quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A independência do Brasil e a independência da poesia brasileira

Estou sentada aqui com uma bandeijinha de café-da-manhã e são 22:32 da noite, quando lembrei de que tinha me prometido postar hoje e não amanhã, que está programado para acontecer em uma hora e meia. Tinha prometido falar do livro dos poemas brasileiros, "Os cem melhores poemas brasileiros do século", que me encantou as tardes e a sanidade. Li-o gradualmente, dosado. Tem doses de boniteza que só se absorve gradualmente. Olha, e só confirmo o que eu sempre dizia quando detalhava as funções das línguas que eu falo: o português é língua para poesia. Nasceu assim, traçado, predestinado para versos. O que me intrigou logo ao abrir o livro foi não conhecer o organizador e seguidamente não achar nenhuma nota no próprio livro sobre Italo Moriconi, que me desculpem os bons se ele é um desses seres famosos, mas que ele ainda não pousou no meu mundo e por aqui não fez fama, defendo eu. Depois achei de muito bom gosto e charme a divisão do livro, o que já me fez esquecer Italo, olhares de esquina, potencial romance, sua esquisitice e ele ficando para trás na minha vida, só apontou assim para uma sala onde eu encontrei gente, e não macacos. Uma das maiores amarguras da minha vida é sentir preguiça de alguém no meio de uma conversa, acontece sempre quando a pessoa é burra demais. Burrice é um negócio que não se tolera, corre-se de. Não é presunção, talvez seja, mas que eu estou fazendo demais senão sobreviver nesse mundo do jeito que eu entendo a sobrevivência? Cuidado você, que vai começar uma conversa comigo no meio da rua. Cuidado você, que vai puxar assunto comigo na rua e começa a falar pausado, que eu estou escutando poesia em absolutamente TUDO. Depois de voltar da Rússia notei como ficaram só os amigos que eu acabava ali no fim da noite sentada numa calçada jogando conversa fora. Esses se conservam, os outros, ditos colegas, passam pela sua vida, não deixam muitas impressões, parecem só figurantes de uma lembrança boa com outro alguém. As divisões do livro, enfim, são quatro. Começamos com a primeira: Abaixo os puristas. A procura da identidade nacional. É uma coisa que só desatei os nós esse ano: quando foi que o sentimento de ser brasileiro nasceu? Foi quando o hino entrou na escala certa? Foi quando os negros, sem querer, sambaram o samba? Foi quando o primeiro sorriso sem caso fez-se de dentes? Porque como eu disse (tento me citar não soando egocêntrica e isso não funciona), a minha condição de brasileiro é pendente e hoje eu não estou nem pro presidente... Ah, difícil é achar o momento-fio para isso, identidade nacinal é uma coisa que se constrói, os elementos vão se juntando em um centro magnético e depois as pessoas aparecem e tomam aquilo para si. Leva-se séculos. E quem discordar, que jogue a primeira pedra quem achar que o Kosovo já tem uma identidade nacional. Aliar costumes, tradição, cultura, velocidade em que se anda na rua, açucar ou não no café e se bebe-se café em geral, literatura nessa tal identidade com o simples nome de um país e uma nova bandeira não é coisa de tetris e não é simples. Que me chamem de exagerada, mas um nome e uma bandeira despertam muito do tal sentimento nacional, quando ainda encontra-se a mercê desses, é difícil até de usar a palavra patriota.

Brasil, país em que pode se absorver boa poesia diariamente, disse Italo, e de súbito, por uma única idéia em comum, já não éramos tão estranhos e eu já não o condenava pela sua estranheza nesse meu mundo. Agora vamos cruzar a primeira parte, abaixo os puristas. O Brasil, com seus sotaques e sua entonação própria, achou em si uma poesia que ia parelala à portuguesa, a européia, não era a "brasiliense", agora era brasileira. Isso aconteceu há menos tempo do que todo mundo pode estar supondo: terceira década do século XX. Me resta somente concluir que a nossa identidade nacional, como santa colônia e filhos das américas e do novo mundo, é tão nova que nossos avós foram lá, sim, experimentos dessa transição.

