sexta-feira, 21 de maio de 2010

Desbravadora do Sul


[A rota Kirov-Nizhny-Saratov-Volgograd-Astrakhan e todas as coisas entre ela]


[Monumento a Pyotr Perviy, o Senhor criador de São Petersburgo, à nossa geração e todas as coisas ligadas a ela]

Eu poderia contar sobre a longa aventura em direção ao Sul da Rússia, sobre o bronze e o Sol insuportável, sobre sorvetes e algodões doces e o rio Volga querendo ser praia, mas eu me restrinjo a falar das grandes pessoas que conheci. Ainda saindo de casa para ir para a vokzal [estação] conheci um Senhor Bêbado e sua filha que estavam atrasados e deram uma carona num taxi para a Brasileira atrasada, o Senhor B ia falando sobre futebol e eu ia tentando convencê-lo de que o Brasil não vai ganhar a copa, a filha ia em silêncio, como se odiasse o pai bêbado mais que aquele clima de primavera de dez graus, o resto da Rússia sorria em trinta graus, mas Kirov é sempre um aborto do clima. Chegando em Nizhny minhas italianas, e depois mais italianas e francês e Chao, a chinesa, matamos tempo até o próximo trem para Saratov. Um casal de trapezistas parecia um desses jogados da União Soviética que poderiam ter PhD em qualquer coisa, tiinham um filho que acordava, comia, e dormia e repetia o ciclo, dividimos a cabine do trem por três dias (a cara crua de quem ficou num trem três dias para atingir o Sul). Chegando em Volgograd conheci Kiril, ou a sua estátua, o Senhor Criador do Alfabeto Cirílico e também Sergei Kirov, o Senhor Revolucionário. A konduktor [uma espécie de aeromoça] do trem disse estar feliz por termos achado o camino de volta para o vagão e seguimos no mesmo trem com os trapezistas para Volgograd, ex-Stalingrado. Minha italiana, minha guatemalana e a difícil existência de um alemão pós-Dia da Vitória na Cidade da Guerra. Chegou o resto da América Latina, Alemanha, representante do Brasil número dois, passamos o dia em Volgograd, dormimos no planetário, vimos monumentos, conhecemos militares da guarda real que faziam a troca do guardas no Super Monumento aos Mortos da 2a guerra, uma espécie de Cristo Redentor, uma fortaleza em pedra. Uma parede dizia "Os alemães queriam ver o Volga, o Exército Vermelho lhes deu essa oportunidade", ora com uma pontada de ironia, ora com uma pontada de crueldade. Um rapaz no quisoque de cartões postais me perguntou se eu não queria tomar um chá com chocolate, não entendi e peguei meus postais com o Cristo Redentor Russo. Começou a chover, e a imagem do fogo eterno do monumento e toda aquela melancolia e aqueles guardas e aquela seriedade, junto com as nuvens carregadas parecia algo bem próximo do fim do mundo. Não era. Passamos no supermercado para comprar coisas para o trem e na próxima manhã de alguma forma chegamos vivos e o mais importante, com vontade de viver depois de tanto trem e clausura. Em Astrakhan conheci a Babushka Lucia, uma senhora que ama alimentar quem tem boca. Encontrei com o meu alemão, a suiça e a chilena, grande Zhenya e MC, e alguns russos que de fato tinham algo na cabeça. Conhecemos um deputado que não tinha opinião própria sobre os conflitos da Chechênia e nenhuma resposta para a pergunta da Colombiana sobre a venda de armas da Rússia para a Venezuela. Conheci um russo X que me emprestou sua bicicleta e eu fui pedalar com o curso do Volga. Além do Volga, em Astrakhan encontra-se o Volva, uma pessoa inteligente que é capaz de resolver os conflitos do mundo e pessoais em uma mesa redonda. Eu diria reencontrei, mas o tempo foi tanto sem o mesmo, que eu diria que conheci o Sol e a capacidade de bronzeamento em um barco Volga a dentro. Resgatando a melanina em mim. No trem de volta, em "Schade, sehen uns in Deutschland", despedimo-nos e quem viajou no trem dessa vez não foram trapezistas mas comediantes de um programa de tevê famoso na Rússia, tirando o fato de que eles eram bem estúpidos e sabiam mais de futebol brasileiro que eu, quando um dos cinco falou de Roberto Carlos eu achava que ele conhecia o cantor mas aquilo não fazia sentido porque eu não me encontrava na 87a dimensão. Tinha um muito bêbado e eu achei que deveria ir dormir. Na outra manhã a militsya [polícia] me acorda perguntando porque estou nessas condições, e eu não entendo, abro o olho e ouço algo como "procura de narcóticos", e como se não bastasse, a militsya jura que a coisa que eu tenho que usar entre os dedão e o outro dedo por causa da joanete de silicone é droga. Eles revistam todos menos as babushkas e os visivelmente russos, chama-se racismo. Me fizeram descer da cama e me encher o saco. Depois de alguma violência gratuíta com as minorias étnicas da Rússia e sem achar nada eles se foram. O trem e o colosso continuaram a rolar. Chegando de volta em Nizhny fomos para o Kremlin da cidade, tomamos café no Mcdonalds, andamos pelo centro, topando com essas estátusa de gente comum nessa Avenida igual a São João em São Paulo. Pegamos o metrô para a vokzal e parte de nós foi para suas cidades, a alemã e a japonesa resolveram passear e eu fui com a Iva almoçar. Sentamos lá por três horas e poderiam ter sido mais três. Depois fomos para o Respublika, tomamos um café, descobrimos que o meu bilhete estava errado e compramos outro. Só saí de Nizhny às 11 da noite, pouco depois de sair do Mcdonalds e ver uma cena ora contraditória, ora cativante. Um jovem militar sentava com sua esposa e seu filho, ao qual dava batatinhas americanas. Peguei o trem, dormi. Acordei em Kirov. Eu não queria estar aqui e ainda não quero. Segunda-feira tenho exames e daqui a uns dias vou para Moscou e Piter. Mas conheci de volta a minha cama e a saudade de toda essa gente que eu amo apesar da existência do Sul e do Norte e a da distância. Aprendendo chinês porque o russo não bastou e porque eu tenho essa insatisfação com o que é fácil. Eu chego aqui amando o mundo e meus amigos queridos de todos os pontos dele, e minha mãe começa a falar que o mundo vai acabar mesmo em 2012 e que o Brasil vai afundar e coisa e tal. E eu digo, pois que se acabe, morrerei com um sorriso no rosto.



