terça-feira, 31 de março de 2009

Escutando o tempo...

Hoje eu sentei, posicionei o pulso esquerdo e fiquei assistindo o tempo passar, vendo o ponteiro deslizar e indo "cada vez mais perto, cada vez mais perto". Eu quero a vida que é minha e que reside em Agosto.

Parecido com aquela vez que eu estava em Pompéia, e eles diziam que o mundo ia acabar em Julho, com o World Jump Day porque o impacto ia ser muito grande, e eu estava nesse restaurante, comendo um dos pedaços de pizzas responsáveis pelos dois quilos a mais, e quando eu olhei para o relógio, esperei a terra abrir no meio enquanto eu caía com o meu pedaço de pizza dentro. E eu lembro como a luz italiana entrava no restaurante e como a mesa era redondo e eu me sentava em um canto mais reservado... Nada aconteceu, as previsões não se confirmaram. Mas o episódio me marcou porque teria acontecido em Pompéia, a cidade engolida pelo Vesúvio, e seria uma honra morrer ali.



[Foto: Pompéia]

Depois eu acabei a pizza, continuei a vida com uma sensação de renovação e novos valores, entrei em uma livraria e comprei "A day in Pompeii", o que poderia ter sido facilmente o título do meu dia. Eu estava esperando uma desgraça mundial e nada, só pizza. Não sei se foi alívio, mas a sobrevivência valeu a pena pela oportunidade de ter comprado o livro.

Eu também lembro do sentimento de cruzar o campo de trigo de Burlignton, do sentimento de andar pelas ruazinhas de Riverside, ou sem rumo pela Sunset Avenue, ir até o restaurante chinês só porque eu tinha esse desejo por arroz chinês e a vontade de decifrar a magreza da menina chinesa do balcão, dos meus pés cortando a neve, de ir deixar o lixo para coleta sem casaco ou proteção, só pra mostrar pro mundo que ele não era o cara que ele achava que era, nem sob -10. Mas isso é outra longa história, aliás, é muito difícil parar de dissertar sobre momentos indescritíveis...

Viajar ou estar em outro lugar é uma das coisas mais fascinantes da vida, e ser nômade era the thing a qual não deveríamos ter abandonado. Enquanto tu viaja, todas as coisas que lembram de quem tu é, ficaram em casa, e por dias ou semanas, meses, tu tem que lidar só contigo, conviver contigo, não existem mais os lembretes nem as fotos penduradas, apenas avisos de hotel. E é ali, sem lembrete de quem tu é, que tu se conhece mais. E é incrível, a pessoa que desarruma a mala em casa é outra. O que tu conhece de ti em uma viagem, é a essência, somente a essência, a pessoa que ficava apenas naquele buraco de mundo era repleta de futilidades e quando sái porque sabe agora que o mundo é grande, leva somente a essência e vinte quilos de bagagem.

E dizem que as pessoas voltam irreconhecíveis de viagens ou de ausências, mas é simplesmente porque nunca se conheceram, lidavam demais com as frivolidades e só então tiveram contato com a essência.

Eu também é uma palavra difícil, tanto que Descartes sequer a usou no chavão.

*****

Aos amigos, vocês sabem quem são, já fiz umas lista de convidados, amanhã provavelmente vou esboçar o que possa chegar a ser um convite de aniversário, e já que meu aniversário é na Segunda, e isso é totalmente incoveniente, espero que todos possam comparecer no Domingo aqui em casa para um jantar, uns biscoitos, canapés, twister, pinhatas e possivelmente um filme.

A presença de vocês é imprescindível, inadiável, por favor compareçam por que eu não sei quando será o meu próximo aniversário aqui, e tampouco quando eu terei a desculpa e a oportunidade de encher uma sala com pessoas favoritas e queridas. E eu falo de um prazo de OITO anos, eu não tenho a menor idéia se pelos próximos oito anos eu estarei no Brasil para o meu aniversário, então estejam aqui, cruzem a cidade e batam na minha porta, vai ser divertido e vai ser pela última vez.