Mundo mundo vasto mundo ,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução
Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é meu coração
- Drummond


Passamos por Ismália, Augusto dos Anjos, que eu descobri que divide a mesma data de aniversário comigo. Aperto de mão, jovem. E a esse ponto dessa publicação, vou me sentindo meio mal por estar marcando um livro com um coaster da Brahma (sofrendo por ter esquecido isso em português falando sobre literatura). Descobri o fato sobre o Augusto procurando o local de nascimento na internet de cada autor do livro, afinal, um poeta sempre vai escrever sobre reminiscências de infância e sobre as paisagens nelas contidas, e sei que não é surpresa, minha gente, mas ninguém veio do Acre.

A segunda parte, educação sentimental, ganha um ritmo de bossa nova e cara de mpb, encontrei Vinicius, Cecília, Mario e gente que meio giving a fuck pra métrica, só pro ritmo, se é que me entendem, também não ligo se não entenderam. Desse ponto passo mais a gostar da poesia, um ser livre, sem estar tão presa em sonetos. Um poema precisa só de ritmo e passada, ou uma simples seqüência de imagens, por isso gosto das coisas do Buk, que sem nenhuma classificação acadêmica eu chamo de poesia de rua.

Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar
Quem faz um poema salva um afogado
- Mario Quintana


A terceira parte é o cânone brasileiro, que é o climax, o gol, o orgasmo, o que seja. Drummond, que é um ser ímpar, ainda aparece por aqui. Encontra-se em todas as quatro partes do livro. Como quem não quer nada, como quem cabe em qualquer roupa, como quem é onipresente e ubiquo, usando os sinônimos só para se reforçar. Gostei muito do "Serventia das idéias fixas" do João Cabral de Melo Neto, em que ele relaciona muito bem as palavras faca, relógio, bala, meio como as coisas que matam.

Ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca.


E o mais célebre verso do Ferreira Gullar


azul
teu cu


e


que a vida
passava por sobre nós,
de avião.


Que homem.

A quarta parte, "fragmentos de um discurso vertiginoso", o sentimento nacional já existe como se sempre tivesse estado lá de forma que a maior preocupação dos poetas que apareceram nessa última parte é falar sobre si mesmos. Como o cearense que ignora a praia que sempre esteve lá, falou a cearense de coração (que não ignora mais a praia). Eles são agora sobre gerações. Sobre qualquer coisa que cerque qualquer coisa. O Brasil, deixa a ilha Brasil... Affonso Ávila, com "Antifamília", não poderia ter usado melhor a antítese. Em trechos intercalados ele descrevia a tal da família mineira, e no próximo, o oposto disso, usando de semelhanças entre os versos.

a demagogia do presidente
as orgias do presidente)
[...]
o ar degas do deputado
as adegas do deputado)


Já nem quero começar a falar de política. Deixa o Affonso pra lá, que o fantasma da louca da Dilma vem me assombrando. Essa parte do livro, além de ter o poema do Augusto dos campos, "LUXO", em tamanho real que desdobra e sái do livro, tem um tal poema de um tal de Paulo Henriques Britto, que era meu desconhecido e me ganhou dez minutinhos de reflexão com "A geração paissandu", que já postei aqui, em algum post não muito longe desse, ou googlem isso, dedos podres.

aí chegou esta hora
que as gerações já sabem de tudo
e é péssimo
ter pertencido à geração do meio
[...]
e sabendo que apesar de amaldiçoados
éramos todos inocentes
- Jorge Wanderley


Ao mesmo tempo que gente que eu nunca havia ouvido falar vai aparecendo, fico feliz em saber que o potencial poético do Brasil não se depositou e acabou totalmente naqueles que chamamos pelo primeiro nome como Vinicius, Carlos, Mario. O colosso ainda rola. O último poema, de ótimo tom, é "Guardar", de Antonio Cicero, nada melhor do que guardar e sem ansiedade ter que aguardar que a poesia brasileira ofereça tanto mais, que ela se acumule em cima daquela tentativa de achar uma identidade, que ela passe mesmo depois disso a priorizar as coisas pequenas e fazer poesia sem métrica e curta assim e só por fazer e por necessidade e pra não virar úlcera. O português, ainda mais com a entonação cantada brasileira, que até meus amigos além-mar ao escutar a versão brasileira e a portuguesa falam que o brasileiro é mais bonito e rítmico. Desculpa Portugal, mas eu gosto das curvas do meu português. E ele nasceu tarde e só nasceu pra isso: pra virar poema. Pra guardar.

