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Os obstáculos que certas formações anatômicas podem ser para impedir que se chegue a uma aposentadoria decente em um trailer e tudo ligado a isso.


Poema ao meu décimo nono aniversário

Eu quero todo
o impossível
(cruzando a rua fresca de chuva acompanhada da
mochila de dez anos
o zíper quebrado)

Hoje é o climax do dia que
eu tenho tudo
e não preciso de mais nada
por isso invento
necessisdades
só pela busca
mirabolar

Se você me vier oferecer
seus desejos
e as realizações
Vou dizer-lhe que
não há desejos
que me apago as velas assim
em silêncio
há simplesmente fatos
há o reusltado
de anos desejando

Aliás obrigada, mas vá
descansar
eu vou só
com o meu amor
com o meu português
com a coleção de sorrisos
e o timbre do riso
da felicidade
assim que
quase me estourando os
tímpanos
(só é utopia)

Que vá descansar
porque eu
aprendi a
viver
com esse cérebro
E viver afoga
(qualquer tristeza)
Saber viver é saber
conjugar o ato
de ser (feliz)
Eu conjugo em português
eu venho e volto de dezenove
formas verbais
diferentes

Descanse porque eu
quero é
vida
(em presente perfeito conjugado neste
distante litorâneo português vivo)
e o vento na
cara

O diagnóstico é muito simples -
o diagnóstico
é saúde
é saudade
é português não-reformado
é o vento
é a água de côco
é a vontade longe do abraço
é aqui ou na Lua ou em Moscou ou no girassol que roda de estação em estação
que é este orgão cronometrado
para (cistola)
vi- (diastola)
-ver (cistola)
que eu posso dar a volta no mundo
em três segundos
e com essa batida
(cistola)
(diastola)
(cistola)
nunca
pontuar
(o conceito de um ponto é
abstrato na geom...)


Não deixa aí a carne, vai estragar, eu falei para Ele que a ia preparar. Foi o que eu disse ao chegar em casa olhando ao redor, com fome, cansada, outro dia de medicina, outro dia que eu depositara na esperança de salvar alguém em um futuro próximo, retirando-o de mim mesma. O problema sobre viver um dia tão cheio de medicina e chegar em casa é que a medicina não se desliga assim ao entrar a porta. No ônibus eu sigo pensando em hérnias e no plexus pampiniformis. Não se desliga. E aí, ao chegar e ver a carne e a idéia de uma carne apodrecida com vermes me lembrou do experimento de Redi. Francesco Redi, o homem que pensava que acreditava na geração espontânea. Um tolo, mas isso sou eu falando centenas de anos depois, qualquer idéia nova deve ser analisada antes que a história a julgue. Foi por esses dias, um dos dias depois do meu aniversário quando, por regra, tenho anuais crises existenciais que incluem explosões de necessidade de privacidade virtual (não tenho certeza quanto ao termo, mas a minha defesa é meramente descritivo), de guardar os problemas para mim até que tenha as soluções, até que já estejamos rindo disso e de, finalmente, ter momentos líricos por pólen voando pela primavera, ou pela Moscou que finalmente sem neve se vê cheia de trabalhadores repintando muros e o cheiro de tinta sobe lembrando que a primavera finalmente chegou porque a tinta chegou, não estamos falando de flores. Momentos líricos que são desencadeados por absolutamente qualquer coisa. Em realidade, sempre os tive, mas exatamente depois do meu aniversário é mais difícil de me desvencilhar deles e fico presa aí. Agora estava presa na carne e seu potencial para apodrecer. E se a carne, eu me perguntava, for a felicidade, e se a carne, eu seguia, enquanto tirava os meus sapatos na entrada, deva ser preservada, guardada para que não se dê a chance de que aí cresçam vermes, que aí alguém lhe dê fome a vontade de comer-la e ter-la. E se a carne for a felicidade? Isso quer dizer, agora eu caminhava em direção a carne, que a árvore não é a melhor metáfora para a vida e para a felicidade e seus frutos, isso quer dizer que a carne é, e que ela deve ser preservada, guardada de olhos famintos. E resolvi aceitar que esses traços que eu venho tentando me livrar com os anos, depois de quase duas décadas, vão continuar aí, que não é com os anos que isso tudo vai desaparecer, que a carne, não importe em qual época do ano a compremos, será carne, e que essa mania de solidão, de reclusão e livros não me vai deixar, e que se por acaso eu vá ver dessa maneira, não é tão solidão quando estou acompanhada pela própria mania de solidão. Talvez essa mania tenha me levado a conclusões mirabolantes sobre a árvore da vida, a tinta do começo da primavera, aquelas primeiras aulas de Biologia no Brasil no Ensino Médio sobre o experimento de Redi, sobre a incompreensão da comunidade científica pela história perante novas idéias, sobre a mania do mundo de querer que as idéias sejam constantes porque assim nos acostumamos. Nada disso vai a nenhum lugar. Somos imutáveis, simplesmente aprendemos a atuar melhor. Desistir de mudar, eu? E logo agora que eu entendi que não é um defeito, que é simplesmente a parte integral de mim? Eu não desisto, desistir é fácil, desligar e já. Foi isso que eu disse a Ele, que não ia desistir tão fácil, que isso valia a pena, que quanto aos defeito, daríamos voltas, tombaríamos com outras coisas, mas nunca desistir, desistir é fácil, fácil é tedioso. Continuar a lidar com as mil variáveis que a vida te dá, a cada segundo novas, é o interessante. Redi foi um idiota, mas acreditou. E sinceramente, ninguém acredita em alguém que não crê em si mesmo. E com toda a esperança que alguém teve naquele dia nas células troncos, peguei meu livro de anatomia e segui a ler sobre como tudo isso funciona, de como é fácil morrer com uma veia tão estúpida quando a veia saphena magna, de que a vida é frágil, o que resta é ter pressa, ter pressa agora e agora de querer viver agora e agora, sabe-se lá quando me corto a saphena magna e morro aí mesmo, sem sequer haver vivido em um trailer na terceira idade. Isso sim seria um insulto a vida, uma vida sem trailer na terceira idade. Pontuo.

Comentários

Anônimo disse…
Cara, ainda bem que você voltou a escrever! Não abandone este blog!

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