segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A maré cearense

Aos avós que apesar de não serem cearenses, são casa; e à beira da praia e o vento das cinco da tarde.

Pensei em dizer
que
virei turista do lugar
que me ensinou
a odiar petista
Mas rimava muito
e aí joguei fora
Mas pela tristeza da distância
e as anti-medidas da saudade do outro lado do Atlântico
dos amigos e dos sorrisos
do cachorro
da família que é da terra de ouro
Continuei
por teimosia
pra bulinar

Que já não sei vagar pelas ruas
que não conheço os bares
ou os hábitos
as modas
longe, desconheço a política
Fortaleza abstrata
tré-abstrata perante tamanha miopia
e tanta distância

Mentira
saudade não mata
Verdade é que
dá fome de ter
o que foi e deixou uma marca de sorriso em algum ventrículo ou átrio
do coração
com a participação
de um sorriso de canto
de quem lembra
e ama outra vez...
Saudade é correr por um abraço
qualquer distância
sem sair
do lugar

Saudade é a
insistência
de amar

E aí lembrei que
virei turista
do lugar que me deu maré
para navegar até aqui.

O marfim do meu amor


A ti

Se eu resolver
vender o meu
amor
por ti
nesse antiquário
pela Arbat¹
vão ter que fazer
um bom negócio
porque isso é feito de
marfim
rubi
diamante
pedra famosa
pedra cara
tudo que brilha
tudo que fascina
tudo que tira o fôlego
e me leva junto
e o elefante desse marfim
foi Salomão*
e mais poesia que isso
falta em qualquer outro
negócio
amor
pedra
coisa
tudo
Mas eu não vendo
não
Eu vou é
te levar no bolso
até onde eu queira.

¹ uma rua famosa turístia de pedestres em Moscou

* O elefante, Saramago

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Meu negócio é com o pão.



Publicação dedicada a um amigo que não vem falar comigo uma vez ao ano para pedir favores. Esse texto começou em uma sexta-feira, descansou uma semana inteira e só pontuou na outra sexta-feira, hoje, que vim aqui com a epifania do ponto final.
Eu já tinha espirrado tanto que todo mundo no escritório não dizia mais “saúde”, teria sido uma péssima idéia vir ao trabalho hoje, pensava, entre um espirro e outro. Mas existe algum dia que ir a um trabalho, especialmente quando ele é sobre várias pessoas do mundo inteiro ligando em uma linha que termina no seu ouvido (inflamado desde a semana passada, obrigada), te ajuda. Todo dia que eu saio do trabalho eu penso: uau, minha vida não é tão tosca como de todas as pessoas que ligaram ou escreveram hoje.
Aqui está o que o Iv me enviou, no meio da insignificância de mais um dia de previsível labuta:
Me ajude entao, por favor.
Sou aqueles amigos que mal falam com voce e vem pedir favor.
Andei lendo uma materia sobre James Gates, um "theoretical physicist" da Universidade de Maryland, que trabalha com a "String and Particle Theory" disse que em certas equacoes super simetricas, que (em teoria) descrevem a natureza fundamental do universo e como ele trabalha, foram encontrados codigos de programacao de computadores. Estes 1's e 0's sao os mesmos encontrados em navegadores de internet.


Agora vem a minha parte. E se antes de voce, o universo nao existia. Nada disto existia. Em uma realidade paralela a esta, em um universo paralelo, alguem conecta voce a este simulador e pronto, voce esta nascendo na terra. Suas emocoes, verdades, e tudo que representa o universo nao passa de uma simulacao. Como Timothy Leary disse "a verdade esta nos olhos de quem ve". Pois se pararmos para pensar, a unica certeza que eu posso ter eh de que eu sou racional. Pois vivemos hoje em um universo onde computadores se auto-programam. E se nos, neste simulador, estamos criando coisas novas. O video game, por exemplo, seria uma simulacao dentro de outra simulacao. Tipo o filme Inception.

Eu ainda nao terminei o pensamento, mas ainda estou buscando uma forma de coloca-lo em palavras.
Imagine voce, sentado ai na cadeira, tem uma parada cardiaca e morre. E em outro universo, voce tira o capacete e diz: - Caralho! Essa jogo "Planeta Terra" foi foda.