Pode parecer loucura, mas o que faltou nesse livro nem faltou por direito pátrio, faltou Camões! Mas que eu tenho certeza que está tão adotado pelos brasileiros que já está mesmo é no ar, não precisa entrar no livro, esse bom português. Viu, Portugal, já vou me redimindo, assim assim.

Não vou postar mais "Pão com açucar" hoje, tenho que revisar, aliás, tenho que levantar daqui da minha mesinha de café da manhã e pegar meu hard drive que o rascunho está lá e isso é tanto movimento e o dia já está acabando e já são 23:21, está na minha hora de pegar o telescópio, dizer boa noite às estrelas, ou eu sento aqui com o Vincent (não sei se é lançamento da Pocket, mas peguei mais um da série com cartas dele e venho andado toda melancólica absorvendo-o), ou assistir um filme daquela lista da revista francesa que eu já sei pronunciar o nome ou ler os Drangonball relançados em oito tons. Meu francês anda assim sem pretensão, mas sendo mais uma desculpa para que eu adie o espanhol, ele vem tão bem vindo e bem pretencioso. Deixemos o Pão com Açucar para Domingo, para completar uma semana direitinho. E entre coisas que vêm me surpreendendo e apaziguando a alma: cinema nacional. Você que pagou ontem uma entrada para ver mais um hollywoodiano, perdeu. Não perca mais. Não quero entrar no assunto cinema porque não vou sair tão fácil, então é melhor me reservar só pra isso, mas dica de despedida e última hora: baixar indicados e vencedores do Festival de Berlin, só para ir além mesmo do cinema brasileiro e do hollywoodiano.


Fiquem com a poesia, não com a boa noite, fria e sem Deus, porque não sei você, meu caro, mas eu prefiro quem gritou a independência da poesia brasileira a um grito de independência do Brasil que foi só um grito, o grito da poesia foi gritado e está sendo gritado por muitos, alguns dos quais a gente trata como amigo como se conhecesse e penetrasse a alma, alguns outros vamos conhecendo e que nos surpreendem, poesia é questão de hospitalidade, há sempre um espaço, e viva a Independência da Poesia Brasileira, a que Dom Pedro II não gritou e foi gritada por esses e outros não citados aqui, sem vocês teríamos morrido todos afogados, agora salvos pela poesia, e em época de eleição, nada melhor que se afogar em poesia, vai, mergulha, agora. Pontuo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Harém amarelo

