prometer o céu a uma criança sem eu, sem voz, de alma dubia, apenas anseios e necessidades encapsuladas em diminuta quase existencia.

Aniversarios, os evito o maximo que posso, na verdade me lembra apenas o quanto a morte deve se divertir contando em seu abaco quantos 11 de maio ainda tenho pela frente. Triste mortalidade, triste velhice decadente que ameaça os meus vinte e poucos anos, mas ainda assim devido a essa ameaça me empurro a viver cada vez mais o que sou, sera que pensa algo assim?

Tanto Alex quanto Raskolnikov em seus respectivos fins se reabilitaram da Anarquia jovial e da grandiosidade auto intitulada, passando pelos seus proprios infernos formentados na loucura, seja no colo de uma prostituta sobre um crime não premeditado ou por composição angustiante e atormentadora em um quarto de pensão.
Enfim o relativismo e imparcialidade padacem no fim das contas. Sem falar que devido a motivos de vendas o ultimo capitulo do Laranja Mecânica fora adicionado apenas nas versões mais recentes, aquela velha historia de espirito da época.

Concordo quanto ao movimento, mas atodo esse processo clichê e a muito batido, não difere de qualquer outra coisa criada pelo homem. Não importa se tanto as notas como as 88 teclas são as mesmas quando a composição é unica e alimentada pelo espirito explorador dotado de certa curiosidade infantil.

Foi um prazer te ler, espero o proximo post com certa anciosidade.