Pontuo.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Meu português brasileiro guarani e a influência dos pés gregos na história da humanidade sem letras maiúsculas.


[Na embaixada brasileira em Moscou habitam pessoas prestativas e simpáticas e simplesmente]

Tudo bem, obrigada pela informação. Botei o celular do lado e fiquei olhando pro meu café dar voltas dentro da chícara. Zona eleitoral. Moscou. Idade. Dezessete. Bizarro. Quando eu tinha quinze anos eu achava que não ia votar nunca, eu saía em noite de Lei Seca antes de eleição achando que o mundo inteiro fazia aquilo menos eu, e de qualquer forma, nós achávamos vinho. Antes de tudo, o que me fazia tatear era que aquelas pessoas da Embaixada em Moscou não só foram gentis (por que diabos a gentileza? depois de um ano na Rússia você não aceita mais esse tipo de comportamento vindo de funcionários de qualquer espécie), mas falavam português, e quando eu as ouvia falar em russo ali pelo fundo percebi que nós tínhamos o mesmo sotaque e a mesma entonação que nenhum brasileiro consegue superar quando fala russo, esse nosso monotom bonitinho em português e mania de nasalizar uma língua que não tem nazalização só porque ali nem um "n" ou um "m". E então o Senhor Simpático disse que minha zona eleitoral seria em Moscou e que eu comparecesse dia tal e tal com isso e aquilo. Zona eleitoral, Moscou. Sem lei seca. Então achei que eu deveria tomar o mínimo de interesse pelo Brasil e vim aqui pesquisar sobre os candidatos. Bebi meu café, sinceramente, o melhor café que eu já fiz na vida. Nâo sei se isso se deu pela mistura do falar português e beber café em seguida - tudo envolve a língua, certo.