Para isso fomos feitos [...]
Por isso temos braços longos para os adeuses


Abro as portas que não têm nada de galante ou imponentes, e lá estão eles. São pessoas que se podem conversar. Acho que nos dias de hoje as pessoas estão mais desesperadas por uma conversa do que por sexo. De alguma forma que vai contra a Evolução e Darwin, eu tenho a impressão de que todo mundo vai ficando mais burro. Sou chata, péssima, mas até adoro. Nada de cor vermelha nesse aposento. A conexão entre o vermelho e o erotismo é piegas demais. Piegas como querubins e conselho de tia. Abram espaço para os homens da minha vida. Eles nasceram, ou vieram ao meu conhecimento por meio do meu ócio. A única coisa que eu tenho feito ultimamente é ler livros, tocar violão e seguir uma lista de filmes de uma revista francesa que eu mal consigo pronunciar o nome. Mas eu resolvi dar um jeito nisso, a minha filosofia de vida é: "quem aprendeu russo, aprende x", sendo x um número real e que se estende até pelos imaginários. Sou quase criptonita, por isso venha o francês. Acho que o primeiro deles apareceu na minha primeira memória de vida de todos os tempos, na verdade é uma sequência. Eu corro pro fim desse corredor de hotel, eu teria uns três anos, era uma coisa louca, o Sol lá no fim numa janela que me prometia o que seja lá que buscamos aos três anos de idade e eu corria e só me lembro da sensação de estar na direção certa, não de realmente chegar lá. Talvez alcançar o Sol não fosse tão emocionante quanto correr atrás dele. O processo é muito mais que o resultado. O resultado é estático. O processo é movimento. Não sou estática, sempre fui nômade, por isso não tive pátria, só discos. Ontem encontrando algumas das pessoas mais importantes da minha vida no Antares, recebi elogios que me fizeram pensar que talvez se eu morresse não teria deixado uma má impressão, "a gente se sente honrada de conhecer uma pessoa dessas, porque você só nasceu no Brasil", e eu não podia deixar de concordar. Alguém saiu me levando pelo mundo desde que os meus olhos lembram. Foi divertido. Existiu o movimento. Eu nunca fiquei, eu sempre estava indo para algum outro lugar, eu sempre estava no processo, não estacionada no resultado. A próxima memória dessa sequência de memórias primordiais são os 12 girassóis de Van Gogh, Vincent ali na parede que dava para o fim da escada de madeira envernizada, eu não sou magnata por isso era só uma cópia, mas era de um amarelo que me fascinou aos cinco anos. A próxima memória marcante, eu estou no Equador, indo escalar um vulcão, o Cotopax, eu tinha seis anos, e eu me perguntava se era essa a direção certa, se era Norte, que diabos que era Norte, quem dizia que era Norte (e os problemas com autoridades), porque se eu quisesse eu gritava ali mesmo que era Sul e ia ecoar porque aquele era um desses paraísos perdidos com ecos. E se eu me sentisse a vontade, dizia mesmo que era leste. Não disse nada, só me perguntei qual era a direção. Então em algum momento da minha vida como eu a conheço, reencontrei o mesmo quadro do Van Gogh, dessa vez ele me acompanhava, ora eu olhava para ele com extrema felicidade e ele estava em sintonia, ora com melancolia, desistência e ele era dessa vez melancólico e me acompanhava no caminho, também. E os girassóis sabiam o caminho, o caminho do Sol, não importava se era Norte, Sul, Leste ou Oeste, eu ia alcançar o Sol. Alguns poderiam dizer que esses foram sintomas para o parto de uma alma poética, eu acho que se não fosse Van Gogh, teria sido Rafael, Renoir. Eu teria sido a mesma, só que com outras cores. Então Van Gogh está sentado aqui nessa sala que como já comentei, não é vermelha, e agora é amarela. A sala é o meu harém. Eu só gosto de chamar assim, mas ali só se encontram meus heróis pessoais, eles que sabem melhor. Depois vem Camões elogiando o Tejo e a primavera, conversando com Vinicius no bar, a conversa mais longa se dá entre poetas, é uma introspectividade que os afoga e não os traz mais de volta. Saramago devidamente analisa a raça humana, as escórias, as constâncias, os gestos. E eu acabei de ceder uma cadeira para Conor Oberst, que acaba de entrar numa briga com o Buk. O filho-da-puta mereceu a cadeira [e a briga?]. E se eu quiser, pode ser 8, 9, 10 horas da noite do dia, pode ser Sol, pode ser Norte, Sul, eu sempre vou ter uma boa conversa ali, no tal do Harém Amarelo, a luz como me agrada, igual a da Starbucks. Ah, eles são muitos, só não sei se esse host de blog tem linhas infinitas pra me aguentar... Porque hoje em dia as pessoas estão mesmo desesperadas por uma conversa, mais que por sexo. Fecho com um poema que saiu sem querer outro dia da última semana. De repente fico muito introspectiva como o Vinicius e o Camões e ao invés de não conseguir sair de mim, sái esse tipo de coisa, que é em português, que pra mim é uma língua que a palavra "pátria" tem mais força do que em qualquer outra. Pátria, pátria, pátria. Outro dia foi o Vinicius que me falava sobre isso. Vamos deixar o poema mais pra frente. Tenho mais do que praguejar, porque a poesia brasileira vem ocupando boa parte das minhas tardes, eu fico com pena até de acabar o livro, mas me dá esse alívio em saber que não é que a poesia seja infinita, eu sei que ela tem uma ponta aqui e outra ali que é o final, mas é nessas horas que eu me desespero em ser mortal e saber que eu não vou ler tudo, que um asteróide vai cair a qualquer momento e eu não vou ter vivido aquele poema. Recomendo terrivelmente "Os cem melhores poemas brasileiros do século", é um negócio melhor que café-da-manhã. Alimenta, nutre, melhora. Acho que o meu apego por coletâneas não parou por aí, entrou aqui em casa um "Bukowski, textos autobiográficos" (assim sem hífem e bizarro, mas eu não quero falar sobre essa reforma horrível), que ontem eu disse "vou ler um pouco e deixar o coitado em paz", quando vi, já tinha comido todas as quase 400 páginas. Descobri ainda uma série de quadrinhos boas pra ler na sala de espera do oftamologista, "O chinês americano" e "Scott Pilgrim" deixaram as melhores impressões. Há umas três semanas peguei uns livros budistas com umas chinesas simpáticas demais, uma dessas pessoas para ouvir por um dia inteiro, a preguiça me impede de ir olhar o título, mas se às vezes me parece clichê demais, eu lembro que não foi há muito tempo que eu concordei comigo que os clichês só são clichês porque são verdades absolutas que sobrevivem tanto que viram meio que ditado popular. Quando eu acabar de ver pelo menos uns 20 filmes da lista de 100 da tal revista francesa eu abro a boca pra praguejar, por enquanto, vou guardando minhas notas mentais. E agora o tal do poema que quase se engasga.


