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Eu vou consertar sua cabeça.

[Estado de espírito: natalizado e gordo]
[Escutando: Stomach, Current Swell]




[Corretores de joanete, tunando o seu pé desde 1980]

Talvez eu perca a sanidade. Hoje.

Alguém tinha levado um tiro. Tráfico de drogas. Gente que usa bigode. Gente grande. O trambolho debaixo do meu pé, a bala. Afastei o pé esquerdo e a bala ficou entre os dois pés. Estado semi-acordado de consciência.

E os olhos que acordam num domingo às 8 da manhã, sentindo os aparatos de silicone para a joanete.

Eu estava na aula de alemão quando ela me puxou pelo braço, sem escrúpulos quanto a professora e quebrando o clima que as aulas de alemão têm. Ela sempre falava perto demais, doce demais, gentil demais. Foi ali, me encurralando naquele corredor que ela disse que seria bacana falar para toda a escola, na sessão de línguas estrangeiras, um pouco sobre mim. E em cinco línguas, bem bacana.

Entre todas as coisas que se podem acontecer num Domingo, entre todas elas o destino me reserva a tarefa de contar para o mundo, em cinco línguas, seguidamente, como eu vim parar aqui, porque eu não tenho otchestvo [segundo nome russo que deriva do primeiro nome do pai com terminação -ich ou -ova], praguejar sobre paz mundial e unidade humana.

Qual é a sua história.

A verdade é que ali na frente de todos eu poderia ter descoberto uma nova espécie de dinossauro, a Royal Academy preparava um encontro com a Rainha da Inglaterra, mas ali na frente, eu era só um alguém com uma nacionalidade exótica.

Quando entrei na escola, depois de tomar um café tão amargo quanto o dia de Domingo, ela me achou no corredor e veio gritando na minha direção. Vá para a sala 13. Pois que seja a sala 13. Fora o cenário escolhido para a loucura.

O meu entendimento de sanidade nunca fora uma coisa concreta, mas o de insanidade sempre pareceu tão vívido e claro.

Durante as olimpíadas de alemão e inglês, a primeira a qual depois de ganhar o primeiro lugar passei a ser tratada como esse deus grego de porcelana, vendo meu nome em cirílico no mural ocupando o primeiro lugar, aquela fora a minha sina. Eu falava alemão no teste oral, em inglês com o David, em russo com os russos na sala, e por algum motivo de respeito a si mesma, português, em alguma esquina dentro de mim. Minhas pupilas dilataram. Era impossível ligar e desligar uma língua e ligar outra, ficava uma em cima da outra, empilhadas. A verdade era que a estátua de Ceres, naquele salão no vaticano, que apesar da minha falta de catolicismo me maravilhou, fazendo-me usar todos os meus sentidos ao mesmo tempo, a Arte cumprindo seu papel. A verdade era que a maioria daquelas estátuas gregas estavam rachadas. Eu nunca fui um deus grego a ser admirado. A perspectiva de viver a vida sendo uma estátua me deixava sonolenta.

Mas a minha coordenadora que me encurrala achou que seria uma idéia ainda mais grandiosa se agora eu falasse também em espanhol. Via-se sorrisos na platéia, enquanto eu pulava de alemão para espanhol, de espanhol para inglês, de português para russo. Esse garoto logo na minha frente sorria como se tivesse se apaixonando. E todas aquelas pessoas pensavam consigo que enquanto elas perderam tempo de alguma forma, eu aprendera cinco línguas, e sem nenhuma pretensão profissional. Cinco? Quatro, o espanhol por tão perto o fiz distante. Fácil demais, não quero.

A verdade era que eu não sabia o que eu queria da vida, nem se a vida me queria. Ou pelo menos foi o pensamento que adubou as minhas vocações por um bom tempo. Quantas vocações pode-se ter? Quantas vontades pode-se sentir? Quantas coisas uma pessoa tem capacidade de ser? Tinho visto esse cara na TV uma vez que tocava cinco instrumentos ao mesmo tempo. Cinco era muito. Cinco línguas também eram muitas. Mas sem nenhuma pretensão, não mirando a lugar nenhum...

O quadro era de uma vida atrás de uma mesa, de conversas com papéis e submissão a um monte de leis e normas que não era nada naturais, apenas criadas, impostas. Eu não podia, abominava uma carreira de diplomata, de advogado. Alguém nascia brasileiro e tinha que concordar com aquilo tudo, mesmo se não concordasse, e se contrário fizesse, era preso, multado. Nem todos concordam, mas todos se submetem. Ser uma pessoa de papéis, viver essa rotina sem velocidade, 20 quilômetros por hora, ameaçando frear, não era a imagem que eu queria ver no quadro.

