domingo, 26 de dezembro de 2010

Ser circular é difícil

Desgraça, eu disse, me enrolando mais nos lençóis, como se aquilo fosse me prender mais a cama e eu não tivesse que levantar, que desgraça, repito, e pratico um ato de auto-mutilação com pouquíssimo efeito, já que é contra a cama. Saio de casa, coisas na bolsa, e toda a coragem necessária para enfrentar o Sol do Ceará ao meio-dia. Ora, ao menos venta, Rianne, eu me conforto, já que há um mês atrás passei um tempo com os meus avós no Piauí e foi no mínimo panque, minha gente. Por que eu não sei do resto do mundo, mas eu gosto dos banhos que têm prazo de validade de refrescamento de pelo menos uma hora, não gosto quando saio do chuveiro e já começo a suar, e nada realmente concreto consegue vir a minha cabeça ou substituir o pensamento de "QUE CALOR, QUE INFERNO, POR QUE?". Pelo menos venta, continuei. Perdi o ônibus, aparentemente eu tinha que fazer sinal e estava burra e recém-acordada demais para conseguir funcionar. Esperei mais vinte minutos pelo outro, enquanto fazia pequenas notas sobre como Fortaleza precisa de um metrô ou pelo menos de ônibus o suficiente. E sento, de fones, com a minha cara que diz NÃO em letras garrafais. Não sou antipática, mas não gosto de chamar atenção. Em Moscou, e lá vou eu, sou só um fantasma na multidão, ah, continuou, quem não gosta de Moscou não gosta da vida. O ônibus finalmente chegou, vou o caminho pensando que às vezes as escolhas erradas levam para uma escolha mais correta do que a antes disponível, e não fico com tanta raiva de mim. Conheço os meus monstros, e os adestro, com tempo e paciência, ambos os quais eu não tenho. Desço e entro no Aldeota, procurando a menina dos olhos castanhos gigantes. "Vamos, porque esse banco está me incomodando, e acabei de ficar pobre", e assim, uma conversa continua, um "oi" ou um "há quanto tempo" é totalmente dispensável, a nossa saudade luta para existir, pois existe essa conexão que não a permite. E vamos reclamando mesmo, e rindo das desgraças, em direção ao Del Paseo. E eu penso que acordar cedo foi totalmente digno, enquanto M. carrega um CD de forró que ganhou na compra de uns abadás. É lógico que o Del Paseo virou uma selva e não há lugar para sentar na praça de alimentação, então descemos para as Lojas Americanas e analisamos o comportamento das pessoas que demoram para escolher biscoitos, incluindo o nosso. "Eu comprei um tênis que eu gostei", o orgânico ou o totalmente gordo, "mas ele me machuca no calcanhar", o orgânico e um segundo que não estava na equação, "acho que as coisas que eu gosto passam a me machucar, sei lá". Incrível como um tênis às vezes é capaz de produzir verdades absolutas. Sentamos lá fora, falando de tatuagens e seus significados, de como o círculo envolve todas as reações e ações que existem, de como o círculo é uma forma perfeita e finalmente, de como é difícil ser circular. Liberdade, ela fala sobre liberdade, e eu fico contento por ter mantido na vida as pessoas que são eloqüentes o suficiente para gritarem que são livres. E falamos sobre amor, mas a conversa não vale a pena. De repente T., a terceira extensão de nos, personagem ausente de cinco anos na minha vida, aparece, e como quem continua uma conversa pausada há cinco anos, diz: "Vamos, preciso comprar sapatos", na maior naturalidade. Viro para M. e digo: "Isso é o destino usando toda a Ironia disponível", e ela ri porque aquilo é muito aleatório e impossível, "se a gente tivesse combinado, não tinha dado certo". Próxima coisa que eu sei é que o vendedor de sapatos está tirando uma foto nossa, a que vamos olhar daqui há vinte anos e rir. M. vira e diz "meu deus!", como se descobrisse algo totalmente novo, um sapato, talvez, e completa: "... vocês são minha vida inteira...! Vocês são a cara da minha vida inteira!". E apesar dos tênis que machucam, e a dificuldade que há em toda a coisa de ser circular, há espaço no mundo para se ser a vida inteira de alguém. Se me perguntarem, a vida é uma puta com acne vulgaris, mas não é impossível querê-la bem ou que ela traga coisas boas, nem que seja uma vez na vida e que seja na forma dos amigos mais velhos que você tem, agora em formato de joãozinho-de-barro, os únicos que fazem o ninho contra o Sol. E repito as pequenas frases porque amanhã é dia de encontrar um joãozinho-de-barro, apaziguante. Pontuo.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Eu vou consertar sua cabeça.

[Estado de espírito: natalizado e gordo]
[Escutando: Stomach, Current Swell]




[Corretores de joanete, tunando o seu pé desde 1980]

Talvez eu perca a sanidade. Hoje.

Alguém tinha levado um tiro. Tráfico de drogas. Gente que usa bigode. Gente grande. O trambolho debaixo do meu pé, a bala. Afastei o pé esquerdo e a bala ficou entre os dois pés. Estado semi-acordado de consciência.

E os olhos que acordam num domingo às 8 da manhã, sentindo os aparatos de silicone para a joanete.

Eu estava na aula de alemão quando ela me puxou pelo braço, sem escrúpulos quanto a professora e quebrando o clima que as aulas de alemão têm. Ela sempre falava perto demais, doce demais, gentil demais. Foi ali, me encurralando naquele corredor que ela disse que seria bacana falar para toda a escola, na sessão de línguas estrangeiras, um pouco sobre mim. E em cinco línguas, bem bacana.

Entre todas as coisas que se podem acontecer num Domingo, entre todas elas o destino me reserva a tarefa de contar para o mundo, em cinco línguas, seguidamente, como eu vim parar aqui, porque eu não tenho otchestvo [segundo nome russo que deriva do primeiro nome do pai com terminação -ich ou -ova], praguejar sobre paz mundial e unidade humana.

Qual é a sua história.