A felicidade sempre
é póstuma.
Ou
o entendimento de que
nós
fomos feliz,
por
muito
pouco
muito
felizes
é
um sentimento
[tardio].

A felicidade para sempre
é agora
e
o momento em que nós
somos
muito
felizes
é
para sempre
[agora].

Agora
para sempre
somos
o momento
é agora
a felicidade
para sempre
[ao contrário].

O sentimento
não é novo
é só atual
porque atual
é menos
novo
que
novo
você agora
é um
ser
atual
[banal].

Agora.


Dá até pra ler umas partes ao contrário, me diverti com isso, por causa da Clarice naquele café-da-manhã no saco do pão. Aliás, minha gente, estou esperando para fazer um experimento, ver se o Muniz sobrevive à lista de livros de romance de formação que eu passei pra ele, se vai ser taquicardia ou paixão ou revolução ou o que seja, vamos vendo.

Polêmica: qual dos termos está certo, "risco à vida", "risco de vida", "risco de morte", "risco a morte"? Meu argumento ontem foi que risco "à vida" era risco a algo que não tinha nascido, e risco "de vida" era risco a algo que já estava vivo. Lembrei que Drummond disse que "viver é pra mim é vontade de morrer". Daí me veio "risco de vida e morte", aí eu calei a boca. Queria opiniões.

E pontuo.

domingo, 8 de agosto de 2010

Canecas


I've got duct tape all around my heart
'Cause I've got a new feeling every thirty seconds