Dilma. Dilma me parece apenas uma senhora reclamona que usa óculos, e eu não estou sendo prepotente, mas acho que ela não seria 2% do que é sem a ajuda do Lula, e eu não concordo com isso, acho que deve-se construir a própria reputação, não pegar emprestado em reflexo a de alguém. Não, minha senhora, não voto em você, me dê a passagem. Ciro, da geração política dos meus pais, e eu fico com essa impressão de que se meus pais não tivessem saído da política seria engraçado vê-los tomando conta do país. Eu tenho essas memórias de infância perdidas onde o Ciro habita mas isso não vai influenciar no meu voto. Mas já sendo prepotente, não votaria nele e ficamos por essa mesma, como dizia o poeta (adoro desmembrar citações de autores que eu não lembro), "ah, se a juventude soubesse e a se a velhice pudesse...". Daí andando por Brasília, fazendo cara torta para aquela modernidade do Niemayer, não concordo com essa coisa de construir cidades em formas de avião. Ei, Brasília, eu entendo a sua importância para o país, e graças a vocês São Paulo e Rio pararam de se puxar os cabelos, mas acho que uma cidade tem que ter energia, história, e as anteriores nem se comparam com Brasília, são mais fundas... Então eu ainda estou andando por Brasília e me topo com Serra. Serra tem um twitter. Eu acho uma graça quando gente dessa geração tenta usar internet e descobre gadgets que nós já usamos há dois anos ontem e acham que é a maior novidade. Chega de acidez. A verdade é que apesar dos pesares, sempre achei que São Paulo estivesse bem em ordem com o Serra, o painel me falava que eu tinha 120 quilômetros de engarrafamento mas tudo bem. Acho que eu discutia política melhor quando tinha doze anos, eu escrevia esses textos cheio de fervor e revolução, que na verdade apontavam só mazelas. E olha que não era difícil de achar. Mas hoje em dia que eu aprendi a ter mais 3% de paciência que naquele tempo, não tornei a escrever sobre o tema. E como o voto é secreto, paremos por aqui e finjamos que a lei está sendo cumprida. Mas concluo dizendo que Serra é fã do Veríssimo, só por dizer.

Realmente encantada com Chico Buarque, ele vem nessa linha de Veríssimo - Saramago - Chico Buarque, dos últimos três autores que me salvaram a vida nos últimos anos. Esses são tipo raro que não habitam qualquer prateleira, a gente tem que ler muita merda até achar um que valha a pena e o desmatamento. Eu sinto que todas as florestas do mundo deveriam ser devastadas quando leio pessoas brilhantes do gênero. Até o último pau-brasil. Que o presidente do Brasil seja o Buarque.

Acho que se chinês fosse minha língua materna eu iria preferir que ela ainda fosse português, como tem sido há dezessete anos e quinze dias. Realmente, meus caros, eu sento ali e explico esse tipo de coisa para a Valya, a guria que vai para Portugal:

Se você disser "govêrno", significa pravitelstvo, mas se você disser "govérno" (levantando o dedo para mostrar a entonação), significa ya upravlyayu. Normalmente os verbos formam substantivos com a conjugação da primeira pessoa, mas às vezes acontece que o som aberto e o fechado não têm nenhuma conexão, se você falar "séde" significa rezidentsya, mas se você falar "sêde", daí já é jajda. Tudo bem, rasberyoshsya [você se arranja]. Entenda uma coisa, os italianos falam com as mãos, aqueles que falam espanhol com a língua, e aqueles que falam português, falam nosom [com o nariz]. O próprio nome do Camões é uma nasalização. Não se preocupe, eu morria para pronunciar sh e schsh em russo também, hoje falo borsch [nome de uma sopa] sem nenhum problema, e schshi [outra sopa]. Primeiro você tem que se acostumar com a língua, e uma coisa que eu aprendi com o russo é que você não contesta, simplesmente aceita e aprende. Olha, tem esse poema do Camões, o Brasil e Portugal inteiros conhecem, se você aprendê-lo tenho certeza que chegando lá eles te mandam para ver o presidente e ele vai te dar o cargo de Ministro das Relações Exteriores. Sério. Camões significa tudo isso. No mais eu não sei o que te falar sobre Portugal. [Confabulo se deveria falar que Portugal em sua essência é muita costa, muito bacalhau e muito sal e que os três fatores estão ligados um ao outro? Não, isso é preconceito tolo e mais tolo porque eu não tenho nada contra Portugal]. São pessoas muito católicas, sim. [...] Outro som que não tem no russo é o som de "qua", sim, feito um pato, se você não fizer feito um pato não funciona, assim, "quatro", "quadro". Uma das minhas palavras preferidas em português é alvorada, que não significa rassvet [nascer-do-sol], é quando o céu está alaranjado e os passarinhos cantam por volta das cinco da manhã, não se traduz, eu creio.