A verdade é que ali na frente de todos eu poderia ter descoberto uma nova espécie de dinossauro, a Royal Academy preparava um encontro com a Rainha da Inglaterra, mas ali na frente, eu era só um alguém com uma nacionalidade exótica.

Quando entrei na escola, depois de tomar um café tão amargo quanto o dia de Domingo, ela me achou no corredor e veio gritando na minha direção. Vá para a sala 13. Pois que seja a sala 13. Fora o cenário escolhido para a loucura.

O meu entendimento de sanidade nunca fora uma coisa concreta, mas o de insanidade sempre pareceu tão vívido e claro.

Durante as olimpíadas de alemão e inglês, a primeira a qual depois de ganhar o primeiro lugar passei a ser tratada como esse deus grego de porcelana, vendo meu nome em cirílico no mural ocupando o primeiro lugar, aquela fora a minha sina. Eu falava alemão no teste oral, em inglês com o David, em russo com os russos na sala, e por algum motivo de respeito a si mesma, português, em alguma esquina dentro de mim. Minhas pupilas dilataram. Era impossível ligar e desligar uma língua e ligar outra, ficava uma em cima da outra, empilhadas. A verdade era que a estátua de Ceres, naquele salão no vaticano, que apesar da minha falta de catolicismo me maravilhou, fazendo-me usar todos os meus sentidos ao mesmo tempo, a Arte cumprindo seu papel. A verdade era que a maioria daquelas estátuas gregas estavam rachadas. Eu nunca fui um deus grego a ser admirado. A perspectiva de viver a vida sendo uma estátua me deixava sonolenta.

Mas a minha coordenadora que me encurrala achou que seria uma idéia ainda mais grandiosa se agora eu falasse também em espanhol. Via-se sorrisos na platéia, enquanto eu pulava de alemão para espanhol, de espanhol para inglês, de português para russo. Esse garoto logo na minha frente sorria como se tivesse se apaixonando. E todas aquelas pessoas pensavam consigo que enquanto elas perderam tempo de alguma forma, eu aprendera cinco línguas, e sem nenhuma pretensão profissional. Cinco? Quatro, o espanhol por tão perto o fiz distante. Fácil demais, não quero.

A verdade era que eu não sabia o que eu queria da vida, nem se a vida me queria. Ou pelo menos foi o pensamento que adubou as minhas vocações por um bom tempo. Quantas vocações pode-se ter? Quantas vontades pode-se sentir? Quantas coisas uma pessoa tem capacidade de ser? Tinho visto esse cara na TV uma vez que tocava cinco instrumentos ao mesmo tempo. Cinco era muito. Cinco línguas também eram muitas. Mas sem nenhuma pretensão, não mirando a lugar nenhum...

O quadro era de uma vida atrás de uma mesa, de conversas com papéis e submissão a um monte de leis e normas que não era nada naturais, apenas criadas, impostas. Eu não podia, abominava uma carreira de diplomata, de advogado. Alguém nascia brasileiro e tinha que concordar com aquilo tudo, mesmo se não concordasse, e se contrário fizesse, era preso, multado. Nem todos concordam, mas todos se submetem. Ser uma pessoa de papéis, viver essa rotina sem velocidade, 20 quilômetros por hora, ameaçando frear, não era a imagem que eu queria ver no quadro.

E ainda o conceito de nacionalidade. Toda aquela porcaria que chamavam de nacionalidade era nada mais além de papéis. Todos nós éramos tão iguais que a visão de uma multidão dá enjôos. Todos nós queremos rimar, seja em russo, seja em português, seja em inglês, é sempre a busca da harmonia dos sons, uma rima é sempre um som se repetindo. Todos nós éramos patéticos o suficiente, igualmente tolos e vazios. Um papel me dizia que eu era brasileira e isso não me punha em lugar nenhum de desenvolvimento mental do lado de alguém possuindo um papel que afirmava uma nacionalidade russa. Não. Somos todos filhos de Roma. Eu não podia exercer uma profissão sem acreditar no princípio da mesma. Viver a vida como um hipócrita, atrás de uma mesa, eu tinha imaginado mais movimento.

[Yuri com um sorriso do mundo inteiro]

E eu não podia ser um astronauta. Eu iria trabalhar vinte anos na preparação de uma missão que iria durar algum par de horas. Vinte anos depois eu iria me odiar, e não só me odiar, mas tudo que eu tinha visto, o universo inteiro. Não sabia como se criava o ódio pelas estrelas, mas nessa perspectiva, ele era muito provável de ter sentido, era um ódio perigoso. Eu pegava a mini-eu pela mão, que sonhava em usar aquele capacete e sorrir como o Gagárin sorria, dentro daquele capacete, eu iria sorrir e seria tão sincero que o mundo inteiro iria olhar para mim (A vida ainda fez a bibliotecária russa me dar de presente um postal do Gagárin sorrindo). Era um sorriso que dizia adeus, era um sorriso que começava de novo, de onde quer que tenha parado, era um sorriso que ia para onde ninguém antes havia chegado, eu queria virar um cartão postal do lado de Gagárin. Eram pensamentos densos para uma criança de cinco anos, mas eu os manti, só para chegar ao ponto de achá-los irrealizáveis. Deixar crianças sonharem é algo perigoso e desastroso, só para chegarmos à idade adulta e ver toda a impossibilidade. Mas não deixar uma criança sonhar é igualmente cruel. Passar a odiar estrelas é igualmente terrível.

A simples idéia de ser jornalista me dava enjôos, de ter que escrever algo que eu não queria escrever, enchendo páginas e páginas de porcaria urbana, confirmando o fato de que vivemos numa selva de concreto. Eu mal escrevo o que eu quero, vou contra a corrente de mim mesma só para fazer pirraça, só para dizer que eu sento aqui e escrevo quando eu quiser, não quando a vontade quiser, assídua. E ainda os hamsters que vão cagar em todo aquele jornal. Aquilo não podia ser chamado de realização profissional.