O relógico continua se arrastando e eu vou comprimindo minhas obrigações e ultimatos no tempo que eu tenho de sobra. Não dá a impressão de que eu vou morrer? Mas mais pra fenix, que renasce na Rússia.

Eu realmente pensei em fazer uma festa de despedida, mas não é falta de consideração celebrar que alguém esteja indo embora? Sem esse papo de aproveitar os últimos segundos, eu tive todo o tempo do mundo em Fortaleza e se ele não foi aproveitado pelas pessoas a minha volta, então ele vai cotninuar inaproveitado. Sem bota-fora, então.

Provavelmente amanhã vou operar as amigdlas, se isso for de interesse, também. Depois vem a remoção dos cisos, e eu só terei mais uma inutilidade biológica, que é o apêndice. Que pode ficar por aqui mesmo.

Ahr, no mais, eu espero muito que o projeto sobre o vestibular seja aprovado, uma pontada me atingiu dizendo "acredito nisso, no Brasil, enfim".

É isso,

vou ler The Decline and Fall of the Roman Empire, e qualquer compartamento mais tirano e autoritário que o normal pelos próximos dias, será mera, mera, coincidência.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Paz

Bem, paz não consiste em evitar a vida, achar paz não consiste em evitar vida. Paz é estar em concentração isotônica com a vida. Então que as funerárias levem em conta a proposta e parem de pôr Paz no nome. Eufemismo e trocadilhos são coisas do século passado, esse é o século do Sarcasmo.

Paz não é estática. Uma mesa não é estática, é uma loucura de átomos se reagrupando, etc etc. Não existe sintonia nem em uma mesa, talvez até exista paz no Tibet, mas é mais provável que seja uma ilusão, eles vivem sempre presos a própria mente, é muito fácil. Realmente muito fácil.

E se o amor é só um monte de hormônios, há de se convir que a paz também deve ser. Um hormônio que possivelmente só é ativado nos tibetanos, e foi isolado em um laboratório por monges que clamam, nesse momento, estar meditando. Eles mentem.



E para nós, ocidentais que só comem sushi à noite: paz é uma coisa quase alcançável durante o sono. Mas basta pegar as estatísticas e ver que quase todo mundo tem insônia. Ou simplesmente não sabe dormir.

Paz é utopia, plenitude não existe, mas é um ótimo combustível para se viver, assim como a Morte.

E não é uma questão de semântica.

As pessoas vêm entendendo e interpretando as coisas erroneamente por séculos, basta ouvir alguém falar da Bíblia. Ninguém realmente entende o que está alí, ninguém entende que é a grande Metáfora, que era a escrita da época: a metáfora.

A verdade é que discutir sobre paz, bíblia, futebol e política dá cabelos brancos. E cabelos brancos é coisa de todos os séculos.

BTW, eu tinha esquecido de como o blog do Mark é basicamente o melhor blog there is.

É isso, PAZ.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Chegou a hora, Joaquim




Então eu me fiz de pé, caminhei até o canto da parede do meu quarto, Gemma Hayes cantava At Constant Speed, eu tinha uma garrafa de água na mão, eu bebia, e caia mais lágrimas, fechei os olhos, descarreguei o peso do meu corpo no canto e depois disso, mais nada.

And it all comes to me right now... Like a starving dog crawling for attention.

E do nada, a Yasmin, que eu não vejo há 8 anos, bate a porta do meu quarto, eu deixo o meu canto e me arrasto até lá, sem dizer uma palavra, ela me abraça e eu penso: obrigada, eu já ia cair no chão se alguém não me segurasse.

- Tu ainda lembra de mim?
- É lógico que eu lembro, Yasmin.
- Que bom, eu tava com saudades.

And the thing about destiny is that it never ever makes mistakes...

E eu continuo, volto pro canto e reinicio o processo.

Obrigada, pai.