Entendem? Não se ensina. É por isso que na minha vida passada chinesa eu quis ter nascido em Portugal ou no Brasil. Daí ainda topei com esse português crioulo de Angola, uma música que falava assim:

rima pesada
tipo embondeiro
eu faço o que eu quero
canto para Angola
e para o mundo inteiro
no kuduro impero

sou palanca negra gigante
sigo a passada de Njinga Mbandi
sigo a corrente do Dande

logro o feitiço de Tomé Grande

por no mapa Oxaena
terra de grandes nomes do semba
arraso tipo kalemba
sou de Angola como a mulemba

mano jukula
(kimbundu)


Daí eu penso que gosto mais do meu português brasileiro querendo ser guarani que esse português querendo ser algum dialeto africano. Mas eu sou bem suspeita quanto a essa opinião. No Brás, Bexiga e Barra Funda fiquei sabendo de um quer-ser hino do Brasil no começo do século XX, chama-se "Protofonia do Guarani", surgiu quando essa coisa de ser brasileiro começou a existir, e com ela, o patriotismo, a canja que é o Brasil. Era isso o que consideravam ser hino brasileiro, foi uma das primeiras vozes do Brasil [e se eu não me engano não é isso que toca quando começa "a voz do brasil" no rádio?]. A primeira voz do Brasil eu não acho que tenha sido o Pero Vaz, acho que as missões de arte que foram para o Brasil e retrataram o que viam ocupam a função de voz brasileira primordial. E falando em Caminhas, existe uma cidadela no Sul da Ásia que se chama "Colombo", no Sri Lanka, e parece que de lá surgiu o chá verde? Declaração aleatória do dia.


[Colombo fora grande homem só porque o mundo é grande]

E para você, recifiense, que dança frevo, eis o que eu li há uns dias atrás.

"Исходной исторический контакт состоялся в 1804 году (...). Коробли побывали в порту Ресифи. (...) Гласит легенда, что во время их пребывания в этом порту, местные жители пригласили русскую команду на городской праздник и там, в разгаре весёлья, моряки пустились в русскии пляс. Их танец так понравился бразильцам, что они, быстро его освоив, со временем внедрили в местный фольклор. Так объясняется появление известного бразильского народного танца"


Trocando em miúdos e em português, o frevo que é de recife antes era dos russos. Vem esse flashback da minha infância num carnaval em Recife aprendendo a dançar frevo e o destino se selando e eu agora indo votar em Moscou.

E os gregos. Os gregos realmente têm me encantado. Eu tento muito falar "gregos" e não lembrar daquele poema daquele livro que eu achei num sebo e nem lembro mais o nome, e dizia "putas, gregos, gringos e seus dóllares", talvez nem nessa ordem. Mas existe em folhas amareladas no meu ex-quarto laranja. Não é essa a questão. De uns dias pra cá me pus a ler um livro de história de arte, e até agora ele me diz que arte nasceu sem noção de ângulo e como superstição, os egípcios desenhavam aquilo que queriam que acontecesse. E eles fizeram isso por muito tempo, ensinando arte como quem ensinava o alfabeto, com normas e traços pre-ditos. Então chegaram os gregos. Não, eles não mudaram a história. Mas descobriram um jeito de desenhar os pés sem aquele jeito bizarro dos egípcios e toda a coisa deslanchou. Os gregos pegaram o alfabeto e começaram a escrever o que lhes caia melhor. É por isso que eu digo:

"Prometeu, ou o cavaleiro alcoolizado"

As costas doiam
A cabeça pesava
Fragmentos da noite passada

Mono.
Estado mono de espírito.
Ressaca.
Pesa, a pesada.