Outra profissão que parecia me mostrar o caminho direto para a hipocrisia era a de psicólogo, psiquiatra, um neurocirurgião sem bisturi. Era alguém que tentava ser o reflexo de alguém transtornado, resolver problemas, problemas. Mas se o ser humano anda em duas pernas porque tem a capacidade de ver o problema e achar a solução, quem era aquela pessoa que me pedia para sentar em um divã, me prometendo uma solução? Ninguém é tão estúpido para não achar uma sozinho. Toda essa responsabilidade do psicólogo e do psiquiatra, de ser capaz de resolver os próprios problemas e de seus pacientes, parecia consistir numa capacidade extra-humana, acumulando funções. Injusto e improvável.

Então eu achei que poderia pilotar aviões. Eu achei que poderia sentar ali na cabine e deixar tudo no auto-piloto. Eu tinha tantas coisas a fazer, tantas estantes a organizar na minha biblioteca mental, antes manter o controle da cabine. E tudo aquilo parecia ter velocidade o suficiente, movimento, o que eu precisava. E eu iria ver as nuvens tão de perto que elas perderiam a forma. Mas se agora eu tinha a habilidade de voar, iria perder a habilidade de ter uma identidade. Um quarto de hotel a cada aeroporto, a mesma mobília, quadros de paisagens, gerentes sorrindo, tudo impessoal demais, sotaques de aeromoças neutros demais, eu iria ser um nômade, mais do que já fui a vida inteira, e as paisagens iriam se repetir, e muito cedo eu teria tido o suficiente das nuvens, e o pensamento de que talvez elas sejam mesmo doces iria evaporar-se para saber que elas eram tão breves que mal podiam ser admiradas. Tudo durava um único momento e as formas de jacaré e trem que as nuvens costumavam ter, como em James e o pêssego gigante, elas tornariam a ser uma mentira. Nem tinha gosto, nem tinha forma. E eu tinha Madame Bovary dentro de mim demais, quero emoções, não paisagens. Eu teria que explicar para dois sentidos meus que eles deveriam parar de sentir as nuvens dessa maneira, depois de tantos anos. Nada pior que viver a vida decepcionada com o céu, onde nós depositamos todas as nossas esperanças de que ainda existe algo incorruptível no mundo, algo inocente, naquele infinito de azul anil. Mas era tudo tão breve.

E eu já tenho todos esses anos nas costas.

A verdade era que eu nunca quis fazer uma escolha para a vida inteira. Toda semana eu quereria mudar de carreira, de profissão, chutar a rotina. Eu não sabia o que fabricar de mim. Nada tinha movimento o suficiente. E se tudo ameaçasse frear? A convivência comigo seria insuportável. Eu quebraria espelhos.
A única coisa que eu fizera da vida fora vir para a Rússia só para desafiar os que diziam que seria frio, que só tinha balé e vodka. Então eu perguntei-me porque não dançar balé e beber vodka no frio. Foi o espírito anárquico que me trouxera tão longe, eu competia comigo mesma para ver quem ia mais longe, mas no estádio eu sozinha corria. Era patético, era um jogo sem nada definido, e a falta de definição, era eu.

Então me disseram que eu poderia viver essa vida sem horários, tratando de pessoas, não papéis, que um dia eu operaria um coração, e no outro dia um intestino e que esses órgãos eram coisas completamente diferentes. Tudo isso me dava uma perspectiva de absolutamente nenhuma rotina, chegando a um ponto que chegaria a me irritar, mas entre eu e o meu espírito anárquico, concordávamos que aquilo prometia uma eterna competição, pouca probabilidade de frear. Nada de vitória e depois a calmaria. Apenas a vida querendo acabar e eu correndo para juntar as abas, me desafiando e mais e mais, eu achando soluções e na maioria das vezes morrendo por dentro para achá-las, é sabido que na história da humanidade a coisa mais difícil de se fazer é consertar um ser humano, em qualquer sentido que a frase possa vir a ter. E eu operaria cérebros. Entre todas as coisas que se consertam: televisão, celular, portas; eu iria consertar cabeças. Eu vou consertar a sua cabeça.

E nada mais me dava a sensação de poder que saber que as pessoas iam pedir para eu consertar as suas cabeças.

Incluí no meu discurso em cinco línguas que eu me tornaria uma médica, sem a parte de consertar cabeças. Os pais que estavam ali deram suspiros, eu fora adotada naquele momento por uma dúzia de casais, a brasileira que falava cinco línguas e quer ser médica, suspiros.

“A garota mais inteligente do mundo”, gritou Elena, enquanto eu vestia o casaco, depois de apanhar minha insanidade naquele auditório, “parabéns, estão todos maravilhados!”, e ela veio falando perto de novo, “a garota mais inteligente do mundo!”. Pro inferno a inteligência, eu queria mais, "mais tequila, mais amor, mais é melhor".

E isso tudo só porque eu era brasileira, imagine quando eu estiver consertando cabeças.

Mais tarde, no Brasil, quando eu tinha, literalmente, um cérebro na mão numa aula de anatomia na UFC, aquilo era simplesmente certo, e todos esses anos de "O príncipe" de Maquiavel na minha cabeceira dosaram-se muito bem.


****

Riri informa que está em processo de edição final de "Pão-com-açúcar", porque finalmente achei o que precisava para o começo, por isso aconselho a quem já leu que releia quando postar o trambolho inteiro aqui, gosto dele muito mais agora. Além de que o final está do jeito que eu queria, com esse meu TOC da primeira frase ter que ter uma conexão com a última, só assim fico satisfeita. Existem pequenos momentos que eu digo "isso está tão bom que está bom demais", um deles foi com um capuccino que fiz outro dia, o outro, espero, quando acabar e ler numa sentada só o que escrevi. Enquanto isso, happy holidays pra mim e para quem quiser.


Aliás,



Cortar a cabeça de um porco no Natal não tem preço. Só para ter certeza que esse post tem a macabridade o suficiente. E sonhar com Mark Hoppus e com um show do Blink que vai ser meu em 2011? Não tem preço. Assim é realmente muito fácil amar o Natal.

Pontuo.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Fueda-se.

