domingo, 20 de novembro de 2011

Uma linha reta é um zigue-zague.


Eles dizem que de um ponto podem partir infinitas retas.

Em teoria, é pura geometria. Na Rússia a teoria é posta em prática de um jeito que bota a paciência de dezenas de pessoas numa panela de pressão até que a panela exploda, a dona de casa contraia uma queimadura facial e paramédicos na ambulância passem a dizer que os médicos que vão tratá-la são os melhores quando eles realmente não sabem se há ali dano em algum nervo facial. Em outras palavras: caos.

Então eu estou sentada em um corredor esperando para tirar uma raio-x de check-up. Há como que três pessoas na minha frente e eu simplesmente sento lá e penso, bem, a partir do ponto que todas elas forem, eu entro, é matemática simples. Chegam mais pessoas. Eu sento, espero, me sinto ansiosa e inútil, com a única expectativa que uma pequena porção de radiação passe, por favor, pelos meu tórax neste confuso dia de primavera (o episódio se passou em meados de Abril). O resto do meu dia não estava planejado, eu acordara apenas pela pequena porção da radiação. A minha vez chegou, as três pessoas haviam entrado e saído e eu me levanto para entrar. Um ser, do qual a existência, apesar da vontade minha ser maior de fazê-lo mais de uma vez, vou ressaltar que é completamente inútil (e eu fico esperando por aqui mesmo que não só no campo da vida de fazer filas mas em qualquer outra empreitada que ele meta o nariz), gentilmente corta a fila, entrando bem na minha frente. Eu não sou uma pessoa de fazer escândalos e normalmente desprezo as pessoas a distância e isso me basta, mas me senti ali mesmo usurpada, uma corrente fulminante de sangue a me correr pela cabeça anormalmente e perguntei, meu senhor, eu cheguei aqui um tanto antes que você, por que você está passando na minha frente? (adicionar um tom passivo-agressivo aqui). Ao que ele responde: você não marcou o seu lugar na fila.

Então eu entendi.

Na Rússia não há a - cultura - de se - estar - em uma fila. As pessoas chegam e perguntam "quem é o último?", ao que um outro ser responde "eu" e ao que o primeiro ser replica "eu estou logo depois de você". O sistema, obviamente, é ridículo, porque dá o direito às pessoas de irem a qualquer outro lugar e fazer qualquer outra coisa que estar na fila, ou até mesmo de ocupar várias filas ao mesmo tempo (no exemplo do hospital, por exemplo).

O que havia acontecido no caso do raio-x é que o ser insignificante havia perguntando quem era o último e um ser mais insignificante ainda respondera que se tratava dele e deu-se a entender que ele então tinha o seu lugar na fila, e eu, enquanto simplesmente sentava ali sem fazer contato humano, não tinha. Acreditem ou não, eu já vi pessoas grávidas passarem por vexame porque não podiam passar na frente de todas as outras. Nesse segundo episódio eu fiquei realmente violenta e dei o meu "lugar marcado" para a menina grávida e saí e fui fazer qualquer outra coisa.

O buraco é muito mais em baixo.

E eu poderia passar a tarde aqui escrevendo sobre casos que envolvem o mau entendimento da pergunta "quem é o último?", ou simplesmente posso escrever que já vi o sistema falhar em filas de banheiro até a filas do teatro Bolshoi (sim, aquele para onde todas as meninas magrelas de Joinville querem ir).

E eu pulo a parte do banheiro e me retenho à fila do Teatro Bolshoi.

Estava tendo essa simpática tempestade de neve, esse é o fundo da nossa história. Estamos na frente do teatro esperando para que a bilheteria abra, acontece que duas horas antes do espetáculo eles vendem ingressos para estudantes ao preço de cem rublos (=R$6), ingressos que outrora custariam números em margens... orbitais. Chegavam todas essas pessoas dizendo que o seu lugar na fila estava ocupado, porque já havia alguém esperando por elas lá na frente. Interessantemente, os habitantes desta mesma fila debaixo de neve e sob frio começam a fazer uma lista numerada com o sobrenome das pessoas, já que a idéia de simplesmente ficar ali em linha reta é complicada demais. Então eu olho para a lista e ela está completamente molhada, esse garoto altamente ignorante começa a gritar com a minha amiga que perdera a paciência há vinte minutos atrás mas explodira só agora. O Senhor Gentil começa a gritar e eu penso uau, gritar com uma mulher, que cavalheiro. A discussão chegou a um ponto que ele ameaçou eu e a minha amiga contra a grade (música de drama aqui), ao que ela replicava que ia chamar a polícia, enquanto tudo isso acontecia eu mantinha a minha plena cara de WTF. Em algum momento ele desistiu de nos prender contra a grade para que não entrássemos na bilheteria e saiu, enquanto eu desejava que ele morresse de câncer de próstata.