Acabei de levantar sem fome, apenas repetindo que acho que deveria comer porque comer é importante, as pessoas fazem isso o tempo inteiro, em voz alta, como se a mensagem fosse ter mais efeito. Talvez seja porque elas precisem. O sentimento de acordar num domingo não querendo sua própria companhia, pegar o violão ao invés de um café e se irritar por não querer ouvir sua voz, não querer uma conversa. A sala se enchia de livros do Bukowski, Clarice e as coisas que eu achava que me definiam, que eu voltei a dar crédito depois de não ter treze anos por muito tempo. Acho que o que me irritava mesmo era saber o que eu queria agora. Eu não sou uma suicida, acho besta. Mas às vezes me dá uma preguiça de viver que eu acordo num domingo desses e é chato demais. Só não é besta. Então de madrugada pra manhã eu pensei que ainda bem que eu escolhi essa profissão que vai tomar cento e trinta por cento do meu tempo porque assim não sobra muito com o que se preocupar, que eu tenho essas dez cadeiras e que não vai ser tranquilo mas pelo menos eu encho a cabeça, que agora eu sei o que me irritava, qual era essa falta que me irritava. Porque quando indiferença é tudo o que sobra então isso é um problema. Acho que essa coisa de ter a possibilidade em mãos de amar alguém de novo foi realmente emocionante, e ver a possibilidade se esvairecer foi uma decepção maior do que se eu perdesse o amor que nem teve vida o suficiente para existir em toda a sua forma. Há amor, não há quem amar. Então senti falta de você também naquele aeroporto e aquele chão e nós dois esperando uma mensagem superior, uma profecia em relação ao meu vôo. Senti falta de outros amores que duraram pra sempre. Quase tive um momento. Mas pelo menos eu sei que eu preciso de uma coisa dessas, de que é isso que eu quero, e que não é um assalto de banco, uma coisa bem fodida, como disse o Buk. E se isso é tão natural. Foi aí que eu olhei para a pilha de louças com um recado de não more só nunca e lave isso. E eu questionei. Por que lavar? A sujeira é o caminho natural das coisas, até das efêmeras. Lutar contra o natural, só nesse aspecto? As pessoas ficam procurando sua natureza o tempo inteiro. Daí eu fui lavar a louça. Uma foto na geladeira me lembrava que era domingo e que era dia dos pais. E a indiferença de novo. Essa caneca que eu estou lavando agora conta história, e as outras também. Existe uma biografia inteira na linguagem das canecas. Então eu agradeci ali ao som de água corrente obrigada aos que foram mais que pais, que me ajudaram a crescer (pensei na Maísa e sorri com a caneca de Londres na mão) que piegas que soou e eu me reprimi porque ser piegas é pior que ser besta. Tentando levar Iracema a sério, voltei pro meu quarto, deitei na rede e vi como ela drogava Martim. Aquilo me deu um sono e é por isso que eu dormi, com os verdes mares nadando no meu peito.

Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e de ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.

Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam –
Vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno da vida.


Pontuo.