Pesa no meu fígado.
Mas foi uma coisa que eu aprendi
quando pequena, garota.
Com a mitologia grega:
O fígado se regenera,
apesar do alcool fazer uma visita um dia
ou outro.

E eu escolho muito bem
em que deuses acreditar.
Esses gregos, que me dão desculpas
para me embebadar.
Sempre a frente do seu tempo.



[Um marco na história da arte foi a habilidade de desenhar pés no ângulo certo, aparentemente só depois de milhares de anos alguém pensou em desenhar pés corretamente, já eu, não os culpo, até hoje nós temos problemas maiores que pés, e os pés, na maior das parte do tempo, só suportam todos os problemas. Pés, não me venha falar de pés.]

Nâo lembro quando escrevi isso e nem porque, acho que quando eu tinha voltado a ler mitologia, na época que eu resolvi que leria não só a grega, mas a celta, a nórdica, folclore brasileiro e a bíblia. Vou continuando a leitura, apesar de achar injusto ler assim sobre arte da visão de um cara só. Tem vezes que eu vejo arte que não está no livro, mas acho que não existe esse olho supremo que olha em onipresença o mundo inteiro colecionando artes. Arte nem precisa ser um quadro. Pode ser um momento, como por exemplo, ontem, que eu andava debaixo da chuva e uma senhora me diz que meu cadarço está desamarrado. Segunda vez. Olha, se eu soubesse que as pessoas iam ser tão gentis eu teria começado a calçar esse all star antes.


["A besta voraz de Traal é um ser tão burro, que pensa que, se você não pode vê-la, ela também não poderá ver você"]


No mais, chega essa época do ano e eu tenho vontade de reler Douglas Adams, exatamente nessa época do ano, para os fãs, eu relembro que dia 25 de Maio é o Dia da Toalha, e é o dia em que todos nós andaremos com uma toalha para lá e pra cá nos defendendo da Besta Voraz de Traal. Lindo.

Estou lendo 100 anos de solidão en español, porque eu decidi que essa coisa de evitar aprender espanhol já chegou a esse ponto crítico e quando eu comecei a ler em português senti que havia algo de errado, faltando tempero. Peguei em espanhol e agora parece que o sal está ao ponto. Só espero que tudo isso não se misture com o italiano que eu venho aprendendo desde o começo do ano, mas tenho certeza que vai. Depois do russo, eu jurei para mim que de desafios só gaélico, o resto da minha vida serão línguas latinas. Mas eu sei que eu só estou dizendo isso agora. Eu tenho essa memória, eu, sétima série, sentada no transporte escolar, falando que "eu nunca vou aprender russo, que língua horrível", depois de alguém fazer uma piada, algo entre euvsky espirrovski. Eu já disse um monte de eu nuncas, e o bom é tê-los dito só para levantar o dedo ao meu eu que os disse e falar olha, agora, então.

Vou ficar aqui a tarde inteira com esses filmes soviéticos (eu tenho seis dvds inteiro deles, presente da minha professora de russo, salvando minha vida a cada dia), e esse livro de história da arte e essa overdose de Chico Buarque.

Vinte graus lá fora. E eu ainda tenho esse sentimento de que tudo vai por neve a baixo e que do nada eu terei meus constante -20 de volta, que eu até sinto falta. Prefiro sentir frio que sentir calor, e acreditem, eu venho suando feio um porco, dá pena de me olhar na rua. Acho que isso explica toda a coisa dos cadarços e as pessoas gentis. É bizarro sair na rua só de moletom e achar que eu voltei pra São Paulo, "tocou para a Avenida Paulista"¹, e com a sensação de estar esquecendo algo importante, tipo um membro, as pernas, os braços, algo neobxhodimo [indispensável] para a vida, nada como ammigdalas (ah, esperta, as amigdalas você já tirou), o apêndice ou os dentes cisos (removidos os quatro de uma vez, também, amém) - sair sem casaco é bizarro assim. A primeira vez que entramos na casa dos menos trinta fez -33, trinta e três exatamente, e na escola as pessoas me olhavam ora com dó, ora com orgulho. Agora essa transferência de inverno para inferno. Juro. Saí agora para comprar água e tinha esse senhor afinando uma guitarra sentado na calçada, alguém fala pro Gombrich que isso também é arte.