Pela parte da minha existência e por todo o vasto resto.

E se eu pareço essa pessoa forte, às vezes eu tenho a certeza que é fortaleza de cal. Outra coisa sobre os arianos é que eles engolem o choro pra quando estiverem a sós. Funciona, quero dizer, na maior parte do tempo.

But if I keep at constant speed...



Chegou a hora, Joaquim
de mergulhar no profundo desencanto sem fim
dos homens todos do mundo.

Chegou a hora, Joaquim
de perguntar pelo trigo
Pela aurora pendoada
na messe do teu jazigo.

Chegou a hora, Joaquim
de perguntar pela bomba
que foi jogado do céu
por cima da tua sombra.

Chegou a hora, Joaquim
de perguntar pela flor
Pela estrela germinando
nos olhos do pescador.

Chegou a hora, Joaquim
de perguntar pela paz.







Fico enchendo as bochechas pra ver se pego algum ar.

domingo, 15 de março de 2009

Metódica

Eu ri bastante quando entrei no Stuff White People Like e tinha um post sobre moleskines, que por acaso eu tenho, comprado na Suiça sem motivo algum, acho que porque já tinha ouvido falar sobre o valor histórico que eles tinham e como Modigliani tinha um. É realmente útil e lá eu congelei algumas idéias fixas, desenhei o Big Ben, a Torre Eiffel, tentei descrever coisas indiscritíveis mas de alguma forma, um dia o guardei na minha estante de livros e ele caiu no esquecimento, de forma que eu nunca mais escrevi nele.

Eu tenho esse problema que eu sou metódica, e vou logo antecipando que ser metódica não implica em ser organizada. Ser uma pessoa organizada exige um esforço, mas quando você é uma pessoa metódica não existe esforço, existe apenas o fardo, que é o esforço que se aproxima muito da obrigação, como se não existisse outra escolha. Ser metódico custa muito mais caro que ser organizado. O metódico precisa organizar os pares de meia em degradê, o organizado, precisa simplesmente organizá-los, lado a lado, não necessariamente em degradê.

Então, expliquei a gravidade da minha condição. E eu acredito que eu tenha parado de escrever no meu moleskine porque eu só escrevo com caneta preta. Vide dias que eu não estudei porque não tinha caneta preta. E a minha condição de metódica não pára por aí: quantas vezes alguém já entrou no meu quarto, começou a olhar os meus livros me perguntou como eu os organizava, e eu respondi: organizo pelo tamanho. E não é só, se alguém quiser me encontrar, às três da tarde, eu estarei na frente ao bebedouro, bebendo os meus sagrados dois litros de água, é lógico que isso vai além sobre horários de refeições (eu janto às seis, se for seis e meia, esqueça, não haverá janta). Ou sobre como eu já tenho minha cozinha inteira planejada e eu não suportaria a idéia de ter conjuntos de pratos diferentes, de forma que se fosse esse o caso, eles não poderia coexistir, então eu jogaria um dos conjuntos inteiros fora e ficaria com o outro, fosse porque eu perdi uma única peça do primeiro ou porque o segundo ganhei de presente. Eis a gravidade da coisa, caro humano. E eu criei esse método de estudo, e se eu não o seguir eu não considero que estudei e tenho que repetir o processo inteiro de novo, só que dessa vez, incluindo o método.

Ser metódico tem um quê de prisioneiro muito maior que ser organizado, se é que me entendem agora. Ou simplesmente me compreendem.

Enfim, moleskines a parte, eu fiz a vida tomar um rumo muito mais interessante desde que eu voltei de viagem do carnaval.

Mudei de colégio, condição meramente provisória enquanto eu tiver que dar satisfações ao MEC, vi a Maísa, comprei calças novas, cortei o cabelo (ou a Ana Luísa cortou) e isso tudo porque eu vi que tinha cento e oitenta dias na terra/Terra, que agora estão em cento e cinquenta e oito.