A cigana

Clarice me dera bom dia num poema em saco de pão. Puxei o paté, o café, levantei, troquei de blusa, continuei o ritual. De branco. O meu braço ferido coloria memórias da noite anterior. Que o nome dele era Edson e ele fazia tatuagens de rena. O nome dela era alguém e ela tinha um dalmata. O nome dele era outro alguém e ele já tinha tido um husky. Passei o dia pensando sobre os fatos que nos definem. Qual a história que nos define, qual o mono-fato da vida que serviu de semente para praticamente todo o resto. São os momentos-fio. Esse professor costumava me dizer que se eu rasurasse um B numa prova e não entrasse na universidade porque outro alguém não rasurou um B eu me depravaria de uma vida inteira: novos livros, novos amigos, novas conversas, o homem da minha vida, e no pacote, até mataria os filhos, ou não os daria a existência simplesmente, por unicamente ter rasurado um B. Eu andava pela praia no dia que foi ontem, topando com o Edson, com a menina do dalmata, o senhor do husky, conversas de elevador, dando uma chance a raça humana, que quase incinerou toda a fé que nutria por ela. E fé é uma questão de fé. Foi quando a cigana surgiu e o pensamento sobre os momentos-fio desapareceu. Quer saber sua sorte?, ela perguntou. E eu digo que a sorte já está boa. Dois minutos depois meu cachorro me arrasta para dentro de uma árvore, onde meu braço esquerdo é totalmente cortado em forma de raiva adolescente bem nos pulsos. Eu ouço o riso da cigana. Entre todos os carros, buzinas, eu ouço a cigana. Foi quando no outro dia de manhã, que é o dia de hoje eu tive que lidar com situações kármicas. A história que me define, que eu venho há anos tentando me convencer que não me define, tomou conta daquela sala e eu tive que encarar os meus medos. O homem ao meu lado falava sobre cortar o cordão umbilical, falava sobre independência. O da frente falava no telefone como havia sofrido, que agora a vez era dele, era ele o protagosnita. Vai, amigo. Quando saí daquela sala de emissão de passaportes da Polícia Federal sem nenhum sucesso perguntei até quando o fantasma do meu pai ia me perseguir e minha mãe gentilmente me respondeu até que eu completasse dezoito anos. Eu precisava da assinatura de um pai que não podia assinar. Era essa a história que me definia, que era meu karma e me derrubava. Meu irmão viu um pedaço de cocô de pintcher e perguntou o que era. Isso é uma merda, eu disse. A frase podia ser aplicada em diferentes pontos do dia, em diferentes minutos e nunca pareceria fora de lugar. Quando cheguei à nova casa do meu pai, tentando redefinir minha definição, procurando um assinatura, um atestado, uma liberdade, falhei. Quando saí, a televisão falava sobre um tubarão que apareceu em New Jersey e ficou você ali na sala, sua cabeça careca reluzindo a luz, e a televisão falando sobre o lugar onde eu cresci longe de você. E nós ainda éramos iguais. Você, pai que não esteve lá, nós somos iguais. Nós bebemos suco de acerola, nós temos esse problema no pé. Nossa letra é igual. O mondrongo do nosso nariz foi esculpido pelo mesmo martelo. A nossa impaciência é tão compatível que são radioativas quando juntas. Mas pai, eu não quero que a sua história de vida me defina. Não quero que a sua ausência não só de assinaturas me defina, e não só porque eu preciso tirar um passaporte novo, pai, mas porque eu venho tentando achar essa definição há algum tempo e com muito insucesso não a encontrei em dicionários com sua nova ortografia que eu desconheço. Eu não quero que isso me defina pai. Eu quero que o que eu quero agora me defina. Eu quero uma quarta-feira ensolarada e um rio límpido e o sorriso de canto dele. Eu quero trombar com uma cigana e ouvir frases feitas. Eu quero que esse Sol invada o inverno. Eu quero que ele não me beije e que ele deixe eu beijá-lo a noite inteira. Eu não quero ser a vítima, eu quero ser a protagonista. Eu quero você. Eu quero trigêmeos e um parto indolor. Eu quero ver o mundo antes que ele exploda. Eu quero subir ao ritmo da água na Pizza San Marco em Veneza e não pensar em aquecimento global. Eu quero. Por que o que eu quero não me define? Que eu tenho almejos, desejos, até gracejos. Sem um passaporte e com dor no pé que é igual ao seu, pai, voltei para casa. Sucumbi num sono que me prometeu paz, acordei desejando carne de soja e mostarda, tomei não um grande gole de pinga mas um grande de nescau, olhei lá para fora para a praia e pensei em encontrar aquela cigana e perguntar da minha sorte. Perguntar da sorte do Edson. Perguntar se já é hora, Joaquim, do mundo cair no encaixe certo e você acordar desse sono. Já é hora, Joaquim. Foi então que fiz curativos no meu braço suicida, fui atrás da cigana. Porque era hora. Ela tinha os olhos pintados, uma roupa vermelha que corria em pano liso. Medalhinhas na testa, o mar ressacado bocejava e ela perguntou se eu tinha mudado de idéia. Eu disse que era hora. E ela disse que o meu grande amor ia me abraçar. Que eu iria fazer viagens. Que eu iria enfrentar um período turbulento e que eu iria sair mais forte. Tudo na palma da mão, a sorte que eu carreguei a vida inteira. Que eu vou viver muito, Joaquim. Ela sorriu com os olhos baixos, como se levantasse uma bandeira branca e entregasse minha sorte de volta, a que não me jogava contra árvores. Cigana, Joaquim, é questão de fé. E que afinal, Joaquim, o mono-fato que nos define quem define somos nos, e eu fui atrás de uma maneira de capturar o Sol. E a cigana só disse isso, Joaquim, porque a gente se repete, e a sorte é igual para todo mundo, até que nós descubramos o que bem fazer dela. E eu disse que vejo você por aí, cigana. E ela disse boa sorte.