Eu gostaria muito de dizer que isso tudo é ficção, mas esse tipo de bruto existe.

Então nós apelamos para a contra-violência e entramos na bilheteria, conseguimos os dois ingressos por seis reais (sim, seis reais por aquele espetáculo que as meninas de Joinville se matam para ir).

Então, Brasil, é isso: apesar do mundo ser mundo em todos os pontos do mundo e de qualquer ponto poder partir infinitas retas, isso não quer dizer que uma reta é sempre uma reta partida desses pontos, às vezes ela se expressa em completo caos, zigue-zague e desentendimento geral em relação a um sistema que talvez afunde este país. Ou estaria eu apenas tendo um choque cultural? Um argumento poderia ser feito de que não, que aquelas primeiras aulas de geometria que eu tivera na vida realmente estão subindo a minha cabeça e entrando em confronto com a realidade. No mais, tirando a falta do completo entendimento do que é uma linha reta, a Rússia consegue ter sucesso em vários outros campos: por algum motivo eles lançaram satélites e transportaram humanos ao espaço antes de qualquer outro país, mas fazer uma linha reta tem se mostrado um desafio de proporção nacional.

Depois de ter minha carteira roubada e ter de aguentar a atitude de um louco que no meu país provavelmente seria lixado pela respectiva atitude, pretendo recuperar minha fé na humanidade em uma cidadezinha em um ponto x da Escandinávia onde vive minha irmã, e para onde está chegando minha mãe e meu irmão.

Se me perguntarem em qualquer ponto da minha vida uma coisa sobre a Escandinávia eu posso dizer: aparentemente lá as pessoas entendem o conceito de uma linha reta. Eu poderia dizer e ir além que isso afeta diretamente no desenvolvimento de um país, mas eu não me sentiria bem chegando a essa conclusão sem um estudo sociológico próprio.

Então eu simplesmente apresento os fatos e deixo ao leitor mesmo tirar suas conclusões (o que também é conhecido como golpe baixo).

Bem, depois de perder minha última parcela de fé na humanidade nós fomos ao Tsum (um shopping de meninas de alte classe em Moscou) e nos deparamos com uns manequins interessantes em uma loja qualquer. Agora, isso não tem absolutamente nenhuma ligação com o que foi discutido acima, mas o que é exótico e não faz sentido ALGUM deve sempre ser dividido, porque o absurdo é extremamente interessante em qualquer contexto, certo?

Em um tempo breve eu estarei escrevendo sobre um final de semana aleatório com minha família na Escandinávia e sobre poemas russos sobre a segunda guerra mundial e uma brasileiros os recitando para russos (e o fato de que um departamento inteiro de língua russa da faculdade além de me presentear constantemente com chocolates usa constantemente o termo "esperança da nossa universidade na etapa nacional da olimpíada de russo). E eu creio que o chocolate seja apenas parte do plano interessante para aliviar o pânico de toda a responsabilidade que isso venha a trazer. Mas é só uma hipótese.

E eu os deixo com os manequins.

Pontuo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Três detetives e nenhuma solução para a vida

A Tv da cozinha está ligada e eu não sei exatamente com que propósito. Há poucas coisas piores que tv brasileira, e é a russa. Absolutamente nada é legendado, tudo é dublado com um monotom que segue por suas duas horas de filme. Às vezes é só um homem dublando todos mudando a entonação da voz (sim, isso existe). Então eu não sei por que exatamente eu preciso dessa Tv ligada, mas talvez seja pela graça da companhia. São 9 da noite de um feriado que eu não entendo completamente o significado, hoje não tive aula e acordei cedo para estudar. Próxima semana tenho deus sabe lá quantas provas, tudo que eu sei é que minha agenda está cheia de anotações como uma pessoa louca. Nunca fui uma pessoa de reclamar infinitamente e me enterrar nessa conformidade de cara feia, o problema é que eu sei que sou perfeitamente capaz de encarar isso tudo, mas com esse inverno que vem batendo a minha porta o level de dificuldade sobe, a vontade de viver cái.

