domingo, 26 de abril de 2009

Última vez

[Girassol que ganhei de aniversário da Catarina]


Fazer as coisas pela última vez cria uma responsabilidade de que elas têm que acontecer do melhor jeito que elas possam acontecer... E agora, mais que nunca, eu faço, aqui, as coisas pela última vez e me preparo pra realizar tudo novo em um lugar completamente novo... Ou seja, é quase como querer escrever um epitáfio de memórias boas e motivações pra saudades, sem morrer, exatamente. 



Não planejei nenhuma festa de aniversário, porque vou fazer despedida, e aí sim vou conseguir reunir todos. Vai ser em Julho.

Mas é isso. Tá acabando. 

- And what do we do now?
- Enjoy it.

Talvez "acabando" não seja  a palavra, "tornando mais real" seria o mais certo... Principalmente quando os casacos começam a ganhar espaço no meu guarda-roupa, junto com cachecóis (não sei nem escrever a palavra, nunca a usei ahahhah), botas, meias, moletons e blusas compridas. e também os abraços não são mais tão longos como deveriam ser, ou precisam ser...

Aconteceu uma coisa engraçada, que eu tenho essa borracha que eu comprei em Windsor na Inglaterra em 2006, e ela é uma libra, retagunlar e tudo, e eu sempre dizia pra mim mesma que eu ia usar ela até o fim da faculdade, era uma coisa infantil de se dizer, porque olhando de onde eu estou agora pra aquele momento, eu nunca imaginei que eu faria medicina e tão longe de casa. De qualquer forma, a borracha não chegou nem na metade ainda, com três anos de uso, e eu fiquei me perguntando se ela estava pront pra durar seis anos de medical school. Foi ai que ela se livrou da responsabilidade de durar mais seis anos, porque o Levi me deu uma borracha maior ainda que a borracha da libra de Windsor, escrita "FOR BIG MISTAKES", e eu achei muito simbólico nesse contexto todo. 

Três meses.

Ver a realidade assim, tomando forma, e eu indo em direção a ela é a coisa mais doida...

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Cega por opção

[entrada do meu diário devidamente censurada quanto a portinholas da minha mente que são inacessíveis a todo mundo]

Hoje eu sentei com o José Saramago, uma maça cortada em um potinho e comecei a comer os pedaços de maçã ao passo que as páginas iam ficando para trás, também. Não que José Saramago tenha gosto de maçã, mas é engraçado ver como a maçã ganha outro sabor quando se lê junto. É a imersão que o livro causa dando tempero às coisas. Enfim. Há alguns meses, desde o Érico Veríssimo cair na minha estante que eu não dizia Enfim ao achar um autor decente, e eu disse Enfim e respirei logo em seguida, como se eu tivesse contido ar esse tempo inteiro. 


Senta um menino do meu lado, um conhecido, de quando eu ainda tinha algum interesse pelo mundo e saía todos os finais de semana, achava que as luzes da noite me eram suficientes, que eu achava que as emoções se encontravam num poço sem fim, que eu as teria sempre renovadas pra sempre, até tudo me cair na mesmice e eu, como sempe, me obrigar a ir além, além do que eu era. Não consigo ser nada senão mutável, é verdade. Então ele diz oi e pergunta por que eu estou só. Pensei em responder por opção, o que era muito verdade, ou curtindo a solidão, mergulhando num momento epifânico que você acaba de estragar. Mas eu estou nesse processo de não ser tão apática mais, não que esteja funcionando, as minhas expressões faciais não escondem nada, mas não é que eu ache ruim, é que as pessoas não entendem que não é apatia, é só que elas na maioria das vezes são previsíveis demais. Preguiça de socializar, respondi, finalmente. Ele falou sobre como ele não sabia o que queria da vida, e eu pensei em como pessoas sem direção me dão pena, e consenti que eu sou mesmo muito ácida. É preciso ter um foco, e fui empurrando a conversa com a barriga, fiz até um gesto com as mãos. Então depois de muita small talk, ele pergunta qual o problema em socializar, e eu pensei em responder sobre a previsibilidade que o processo da amizade banal se tornou, ou como eu sei como todo mundo está representando o papel e é um filme ruim. Não lembro o que eu respondi, mas acho que deixei a acidez vazar e ele disse que eu era estranha. Talvez eu não siga o padrão, retruquei. E me gastam o tempo e me atrapalham a leitura e esperam simpatia? Não. Eu sei que a minha praticidade pode ter se mutado (?) para essa acidez, mas eu gosto muito do que eu me tornei, passei a manhã pondo as coisas na balança, comendo fibras e Mucilon. Perguntei por onde andavam as pessoas que já estiveram na minha vida e longe foi o que eu consegui obter, de que adianta, já fizeram o que tinham de fazer por aqui, ou devastam ou plantam girassóis, simples