Preciso, na verdade, ir no correio enviar meus livros e casacos para o Brasil que eu não tenho a intenção e a força e a vontade e o muque e as malas e o espaço para levar em avião. A ordem que eu os li quase contam a minha história russa. Bonito, livros contando história que não são a história contida neles.

Ou o mundo derrete de calor nessa gosma que parece negativo de filme em cores, ou eu suo todos os 70% de água da composição corporal. É assim: ou eu passo o dia tomando sorvete, ou querendo tomar sorvete. No meio disso com a vontade do meu violão no meu ex-quarto laranja, e desde já lanço um acode para quem irá afiná-lo, porque vou trazê-lo comigo pra cá e vão ser tardes mais interessantes com o meu velho violão. Que eu não sei afinar. "E não queria mesmo outra vida"¹.

[¹ "Brás, Bexiga e Barra funda"]

Fiz um vídeo com fotos do Brasil que eu passei a mostrar nas conferências aqui. A Sydney, uma das americanas, disse que acha que eu tenho um emprego aqui, porque sério, são no mínimo duas conferências por semana, o recorde foram cinco, parece que os russos realmente têm a fun time para ouvir sobre o Brasil e sobre a Rússia por um filtro brasileiro. O vídeo tem uma versão da Aquarela do Brasil pela Mercury, é uma gracinha, tem esse coqueiro que dá côco, uá uá!. Uma gracinha. Um tapinha no ombro quanto a tradução do russo.

Ontem alguém disse que Mississippi era na África. Achei que deveria dividir isso como um olhar final de despedida de post e desespero misturado e deixar assim na mão de alguém a responsabilidade de salvar o mundo enquanto eu continuo andando, música de fundo, agora.

Pontuo.

P.S.: Obrigadinha aos leitores e aos elogios, em dias como esses que uma dor de cabeça diz que se instala e que não vai embora faz um bem. Calculando a possibilidade de responder comentários nos posts seguintes, e então?

domingo, 2 de maio de 2010

Vá invadir o seu.


[Após sair do restaurante italiano e ganhar desconto para a boate do italiano dono do restaurante porque a sua nacionalidade fora revelada e você arranha, sim, no italiano, e os melhores amigos aqui do outro lado do oceano]


"Policiais e gangsters trocando tiros pelas ruas, e ainda assim dormirei de portas abertas. Pouco importa que entrem meliantes pela minha casa, e mendigos e aleijados e leprosos e drogados e malucos, contanto que me deixem dormir até mais
tarde." - Leite Derramado, Chico Buarque


Essa citação me lembra de um inconveniente, pela lei dos eufemismos chamemos assim... Que me ocorreu da última semana pra cá, e o que explicaria minha ausência, junto com os livros que devem ser estudados e a minha mania de ler a literatura que me interessa e não os livros que me fornecerão diplomas. Bem. Existem pessoas que gostam de invadir o seu computador. Existe gente muito desocupada, quando isso se junta, o Windows te grita que pode "haver um hacker mal-intencionado", eu, aqui do outro lado da tela rio as fraldas (não). Então nos pusemos eu e o Windows a construir esse firewall, tijolo por tijolo. Mais um. Muro de Berlim. Coisa de revolução. Entrando pra história. Discurso do proletariado nesse momento e como a sociedade não sobrevive sem os mesmos. Agora revolução. Tiros. Vírus. Hacker. Foda-se, meu amor, você, foda-se, invada o seu k*. Sim, eu e o Windows construimos um belo wall e te mandamos para a puta que pariu. Não sei, meu caro, mas me parece que você esperava achar algo roubável no meu computador, acontece que mulher prevenida sabe que deve-se ter um hd externo e não guarda nada no computador, tampouco alimenta qualquer confiança nele. Então se quiser roubar meus arquivos, terá que ser fisicamente (sem pensamentos maldosos aqui). E isso requer um puta nado cruzando o Atlântico. Te vira, débil.