Meus dias não têm sido tão ruins. Na verdade quando a semana começa ruim, ela acaba me surpreendendo pelo final. Semana passada roubaram minha carteira e eu fiquei sem cartão de crédito, documento e passei um longo sábado na delegacia do campus vendo over and over os caras saindo do provador do prédio de esporte nas filmagens de segurança não só com a minha carteira, mas das outras meninas também. Quando eu cheguei ao provador todas elas já estavam gritando e eu vi que não havia sentido em me desesperar... Elas não quiseram ir a polícia então eu fui só. Mas depois que eu cheguei lá e começamos as burocracias eu me perguntei pra quê diabos? Acabei saindo em um carro de polícia com três detetives de volta ao "local do crime", onde basicamente falávamos sobre a política na Rùssia e não sobre o crime (eu apimentaria a conversa dizendo que uma e outra não estão muito separadas...). Voltei pra casa e já estava escuro (os dias se encurtam ridiculamente) e lembrei que no hospital tem gente morrendo por muito mais coisa que a falta de uma carteira. Me acalmei e aceitei a tragédia. Lá pelo final da outra semana os dias ficaram melhores. Passei para a segunda fase da olimpíada de russo para estrangeiros e cheguei em uma sala muito hospitaleira: era uma mesa de conferência com bombons, café e chá. Éramos seis e duas professoras fazendo perguntas sobre os artigos que haviamos escrito para a primeira fase. Meu artigo era sobre como a anatomia da medicina estava longe de ser só sobre músculos e ossos, sobre a profissão que nunca se torna médico, somos sempre estudantes, tentei achar o conceito de conhecimento, botei a alma que não está nos livros de anatomia nem fisiologia, delirei em Platão e deu certo, elas gostaram, agora ali estava eu. A verdade é que eu resolvi participar sem saber exatamente aonde isso ia dar, mas depois de uma semana de cão, às vezes não se negam elogios, bombons e cafés. Começamos às 5pm e saí de lá às 8pm. Ganhei um perfume da Armani e algumas palavras entre "representar a nossa universidade na olimpíada nacional". Liguei para uma amiga no Brasil e nós falamos por quatro horas. Samantha sempre foi parte integrante da minha vida e eu nunca vou conseguir me desfazer dela nem que eu ampute uma perna, eu tenho orgulho disso, nós funcionamos, nós nunca brigamos, nem uma vez para contar história, e agora eu sentava na cozinha só e era como se ela estivesse na cadeira ao lado, minha gato saltava de um lado para outro e nós falávamos das desgraças e graças da vida, das duas coisas com um tom de humor - quando não estamos só é muito fácil de aguentar seja lá o que for, a maior desgraça vira um episódio comico-trágico. Algumas coisas nunca mudam, existem amizades mais sólidas que o tempo... Acabei a semana pensando que não é o tempo que se move, somos nós, não se mover, seguir reclamando é parar de evoluir. Quem quer estagnar? E que no meio do dia achei uma joaninha vermelha na janela e isso me alegrou um tanto, de noite saí com uns amigos para o nosso restaurante favorito do campus, encontrei pessoas mais queridas ainda, apesar da música ruim, elas eram melhores que aquilo, acabei a noite falando sobre restaurações de obras de Michelangelo e discutindo sobre expressionismo e arte moderna com pessoas da ex-Iugoslávia...... Não, a vida não estava tão ruim, afinal.

E quanto tudo resolver voltar ao seu lugar, eu não reclamo, mas por enquanto, vou vivendo a bagunça que tenho na mão, café na outra.

E ontem falava a um amigo, tentando citar Saramago, que "dando-se tempo ao tempo... esqueci", dois segundos depois relembrei "dando-se tempo ao tempo, todas as coisas do universo voltam ao seu lugar", e eu devo concordar com ele que a primeira versão saiu com muito mais poesia que a original... Que dando-se tempo ao tempo e já esqueci.

Deixa o inverno vir, deixa eu empalidecer, deixa que eu amo essa cidade imprevisível do jeito que ela quiser se apresentar, deixa eu sentir a falta do vento do Ceará exatamente às 5.20 da tarde, deixa tudo isso passar através de mim... E essa é a solução que o detetive nunca vai me dar, a consciência de que o Ceará está comigo, faça -30, faça +30. Deixa vir, deixa, deixa.

Pontuo.