E ainda o conceito de nacionalidade. Toda aquela porcaria que chamavam de nacionalidade era nada mais além de papéis. Todos nós éramos tão iguais que a visão de uma multidão dá enjôos. Todos nós queremos rimar, seja em russo, seja em português, seja em inglês, é sempre a busca da harmonia dos sons, uma rima é sempre um som se repetindo. Todos nós éramos patéticos o suficiente, igualmente tolos e vazios. Um papel me dizia que eu era brasileira e isso não me punha em lugar nenhum de desenvolvimento mental do lado de alguém possuindo um papel que afirmava uma nacionalidade russa. Não. Somos todos filhos de Roma. Eu não podia exercer uma profissão sem acreditar no princípio da mesma. Viver a vida como um hipócrita, atrás de uma mesa, eu tinha imaginado mais movimento.

[Yuri com um sorriso do mundo inteiro]

E eu não podia ser um astronauta. Eu iria trabalhar vinte anos na preparação de uma missão que iria durar algum par de horas. Vinte anos depois eu iria me odiar, e não só me odiar, mas tudo que eu tinha visto, o universo inteiro. Não sabia como se criava o ódio pelas estrelas, mas nessa perspectiva, ele era muito provável de ter sentido, era um ódio perigoso. Eu pegava a mini-eu pela mão, que sonhava em usar aquele capacete e sorrir como o Gagárin sorria, dentro daquele capacete, eu iria sorrir e seria tão sincero que o mundo inteiro iria olhar para mim (A vida ainda fez a bibliotecária russa me dar de presente um postal do Gagárin sorrindo). Era um sorriso que dizia adeus, era um sorriso que começava de novo, de onde quer que tenha parado, era um sorriso que ia para onde ninguém antes havia chegado, eu queria virar um cartão postal do lado de Gagárin. Eram pensamentos densos para uma criança de cinco anos, mas eu os manti, só para chegar ao ponto de achá-los irrealizáveis. Deixar crianças sonharem é algo perigoso e desastroso, só para chegarmos à idade adulta e ver toda a impossibilidade. Mas não deixar uma criança sonhar é igualmente cruel. Passar a odiar estrelas é igualmente terrível.

A simples idéia de ser jornalista me dava enjôos, de ter que escrever algo que eu não queria escrever, enchendo páginas e páginas de porcaria urbana, confirmando o fato de que vivemos numa selva de concreto. Eu mal escrevo o que eu quero, vou contra a corrente de mim mesma só para fazer pirraça, só para dizer que eu sento aqui e escrevo quando eu quiser, não quando a vontade quiser, assídua. E ainda os hamsters que vão cagar em todo aquele jornal. Aquilo não podia ser chamado de realização profissional.

Outra profissão que parecia me mostrar o caminho direto para a hipocrisia era a de psicólogo, psiquiatra, um neurocirurgião sem bisturi. Era alguém que tentava ser o reflexo de alguém transtornado, resolver problemas, problemas. Mas se o ser humano anda em duas pernas porque tem a capacidade de ver o problema e achar a solução, quem era aquela pessoa que me pedia para sentar em um divã, me prometendo uma solução? Ninguém é tão estúpido para não achar uma sozinho. Toda essa responsabilidade do psicólogo e do psiquiatra, de ser capaz de resolver os próprios problemas e de seus pacientes, parecia consistir numa capacidade extra-humana, acumulando funções. Injusto e improvável.

Então eu achei que poderia pilotar aviões. Eu achei que poderia sentar ali na cabine e deixar tudo no auto-piloto. Eu tinha tantas coisas a fazer, tantas estantes a organizar na minha biblioteca mental, antes manter o controle da cabine. E tudo aquilo parecia ter velocidade o suficiente, movimento, o que eu precisava. E eu iria ver as nuvens tão de perto que elas perderiam a forma. Mas se agora eu tinha a habilidade de voar, iria perder a habilidade de ter uma identidade. Um quarto de hotel a cada aeroporto, a mesma mobília, quadros de paisagens, gerentes sorrindo, tudo impessoal demais, sotaques de aeromoças neutros demais, eu iria ser um nômade, mais do que já fui a vida inteira, e as paisagens iriam se repetir, e muito cedo eu teria tido o suficiente das nuvens, e o pensamento de que talvez elas sejam mesmo doces iria evaporar-se para saber que elas eram tão breves que mal podiam ser admiradas. Tudo durava um único momento e as formas de jacaré e trem que as nuvens costumavam ter, como em James e o pêssego gigante, elas tornariam a ser uma mentira. Nem tinha gosto, nem tinha forma. E eu tinha Madame Bovary dentro de mim demais, quero emoções, não paisagens. Eu teria que explicar para dois sentidos meus que eles deveriam parar de sentir as nuvens dessa maneira, depois de tantos anos. Nada pior que viver a vida decepcionada com o céu, onde nós depositamos todas as nossas esperanças de que ainda existe algo incorruptível no mundo, algo inocente, naquele infinito de azul anil. Mas era tudo tão breve.