A segunda parte do meu aniversário Sábado, dia 24? Enfim, dia 20 qualquer coisa, ocorreu muito bem, notável. Muita coisa acontecendo, a intensidade que caracteriza o fim. Ou o fim de um ciclo. Eu tenho essa impressão de que ir pro Brasil agora é o fim desse ciclo de um ano aqui. Semana louca. Gente louca. Amando o acaso. Do jeito que tem que ser, e andar na rua e ser parada por um senhor que te fala com um sorriso que teu cadarço está desamarrado. E o Sol brilha. E as nuvens no lugar certo, no lugar certo... Terça-feira fomos a um orfanato, o que me enche dessa coisa de querer ter sete filhos e uma van. Joguei vôlei com a universidade, e foi bom estar ali no meio sem ter que ser julgada brasileira em primeiro plano e apenas como a pessoa que - também - joga vôlei. Quinta-feira a Colônia (como carinhosamentos nos chamamos, o nosso grupo de onze estrangeiros, ou Alice & the Paperchains, porque somos também uma banda de rock alternativo e porque quando fez -35 pela primeira vez Alice ficou presa na escola fazendo correntes de papel e decorando a escola) se reuniu para ver Adeus, Lenin, de manhã houvera um treinamento de incêndio e isso me irritou. Compramos sushi e sentamos na frente de uma tela de computador, desacreditando que cada um vai para um lugar do mundo, daqui a pouco, e que isso é louco e injusto. Planos de despedida. Sushi. Kefir. Sexta conheci uma menina que vai para Portugal e comecei a ensiná-la português, e descobri que a tal da língua é difícil mesmo, essa coisa de "o" fechado e aberto que muda o significado de uma palavra. Saímos do Kafe até o monumento das vítimas do Afeganistão e o sentimento de a inutilidade de uma guerra. Não tem vitória. E a cidade cheia de cartazes do Dia da Vitória, quando a Rússia ganhou a Segunda Guerra Mundial. Lindo é saber que eles perderam mais soldados e civis que qualquer um dos outros. Eis a vitória. Entendam como quiser. Passamos no supermercado para comprar semenchki e sentar no parque para julgar os homens da nossa vida. Analisar. Não achar resultado. Até achar, mas fazer o que adiante. Contar nos dedos. Lembrar de que já se teve treze anos, que loucura. Idade. Morrer. Vinte anos. Viver mais, agora. E o cara do orfanato me lembrava o Tal e isso me tremeu as pernas o resto do dia, principalmente quando ele fez um gesto e eu olhei pra Tanya e pela minha expressão era como se eu tivesse abortado no quinto mês. Pior que isso. Dois minutos depois as crianças salvaram a minha existência. Obrigada, Inocência.

Voltei agora da dacha [casa de campo], preparei o solo, tirei as folhas do outono passado, queimei-as tentando não entender aquilo simbolicamente, plantei cenouras, fiz churrasco e os hormônios alarmaram a felicidade nesse momento. Vim pra cá, amanhã é Segunda, a penúltima Segunda-feira em Kirov. E eu achei que ia ser pra sempre. Para questão de esclarecimento, a penúltima porque vou passar um mês inteiro viajando e depois, Brasil, terra brasilis. E meu Domingo acaba em trinta minutos, eu, sobrevivendo um Domingo antes de um Brasil inteiro. É, essa coisa de dar tudo de si e esquecer de si durante o trabalho no campo pregada por Tolstoi tem lá seus fundamentos... O nome da filosofia tem um nome que eu só recordo em russo e não acho que isso vá levar em frente nossa conversa.



["Chega de beber". É. Chega.]