Há muito tempo atrás na escola eu era uma pessoa com todos os seus pés atrás e sem muito interesse na gente e mais interesse nos livros. Nessa época eu comecei a ler livros darwinistas, fisico-quanticos, enfim, tudo o que que tivesse a boa vontade de querer explicar a grande pergunta “por que”. O que eu não sabia nesse tempo era que não era a resposta que eu deveria buscar, e sim a pergunta, vou explicar o porquê.
Entre Richard Dawkins e Stephen King, eu me apeguei mais uma obra de ficção que tem dia marcado no meu calendário todo ano: O Guia do Mochileiro das Galáxias (checar Dia da Toalha).  O livro usava o humor e muito fundamento científico para ridicularizar o nível de complexidade e hierarquiedade na nossa sociedade, um sistema tão complexo criado por nos mesmos quando não conseguiamos responder perguntas tão simples como quais são todas as funções de uma toalha ou por que o mundo ou por que um homem de duas cabeças e duas opiniões governava o universo (deu pra entender a analogia com a vida real?).
Douglas Adams, o autor, nunca parou. Ele fez graça da natureza humana enquanto tentava nos explicar que existia um plano para tudo isso que ninguém se interessava em entender. Foi quando um cara com um roupão se encontrou na obrigação de fazê-lo.
A série de livros revela logo no começo: a resposta  é 42. O caro leitor lê todos os livros do DNA (aka Douglas Adams) se perguntando não qual é a resposta, mas qual é a pergunta? Bem, um computador havia sido programado para dar a resposta e ele deu, quarenta e dois. Quando o mesmo computador estava prestes a revelar a pergunta para a resposta o mundo acabou.
O livro viaja, dá importancia aos golfinhos, aos ratos de laboratório, mas deixa uma pergunta no ar a qual todos que lêem se sentem vulneráveis: e se nós somos o experimento, e não os ratos? Por que pensar que nós somos os seres mais inteligentes e racionais se não damos o luxo nem de tentar julgar outras indecifráveis espécies de inteligência, que pulam bem na nossa frente o tempo inteiro?
Os livros do DNA são mais cheios de pergunta que respostas, mas os grandes livros são assim, eles não acabam no ponto final, eles latejam na sua cabeça por meses (anos!).  Os que não têm nenhuma influência acabam aí no ponto final mesmo (aquele livrinho de ficção que você comprou no aeroporto pro vôo... voar).
E olhe, eu não sou cheia de megalomania, eu sei que o ser humano é totalmente insignificante. Mas o que somos nós, por que nós?
Eu desci o nível da conversa, literalmente. Desci o nível molecular. Volto a uma idéia que me ocorreu há algum tempo.
No nível celular da vida, as coisas não são tão diferentes como a vida real. O sistema imunológico é composto por vários tipos de células, tais quais como macrófagos, neutrófilos, basófilos, eosinófilos. Eu sempre vi cada uma dessa celular no processo de realização da resposta imunológico como diferentes tipos de médicos. Um mundo em um mundo em outro mundo. Por exemplo, todos essas queridas células estão em campo de guerra no meu ouvido interno nesse momento, até que os invasores saiam daqui pra fora.
Também tem o caso dos advogados “celulares”, os juízes, os que guardam a lei. Para uma célula se multiplicar, ela precisa multiplar o seu material genética, que é o DNA, o ácido desoxiribonucléico.
O processo de replicação (duplicação, em outras palavras) é coordenadora por uma série de diferentes fermentos que verificaram e reverificaram o que está sendo copiado. Um erro é passado adiante e é copiado e o problema vira exponencial. Estamos mutando o tempo inteiro, um gene chamado p53 é responsável pela apoptose (morte programada da célula) da célula mal replicada, só que ás vezes essa célula errônea continua aí e acontece o que nós conhecemos por câncer – uma bagunça no processo judicial celular.
Os hepatócitos, as células do fígado, funcionam como uma rede de tratamento de água (nesse caso, o sangue). O que é de gordura, colorante ou conservante passa por aí e deve ser eliminado por aí. Quando os nossos químicos, os hepatócitos, falham, as toxinas se acumulam e a a “água” deixa de ser potável.
Eu poderia passar o dia inteiro aqui falando de histologia e sobre cada célula, de como esse mundo funciona.
Vamos ao ponto.