E eu já tenho todos esses anos nas costas.

A verdade era que eu nunca quis fazer uma escolha para a vida inteira. Toda semana eu quereria mudar de carreira, de profissão, chutar a rotina. Eu não sabia o que fabricar de mim. Nada tinha movimento o suficiente. E se tudo ameaçasse frear? A convivência comigo seria insuportável. Eu quebraria espelhos.
A única coisa que eu fizera da vida fora vir para a Rússia só para desafiar os que diziam que seria frio, que só tinha balé e vodka. Então eu perguntei-me porque não dançar balé e beber vodka no frio. Foi o espírito anárquico que me trouxera tão longe, eu competia comigo mesma para ver quem ia mais longe, mas no estádio eu sozinha corria. Era patético, era um jogo sem nada definido, e a falta de definição, era eu.

Então me disseram que eu poderia viver essa vida sem horários, tratando de pessoas, não papéis, que um dia eu operaria um coração, e no outro dia um intestino e que esses órgãos eram coisas completamente diferentes. Tudo isso me dava uma perspectiva de absolutamente nenhuma rotina, chegando a um ponto que chegaria a me irritar, mas entre eu e o meu espírito anárquico, concordávamos que aquilo prometia uma eterna competição, pouca probabilidade de frear. Nada de vitória e depois a calmaria. Apenas a vida querendo acabar e eu correndo para juntar as abas, me desafiando e mais e mais, eu achando soluções e na maioria das vezes morrendo por dentro para achá-las, é sabido que na história da humanidade a coisa mais difícil de se fazer é consertar um ser humano, em qualquer sentido que a frase possa vir a ter. E eu operaria cérebros. Entre todas as coisas que se consertam: televisão, celular, portas; eu iria consertar cabeças. Eu vou consertar a sua cabeça.

E nada mais me dava a sensação de poder que saber que as pessoas iam pedir para eu consertar as suas cabeças.

Incluí no meu discurso em cinco línguas que eu me tornaria uma médica, sem a parte de consertar cabeças. Os pais que estavam ali deram suspiros, eu fora adotada naquele momento por uma dúzia de casais, a brasileira que falava cinco línguas e quer ser médica, suspiros.

“A garota mais inteligente do mundo”, gritou Elena, enquanto eu vestia o casaco, depois de apanhar minha insanidade naquele auditório, “parabéns, estão todos maravilhados!”, e ela veio falando perto de novo, “a garota mais inteligente do mundo!”. Pro inferno a inteligência, eu queria mais, "mais tequila, mais amor, mais é melhor".

E isso tudo só porque eu era brasileira, imagine quando eu estiver consertando cabeças.

Mais tarde, no Brasil, quando eu tinha, literalmente, um cérebro na mão numa aula de anatomia na UFC, aquilo era simplesmente certo, e todos esses anos de "O príncipe" de Maquiavel na minha cabeceira dosaram-se muito bem.


****

Riri informa que está em processo de edição final de "Pão-com-açúcar", porque finalmente achei o que precisava para o começo, por isso aconselho a quem já leu que releia quando postar o trambolho inteiro aqui, gosto dele muito mais agora. Além de que o final está do jeito que eu queria, com esse meu TOC da primeira frase ter que ter uma conexão com a última, só assim fico satisfeita. Existem pequenos momentos que eu digo "isso está tão bom que está bom demais", um deles foi com um capuccino que fiz outro dia, o outro, espero, quando acabar e ler numa sentada só o que escrevi. Enquanto isso, happy holidays pra mim e para quem quiser.


Aliás,



Cortar a cabeça de um porco no Natal não tem preço. Só para ter certeza que esse post tem a macabridade o suficiente. E sonhar com Mark Hoppus e com um show do Blink que vai ser meu em 2011? Não tem preço. Assim é realmente muito fácil amar o Natal.

Pontuo.

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