Quis continuar a ler o livro, mas quando eu entro nessas reflexões é difícil me tirar do meu egoísmo e a minha mania de ser introspectiva e hermética.

Cheguei em casa, a imagem do cavalo do quadro que fez cegar um dos cegos da camarata da mulher do médico apareceu na minha cabeça: narinas mais alargadas, olhos com algo de humano (só por que me transmitiam alguma expressão facial, não acredito em expressões faciais de cavalo, só que cachorros sorriem), a pelagem marrom, um desespero, que eu não sei descrever, encontro-me muito pobre das palavras quando cito mentalmente grandes escritores, vejo que tenho que andar muito ainda e não tenho pressa. Então eu fechei os olhos e vi tudo preto, a não ser por uma coisa rosa que ficava rodando, lembrei que a cortina não estava fechada e chateada tornei a olhos semi-cerrados realizar a labuta de fechar a desgraçada, que aquela vista não me apetecia mais o apetite, mas me enjoava, como um sorriso antes brilhoso e branco, daqueles da tevê, torna-se amarelado. Abri os olhos de um jeito certo, não tinha outra, não tinha nada de novo, sequer a música do vento era um tantinho diferente. Fechei a cortina e tornei a fechar os olhos: antes ser cega por opção, que a lucidez pouco me basta, aqui dentro de mim tenho cavalos desesperados correndo por campos de girassóis e isso me apetece bastante, o mundo se torna tão chato quando se descobre que há um tão mais interessante dentro de mim, ah, quanto egoísmo, e disso eu não me largo, do meu egoísmo eu me entendo.

Continuei a cegueira, priorizando os outros sentidos e dormi a tarde inteira.

Em terra de cegos quem tem olho é rei, e dentro de mim (essa bagunça de fobias), como éramos só eu, o cavalo, os girassóis e a cadeira sexagenária da minha mente, proclamei a monarquia com um tintilar de elegância. Talvez esteja ficando louca, louca e cega, mas bem que o sofá da loucura é muito macio e aconchegante, difícil de se despedir...

Puxei a cortina de volta.

"A cidada ainda estava ali"...

Vi a chuva cair e me despedi de cada gota, sabia que nunca mais as reecontraria, que eu só as veria por aquele momento, nunca mais as vou ver, repeti, então sim, estou ficando cega, e quanto a loucura, vai se sobrevivendo, vai se sobrevivendo...

É muito conveniente ser cega em uma terra de reis (muita ironia para a última palavra).

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Fluoxetina

O mundo inteiro é bombeado por fluoxetina. Ora, palavra, pelo menos se vive, pelo menos se vive! Quando eles isolaram felicidade dentro de um comprimido não há porque não tomar, a essência de toda a ideologia ocidental não é a busca da felicidade? Então quando eles isolam a felicidade em um comprimido é o caminho mais fácil. Só que fica a pergunta: o que fazer com a felicidade? Acho que ninguém faz realmente planos para depois por julgar uma coisa tão longinqua. A minha proposta é que ao invés do inútil fluor, ponham fluoxetina na água. As cores vão ficar mais vivas e a audiência do Faustão vai cair.

