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A cigana

Clarice me dera bom dia num poema em saco de pão. Puxei o paté, o café, levantei, troquei de blusa, continuei o ritual. De branco. O meu braço ferido coloria memórias da noite anterior. Que o nome dele era Edson e ele fazia tatuagens de rena. O nome dela era alguém e ela tinha um dalmata. O nome dele era outro alguém e ele já tinha tido um husky. Passei o dia pensando sobre os fatos que nos definem. Qual a história que nos define, qual o mono-fato da vida que serviu de semente para praticamente todo o resto. São os momentos-fio. Esse professor costumava me dizer que se eu rasurasse um B numa prova e não entrasse na universidade porque outro alguém não rasurou um B eu me depravaria de uma vida inteira: novos livros, novos amigos, novas conversas, o homem da minha vida, e no pacote, até mataria os filhos, ou não os daria a existência simplesmente, por unicamente ter rasurado um B. Eu andava pela praia no dia que foi ontem, topando com o Edson, com a menina do dalmata, o senhor do husky, conversas de elevador, dando uma chance a raça humana, que quase incinerou toda a fé que nutria por ela. E fé é uma questão de fé. Foi quando a cigana surgiu e o pensamento sobre os momentos-fio desapareceu. Quer saber sua sorte?, ela perguntou. E eu digo que a sorte já está boa. Dois minutos depois meu cachorro me arrasta para dentro de uma árvore, onde meu braço esquerdo é totalmente cortado em forma de raiva adolescente bem nos pulsos. Eu ouço o riso da cigana. Entre todos os carros, buzinas, eu ouço a cigana. Foi quando no outro dia de manhã, que é o dia de hoje eu tive que lidar com situações kármicas. A história que me define, que eu venho há anos tentando me convencer que não me define, tomou conta daquela sala e eu tive que encarar os meus medos. O homem ao meu lado falava sobre cortar o cordão umbilical, falava sobre independência. O da frente falava no telefone como havia sofrido, que agora a vez era dele, era ele o protagosnita. Vai, amigo. Quando saí daquela sala de emissão de passaportes da Polícia Federal sem nenhum sucesso perguntei até quando o fantasma do meu pai ia me perseguir e minha mãe gentilmente me respondeu até que eu completasse dezoito anos. Eu precisava da assinatura de um pai que não podia assinar. Era essa a história que me definia, que era meu karma e me derrubava. Meu irmão viu um pedaço de cocô de pintcher e perguntou o que era. Isso é uma merda, eu disse. A frase podia ser aplicada em diferentes pontos do dia, em diferentes minutos e nunca pareceria fora de lugar. Quando cheguei à nova casa do meu pai, tentando redefinir minha definição, procurando um assinatura, um atestado, uma liberdade, falhei. Quando saí, a televisão falava sobre um tubarão que apareceu em New Jersey e ficou você ali na sala, sua cabeça careca reluzindo a luz, e a televisão falando sobre o lugar onde eu cresci longe de você. E nós ainda éramos iguais. Você, pai que não esteve lá, nós somos iguais. Nós bebemos suco de acerola, nós temos esse problema no pé. Nossa letra é igual. O mondrongo do nosso nariz foi esculpido pelo mesmo martelo. A nossa impaciência é tão compatível que são radioativas quando juntas. Mas pai, eu não quero que a sua história de vida me defina. Não quero que a sua ausência não só de assinaturas me defina, e não só porque eu preciso tirar um passaporte novo, pai, mas porque eu venho tentando achar essa definição há algum tempo e com muito insucesso não a encontrei em dicionários com sua nova ortografia que eu desconheço. Eu não quero que isso me defina pai. Eu quero que o que eu quero agora me defina. Eu quero uma quarta-feira ensolarada e um rio límpido e o sorriso de canto dele. Eu quero trombar com uma cigana e ouvir frases feitas. Eu quero que esse Sol invada o inverno. Eu quero que ele não me beije e que ele deixe eu beijá-lo a noite inteira. Eu não quero ser a vítima, eu quero ser a protagonista. Eu quero você. Eu quero trigêmeos e um parto indolor. Eu quero ver o mundo antes que ele exploda. Eu quero subir ao ritmo da água na Pizza San Marco em Veneza e não pensar em aquecimento global. Eu quero. Por que o que eu quero não me define? Que eu tenho almejos, desejos, até gracejos. Sem um passaporte e com dor no pé que é igual ao seu, pai, voltei para casa. Sucumbi num sono que me prometeu paz, acordei desejando carne de soja e mostarda, tomei não um grande gole de pinga mas um grande de nescau, olhei lá para fora para a praia e pensei em encontrar aquela cigana e perguntar da minha sorte. Perguntar da sorte do Edson. Perguntar se já é hora, Joaquim, do mundo cair no encaixe certo e você acordar desse sono. Já é hora, Joaquim. Foi então que fiz curativos no meu braço suicida, fui atrás da cigana. Porque era hora. Ela tinha os olhos pintados, uma roupa vermelha que corria em pano liso. Medalhinhas na testa, o mar ressacado bocejava e ela perguntou se eu tinha mudado de idéia. Eu disse que era hora. E ela disse que o meu grande amor ia me abraçar. Que eu iria fazer viagens. Que eu iria enfrentar um período turbulento e que eu iria sair mais forte. Tudo na palma da mão, a sorte que eu carreguei a vida inteira. Que eu vou viver muito, Joaquim. Ela sorriu com os olhos baixos, como se levantasse uma bandeira branca e entregasse minha sorte de volta, a que não me jogava contra árvores. Cigana, Joaquim, é questão de fé. E que afinal, Joaquim, o mono-fato que nos define quem define somos nos, e eu fui atrás de uma maneira de capturar o Sol. E a cigana só disse isso, Joaquim, porque a gente se repete, e a sorte é igual para todo mundo, até que nós descubramos o que bem fazer dela. E eu disse que vejo você por aí, cigana. E ela disse boa sorte.

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