sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Três detetives e nenhuma solução para a vida

A Tv da cozinha está ligada e eu não sei exatamente com que propósito. Há poucas coisas piores que tv brasileira, e é a russa. Absolutamente nada é legendado, tudo é dublado com um monotom que segue por suas duas horas de filme. Às vezes é só um homem dublando todos mudando a entonação da voz (sim, isso existe). Então eu não sei por que exatamente eu preciso dessa Tv ligada, mas talvez seja pela graça da companhia. São 9 da noite de um feriado que eu não entendo completamente o significado, hoje não tive aula e acordei cedo para estudar. Próxima semana tenho deus sabe lá quantas provas, tudo que eu sei é que minha agenda está cheia de anotações como uma pessoa louca. Nunca fui uma pessoa de reclamar infinitamente e me enterrar nessa conformidade de cara feia, o problema é que eu sei que sou perfeitamente capaz de encarar isso tudo, mas com esse inverno que vem batendo a minha porta o level de dificuldade sobe, a vontade de viver cái.

Meus dias não têm sido tão ruins. Na verdade quando a semana começa ruim, ela acaba me surpreendendo pelo final. Semana passada roubaram minha carteira e eu fiquei sem cartão de crédito, documento e passei um longo sábado na delegacia do campus vendo over and over os caras saindo do provador do prédio de esporte nas filmagens de segurança não só com a minha carteira, mas das outras meninas também. Quando eu cheguei ao provador todas elas já estavam gritando e eu vi que não havia sentido em me desesperar... Elas não quiseram ir a polícia então eu fui só. Mas depois que eu cheguei lá e começamos as burocracias eu me perguntei pra quê diabos? Acabei saindo em um carro de polícia com três detetives de volta ao "local do crime", onde basicamente falávamos sobre a política na Rùssia e não sobre o crime (eu apimentaria a conversa dizendo que uma e outra não estão muito separadas...). Voltei pra casa e já estava escuro (os dias se encurtam ridiculamente) e lembrei que no hospital tem gente morrendo por muito mais coisa que a falta de uma carteira. Me acalmei e aceitei a tragédia. Lá pelo final da outra semana os dias ficaram melhores. Passei para a segunda fase da olimpíada de russo para estrangeiros e cheguei em uma sala muito hospitaleira: era uma mesa de conferência com bombons, café e chá. Éramos seis e duas professoras fazendo perguntas sobre os artigos que haviamos escrito para a primeira fase. Meu artigo era sobre como a anatomia da medicina estava longe de ser só sobre músculos e ossos, sobre a profissão que nunca se torna médico, somos sempre estudantes, tentei achar o conceito de conhecimento, botei a alma que não está nos livros de anatomia nem fisiologia, delirei em Platão e deu certo, elas gostaram, agora ali estava eu. A verdade é que eu resolvi participar sem saber exatamente aonde isso ia dar, mas depois de uma semana de cão, às vezes não se negam elogios, bombons e cafés. Começamos às 5pm e saí de lá às 8pm. Ganhei um perfume da Armani e algumas palavras entre "representar a nossa universidade na olimpíada nacional". Liguei para uma amiga no Brasil e nós falamos por quatro horas. Samantha sempre foi parte integrante da minha vida e eu nunca vou conseguir me desfazer dela nem que eu ampute uma perna, eu tenho orgulho disso, nós funcionamos, nós nunca brigamos, nem uma vez para contar história, e agora eu sentava na cozinha só e era como se ela estivesse na cadeira ao lado, minha gato saltava de um lado para outro e nós falávamos das desgraças e graças da vida, das duas coisas com um tom de humor - quando não estamos só é muito fácil de aguentar seja lá o que for, a maior desgraça vira um episódio comico-trágico. Algumas coisas nunca mudam, existem amizades mais sólidas que o tempo... Acabei a semana pensando que não é o tempo que se move, somos nós, não se mover, seguir reclamando é parar de evoluir. Quem quer estagnar? E que no meio do dia achei uma joaninha vermelha na janela e isso me alegrou um tanto, de noite saí com uns amigos para o nosso restaurante favorito do campus, encontrei pessoas mais queridas ainda, apesar da música ruim, elas eram melhores que aquilo, acabei a noite falando sobre restaurações de obras de Michelangelo e discutindo sobre expressionismo e arte moderna com pessoas da ex-Iugoslávia...... Não, a vida não estava tão ruim, afinal.

E quanto tudo resolver voltar ao seu lugar, eu não reclamo, mas por enquanto, vou vivendo a bagunça que tenho na mão, café na outra.

E ontem falava a um amigo, tentando citar Saramago, que "dando-se tempo ao tempo... esqueci", dois segundos depois relembrei "dando-se tempo ao tempo, todas as coisas do universo voltam ao seu lugar", e eu devo concordar com ele que a primeira versão saiu com muito mais poesia que a original... Que dando-se tempo ao tempo e já esqueci.

Deixa o inverno vir, deixa eu empalidecer, deixa que eu amo essa cidade imprevisível do jeito que ela quiser se apresentar, deixa eu sentir a falta do vento do Ceará exatamente às 5.20 da tarde, deixa tudo isso passar através de mim... E essa é a solução que o detetive nunca vai me dar, a consciência de que o Ceará está comigo, faça -30, faça +30. Deixa vir, deixa, deixa.

Pontuo.



5 comentários:

Yellow Jacket disse...

I used google translate to read this ))

Now you should be able to add my site ;-)

Samantha V. disse...

Amei o texto! Devo dizer que nossa conversa foi épica! Minto. Nossa amizade É épica! Deu pra afrouxar um pouquinho esse aperto no coração de saudade.

Julia disse...

Fiquei em dúvida se tudo escrito era verdade ou não.Gosto dessa dúvida. A propósito, seus textos continuam muito bons, eu mergulho neles de tal forma que é difícil sair.
Beijos, boa semana.

M. Bruno disse...

Olá,
dá uma olhadinha no meu blogger .
Espero que goste do conteúdo .
http://teecoperfect.blogspot.com/

jaw crusher disse...

Amei o texto! Devo dizer que nossa conversa foi épica! Minto. Nossa amizade É épica! Deu pra afrouxar um pouquinho esse aperto no coração de saudade.