domingo, 26 de dezembro de 2010

Ser circular é difícil

Desgraça, eu disse, me enrolando mais nos lençóis, como se aquilo fosse me prender mais a cama e eu não tivesse que levantar, que desgraça, repito, e pratico um ato de auto-mutilação com pouquíssimo efeito, já que é contra a cama. Saio de casa, coisas na bolsa, e toda a coragem necessária para enfrentar o Sol do Ceará ao meio-dia. Ora, ao menos venta, Rianne, eu me conforto, já que há um mês atrás passei um tempo com os meus avós no Piauí e foi no mínimo panque, minha gente. Por que eu não sei do resto do mundo, mas eu gosto dos banhos que têm prazo de validade de refrescamento de pelo menos uma hora, não gosto quando saio do chuveiro e já começo a suar, e nada realmente concreto consegue vir a minha cabeça ou substituir o pensamento de "QUE CALOR, QUE INFERNO, POR QUE?". Pelo menos venta, continuei. Perdi o ônibus, aparentemente eu tinha que fazer sinal e estava burra e recém-acordada demais para conseguir funcionar. Esperei mais vinte minutos pelo outro, enquanto fazia pequenas notas sobre como Fortaleza precisa de um metrô ou pelo menos de ônibus o suficiente. E sento, de fones, com a minha cara que diz NÃO em letras garrafais. Não sou antipática, mas não gosto de chamar atenção. Em Moscou, e lá vou eu, sou só um fantasma na multidão, ah, continuou, quem não gosta de Moscou não gosta da vida. O ônibus finalmente chegou, vou o caminho pensando que às vezes as escolhas erradas levam para uma escolha mais correta do que a antes disponível, e não fico com tanta raiva de mim. Conheço os meus monstros, e os adestro, com tempo e paciência, ambos os quais eu não tenho. Desço e entro no Aldeota, procurando a menina dos olhos castanhos gigantes. "Vamos, porque esse banco está me incomodando, e acabei de ficar pobre", e assim, uma conversa continua, um "oi" ou um "há quanto tempo" é totalmente dispensável, a nossa saudade luta para existir, pois existe essa conexão que não a permite. E vamos reclamando mesmo, e rindo das desgraças, em direção ao Del Paseo. E eu penso que acordar cedo foi totalmente digno, enquanto M. carrega um CD de forró que ganhou na compra de uns abadás. É lógico que o Del Paseo virou uma selva e não há lugar para sentar na praça de alimentação, então descemos para as Lojas Americanas e analisamos o comportamento das pessoas que demoram para escolher biscoitos, incluindo o nosso. "Eu comprei um tênis que eu gostei", o orgânico ou o totalmente gordo, "mas ele me machuca no calcanhar", o orgânico e um segundo que não estava na equação, "acho que as coisas que eu gosto passam a me machucar, sei lá". Incrível como um tênis às vezes é capaz de produzir verdades absolutas. Sentamos lá fora, falando de tatuagens e seus significados, de como o círculo envolve todas as reações e ações que existem, de como o círculo é uma forma perfeita e finalmente, de como é difícil ser circular. Liberdade, ela fala sobre liberdade, e eu fico contento por ter mantido na vida as pessoas que são eloqüentes o suficiente para gritarem que são livres. E falamos sobre amor, mas a conversa não vale a pena. De repente T., a terceira extensão de nos, personagem ausente de cinco anos na minha vida, aparece, e como quem continua uma conversa pausada há cinco anos, diz: "Vamos, preciso comprar sapatos", na maior naturalidade. Viro para M. e digo: "Isso é o destino usando toda a Ironia disponível", e ela ri porque aquilo é muito aleatório e impossível, "se a gente tivesse combinado, não tinha dado certo". Próxima coisa que eu sei é que o vendedor de sapatos está tirando uma foto nossa, a que vamos olhar daqui há vinte anos e rir. M. vira e diz "meu deus!", como se descobrisse algo totalmente novo, um sapato, talvez, e completa: "... vocês são minha vida inteira...! Vocês são a cara da minha vida inteira!". E apesar dos tênis que machucam, e a dificuldade que há em toda a coisa de ser circular, há espaço no mundo para se ser a vida inteira de alguém. Se me perguntarem, a vida é uma puta com acne vulgaris, mas não é impossível querê-la bem ou que ela traga coisas boas, nem que seja uma vez na vida e que seja na forma dos amigos mais velhos que você tem, agora em formato de joãozinho-de-barro, os únicos que fazem o ninho contra o Sol. E repito as pequenas frases porque amanhã é dia de encontrar um joãozinho-de-barro, apaziguante. Pontuo.

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