Enquanto tudo isso acontecia essa semana e eu ria do vírus e construi muros e plantava cenouras-frankeinstein, lia Leite Derramado, o que me encantou a alma. Ultimamente tenho lido muito dessa literatura "regional", antes disso estava lendo Brás, Bexiga e Barra Funda, que é sobre São Paulo e a Itália que existe dentro dela. Entrou pela minha porta também Escrava Isaura, acontece que um imbecil resolvi transmitir a novela por aqui e todo russo conhece, até a palavra "fazenda" entrou no vocabulário russo, e por algum instinto eu resolvi que deveria ler/escutar, a voz do audiobook me disse boa noite ultimamente. Ou Fear and Loathing in Las Vegas, que me fala sobre o sonho americano e drogas e me faz começar frases involuntariamente com "as your attorney, I tell you to fuck off". Enquanto assistia também Kiss Kiss Bang Bang, fazendo-me rir, gargalhar. E ouvindo Method Acting no repeat e achando essa última parte não saudável. Por vários motivos. Eu acho. Ou não acho.

Hoje antes de ir dar vida às cenouras, sentei e escrevi isso, e vocês sabem quem são. Este é um post horrível, mas eu estou com sono e vitoriosa sobre o hacker. Chama-se "O melhor naufrágio".


[Been there, done that]

Olho para todos vocês em fileira, coisa bonita, foto de escola, todos sorrimos. Somos um grupo bonito. Somos, sim, capitão, e você que cale a boca, porque quem vai contra as ondas e com esse navio agora sou eu. E vocês bonitos assim em fileira, não me entendam mal, não são marinheiros não, são a corte dos mais alto escudos de família e títulos, alguns concedidos por João VI, apesar do nosso nobre rei ter distribuido mais título que comida; que a nobreza naquele tempo era uma grande baguete e todo mundo mastigou um tanto, tem uns que remastigaram, mas esse não é o caso de vocês. E falo "vocês" o tempo todo porque gosto é do meu português brasileiro. Também gosto dos seus fraques e dos seus vestidos de seda, foram todos costurados para a sua existência. E aqui eu tenho gente de toda sorte. Eu tenho o amigo que eu digo que ei, estou indo para o Tibet porque ontem respirei ar ruim e ouviu filosofia pior no bar da esquina, quero limpeza, quero esclarecimento, e ele vai dizer, espera que eu ainda não peguei minha escova de dente. Nós não vamos carecer de escova de dente do Tibet, eu digo, e ele diz, nós já fomos então. Tem esse outro que analiza todos os meus amores, romances e projetos de um jeito quase acadêmico, sem incluir matemática, porque o valor de todos é praticamente zero. Tem um outro que me liga beirando a loucura para me fazer ouvir, ali mesmo por telefone, a melodia que acabou de criar-se no violão com a ajuda de suas mãos, e eu digo que você não existe, ensaia mais, vou tentar escrever uma letra, e nós seguimos assim a eternidade feito dueto. Tem outro que dá de arqueólogo e me mostra uma citação como o maior dos achados, a maior das luzes, tudo isso se extende por cinco horas de discussão, mais outra citação e mais cinco horas, gostamos de mergulhar nessa vida numa piscina de palavras, quando elas se juntam para fazer frase e tubarão, paramos de nadar e ficamos ali até os dedos enrugarem, feito menino do bucho amarelo cheio de lombriga que chegou à casa de praia dos tios. Tem outro que me bate a porta com a blusa do time rival e senta no meu sofá enquanto tentamos nos odiar mas fazemos piadas sobre os nossos próprios times. Somos assim, há tempo demais. Tem esses que eu conheço há dezessete anos e são família, mas tem esses que eu conheço há treze e que não são família e que continuam exercendo seu papel de joãozinho-de-barro. Quando este navio afundar, quero olhar aqui do mastro e ver quem me interessa, quem eu amo, quem é parte integral da minha existência. Eu estou sentindo isso para sempre, esse é o melhor naufrágio. Todos sorrimos, e agora a água, e os nossos pulmões que não sabem nadar, e ainda assim, sorrimos noite poker a dentro... O que é ser um capitão e colonizar sem a sua recruta de nobres para habitar essa terra tropical, ou glacial, não importa. Esse tipo de capitão mal merece o mastro. E eu sinto que eu mereço. Eu estou sentindo isso para sempre.

Tentando achar my way out desse repeat de Bright Eyes.

Pontuo.