Mas minha senhora, eu disse, eu tenho que embarcar, não é simplesmente uma vontade! Ela, alta demais para uma mulher e obesa, branca e com o cabelo super claro, eu diria albina, mas a fenótipo dela me importava ao mínimo naquele momento. Acho que eu não estava sendo clara, então me repeti. Que diabos, pensei, por que parei em São Paulo só para comprar um livro? Qual o meu problema? Eu poderia ter pedido essa merda pela internet. Por algum motivo eu estou em Madrid e tenho que embarcar de um PORTO? E não de um AEROPORTO? Ok, isso está offly wrong. NO SHIT.

...

Acordo, suada, meio perdida na definição de um pesadelo. Os meus, pessoalmente, sempre envolvem logísticas e conexões em aeroportos, olhares de impossibilidade vindo de funcionários, um longo suspiro e a desistência da vida. Se houver por aí, minha gente, uma Síndrome do Pânico a Logística Aeroportuária, ela é toda minha. Lembro que tentando chegar ao Brasil em Julho, quando saindo de Moscou, e aliás, nunca contei essa história propriamente, a Senhora Check-in diz que meu vôo Madrid-São Paulo foi cancelado, e totalmente cheia de resolução me dá o número do vôo que sairia 4 horas depois da minha chegada em Madrid, um novo vôo, totalmente existente. Olho para o Konrad e ele não consegue esconder a expressão de "Holy fuck". Subi o elevador para o Passport Control, faltava muito pouco tempo para o embarque, quarenta minutos para ser precisa, por todo o tempo que a Senhora Check-in se negou a acreditar na situação e rechecou, rechecou até me dar um veredicto que, convenhamos, fodia minha vida de qualquer ângulo e forma que ela falasse. Lembro que o elevador do Domodedov me irritava de alguma forma que só elevadores irritantes são capazes de fazê-lo, querendo ser panarômico demais, saído dos Jetsons demais. Quarenta minutos. Depois de ficar ali vinte minutos numa fila errada, para pessoas acompanhas com crianças, no Passport control, eu penso que esse realmente é o fim, não há, no mundo, situação em qual se põe mais esperança que um vôo, e igualmente, não há, no mundo, situação qual oferece mais improbabilidade que pegar um vôo. Douglas Adams definitivamente tirou a idéia da Coração de Ouro daí. Esperança demais, tudo pronto para dar errado demais. Pensei seriamente em fazer, ali mesmo, um pedido de adoção, mas todos aqueles orientais na fila com crianças não seriam meus parentes nem aqui nem na China (engraçadinha). Como todas as outras filas eram imensamente maiores do que essa, e faltavam o que, dez pessoas, eu não poderia me dar o luxo de simplesmente tentar não ser adotada, vai lá, com a cara e coragem, talvez seja o ato mais brasileiro disponível, e talvez isso acabe por te deixar chegar em casa. Calculei quanto tempo uma pessoa demorava na cabine, e tudo daria certo, digo, se essas árabes não estivessem demorando tanto agora, não, não acho que ninguém entendia ali o quanto eu precisava chegar em casa, o quanto nada daquilo tinha a graça necessária para simplesmente virar uma tragédia, aquilo era um bem construído episódio de terror. As pessoas normais demoravam quarenta segundos, as árabes estavam lá já há cinco. Sim, seria o fim, e lentamente fui abaixando minhas expectativas. Tudo bem, amo Moscou, mas eu tinha outros planos. Eu tinha vinte e cinco minutos. Faltavam mais cinco pessoas na minha frente, com uma dose de fé, talvez eu passasse. Quando finalmente cheguei lá na frente, faltavam quinze minutos. E todos aqueles planos de ir Duty Free? To hell with that. Ela olhou na minha cara, olhou o visto, procurou o carimbo, rechecou, me entregou o passaporte, me deixou ir. Raio-x. E lá vamos nós, o sumo da experiência russa: sempre tirar os sapatos, absolutamente sempre, principalmente quando você está atrasado para um vôo. Tirei os sapatos, joguei o computador no raio-x, botei aquelas sacolinhas estúpidas no pé e fui de sacolinhas com sucesso, sem nenhum apito. Devo aqui relatar que há pouco tempo a maldição do apito resolveu me largar, eu já passava no detector de braços abertos, pronta para ser revistada. Não que eu sentisse falta daquilo. Agora eu tinha que procurar a droga do portão ou simplesmentes os gritos em espanhol, e devo relembrar aqui, estamos em Copa do Mundo. Deveria notar também que todo esse corre corre pelas salas de embarque, devidamente vestida com as sacolinhas, os tênis na mão, o computador no ombro, e o coração na outra. Seis minutos. Lembro desse número com um tanto de pavor, seis, seis, seis. Achei o suposto portão de embarque, mas ninguém falava espanhol, então eu esperei por arrastados minutos que o Ashton Kutcher aparecesse ali e dissesse que eu estava no Punk'd. Vamos, Kutcher. Finalmente, caminhei pelo corredor que dava ao avião, já calçada, e durante todo o vôo tentava processar o trauma, ou seja, dormi. Faço isso muito bem, aliás. Quando cheguei em Madrid minha vida se iluminou novamente, eu tinha que pegar minhas bagagens e fazer o check-in de novo, tudo bem, se eu não estivesse sentada aqui do lado dessa esteira esperando minha bagagem desde as 6 horas, só que agora são 8, o meu suposto vôo para São Paulo sái as 10. Sim, vamos, percam minhas malas. Além disso, eu não tinha a mínima idéia de que horas eram, digo, no meu fuso-horário. Senti que isso pouco importava já que a experiência vinha sendo cheia de adrenalina e como sobrevivente da selva amazônica, eu estava cheia desse hormônio, sobrevivendo. Não se deixe enganar pelo concreto e pelo mármore, aeroportos são, sim, selvas. Oito e meia minhas malas chegaram, pus meus 43 quilos de vida no carrinho, que, admito, compensavam o peso muito bem. Aliás, essa é basicamente uma das únicas boas impressões que tive de Madrid dessa segunda e dramática vez que estive lá. Tentei achar a saída, e é lógico que tudo iria ser complicado. Desci em um elevador que dava para lugar nenhum, tendo que subir de volta, voltar ao ponto de partida e dar uma volta imensa, até achar a entrada do aeroporto, onde eu deveria fingir que falava espanhol e magicamente embarcar naquele belo vôo. Não, eu não falava espanhol, e nem falo. Com as oito pessoas inúteis que falei da companhia X (não sei porque preservo nomes, deveria foder-lhes a vida), falei em inglês, ou simplesmente esperando que eles falassem russo. Depois disso, pensei, eu aprenderei espanhol, essa coisa toda de já falar russo e não espanhol parecia uma válvula de escape. Por algum motivo todos os atendentes da companhia X estavam indo embora porque o seu turno estava acabando, um deles,um dos oito, até me iludiu, lendo cuidadosamente o bilhete, vendo o vôo cancelado, vendo o novo que eu deveria embarcar, pedindo para eu segui-lo, mas ele, como todos os outros, estava indo embora e apenas me encaminhando para outra anta. A oitava atendente, como se aquilo não fosse com ela e realmente não era, disse que o segundo mágico vôo também não existia e que aliás, estamos lotados para São Paulo e a próxima vaga é em uma semana. A copa não era na África da Sul? Por que os vôos não estão lotados para lá? Saiam, saiam, saiam. Eu sei que era Madrid, mas me senti presa numa ilha filha-da-puta. Ela, como diz bom dia com o tom de eu sei que você se fudeu, me encaminhou para a nona pessoa. Onde estão as urnas de pesquisa? Quero preencher essa merda agora. Não, em nenhhum momento gritei com nenhum atendente, apenas ri, aquele riso cheio de desespero. Fui com os meus 43 quilos de vida até o guichê de compra de bilhetes, e naquele ponto, que já eram dez e meia, não valia mesmo a pena procurar por um vôo que nem existia. Lá a Senhora Guichê me disse que o meu vôo havia sido cancelado em Fevereiro e que minha empresa deveria ter me avisado. E como gosto de lembrar, estamos em Julho, e que por esses motivos, por não ser culpa da companhia X, eles não iriam pagar o hotel até o meu vôo, que ainda seria remarcado para deus sabe lá quando. Saí com os meus quarenta e três quilos de vida, a procura, já, de um hotel, puta, no sentido de espírito assassino da palavra, de um hotel, porque eu tiha esquecido a diferença de horário Moscou-Madrid e se eu descobrisse que horas moscovitas eram, eu provavelmente acharia que era mesmo hora de apagar e mandar todo mundo a merda em um final bem trágico. Estou na porta do elevador, para descer até as ruas madrileñas, o último lugar que eu queria estar, quando a Senhora Guichê grita do outro lado do mundo, alguma coisa em espanhol, viro, com as minhas pupilas vermelhas de ódio, só para ouvir que, interessantemente, o vôo que só seria disponível dentro de uma semana, magicamente apareceu para o outro dia, ao meio-dia, e que aqui estava o meu voucher para o hotel. Acho que toda a parte de caminhar tragicamente embora havia funcionado, não que essa tivesse sido a inteção. Ótimo, então eu simplesmente preciso fingir que vou dormir calmamente essa noite em Madrid e amanhã vou mandar todo o espanhol que existe no mundo se fueder. Não sei qual é o problema das pessoas que não falam russo, eu repeti a noite inteira. Ou era dia? Alguém simplesmente tinha me jogado no meio dos fuso-horários. O ônibus para o hotel saia em meia hora, perguntei a todos outros antas onde pegar o tal do ônibus, como eu achava a saída desse lugar infernal, e rodei aquela merda com quarenta e três quilos de vida feito caramujo pra lá e pra cá, porque nessas horas acho que falta de senso de direção, o qual eu possuo em alto grau, deveria ser tratado como uma deficiência e eu deveria ter tratamento especial. Voltei a Senhora Guichê, perguntando do hotel, e despachei minhas malas, peguei o carregador do computador, minha carteira, meu passaporte, minha câmera, desci uma rampa que me lembrava a via láctea, talvez fosse o sono, eu nunca tinha visto a via láctea. Cheguei a rua, quarenta e três quilos mais magra, e deveria eu assinalar aqui que ninguém me cobrou excesso de peso, que eram vinte quilos? Talvez eles estivessem bem NÃO na posição de me cobrar qualquer coisa se não um "foda-se" em letras garrafais. Mostrei o papel do voucher para o motorista, enquanto ele babulciava em espanhol, no meio disso saí e simplesmente entrei no ônibus, se alguém tentasse falar comigo em espanhol ainda hoje, ou que dia fosse, seria devidamente chamado de "cuño" ou seja lá como se escreve isso. Chyrot vozmi [foda-se]. Do aeroporto até o hotel, fiquei vendo a cidade da janela, enquanto ouvia um grupo de estudantes falar em francês, um deles aparentemente era engraçado e todos riam quando ele acabava de falar, as luzes da cidade me agradavam, pelo menos era noite, pensei. Cheguei ao hotel com bagagem estritamente necessária a sobrevivência, mas a fila dos estudantes franceses para o check-in estava gigante então eu pensei que, por que eu não sento aqui nesse sofá, durmo, e quando eu acordar, toda essa papagaiada em francês vai ter subido? Quando acordei, acordei em francês, às 2 da manhã, todos eles haviam sentado ao meu redor. Tentando voltar a minha conduta de ser humano, perguntei a um deles sobre o vôo, o que eu já sabia a resposta, o que levou a uma conversa de onde eu era e como eu estava falhando em chegar em casa. De repente, em alto e bom português, alguém me diz para entrar na fila porque aparentemente vem outro ônibus. Por que você fala português?, perguntei, quando na verdade queria falar what the fuck? Ele era angolano e aparentemente todos aqueles franceses não era franceses, e sim de algum país da África e vinham para jogar futebol. Ok, whatever. Fiquei na fila, quando finalmente cheguei a recepção "no hablo español", entreguei meu passaporte, assinei algo que vendia minha alma e subi. Então depois de tanto tempo sem falar português, meu primeiro contato é com um angolano. No mínimo interessante. Acho que não lembrava que estava com fome, também. Achei umas batatinhas, e como eu queria foder com a vida da companhia X, acabei comendo todas as coisas que tinham deixado lá no frigobar e em uma mesinha, se estivesse tudo envenenado pelo menos morreria em glória, tentei ligar para pedir uma pizza, só que ninguém falava em inglês então mandei Madrid a merda e tentei ir dormir. Fui dormir às 4 da manhã, para acordar às 9. Pouco importa, por aquela hora eu já tinha perdido todas as funções e horários biológicos de uma pessoa normal. Saí para comprar uma roupa, souvenirs com pequenos touros madrileños para que eu lembrasse mais tarde que agradável foi aquela passagem por Madrid... Fiquei andando pela Gran Via até dar dez e vinte, cheguei ao hotel. Perguntei onde eu pegava táxi, só para ouvir que a companhia X também estava me pagando o táxi. Sentei no sofá com alguns poloneses e ficamos conversando até descobrirmos que íamos pegar o mesmo táxi para o aeroporto. Naquele momento não pude deixar de pensar que eu entendia perfeitamente polonês, mas o que aquele taxista babulciava entrava por um ouvido e saía por outro. Fui direto para o salão de embarque, já que tinha feito o check-in na noite anterior, olhando no meu passaporte a estúpida estampa de que eu havia estado em Madrid por um dia. Passei pelo raio-x depois de aprender que computador em espanhol é "ordenador". Passaport control, tudo ia dar tempo, talvez eu realmente pousasse em casa se o avião não caísse. Agora, portão U de embarque. Aquilo não me ocorreu no momento, mas um aeroporto que tem o portão U tem todas as letras anteriores, e o que não me ocorreu mais ainda é que dentro do aeroporto tinha um metrô. Segui todas as placas que me levavam até o portão U, subi infinitas escadas rolantes, onde ninguém tinha o costume moscovita de ficar encostado em um lado da escada, enquanto o outro ficava livre para os que estivesse com pressa correrem. Tudo bem, paz mundial, paz mundial... Elevadores. Escadas. Corredores. Escadas. Onze e vinte, e a idéia de que a merda do vôo saía às doze não deveria me aterrorizar. Achei o tal metrô, perguntando a uma senhora que ouvi falando russo com um sotaque totalmente espanhol. O metrô me dizia que chegaríamos em vinte e dois minutos, e eu com a minha cabeça a prêmio e o computador na outra mão. Cheguei a um lugar todo da letra U, onde eu deveria achar o U27. De repente, ouvi o som das vuvuzelas e vi gente vestida de verde e amarelo. Se aquele não fosse o meu vôo, então eu era daltônica. Chequei. U27. Faltavam seis minutos. As pessoas falavam português e não eram angolanos, e sim brasileiros, de Floripa. Uau, eu tinha esquecido o que era essa coisa de regionalismo. Sentei naquele avião e dormi, dormi, dormi. Quando cheguei em São Paulo, o meu vôo para o Ceará havia sido cancelado também. Haviam aberto minha mala e levado coisas. OK, eu realmente queria sair do inferno agora. Companhia aérea Y me jogou na sala VIP com um cartão de wi-fi e umas... coxinhas? Deus, coxinhas. Vou voltar para a Rússia nadando ou a pé, pensei, quando finalmente cheguei em Fortaleza. Não acredito que as pessoas chamam avião de progresso, pensei, e hoje a noite estou muito a vontade, muito burguesamente instalada no mundo, e dormi, em uma cama, lá fora fazia trinta graus e essa parte ainda me era estranha, mas dormi em cima daquela citação de Sartre, ainda perdida nos fuso-horários. Talvez eu ainda esteja perdida.


(Gostaria muito de contar sobre os eslovacos, mas tenho outras coisas para escrever, e os eslovacos se contarão quando quiserem)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A festa é de Jesus mas vim de penetra

Há um ano atrás estávamos em Kamensk-uralskiy, uma cidadezinha russa próxima aos Montes Urais, faríamos estes snowboards de papelão com uma sacola em volta nessa descida ridicularmente infinita, lembro de sentar lá no fim daquela montanha de neve e pensar que isso é felicidade, e quando eu despensei, já não era mais, um momento e já foi. Nós cantávamos canções de Natal em pelo menos cinco línguas diferentes, e ninguém nunca mencionou Jesus, ali éramos nós, usando a desculpa do feriado. Nós jantamos ao ar livre quando fazia cerca de -20 lá fora, comíamos rápido o suficiente para tudo não virar uma pedra de gelo, ao mesmo tempo que corríamos para a fogueira que tínhamos feito. Eu posso lembrar de cada detalhe, do karaokê horrível, do espelhinho do banheiro. Um ano depois, em solo cearense, estou caminhando pela Beira-mar, quando resolvo que tenho que entrar por essa ruazinha, para ter certeza que eu tive o suficiente de um dos meus bairros de infância antes de partir, antes que eu vá e nada pareça o mesmo. A rua dava para o fundo do meu supermercado favorito, e na esquina abandonada, mal iluminada, e por que diabos estou aqui, vejo um homem corcunda carregando uma sacola, passando bem na minha frente. Parei e comecei a rir, do jeito como a vida abusa do sarcasmo, e duas vezes essa semana. O homem era o mesmo que tentara me assaltar quando eu tinha quatorze anos na Avenida Abolição, enquanto eu gritava "sái!" e saia correndo de volta para a Beira-mar. Não é como se eu fosse acordar um dia e simplesmente aceitar que eu vá ser assaltada, por isso, sem baixas aquele dia, apenas uns rushs de adrenalina e cenas muito rápidas. Há uns dias atrás, vagando com a Maísa, eu disse que tal sairmos daqui e irmos para o Del Paseo, e lá sentamos, discutimos o que é ser circular, a simbologia de escolher um biscoito, o futuro, o passada, a bagagem. E de repente, Taiane, a terceira parte de nos, simplesmente aparecendo, depois de cinco anos, reunidas, pelo acaso. Depois foi algo entre comprarmos sapatos e pedir para o vendedor tirar uma foto, pelo registro. Não me importo e não diminuo nem aumento ninguém, mas encontros casuais são os meus favoritos, seja com assaltantes ou amigos de longa data. E ultimamente Fortaleza tem estado bem propícia, tendo vida própria. Gosto muito da noite aqui. I do. E talvez eu tenha cansado sim de sempre ser passageira, sempre estar chegando, sempre estar indo embora. Mas talvez eu também não conheça outro tipo de vida. Não consigo pôr em um quadro o que é viver na mesma cidade a vida inteira, falar a mesma língua a vida inteira. É por isso que os meus encontros casuais se estendem a uma geografia ultra-mar. A Dolly está dormindo aqui, e eu não tenho nenhum conhecimento transcendental para dividir, por isso, pontuo, e um Feliz Capitalismo para todos, pelas luzinhas, pelos presentes, pelos jantares, e me desculpem, sei que a festa é de Jesus, mas vou de penetra mesmo.

(E quando as lembranças estiverem longe demais, quando Kamensk estiver longe demais, estará simplesmente longe ou já terá se tornado parte integrante de mim?)

(E eu que prometi publicação oficial até o fim do ano? Esqueçam isso. Tive um breakthrough e agora o buraco é mais embaixo, o tempo é meu, deixa que eu me resolvo com ele, também não tenho planos para morrer, então.)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A alvorada e a suficiência de sua duração.


[Entre todas as coisas deslocadas, um Van Gogh deslocado sempre parece estar em harmonia, sendo o único na categoria das coisas deslocadas que tem harmonia, e nesse caso, dois Van Goghs]

Às cinco da manhã, o estranho sono que me acometera às oito da noite, já alimentado, satisfeito consigo e arrotando, me acordou num horário que as pessoas só acordam para tirar leite de vaca, e os gritos bêbados da juventude numa rua vazia, na alvorada do dia, foi o suficiente para me acordar, perfeitamente audível do décimo segundo andar graças a qualquer desgraça que exista nas leis da acústica. Não esculpo só perfeições, e diferente dos gregos antes de Lísipo, acredito demais nas imperfeições e gosto dos seus retratos, e os gritos bêbados conectavam-se devidamente às imperfeições e à realidade, que é minha e não tem planos nem uma via expressa para a perfeição. Somente a poesia inteira que a palavra "alvorada" carregava sozinha parecia perfeita, à frente do Sol, atrás dos prédios, um breve momento de paz antes do dia se iniciar, o Homus urbanus não planeja, não se preocupa, não conta, não dirige, só dorme e perde a alvorada, pois o restante do dia tem todo o potencial para ser somente imperfeito, e a todos que não acordam às cinco da manhã fica difícil de dizer se existe algo mais além daquilo, a alvorada é tão curta e só por isso é perfeita. Café. Música. Som da respiração, da maquinaria interna. Entre gestos mecânicos, me remeto de volta a cena do dia anterior que eu brigava com um palhaço na rua, totalmente fora do humor para coisas circenses, ele tentava ser engraçado, e eu não ria, então ele tentava mais ainda e ainda e ainda, até que eu disse que ele não era engraçado, e pare, por favor. Acidez. E lá é minha culpa se os palhaços não são engraçados? Toda a montagem, a maquiagem, o nariz, a roupa, feitos para ser engraçados, não são. Previsível demais, e poucos são os que sentam ali e pensam "agora isso vai ser engraçada", não sou um deles. Pare, palhaço. O único palhaço de fato engraçado é o Ronald Mcdonald, pois ele ri e te faz graça enquanto entope suas veias. E somente agora, olhar essa cena de fora, como memória, fazia aquilo engraçado, brigar com um palhaço talvez seja um dos atos de violência gratuita mais extremos. E eu penso que esse café está bom, e que talvez o sono passe a vir cedo, e pelo menos rezo por isso, pois não gosto de pensar que dormi às oito da noite só porque ficara acordada vinte quatro horas seguidas, entre praias e uma festa que não teve previsão para acabar. Às seis da manhã, a alvorada já dá lugar à imperfeição, o café acaba, sento e vou ler Saramago, que sem cerimônia nenhuma, me ensina sobre a natureza humana, como se todo aquele conhecimento viesse de graça (com pagamento tardio, pois ser humano depois de Saramago é tarefa de Hércules). (esse é o meu jeito de dizer) Bom dia (mas ainda gosto mais da noite).

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[escrito no avião]

Semana passada recebi um e-mail, que entre má pontuação, falta de vocabulário e maturidade, entre outras coisas, dizia que eu escrevia mal. Li uma vez, passei para o próximo na minha caixa de entrada. Foi a primeira vez que alguém dissera que eu escrevia mal. Lembro quando eu tinha nove anos e comecei a escrever, no notebook da minha mãe, notebooks eram coisas exóticas naquela época, e eu tinha um mundo inteiro para descrever. Nada do que escrevi naquela época está salvo, mas achei uma cópia impressa de tudo numa pasta dentro de caixas de mudança (ah, as caixas) há algum tempo. Ri de mim, mas vi que comecei a crescer no meu útero, do meu jeito, ali. Lembro, ainda, da primeira vez que senti vontade, ainda aos nove anos, de pegar um papel e simplesmente escrever, era algo sobre melancias e ainda lembro da caneta que usava, do jeito como a janela reproduzia a paisagem naquele dia, era New Jersey, era primavera, eu amava aquele lugar, a caneta era vermelha, as folhas de fichário deveriam já conter um trabalho sobre Rosa Parks, o qual eu não começara fazer, e deus, ainda tinha uma prova de história vindo, quando História e Geografia ainda eram Social Studies. Lembro da forma das coisas, e lembro que só a partir desse dia, dessa época, passei a tratar as coisas não só como coisas, mas como pedaços potenciais de um poema, de uma crônica, de uma prosa, sob o humor negro (que ainda tenho) e o olhar crítico, que impregnou em mim, hoje ambos em estado crônico, sem cura. Lembro que só aquela época batizei o português como algo mais que o inglês, batizei-o de algo, que hoje entendo que dei-lhe o título de língua materna, aos nove anos, como se finalmente eu tivesse que escolher entre o inglês e português. Me pego muito mais que frequentemente pensando mais em inglês o tempo inteiro, que em português, mas quando o papel está em branco, e eu sinto a vontade dos nove anos, então tudo o que eu quero dizer é em português, a língua do meu berço, que viajou o mundo comigo, foi nômade comigo. Experiências a parte, chegando ao Brasil, tive que convencer uma professora de redação na quarta série que eu tinha escrito um artigo sobre como a água iria acabar, já que a Sra Dona havia me dado um sete, corrigindo-o para dez, quando percebeu minha irritação sob a acusação dela, de que eu havia copiado da internet, e eu era só uma criança da minha época, de dez anos, que não mexia em computador ainda, não como as crianças de hoje. Tive professores incríveis, que me incentivaram, viram que eu via mais que apenas um dinossauro (piada interna, devidamente explicada no Pão-com-açúcar, para os que se interessarem assim tão profundamente). Percebi que eu realmente gostava da coisa quando uma professora me escolheu na classe para participar de um concurso que tinha final na Suiça, dava importância à coisa. Na época, eu iria fazer jornalismo, eu sabia disso – aquela época que nós sabemos com tanta certeza coisas demais. Comecei a rondar pelo mundo dos blogs aos onze anos, por essa época, conheci a Maísa, que acreditou em mim, além de segurar minha mão e não ver apenas dinossauros, também. Gosto muito das madrugadas para escrever, é tudo tão quieto, às três da manhã tenho surtos de necessidade de escrever, é uma força que me levanta da cama e me põe de castigo de frente ao computador. Não reclamo, gosto disso demais. Em andamento, nesse momento, o “Pão-com-açucar”, que é do acaso; abandonei a coitada da Erin no “Tresloucada”, mas ela ainda vive dentro de mim e ainda resolveremos os espaços em branco do livro; tenho o “Guarda-roupa anatômico”, que são algumas poesias, que eu estou editando com carinho agora; tenho a Vreni, sem título, de tão esboçada ainda que é, que me desperta de vez em quando de noite para me escravizar; tenho uma coleção de crônicas sobre a Rússia, a coletânea a qual eu chamo carinhosamente de “República do Chá”, e é mais um relato de sobrevivência e how-to que qualquer outra coisa. Tenho mais mil coisas acontecendo na minha cabeça, personagens nascendo, outros eu querendo matar, outros, em sua maioria, com vontade própria... E sei que tenho coerência e um eu-lírico suficientemente bem alimentado e bem-lido para publicar aqui uma coisa ou outra, que não é 2% de todo esse mundo da minha cabeça, que é esse salão oval em mármore branco, com uma cadeira no centro. Pois bem. Se me perguntarem, não quero mais ser jornalista. Não preciso que alguém me publique para eu ser escritora, o que eu preciso é escrever para mim, para evitar úlceras, para quem interessa. Por isso quando li aquele e-mail pensei que era a primeira vez que alguém dizia na minha vida inteira que eu escrevia mal (sendo que o próprio Sr não entendia muito de pontuação ou acentos...), e é nessas horas, minha gente, que o riso é a única reação disponível, e além do mais, gosto do que escrevo maioria das vezes, e isso é muito mais importante para mim. Sou egoísta, egocêntrica, nunca escondi isso. Gosto muito mais ainda de críticas, das construtivas, então, pedido, da próxima vez que me escreverem mensagens odiosas, além de checar a ortografia, cheque o sentido da crítica, que não tinha argumentos, e eu trabalho com argumentos mais que com verdades absolutas e opiniões sem chão, vindo de um estranho totalmente burro. E a crítica que posso vir a aceitar terá de ser vinda de alguém que escreva, que leia,¸que viva esse mundo, que tenho um mundo-eu disponível, nessa úlcera, nesse descontrole de palavras. Campanha: CRÍTICAS – saiba fazê-las ou fique parecendo um completo imbecil na minha caixa de entrada. Não mendigo amor, agarro-o quando ele está disponível, e acima de tudo, não mendigo admiração. O salão oval da minha mente, da onde sái tudo que escrevo, é meu, fica quem gosta, quem não gosta, ou argumenta comigo os porquês e os quês, ou se retira sem fazer barulho, pois isto aqui é um ambiente oval, e faz um eco danado. E se para alguém que escreve coisa tão inútil e se dá o trabalho de me mandar, fico pensando que se lhe sobra tempo para não gostar de mim, vá dar palestras sobre gestão do tempo e fique rico, porque tem gente querendo saber como conseguir ter tanto tempo de sobra a ser desocupado assim (contanto que o resultado das palestras nos ouvintes não seja se tornar um ser patético como o Sr Coitado me pareceu). As pessoas que admiro em sua maioria são escritores, gente que sabe argumentar e montar frases direitinho, e deles (ah, deles) eu receberia todas as críticas do mundo, as piores me pareceriam sonetos. Agora vou fechar o computador, que a bateria quer morrer, e eu estou prestes a pousar em solo cearense, a madrugada vai vstupando [do russo, entrando], e eu corro louca no salão oval da minha mente, borbulhando idéias, formando frases melhores, acabando, finalmente, sem pressa, sem prazos, sem dever a ninguém, o meu primeiro livro publicado a quem interessa. Não adianta, sou assim: pego as opiniões boas para mim, vivo com as minhas certezas argumentadas, e ignoro gente mentalmente inferior sem qualquer cacife para me criticar. Só argumento com gente no mesmo nível que eu, por isso, se se perguntam, não respondi, já falei que a única reação disponível era o riso? Ceará, tou chegando. Me espera, Iracema.