domingo, 8 de agosto de 2010

Canecas


I've got duct tape all around my heart
'Cause I've got a new feeling every thirty seconds

Acabei de levantar sem fome, apenas repetindo que acho que deveria comer porque comer é importante, as pessoas fazem isso o tempo inteiro, em voz alta, como se a mensagem fosse ter mais efeito. Talvez seja porque elas precisem. O sentimento de acordar num domingo não querendo sua própria companhia, pegar o violão ao invés de um café e se irritar por não querer ouvir sua voz, não querer uma conversa. A sala se enchia de livros do Bukowski, Clarice e as coisas que eu achava que me definiam, que eu voltei a dar crédito depois de não ter treze anos por muito tempo. Acho que o que me irritava mesmo era saber o que eu queria agora. Eu não sou uma suicida, acho besta. Mas às vezes me dá uma preguiça de viver que eu acordo num domingo desses e é chato demais. Só não é besta. Então de madrugada pra manhã eu pensei que ainda bem que eu escolhi essa profissão que vai tomar cento e trinta por cento do meu tempo porque assim não sobra muito com o que se preocupar, que eu tenho essas dez cadeiras e que não vai ser tranquilo mas pelo menos eu encho a cabeça, que agora eu sei o que me irritava, qual era essa falta que me irritava. Porque quando indiferença é tudo o que sobra então isso é um problema. Acho que essa coisa de ter a possibilidade em mãos de amar alguém de novo foi realmente emocionante, e ver a possibilidade se esvairecer foi uma decepção maior do que se eu perdesse o amor que nem teve vida o suficiente para existir em toda a sua forma. Há amor, não há quem amar. Então senti falta de você também naquele aeroporto e aquele chão e nós dois esperando uma mensagem superior, uma profecia em relação ao meu vôo. Senti falta de outros amores que duraram pra sempre. Quase tive um momento. Mas pelo menos eu sei que eu preciso de uma coisa dessas, de que é isso que eu quero, e que não é um assalto de banco, uma coisa bem fodida, como disse o Buk. E se isso é tão natural. Foi aí que eu olhei para a pilha de louças com um recado de não more só nunca e lave isso. E eu questionei. Por que lavar? A sujeira é o caminho natural das coisas, até das efêmeras. Lutar contra o natural, só nesse aspecto? As pessoas ficam procurando sua natureza o tempo inteiro. Daí eu fui lavar a louça. Uma foto na geladeira me lembrava que era domingo e que era dia dos pais. E a indiferença de novo. Essa caneca que eu estou lavando agora conta história, e as outras também. Existe uma biografia inteira na linguagem das canecas. Então eu agradeci ali ao som de água corrente obrigada aos que foram mais que pais, que me ajudaram a crescer (pensei na Maísa e sorri com a caneca de Londres na mão) que piegas que soou e eu me reprimi porque ser piegas é pior que ser besta. Tentando levar Iracema a sério, voltei pro meu quarto, deitei na rede e vi como ela drogava Martim. Aquilo me deu um sono e é por isso que eu dormi, com os verdes mares nadando no meu peito.

Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e de ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.

Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam –
Vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno da vida.


Pontuo.

Nenhum comentário: