terça-feira, 30 de novembro de 2010

Localização: em trânsito, não em uma sala de espera.


[Gales]

Três horas, sempre cedo ou tarde demais para começar a fazer alguma coisa, disse Sartre, de algum modo melhor do que eu parafraseei. Ao que eu vejo que por três horas ele quis dizer só não três horas da tarde, mas da madrugada, essa parte do dia onde há silêncio nas maiores das metrópoles. È verdade que eu poderia começar a falar de estrelas e ser piegas sobre a tranquilidade que elas passam às três da manhã, mas serei piegas de outra forma. Recentemente fui à locadora, porque eles vendem esse iogurte lá agora e não porque eu queria alugar algum filme, creio que assim como as lojas de CDs, as locadoras estão com os seus dias contados, e o ato de alugar um filme ou comprar um CD é hoje em dia meramente simbólico - com uma incrível fonte de ilimitação que é a internet, se faz isso tudo de quatro paredes. Pois bem, vi Julia Roberts, logo quem não atuava há tanto tempo, eu não esperava que ela voltasse, na verdade até esperava, mas queria ter sido avisada. "Comer, rezar e amar", lembrei de ter visto esse livro na livraria centenas de vezes e ter achado que era um desses livros com uma dieta parecida com a de South Beach e ter ignorado totalmente. Por Julia Roberts, fui atrás do livro e comecei a lê-lo. É lógico que li na defensiva e é verdade que a narração me parece simples demais, mas na dose suficiente para ter feito o sucesso que me parece ter feito. Acabei que resolvi ver o filme antes de acabar o livro, e tirando o sotaque bizarro do brasileiro, é até notável. Na verdade, é a história de todas as mulheres na Terra. A busca por algo maior, melhor. Para algumas vem em forma de filhos, trabalho, viagens, amor. Mas para as que se identificam com a personagem da Roberts, a busca por algo maior que esteja lá fora pelo caminho mais simbólico possível, uma estrada, uma viagem, é a mais certa. Não deixem de ver o filme ou ler o livro, é uma experiência por associação, e esse tipo de experiência é muito rara, muitas vezes alguém nos conta uma história e pára por aí mesmo, mas raramente alguém nos conta outra história e nós tomamos a experiência para si. O simples vem sempre com essa dose de complicação, mas sempre vale a pena subir exaustivamente uma montanha estúpida pela paisagem. Mais do que nunca preciso ir a Gales, a vontade que não ficou menor depois que vi fotos na Lonely Planet. Não precisa fazer sentido essa vontade minha de ir lá, contanto que ela simplesmente exista, contanto que eu possa simplesmente contar com ela quando eu precisar dessa dose de querer-algo-melhor. Porque se não fosse assim, eu teria que provar da angústia que provou Madame Bovary, sempre tão presa dentro de si e querendo buscar algo onde não sabia exatamente onde achar. O importante é poder contar com a vontade, o importante é saber que não importa se não achamos ainda esse algo-melhor, o importante é saber que ainda estamos na corrida aqui, ainda estamos no meio do movimento, no meio da estrada, e não estagnamos. É importante demais que queiramos ser mais do que somos agora, eu costumo pensar que tudo que eu preciso já tenho, afinal, essa pessoa está em algum lugar já agora dentro de mim, basta eu saber esculpir devidamente. Tenho certeza que Gales me guarda algo incrível, que, orgulhosamente, não sei dizer bem o que é, mas sei que estou no meio do caminho, e adoro caminhar até lá... Não encaro nada disso como se estivesse vivendo em uma sala de espera, encaro tudo isso como se estivesse no meio da estrada. Há várias interpretações para a mesma situação, e com certeza a muitos falta o olhar, a sede, o otimismo de ver além. E aviso logo, seja lá para onde eu estiver onde, seja lá onde esteja o meu algo-melhor, sob qualquer circunstâncias continuarei ignorando pessoas pessimistas e que oferecem nada senão uma nuvem em cima de suas cabeças. Não gosto quando me bloqueiam o Sol e a felicidade, as possibilidades, e muito menos quando chovem perto de mim. Odeio ainda mais quando sei que vai chover, gosto quando a chuva vem desavisada e vira uma aventura, não quando ela é avisada e todos querem ser delicados com seus guarda-chuvas, e quando eu vejo alguém com uma nuvem em cima da cabeça, sei que vou ter que ter um guarda-chuva por perto. Seja lá o que for, e onde for, quero um dia ensolarado ou uma chuva de verão, mas não quero avisos, quero o imprevisível. Esse é o meu algo-melhor. E tenho essa impressão que quando achá-lo, ainda não estarei satisfeita, e nesse caso, insatisfação é o melhor caminho para viver uma vida com algum objetivo. E essa é a minha experiência do livro piegas de mulherzinha que eu não obstante recomendo. Agora preciso dormir, amanhã preciso ir pintar o cabelo em algum horário em que os cabeleireiros ainda funcionem. Pontuo.

PS: A próxima publicação de "Pão-com-açúcar" será a última, e será um tanto longa, simplesmente quero acabar com os periódicos, e ela vem até o final do ano, agora que fui presenteada com dois quilos e meio de tempo livre. Sit tight :).

Primeira publicação
Segunda publicação
Terceira publicação
Quarta publicação



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Um ser herói

Um ser herói
Eu tenho todo o tempo
do mundo
eu posso
ter o
mundo
(rodando
só quando
eu der
corda)
Reino de ser
meu rei
faço castelo
de
areia
e controlo a inflação
das emoções
Nos limites das minhas
rochas
(entranhas)
(paredes)
(limites)
(vontades)
(loucuras com forma desenhada
de mim)
Eu pulo
se cortar não
dói
só corta
Eu conto
os peixes
mas só porque
aprendi a contar
Eu conto as horas
mas só porque
não sei
como
elas
se enrolam
para
passar
Eu tomo esse gole
sabor
de infância
Como era fácil
ser herói
ser rei
desencanto
mesmo quando
o homem
ainda
dançava
a mesma
dança
(disforme)
(e eu tinha que sempre olhar
pra cima
todo mundo era tão
alto
e sabiam melhor)
Como era fácil
ser herói
quando o corte
só cortava
Quando a cicatriz
era
medalha
Quando se jurava uma vez
se acreditava
Como era fácil ser herói
ter acesso
às dimensões
aos buracos negros
da felicidade
Eu vinha, saía,
voava, voltava,
rodopiava, pulava,
licença poética,
que vou pular
(pra lá
de volta
te deixo bilhete
não bebe o café
que ele está
velho)

O céu é tão bonito
que deu essa
sede
de mergulhar
desventura
de um
ser herói
(aposentado)
(no mesmo ritmo
instantâneo
que mergulho
desmergulho
- de birra -
sou
minha demais
o mundo é meu
demais)
Era muito fácil
ser
um
ser
herói
E muito fácil
Não quero

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Minha II Guerra Mundial é pessoal.

Esse poema foi a primeira vez que apostaram em mim. Que quiseram me publicar. Ele significa bastante. O bastante. Eu tinha treze anos e foi provavelmente a primeira publicação que saiu da gaveta.

MINHA II GUERRA MUNDIAL É PESSOAL

Acordar em 1938 em meio a um turbilhão de flores com cores
Flores que perdi na Guerra em meio as dores
A tristeza matinal do soldado que voa com os eternos beija-flores
Os beija-flores que em ti encontrei, que em ti perdi
Acordar em meio a uma Guerra,
Soldados lutando pelos seus amores perdidos no canhão, na multidão

Dormir para escapar dessas paredes de cérebro
Que me torturava e me matava mais que o cruel inimigo
Eu era a cópia do soldado mortou ou viria a ser
Eu não era o mocinho nem o vilão, era um soldado infiltrado na multidão

De repente acordo nesse turbilhão de dores sem cores
Depois de 1945 o Mundo nunca mais foi o mesmo
Não é do Mundo que sinto falta, são das flores que não posso proteger
Agora eu era soldado, mas não sabia depois
Talvez caçarei borboletas... Eu vivia uma II Guerra Mundial contra mim mesmo.
Talvez eu tenha sido um mártir anônimo...
Tempos penosos... O desejo e a habiblidade de viver - não a capacidade

Uma vez que eu levei uns socos
Descobri que eu não era feito de vidro.
Você não se sente vivo a não ser que esteja dando tudo de si, de mim.

Agora, que minha voz perdeu o som da razão, eu tenho sede
Tenho sede de verde no meio desse cinza de fumaça
Que por mais que eu cave no ar com as mãos, não tem fim

Minha sede não é de água
Não sei do que é minha sede
Mas sei o do que não é, é de não-guerra

E o inimigo tinha mãe, tinha irmã, tinha cachorro, tinha desejo
Tinha desejo, tinha tristeza, tinha certezas
Eu e o inimigo éramos iguais apesar dos uniformes
Éramos iguais apesar de agora sermos diformes.

A guerra acabou... Rolem os créditos!
Um soldado, um vilão, um inimigo, eu perdi a mim mesmo no soar do canhão do batalhão
A procura de flores, amores, cores, menos horrores...


Não sei ela jamais irá ler isso, mas gostaria de agradecer a Professora Ana Pimentel. Eu sinto que quando chamo alguém de professor quero dizer muito além disso. Não é só uma palavra, é uma palavra que vem em forma de admiração e agradecimento cada vez que é dita. Obrigada por ter tido um pouquinho de fé em mim, hoje em dia escrevo porque naquela época soube que gostariam de ler o que eu tinha dentro da gaveta. Um abraço à Professora Aurilene, que tem o sobrenome Luz e iluminava uma sala inteira. Vocês foram grandes professoras, grandes mestres, daqueles que incentivam e quando nós vemos, já estamos muito além da onde imaginamos estar. E um priviet e um spasibo para a professora Galina Archaedviena, que quis me escutar sobre Dostoiévski, Tolstói, Turgenev, quando eu tinha essa placa de brasileira na cara e ela dizia que eu me interessava mais e escrevia mais que os russos, um spasibo ogromnoe. Eu não posso dizer exatamente o que aprendi na escola, mas posso contar sobre uma coisa ou outra. Obrigada, professoras.

Isso é enquanto eu enrolo você e não publico a quarta publicação do Pão-com-açúcar. Mas irei me redimir, pois acredite, Domingo a publicação será da extensão do Daqui até o Lá de Acolá. O final já está escrito na minha cabeça. Eu vi tudo. Agora eu preciso de tempo, o espaço para as palavras já há. Domingo, repito, domingo. Caso não, eu estarei falhando comigo. E eu odeio fazer isso. Prefiro que os outros tomem este papel. Pontuo.

We don't need whys, but here are some reasons why you should.



I remember it was not so cold anymore and we were having this constant Kafeinya pizza mood, and there we were, ordering another one, dear Andrushka just smiled at us. I was waiting for Tati, Syd and Valya, the girl that just travelled to Portugal, I was to teach her some portuguese before I came back home. I had so much fun with that, I'm so proud of this language, it's sweet, soft, and seems to just play along. And winter just ended. So what now? We had gone crazy indeed. How crazier can we get. So there we were, Tati and Syd eating a pizza while I read some Camões to Valya, speaking one portuguese, the sound of it, was already so awakward, I should probably call Sophia and share that horrible feeling. Where did my mother language go? And doesn't Camões sound the same? But as I said, how crazier could we get. Camões left the room. Me, Tati and Syd started to make a list. Actually, we met just to do that. And I'm so proud of this. The list goes.

(It starts at 51 because the "Reasons to have sex" group on facebook had already listed 50).

REASONS WHY YOU SHOULD HAVE SEX

51 - Because he's wearing the tight underwear you gave him.

52 - Because you just bought matrioshka underwear.

53 - Because it's goddam fuckin -30 outside.

54 - Because you're drunk and don't respond for your acts.

55 - Because he has a foreign accent.

56 - Because he's going to the army and leaving the country.

57 - Because you don't want to learn [the russian gramatical] cases.

58 - Because it's [blank] holiday.

59 - Because you finished your sudoku book.

60 - Because you're and atheist and god is not watching you.

61 - Because he's related to Price Harry in 15th degree.


62 - Because it's 3am and you want a cup of water.

63 - Because you're pregnant and you can't get more pregnant.

64 - Because you found the perfect sofa after shopping for sex-favorable sofas.

65 - Because it prevents cancer (what? что за бред?)

66 - Because he gave up being a priest (Thank you, Lord!)

67 - Why not?-feelings

68 - Because you finally found two people that agree.

69 - Because you lived in Kirov and you're in MOSCOW.

70 - Because it's finally spring. And it's APRIL. (You've been waiting since Maslenitsa in February)

71 - Because you finally had the guts to kill the fuckin' cats but it's going to the dacha anyway.

72 - Because you're почему-то covered in shampoo and now you're making out.

73 - Because he's not a rapper (a rapist, smart-o)
Even tho the word rapper is scratched we actually met a russian rapper so yeah. Maybe it shouldn't be scratched at all). And we actually though rapper standed for rappist before Syd arrive - she's american, or as we used to say, ALASKIAN.

74 - Because that random guy had three condoms and there's an empty приезд [stairway]

75 - Because you desesperately want to use the instrumental языком [with tongue]

In russian there are gramatical cases that decline the word. The nominative word of "tongue", without declination, is "yazik", but if ou use the instrumental case, that is needed when you use something to complete and action, the it is "yazikom". We had "yazikom" in my first russian-english phrasebook in the sex part. There was a lot of respect going on for that little book for travelers. This is actually how much you can respect a phrasebook

76 - Because it's made for sharing.

77 - Because Angelina Jolie adopted another kid.

78 - Beucause you found two, and plus you, it's a three-some.

79 - Because they just started making out on TV.

80 - Because his name is not Manfred (in german) or Evilásio (in portuguese)

81 - Because you're coming home after a long time and he said he's gonna tune your guitar, and you really don't care if it's a |G| or a |D|.

82 - Because they're TWINS. Sophia quote: "I've always wanted twins. [pause] Not kids."

83 - Because his dad is hot and he's halfway through.

84 - Because this is how we roll in The Shire.


85 - Because he's in rumspringa.

86 - Because you just witnessed FIVE weddings in Aleksandrovskiy Park and really need to have some imoral sex out of wedlock.

87 - Because he can make sushi (tell Isabela's twin brother priviet)

88 - Because you have [blank] and you're not afraid to use it.

89 - Because you want a place in hell to be reserved for you.

90 - Because he's not wearing a belt.

91 - Because he speaks welsh and raises sheeps.

92 - Because he's not a rapper

Obviously the russian rapper episode didn't go so well and ended awakwardly

93 - Because he started being an orthodox priest.

94 - Because he's a russian that doesn't smoke.

95 - Because he can toss a pizza.

Tati, did I ever mention your weird english vocabulary for a german?

96 - Because he has more than five piercings. And you just decided you like the number five.

97 - Because even tho he isn't russian he always knows the genitive case plural for substantives

More russian grammar involved. You don't want to know about that, it's been known to drive russian learners to deep depression.

98 - Because he wears a turtle neck (but isn't gay)

99 - Because he's a russian sailor.

100 - Because what happens in Russia, stays in Russia. In Russian.



And must I end it, saying: Because someone's gotta be the man. And yes, girls are mean. And we like it.

Last Quote: "I'm doing this AFS presentation and I'm having a hard time finding sober pictures!", Tati

I miss the german part of me.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Cemitério florido por opção.



