domingo, 1 de março de 2009

Transbrasiliana



(foto: Mãe e Pai perdidos em algum lugar da Europa)

- Antes de você ir embora, venha passar mais uns dias aqui.

Eu vinha trazendo minha mala e uma mochila e quando meu tio me ajudava a botar as coisas no carro minha vó disse isso. Ir embora é uma palavra que ganhou forma vindo dela e sinceramente, me corroeu o caminho inteiro.

Eu bem sei que muita coisa não vai mudar, quero dizer, eu sempre passo, afinal, um mês na casa dos meus avós todo ano; e eu sei que vou passar férias no Brasil todo ano, mas parece que a idéia sozinha de ir morar na Rússia é que cria essa distância que não deveria existir.

Enquanto eu tava em Pedro Segundo com os meus amigos, na serra, ficava me passando o tempo inteiro conservem-se assim, conservem-se assim pela cabeça. E que droga, parece que só por esses dias os números tomaram forma: não sei se ainda estou na casa dos 170 mas depois vem 160, 150... E aqui vou eu.

Que agora vou ter que ficar cruzando o país o tempo inteiro porque meu pai se mudou pra São Paulo, não bastasse minha família ser espalhada pelo Brasil inteiro, choveu essa em cima de mim.

Minha vó falou alguma coisa sobre eu estar muito calada, e quando eu achava que tinha acabado de dialogar comigo o assunto Adeus, Brasil; passa um ônibus do nosso lado chamado Transbrasiliana, que me remete a Transiberiana e me quebra em duas, bem ali. Eu não deixo transparecer, mas eu sei que, pelo menos nas paredes ovais da minha cabeça, eu venho acrescentando uns espirros de tinta pra ver se isso me distrai dos outros cômodos que existem dentro de mim.

Então eu disse tchau pra minha avó e pro meu tio, tentei dormir durante a viagem, mas nem nisso eu consegui me concentrar, abri minha bolsa e dei de cara com meu livro de russo.

Não é que eu esteja me sentindo sufocada, mas eu acho que eu só preciso de mais um tempo do lado das pessoas que me ajudaram com curativos quando eu precisava de quatro mãos para fazê-los.

E é bizarro porque eu lembro que - não faz muito tempo - e é isso que dói, que faltavam 260 dias para que eu fosse embora, e agora já são 170 e pouco.

Eu chego em casa e percebo que minha mãe levou o mesmo choque de realidade, nunca a vi tão compreensível, e quando eu fico só, fico me perguntando o que houve com a sanidade metafísica do mundo, por quantas anda o aquecimetno global, o que é que há com a crise, como vai o Obama; mas por trás desse jornal de notícias, estou simplesmente eu, fitando as pessoas da minha vida sorrindo, mentalmente, e são slides bonitos, acreditem.

Quanto a Dolly, eu não consigo imaginar o tamanho da saudade que eu vou sentir. A Dolly tá sempre do meu lado, no começo, quando ela chegou aqui em casa, eu achava que era por causa da comida, mas quando eu fico só em casa, e isso tem acontecido com mais freqüência, ela me acompanha pelos cômodos, deita e fica me olhando com os olhos trocados que são só dela, e sorrindo do jeito que os cachorros sorriem.

Tenho pensado bastante no meu avó Antônio que eu nunca conheci, e agradeço por que, de alguma forma, eu cheguei aqui por causa dele.

O que me conforta é saber que tudo isso vai valer a pena e que todo mundo vai sorrir no fim, seja por mim ou não.

Eu desejo muito sinceramente que o tempo passe mais devagar e me dê uma chance qualquer de gravar as últimas imagens pro meu slide mental que eu preciso pra cruzar o oceano.

Ontem mesmo, durante a viagem, enquanto parte do mundo ficava pra trás, eu fiz uma grande decisão: de perdoar atos que eu julgava ontem de tarde mesmo imperdoáveis, mas eu não quero arrastar essa nuvem negra comigo pra onde eu for, eu quero um dia nublado e uma platéia que não falte ninguém por coisas que já passaram e que já deviam ter sido perdoadas por todos, inclusive eu, principalmente quando o que foi feito é irreversível. Pra continuar vivendo o mínimo que se faz é abaixar os olhos e perdoar. Eu não quero ser a garota com a nuvem negra. I don't wanna be that girl.

Eu faço parte do grupo de pessoas que acredita que as grandes decisões são feitas assim, de uma hora pra outra; porque antes mesmo delas serem julgadas grandes, elas são impactantes. E nada mais conveniente a um impacto do que uma decisão feita de uma hora pra outra, voltando pra casa.

Eu também simplesmente não queria ser a pessoa que vai embora, eu convivi com esse tipo de gente minha vida inteira, todo mundo sempre indo a um aeroporto e eu ficando; eu sei que eu já mudei de país, mas é diferente. E eu sei que eu vou pegar o papel da pessoa que vai embora, eu só espero que eu não vire lenda ou uma vaga lembrança, que quando eu entrar no meu quarto de novo ele ainda tenha a atmosfera de quando eu habitava, que o mundo permaneça estático e espere por mim, enquanto eu ajeito as saletas da minha mente e tento pintar as paredes de branco novamente, mesmo que eu tenha confabulado bastante ultimamente sobre laranja...

Espero não trazer mais a tona assuntos que me torturam a alma.

Quarta-feira tem um encontro da AFS e...

Não tem "e".

Um comentário:

Ananda Martins disse...

Ihhh, vc ainda não viu nada... deixa faltar uns dois meses, pra todo mundo t olhar com cara de "aproveite enquanto durar". Serio mesmo q as despedidas são mto tristes, mas quando vc chegar lá, vai esquecer isso tudo.