Ser humano é ser megalomaniaco, dar tanto importancia a capitulos de um mundo que nem é importante, estamos tão absortos na idéia que o Planeta Terra é tão incrível e somos tão importantes no universo que vamos seguir nesse mesmo pensamento até que tudo exploda de novo.
Vai ser o Dia.
Uma trívia interessante: o número de suicidas do curso de Física da Faculdade Estadual de Moscou é um número que não se deve ignorar. O que eu quero dizer é, aqueles que realmente levam isso de entender a vida, o universo e tudo mais a sério e como profissão, que acham que há mais lá fora e deixam a megalomania para o cidadão pacato, são boa parte dos que se suicidam na MGU (Universidade Estatual de Moscou).
Além disso, quem aí não viu Fringe e pensou: e se o outro lado é só alguém jogando o mesmo jogo (como o Iv mencionou no final), mas o jogando com habilidades e em um ritmo diferente, com resultados evidentemente distintos? Tipo a fita do pokemon, e o seu amigo conseguiu o Psyduck e você teve que se contentar com o Bulbasauro (a.k.a. frustração).
Sabe quando a sua avó dizia que não via novela porque a vida dela já era uma novela. Troca a palavra novela por videogame. O conhecimento popular sabe de coisas que até os próprios ditos conhecedores não se dão conta que estão nas entrelinhas de suas próprias palavras. Quero dizer, seja lá o que estiver acontecendo no outro universo do Fringe, o videogame aqui já tá pegando fogo.
Um universo já é suficiente para as sinapses que temos em nossa disposição.
E juntando os dois pensamentos fica mais ou menos assim: então existe sim o universo paralelo, e daí em qualquer um dos universos paralelos existe micromundos dentro de micromundos.
Um universo dentro do outro (o exemplo do mundo celular) se repetindo um tanto quanto tediosamente. As profissão são as mesmas, os nomes são outros.
E é exatamente aqui que eu quis pontuar o texto, mas foi no ônibus que me ocorreu.
Que o mundo é tudo que cabe nele e o que cabe o mudno dentro é uyma reviravolta de palavras, se repetindo que o mundo dentro do mundo do grande mundo cabe nesse mundo – é a matrioshka, é o espaço e o tempo relativo (um minuto para a gente é uma vida inteira para muitas células).
Se quisermos viver em paz há de ser megalomaniaco mesmo e pensar que não há nada maior que este mundo. Que essa é a matrioshka de fora, e que somos parte integral do sistema.
Se quisermos que o mundo faça sentindo teremos que nos limitar com essa idéia, viver em paz com esse conceito, esquecer o que está fora e que estamos dentro de outro universo, mundo. O jeito, parece, é voltar ao pensamento arcaíco, adquirir uma visão periférica de cavalo (ou seja, nenhuma), de que o mundo é plano e que isso é tudo – apesar das estrelas nos contarem outra história, que aí vejamos só a beleza e que engulamos que o universo é finito e que aquilo tudo é um painel, deixa o além pra mais tarde. Quem entra em paz com essa idéia de mundo encontra a paz. E a paz provavelmente é o que busco mais – e na busca da mesma, há que praticá-la, quase como tirá-la do ar antes de realmente encontrar-la, e dá-le forma e passar a vê-la em sua verdadeira forma: que paz é controlar os nossos pensamentos. Pular a música quando necessário.
O mundo pode ser paz – é só esquecer do infinito e viver a nossa mediocre existência em paz.
E não é a toa, afinal, que eu tatuei a palavra paz e mundo (que em  russo é só uma palavra). Acho que o incrível de tatuar uma palavra é que a cada dia ela se muta e toma um significado diferente.
Daí agora eu realmente achei que ia pontuar esse texto, quando eu ouvi um senhor no ônibus falando:
“Что может быть дороже члеба во время таких потрясений? Мы были в первом классе и кусок хлеба, если его было, было всё что мы могли видеть, вокруг не было важно что шла война. У нас были дела только до хлеба
“O que pode ser mais caro que pão em épocas de tantos conflitos? Nós estámos na primeira série e um pedaço de pão, se o tivéssemos, era tudo que podíamos ver, ao nosso redor não importava que havia uma guerra mundial. O nosso negócio era só com o pão. “
E infelizmente é isso: para quem quer entender a guerra (o universo), boa sorte, eu fico feliz com o pão (a ignorância, a visão periférica de cavalo). Meu negócio é com o pão.
Pontuo.  