Era um cemitério. Seus belos epitáfios cobertos de lodo e de negação, a canonização de quem morre é algo tão previsível quanto a morte em si. Passamos a ser os bons maridos, as amáveis esposas, o grande amigo. Quem diz é a pedra. A total ausência de vida debaixo de uma grama tão bem cuidada. Podada. Uniforme. Padronizada. No protocolo. Debaixo dela, Augusto dos Anjos sái das linhas e encontra motes. O interessante sobre o cemitério é que ele não é feito apenas de terceiros, é muito fácil achar partes e pedaços nossos perdidos por ali. Houve essa situação aqui no prédio, a mãe dessas meninas deixou-as mais o marido, ela que morreu de algo como um câncer, e toda vez que eles pegavam o elevador desde aquele dia eles recebiam os olhares, as condolências, que nada amenizam só reavivem, e saiam pela porta metálica carregando sua cauda da morte, que era mais visível para os outros que qualquer coisa. Nunca fui amiga das filhas. Nós nunca seríamos amigas. Eu era estranha demais no colégio para que isso acontecesse. Mas talvez isso tenha sido ótimo. Eu nunca quis reparar nas suas caudas de morte, achava-as fortes agora, sobreviventes, pelos quantos pedaços delas haviam sido enterrados com a mãe. Ser um zumbi não é uma escolha. Ontem no Dia dos Finados, e pouco me importa por que diabos esse dia existe, se a energia me parece a mesma, se as estações não mudam e se o Sol se põe na mesma hora. Eu pensei em pessoas que morreram. Não as que morreram de fato. Mas as que morreram porque passei a não conhecê-las mais. E eu não sofria mais as suas mortes porque eu sabia exatamente que elas não voltariam. E outras pessoas que por trapaça do destino continuam vivas, mas poderiam muito bem estar mortas para que não tivessem ficado para ver o colosso todo rolar na direção errada. Essa pessoa que definiu a história da minha vida. E que me dói, apesar de eu estar anestesiada há treze anos. Eu ri, e foi um riso frustrado, quando me falaram que eu nunca tive grandes problemas. Ás vezes as pessoas te conhecem e não sabem a história que a vida te proporcionou, e te julgam só pelo o que elas viram, e não as culpo, veja bem, não as culpo. Mas existem pessoas e pessoas. Eu creio que qualquer problema pode deixar uma bela cratera ou só um arranhão, e isso nós meio que controlamos. Mas quando se tem cinco anos não se sabe nada disso e a cratera fica simplesmente lá e só depois de anos você entende o que diabos é uma cratera. Então eu ri, porque aparentemente eu nunca tinha tido grandes problemas. Problema, aliás, que é palavra que é escrita do mesmo jeito em todas as línguas que eu consigo falar. Problema, problem, das Problem, проблема. Não sei se isso implica que somos todos humanos e os sentimos do mesmo jeito, e eu não quero falar realmente da unidade humana e de como pouco importa que falamos línguas diferentes, vamos dar as mãos e convencer os grandes líderes a enterrar suas bombas atômicas. Felicidade é um assunto overrated. Tão overrated que escrevi sobre isso sem no auto-piloto na segunda-feira. E o pior é saber que as pessoas vão aprovar o que escrevi quando lerem só porque é exatamente o que elas querem ler. Era algo sobre dinheiro e felicidade. Eu ia sobre algo como esse imperador chinês que criou a cédula e declarou sentença de morte àqueles que não acreditassem que poderiam comprar bens com um pedaço de papel. E se as coisas que desejamos são materiais, parte delas, então dinheiro é - uma - das formas de se sentir plenamente feliz. Mas vejamos os índios. Que não entendem a idéia de lucro. Felicidade para eles é medida em outra moeda. Projetamos a felicidade naquilo que nos ensinaram a valorizar, tivemos diferentes imperadores. Se eu acredito ou não que um Mac vai te fazer feliz, até acredito, mas por quanto tempo? Até as coisas não-materiais têm validade de felicidade. Amor vem e enjoa de você e pega o beco. A pergunta é até quando as coisas materiais ou não-materiais vão te fazer feliz, se todas elas estão programadas para durar um determinado tempo. Se me perguntarem, eu digo que felicidade é renovação, é reciclagem, é movimento. É também um sentimento tardio que é promovido pelo contraste, quando vimos que fomos felizes ou que somos muito felizes agora porque fomos tristes. Movimento e contraste. Se é um Mac ou amor que vai promover isso, bring it on. Então nesse Dia dos Finados projetei esse sentimento quanto as pessoas que eu já não conhecia e se tornaram estranhos, que vocês morreram e eu não vou ressucitá-las. E não falo de Jesus, nem do Goku. Eu pego o que eu tenho agora e junto os pedaços e espero que o curador ache que esse pedaço de arte valha a pena ser exposto e seja bonito mesmo, quase melancólico. No Dia dos Finados valorizei mais quem é vivo para mim. Quem, em vida, ainda se faz vivo. Pois há os que em vida, simplesmente morreram. E eu, licença, quero estar viva minha vida inteira, não estou por aí dando pedaços meus para serem enterrados. Eu sei que a grama está bonita e podado e estar debaixo dela é quase tentador, mas eu gosto mais das flores, e das árvores centenárias, que eu posso ver daqui do outro lado, que só nesse plano eu tenho a disposição suas sombras e seus cheiros. Estar vivo realmente vale a pena. Não precisa ser por ninguém. Pode ser pela árvore, pelas flores. Ou para simplesmente estabelecer o contraste da vida ali, em pé naquela grama, o contraste da morte e da vontade de viver. Os polos. E você que morreu, isso me dói o coração, mas doeria ainda mais dar continuidade a um luto ou cultivar a tal cauda da morte. E que você nunca mais vai ser o mesmo porque o combo de vocês não existe mais, porque a outra metade morreu, é verdade. Mas a gente não precisa esquecer para seguir em frente. Inevitavelmente, se aquilo persistir, nós crescemos em volta, e o importante é que crescemos e sobrevivemos. Somos esse monte de exoesqueleto e por algum truque da evolução não os descartamos, como memória imunológica. O que eu sei é que a cada patada, a casca fica mais dura. È por isso que nós tornamos pessoas melhores, esquecendo ou não. É patada sobre patada. É exoesqueleto sobre exoesqueleto. Eu não quero condolências. Apenas aceito as suas respectivas mortes e escolho ser o outro polo do contraste da vida. Por isso digo, era um cemitério, pois agora vejo somente a grama e as pedras já não falam comigo com seus epitáfios mentirosos porque sabem que não me convencem, eu sei todos os motivos que levaram a sua morte, e o epitáfio é como essa criança louca e positiva demais (talvez não precise vir de uma criança, apenas de uma pessoa com as tais características, quando a carapuça serve) que beira a cegueira da canonização, quando é muito óbvio que se fôssemos mesmo santos, nem teríamos que morrer para começo de história. Ou me deixam escrever as falhas junto às glorias no epitáfio, ou as pedras simplesmente pouco me interessam. Gosto das flores demais. Preciso escrever demais. Pontuo.