A minha maior prioridade é aproveitar a vida por aqui enquanto ainda houver a vida por aqui.

O meu aniversário continua não-planejado, mas a lista de convidados eu sei de cor, por isso, pelo menos a diversão está garantida. O que eu antecipo é: haverá twister, porque eu sou a helpless nerd.

E por último: estou escrveendo um novo livro, a idéia me surgiu às seis e meia de um Sábado, o que quer dizer que a idéia me acordou e me fez escrever três páginas seguidas até me deixar dormir de novo, o outro livro ainda está sendo escrito e em estado bem avançado, sessenta e cinco páginas devidamente organizadas, todas as idéias estão feitas na minha cabeça, mais outras tantas páginas de capítulos avulsos escritos que serão incluidos nas sessenta e cinco páginas e é isso, na minha cabeça o livro já está escrito, falta organização, e eu não tenho pressa, como tinha quando comecei a escrevê-lo, em meados de 2008, só sei que me agrada até agora.
E o outro livro me dá mais liberdade de estrapolar e eu pareço ter criado um estilo para mim mesma, sem perceber, sobre protagonistas mulheres problemáticas, psicologicamente aleijadas, que pouco se conhecem e que buscam emoções, não paisagens, entre outras constâncias que eu pude notar entre os dois livros.
Mas é isso.

O ultimato é que eu estou aproveitando a vida como ela tem que ser aproveitada quando se sabe que o Atlantico será cruzado em um tempo que se encolhe a cada segundo. E para a idéia tomar forma: a cada segundo estou mais perto, o que me aproxima mais e mais da loucura, que ninguém entende, eu acho.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Girassóis de Cardiff



Abençoei o início do dia com café: não havia rezado antes de dormir, não o fazia há sete anos. Nenhum remorso, nenhuma dívida.

Tomei o primeiro gole e olhei pela janela: o Sol brilhava debaixo dos meus doze girassóis. Arrumei a bolsa e embarquei no portão B para a realidade, enquanto o elevador descia, a realidade ia me fazendo lembretes. Lembrentes de um mundo. Não, eu nunca fui do tipo Bono Vox/Angelina Jolie que ajuda a Africa, muito pelo contrário, aliás, nem sei se a minha opnião dá cadeia. De qualquer forma, o lembrete não era que as pessoas tinham fome, não trabalhavam ou se trabalhavam, era em regime escravo numa fábrica de sapatos nas Filipinas; o lembrete, o que eu queria ver, estava estampado em papel post-it na testa de todos: a auto-convivencia, a hipocrisia, a submissão, a ambição cega por alguma coisa que não se sabe ao certo, que já deveria ter sido alcançada dez mil vezes...

Finalmente ganho a rua.

O mundo ainda parecia estar na sola do meu pé, quanto a isso, ele tentava me chatear com o vento - assanhando meus cabelos - em vão. Nem o pior dos furacões realizaria esta proeza.

Parei na padaria para comprar outro café. Sim, eu precisava de outra dose de realidade. Com adoçante, moça.

Então finalmente desceu: mais um gole de realidade e eu não iria agüentar... O som da guerra ainda tocava, e eu me sentia ridícula por ter vivido nos Estados Unidos quando a guerra começou, e o melhor que eu fiz foi mudar o canal.

As pessoas ainda me cercavam e eu sabia que apesar do comportamente previsível de todos, apesar do combustível da vida ser a morte, era sobre isso tudo que eu sempre escrevi durante a vida. Foram sempre os humanos que eu quis decifrar, para de alguma forma, chegar até mim. Inútil.

Então eu planto alguns girassóis esperando que eles me mostrem a direção ou me deixem mais perto do Sol; mas só sabem sorrir e esticar o pescoço para o Sol, e apesar de saber que esticam-se para o Leste... De que me basta o Leste? Eu já estive no Norte, no Sul, no Oeste, além do Norte... E o Leste não me diz nada. Uma fileira de doze girassóis no meu quintal gritando "Leste!" não me leva a nada. Ainda não sei a direção que se deve tomar para entender as pessoas. Apenas que, quem eu sou, foi o que eu fiz comigo e que sou somente esse bando de cidades.