terça-feira, 15 de maio de 2012

Carta ao caro leitor que espera o ônibus



Caro leitor,

Eu não fui a lugar nenhum. Nem sequer me mudei. Nenhum furacão desde Novembro do ano passado. O que aconteceu se explica com muito latim e muita insônia (chama-se: plantões, tardes revirando cadáveres em um laboratório, cansar os olhos com microscópios).

E você que se interessa sem ao menos me conhecer, que é mesmo assim tão apaixonado por uma bonita ordem de palavras? Admiro. E admiro sem ironia a gente que tem o tempo e a paixão e o tempo para ter a paixão, obviamente não são médicos.

Eu admiro quem ama a palavra.

Sigo em anos de busca, e totalmente suspeita, repito: quem é que vai superar esse português? Todo enfeitado com acentos que desde a pouca idade sempre vi como "jóias", deveriam imaginar que bonito foi entender e saber escrever as palavras "avô" e "avó". Cada um com uma jóia diferente. Um enfeite.

Aliás, o cidadão-leitor deveria imaginar a minha caminhada ofendida do passo forte na rua Novaya Arbatskaya, em direção ao metrô, depois de um encontro indesejável em uma livraria. O cidadão-leitor não imagina como se contorcem os intestinos (e até o a''pêndice que me tiraram!) ao ver uma obra de Saramago traduzida para o russo. Para que diabos? Eu me perguntava, e parei aí mesmo, Saramago seria o primeiro a fazer críticas com referências religiosas, mas ele que me perdoe, deve ser a infãncia em um colégio católico (e o todo o ateísmo que aí aprendi).

O que fazer, cidadão-leitor, e agora me direciono mais diretamente: o que fazer, cidadão-leitor-também-expatriado, quando milhões ao seu redor não têm a mínima idéia de como flue essa língua? Sentir pena por estes que nunca a vão escutar, ou que a escutem, está bem, mas nunca a vão entender?

As navegações acabaram.

Mas eu sigo insistidamente percorrendo o mundo com meu português, de avião é verdade, com menos vento, mas não sem menos poesia (dos olhos doídos de ler livros em tela de computador pela falta dos de papel a venda em um país que sequer adota o seu alfabeto).

E é isso que eu diria ao leitor-anônimo, assim que meio que enquanto se espera o ônibus, inesperadamente, exatamente naquele momento que você não espera mais nada da vida senão um ônibus e ela te surpreende com uma charla boa, com a análise da densidade das palavras.

E o ônibus, finalmente.

Pontuo.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Os obstáculos que certas formações anatômicas podem ser para impedir que se chegue a uma aposentadoria decente em um trailer e tudo ligado a isso.


Poema ao meu décimo nono aniversário

Eu quero todo
o impossível
(cruzando a rua fresca de chuva acompanhada da
mochila de dez anos
o zíper quebrado)

Hoje é o climax do dia que
eu tenho tudo
e não preciso de mais nada
por isso invento
necessisdades
só pela busca
mirabolar

Se você me vier oferecer
seus desejos
e as realizações
Vou dizer-lhe que
não há desejos
que me apago as velas assim
em silêncio
há simplesmente fatos
há o reusltado
de anos desejando

Aliás obrigada, mas vá
descansar
eu vou só
com o meu amor
com o meu português
com a coleção de sorrisos
e o timbre do riso
da felicidade
assim que
quase me estourando os
tímpanos
(só é utopia)

Que vá descansar
porque eu
aprendi a
viver
com esse cérebro
E viver afoga
(qualquer tristeza)
Saber viver é saber
conjugar o ato
de ser (feliz)
Eu conjugo em português
eu venho e volto de dezenove
formas verbais
diferentes

Descanse porque eu
quero é
vida
(em presente perfeito conjugado neste
distante litorâneo português vivo)
e o vento na
cara

O diagnóstico é muito simples -
o diagnóstico
é saúde
é saudade
é português não-reformado
é o vento
é a água de côco
é a vontade longe do abraço
é aqui ou na Lua ou em Moscou ou no girassol que roda de estação em estação
que é este orgão cronometrado
para (cistola)
vi- (diastola)
-ver (cistola)
que eu posso dar a volta no mundo
em três segundos
e com essa batida
(cistola)
(diastola)
(cistola)
nunca
pontuar
(o conceito de um ponto é
abstrato na geom...)