Digo: mundo melhor, sem demagogia, só com fluoxetina.


terça-feira, 7 de abril de 2009

A liberdade pela glicemia

18/07/2007: 102
20/11/2007: 97
24/01/2008: 91
...
20/01/2009: 88
04/03/2009: 77

Valores normais: 70 a 99


Em plena Páscoa: a liberdade pela glicemia.


...it's one way to catch the sun

domingo, 5 de abril de 2009

Estado de espírito com precisão de casas decimais

Era o meu primeiro dia de inverno. Era o meu primeiro dia de Costa Leste. Era tudo novo e eu ia absorvendo as emoções e moldando um estado de espírito que deveria resistir ao frio, às nebrascas e observando atentamente os flocos de neve geométricos, a perfeição da natureza e tentando, nem que sob ordem judicial, me convencer de que, por que não, eu fazia parte daquela harmonia.

E tinha essa tampa canadense. E todas as crianças queriam saber quem eu era. Eu sou brasileira, oi, tudo bem, é meu primeiro dia na Fountain Woods. E tinha essa tampa canadense no chão, que insistia em aparecer debaixo de tanta neve e eu ignorei a nebrasca e tudo que existia de vivo e ficamos eu e ela, envolvidas em um desses momentos da infância que as emoções constituem as memórias e não as imagens. Guardei-a no bolso e peguei o ônibus da escola. O motorista queria saber sobre mim, entre mil papéis colados pelo ônibus com 330 "THINGS YOU CAN'T DO IN THE SCHOOL BUS: NO YELLING, NO... NO... NO...", existia a pessoa simpática. Por que ele se escondia? E ele tinha esse bigode e esse cabelo branco, usava sempre roupas velhas e eu não consiga me livrar da expressão do rosto dele.

A professora se impressionava porque a tabuada era algo que saía na urina pra mim. Era tudo tragável e o almoço estava ótimo, eu amava a perfeição social em que eu vivia, minha escola era pública, meu almoço era dado pelo governo e aquele lugar me fazia não querer ir pra casa. Eu tinha centenas de cursos para escolher fazer: chaveiros, costurar, hockey, futebol, música, grupo de leitura. I was fuckin dazzled.

Tinha o Hupert, o chinês e nós nos dávamos muito bem. O primeiro foi só a introdução do segundo e assim se seguiu, um superando o outro. Os dias.

Eu tinha aprendido que o capitalismo era a melhor coisa do mundo. E era. Em que outro lugar do mundo eles venderiam tudo por 99 cents?

Eu rodava por Cherry Hill, Riverside, Philadelphia, Trenton...

E eu era parte daquela geometria toda.

Eu não sei o que eu quero dizer, talvez eu esteja aqui desde a primeira linha tentando descrever o sentimetno que me envolvia quando eu vivia no melhor lugar do mundo e não sabia, mas eu sei que eu vou falhar e que ninguém vai entender. As emoções que remontam as lembranças são só minhas e infelizmente eu não sei convertê-las de neurônios para bits e jogar tudo aqui.

E gastei meu tempo tentando falar do indescritível.

De novo.

E meus dedos têm essa sensação nova quando eu largo o violino depois de tocar. Isso eu também não sei descrever, deve ser a música se fundindo, e Beethoven sabe como fazer isso acontecer.

Ontem... eu dormi sorrindo.

Foi um sorriso de adeus. De satisfação, de quem carimba uma fase da vida pela última vez. Então a Dolly começou a arranhar a porta e eu, comecei a rir da simplicidade que a vida tem quando se faz um esforço.

Quanta besteira pra se falar.

Pior que tem gente que lê e acha algum sentido. É, é, o sentido deve estar por aí.

ABRIL é o meu mês favorito.

E lá vou eu dar carona pros meus devaneios de novo.