Ah, acho que a melhor ação que eu vou conseguir fazer na vida é doar meu corpo para a ciência, e isso nem vai ser em vida, vai ser em morte. Ah, mas eu gosto desse ser humano dentro de mim, é forte, e eu não preciso de mais nada.

Mais um reveillon assim e vai ser demais, pensei.

Paguei.

Saí.

Preferi esquecer o mundo. Ignorância é alegria, é confete, é carnaval. Mas de vez em quando é preciso tomar um ou dois goles de realidade, porque é impossível vomitar um mundo com tanto em volta.

Enquanto o café deslizava pela minha garganta, em algum lugar de Oxford alguém tentava descobrir a cura da Aids. Apesar da Aids e da melodia da guerra, eu ainda tinha meus girassóis.

Inércia - a primeira propriedade de tudo. O mundo era inerte, era quadrado, e pela primeira vez discordei com Galileu e Newton - Sabe, parceiro, os astros são bonitos demais pra estarem a somente anos luz da Terra, um lugar tão feio, e se a gravidade realmente está me segurando aqui, porque ela não me impediu de pensar tão alto?

Só os girassóis se mechem nesse mundo inerte, Galileu, o resto é sobrevivência ou mitologia.

E então minha sorte ficou superdensa, imitando o chumbo, de forma que eu me afundei em mim, sem resistência.

Depois, Leste.

Depois, mais nada.




Moscow, depois Cardiff - certeza da vida.


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I'm standing in front of you, I'm a million miles away, in one straight line. Hello, how do I do, how do I keep going, who am I. Who am I: man, I did it to myself, so stop looking at me that way, I'm not the answer, I'll be your anchor. I won't pretend I love living straight, won't forget myself so soon, it's who I am. I'm all those cities inside me, yet I go to the country to find myself; crawl back to the city to lose myself again, under lights this joke is wearing thin. Well, it's easy to be a winner when I don't know what I've lost. It's easy to be a believer in myself. Maybe I'll fall, maybe I'll fly. Yet it's so hard to fly if we don't believe all the time: it's just one way to catch the sun, to find out who I am - I kinda leave it in the air. Well, man, we've had one hell of a ride, go chase your dragon and I'll chase mine. Find yourself (a compass), shall be fine.

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domingo, 1 de março de 2009

Transbrasiliana



(foto: Mãe e Pai perdidos em algum lugar da Europa)

- Antes de você ir embora, venha passar mais uns dias aqui.

Eu vinha trazendo minha mala e uma mochila e quando meu tio me ajudava a botar as coisas no carro minha vó disse isso. Ir embora é uma palavra que ganhou forma vindo dela e sinceramente, me corroeu o caminho inteiro.

Eu bem sei que muita coisa não vai mudar, quero dizer, eu sempre passo, afinal, um mês na casa dos meus avós todo ano; e eu sei que vou passar férias no Brasil todo ano, mas parece que a idéia sozinha de ir morar na Rússia é que cria essa distância que não deveria existir.

Enquanto eu tava em Pedro Segundo com os meus amigos, na serra, ficava me passando o tempo inteiro conservem-se assim, conservem-se assim pela cabeça. E que droga, parece que só por esses dias os números tomaram forma: não sei se ainda estou na casa dos 170 mas depois vem 160, 150... E aqui vou eu.

Que agora vou ter que ficar cruzando o país o tempo inteiro porque meu pai se mudou pra São Paulo, não bastasse minha família ser espalhada pelo Brasil inteiro, choveu essa em cima de mim.