Não deixa aí a carne, vai estragar, eu falei para Ele que a ia preparar. Foi o que eu disse ao chegar em casa olhando ao redor, com fome, cansada, outro dia de medicina, outro dia que eu depositara na esperança de salvar alguém em um futuro próximo, retirando-o de mim mesma. O problema sobre viver um dia tão cheio de medicina e chegar em casa é que a medicina não se desliga assim ao entrar a porta. No ônibus eu sigo pensando em hérnias e no plexus pampiniformis. Não se desliga. E aí, ao chegar e ver a carne e a idéia de uma carne apodrecida com vermes me lembrou do experimento de Redi. Francesco Redi, o homem que pensava que acreditava na geração espontânea. Um tolo, mas isso sou eu falando centenas de anos depois, qualquer idéia nova deve ser analisada antes que a história a julgue. Foi por esses dias, um dos dias depois do meu aniversário quando, por regra, tenho anuais crises existenciais que incluem explosões de necessidade de privacidade virtual (não tenho certeza quanto ao termo, mas a minha defesa é meramente descritivo), de guardar os problemas para mim até que tenha as soluções, até que já estejamos rindo disso e de, finalmente, ter momentos líricos por pólen voando pela primavera, ou pela Moscou que finalmente sem neve se vê cheia de trabalhadores repintando muros e o cheiro de tinta sobe lembrando que a primavera finalmente chegou porque a tinta chegou, não estamos falando de flores. Momentos líricos que são desencadeados por absolutamente qualquer coisa. Em realidade, sempre os tive, mas exatamente depois do meu aniversário é mais difícil de me desvencilhar deles e fico presa aí. Agora estava presa na carne e seu potencial para apodrecer. E se a carne, eu me perguntava, for a felicidade, e se a carne, eu seguia, enquanto tirava os meus sapatos na entrada, deva ser preservada, guardada para que não se dê a chance de que aí cresçam vermes, que aí alguém lhe dê fome a vontade de comer-la e ter-la. E se a carne for a felicidade? Isso quer dizer, agora eu caminhava em direção a carne, que a árvore não é a melhor metáfora para a vida e para a felicidade e seus frutos, isso quer dizer que a carne é, e que ela deve ser preservada, guardada de olhos famintos. E resolvi aceitar que esses traços que eu venho tentando me livrar com os anos, depois de quase duas décadas, vão continuar aí, que não é com os anos que isso tudo vai desaparecer, que a carne, não importe em qual época do ano a compremos, será carne, e que essa mania de solidão, de reclusão e livros não me vai deixar, e que se por acaso eu vá ver dessa maneira, não é tão solidão quando estou acompanhada pela própria mania de solidão. Talvez essa mania tenha me levado a conclusões mirabolantes sobre a árvore da vida, a tinta do começo da primavera, aquelas primeiras aulas de Biologia no Brasil no Ensino Médio sobre o experimento de Redi, sobre a incompreensão da comunidade científica pela história perante novas idéias, sobre a mania do mundo de querer que as idéias sejam constantes porque assim nos acostumamos. Nada disso vai a nenhum lugar. Somos imutáveis, simplesmente aprendemos a atuar melhor. Desistir de mudar, eu? E logo agora que eu entendi que não é um defeito, que é simplesmente a parte integral de mim? Eu não desisto, desistir é fácil, desligar e já. Foi isso que eu disse a Ele, que não ia desistir tão fácil, que isso valia a pena, que quanto aos defeito, daríamos voltas, tombaríamos com outras coisas, mas nunca desistir, desistir é fácil, fácil é tedioso. Continuar a lidar com as mil variáveis que a vida te dá, a cada segundo novas, é o interessante. Redi foi um idiota, mas acreditou. E sinceramente, ninguém acredita em alguém que não crê em si mesmo. E com toda a esperança que alguém teve naquele dia nas células troncos, peguei meu livro de anatomia e segui a ler sobre como tudo isso funciona, de como é fácil morrer com uma veia tão estúpida quando a veia saphena magna, de que a vida é frágil, o que resta é ter pressa, ter pressa agora e agora de querer viver agora e agora, sabe-se lá quando me corto a saphena magna e morro aí mesmo, sem sequer haver vivido em um trailer na terceira idade. Isso sim seria um insulto a vida, uma vida sem trailer na terceira idade. Pontuo.