Minha vó falou alguma coisa sobre eu estar muito calada, e quando eu achava que tinha acabado de dialogar comigo o assunto Adeus, Brasil; passa um ônibus do nosso lado chamado Transbrasiliana, que me remete a Transiberiana e me quebra em duas, bem ali. Eu não deixo transparecer, mas eu sei que, pelo menos nas paredes ovais da minha cabeça, eu venho acrescentando uns espirros de tinta pra ver se isso me distrai dos outros cômodos que existem dentro de mim.

Então eu disse tchau pra minha avó e pro meu tio, tentei dormir durante a viagem, mas nem nisso eu consegui me concentrar, abri minha bolsa e dei de cara com meu livro de russo.

Não é que eu esteja me sentindo sufocada, mas eu acho que eu só preciso de mais um tempo do lado das pessoas que me ajudaram com curativos quando eu precisava de quatro mãos para fazê-los.

E é bizarro porque eu lembro que - não faz muito tempo - e é isso que dói, que faltavam 260 dias para que eu fosse embora, e agora já são 170 e pouco.

Eu chego em casa e percebo que minha mãe levou o mesmo choque de realidade, nunca a vi tão compreensível, e quando eu fico só, fico me perguntando o que houve com a sanidade metafísica do mundo, por quantas anda o aquecimetno global, o que é que há com a crise, como vai o Obama; mas por trás desse jornal de notícias, estou simplesmente eu, fitando as pessoas da minha vida sorrindo, mentalmente, e são slides bonitos, acreditem.

Quanto a Dolly, eu não consigo imaginar o tamanho da saudade que eu vou sentir. A Dolly tá sempre do meu lado, no começo, quando ela chegou aqui em casa, eu achava que era por causa da comida, mas quando eu fico só em casa, e isso tem acontecido com mais freqüência, ela me acompanha pelos cômodos, deita e fica me olhando com os olhos trocados que são só dela, e sorrindo do jeito que os cachorros sorriem.

Tenho pensado bastante no meu avó Antônio que eu nunca conheci, e agradeço por que, de alguma forma, eu cheguei aqui por causa dele.

O que me conforta é saber que tudo isso vai valer a pena e que todo mundo vai sorrir no fim, seja por mim ou não.

Eu desejo muito sinceramente que o tempo passe mais devagar e me dê uma chance qualquer de gravar as últimas imagens pro meu slide mental que eu preciso pra cruzar o oceano.

Ontem mesmo, durante a viagem, enquanto parte do mundo ficava pra trás, eu fiz uma grande decisão: de perdoar atos que eu julgava ontem de tarde mesmo imperdoáveis, mas eu não quero arrastar essa nuvem negra comigo pra onde eu for, eu quero um dia nublado e uma platéia que não falte ninguém por coisas que já passaram e que já deviam ter sido perdoadas por todos, inclusive eu, principalmente quando o que foi feito é irreversível. Pra continuar vivendo o mínimo que se faz é abaixar os olhos e perdoar. Eu não quero ser a garota com a nuvem negra. I don't wanna be that girl.

Eu faço parte do grupo de pessoas que acredita que as grandes decisões são feitas assim, de uma hora pra outra; porque antes mesmo delas serem julgadas grandes, elas são impactantes. E nada mais conveniente a um impacto do que uma decisão feita de uma hora pra outra, voltando pra casa.

Eu também simplesmente não queria ser a pessoa que vai embora, eu convivi com esse tipo de gente minha vida inteira, todo mundo sempre indo a um aeroporto e eu ficando; eu sei que eu já mudei de país, mas é diferente. E eu sei que eu vou pegar o papel da pessoa que vai embora, eu só espero que eu não vire lenda ou uma vaga lembrança, que quando eu entrar no meu quarto de novo ele ainda tenha a atmosfera de quando eu habitava, que o mundo permaneça estático e espere por mim, enquanto eu ajeito as saletas da minha mente e tento pintar as paredes de branco novamente, mesmo que eu tenha confabulado bastante ultimamente sobre laranja...

Espero não trazer mais a tona assuntos que me torturam a alma.

Quarta-feira tem um encontro da AFS e...

Não tem "e".