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Vá invadir o seu.


[Após sair do restaurante italiano e ganhar desconto para a boate do italiano dono do restaurante porque a sua nacionalidade fora revelada e você arranha, sim, no italiano, e os melhores amigos aqui do outro lado do oceano]


"Policiais e gangsters trocando tiros pelas ruas, e ainda assim dormirei de portas abertas. Pouco importa que entrem meliantes pela minha casa, e mendigos e aleijados e leprosos e drogados e malucos, contanto que me deixem dormir até mais
tarde." - Leite Derramado, Chico Buarque


Essa citação me lembra de um inconveniente, pela lei dos eufemismos chamemos assim... Que me ocorreu da última semana pra cá, e o que explicaria minha ausência, junto com os livros que devem ser estudados e a minha mania de ler a literatura que me interessa e não os livros que me fornecerão diplomas. Bem. Existem pessoas que gostam de invadir o seu computador. Existe gente muito desocupada, quando isso se junta, o Windows te grita que pode "haver um hacker mal-intencionado", eu, aqui do outro lado da tela rio as fraldas (não). Então nos pusemos eu e o Windows a construir esse firewall, tijolo por tijolo. Mais um. Muro de Berlim. Coisa de revolução. Entrando pra história. Discurso do proletariado nesse momento e como a sociedade não sobrevive sem os mesmos. Agora revolução. Tiros. Vírus. Hacker. Foda-se, meu amor, você, foda-se, invada o seu k*. Sim, eu e o Windows construimos um belo wall e te mandamos para a puta que pariu. Não sei, meu caro, mas me parece que você esperava achar algo roubável no meu computador, acontece que mulher prevenida sabe que deve-se ter um hd externo e não guarda nada no computador, tampouco alimenta qualquer confiança nele. Então se quiser roubar meus arquivos, terá que ser fisicamente (sem pensamentos maldosos aqui). E isso requer um puta nado cruzando o Atlântico. Te vira, débil.

A segunda parte do meu aniversário Sábado, dia 24? Enfim, dia 20 qualquer coisa, ocorreu muito bem, notável. Muita coisa acontecendo, a intensidade que caracteriza o fim. Ou o fim de um ciclo. Eu tenho essa impressão de que ir pro Brasil agora é o fim desse ciclo de um ano aqui. Semana louca. Gente louca. Amando o acaso. Do jeito que tem que ser, e andar na rua e ser parada por um senhor que te fala com um sorriso que teu cadarço está desamarrado. E o Sol brilha. E as nuvens no lugar certo, no lugar certo... Terça-feira fomos a um orfanato, o que me enche dessa coisa de querer ter sete filhos e uma van. Joguei vôlei com a universidade, e foi bom estar ali no meio sem ter que ser julgada brasileira em primeiro plano e apenas como a pessoa que - também - joga vôlei. Quinta-feira a Colônia (como carinhosamentos nos chamamos, o nosso grupo de onze estrangeiros, ou Alice & the Paperchains, porque somos também uma banda de rock alternativo e porque quando fez -35 pela primeira vez Alice ficou presa na escola fazendo correntes de papel e decorando a escola) se reuniu para ver Adeus, Lenin, de manhã houvera um treinamento de incêndio e isso me irritou. Compramos sushi e sentamos na frente de uma tela de computador, desacreditando que cada um vai para um lugar do mundo, daqui a pouco, e que isso é louco e injusto. Planos de despedida. Sushi. Kefir. Sexta conheci uma menina que vai para Portugal e comecei a ensiná-la português, e descobri que a tal da língua é difícil mesmo, essa coisa de "o" fechado e aberto que muda o significado de uma palavra. Saímos do Kafe até o monumento das vítimas do Afeganistão e o sentimento de a inutilidade de uma guerra. Não tem vitória. E a cidade cheia de cartazes do Dia da Vitória, quando a Rússia ganhou a Segunda Guerra Mundial. Lindo é saber que eles perderam mais soldados e civis que qualquer um dos outros. Eis a vitória. Entendam como quiser. Passamos no supermercado para comprar semenchki e sentar no parque para julgar os homens da nossa vida. Analisar. Não achar resultado. Até achar, mas fazer o que adiante. Contar nos dedos. Lembrar de que já se teve treze anos, que loucura. Idade. Morrer. Vinte anos. Viver mais, agora. E o cara do orfanato me lembrava o Tal e isso me tremeu as pernas o resto do dia, principalmente quando ele fez um gesto e eu olhei pra Tanya e pela minha expressão era como se eu tivesse abortado no quinto mês. Pior que isso. Dois minutos depois as crianças salvaram a minha existência. Obrigada, Inocência.

Voltei agora da dacha [casa de campo], preparei o solo, tirei as folhas do outono passado, queimei-as tentando não entender aquilo simbolicamente, plantei cenouras, fiz churrasco e os hormônios alarmaram a felicidade nesse momento. Vim pra cá, amanhã é Segunda, a penúltima Segunda-feira em Kirov. E eu achei que ia ser pra sempre. Para questão de esclarecimento, a penúltima porque vou passar um mês inteiro viajando e depois, Brasil, terra brasilis. E meu Domingo acaba em trinta minutos, eu, sobrevivendo um Domingo antes de um Brasil inteiro. É, essa coisa de dar tudo de si e esquecer de si durante o trabalho no campo pregada por Tolstoi tem lá seus fundamentos... O nome da filosofia tem um nome que eu só recordo em russo e não acho que isso vá levar em frente nossa conversa.



["Chega de beber". É. Chega.]

Enquanto tudo isso acontecia essa semana e eu ria do vírus e construi muros e plantava cenouras-frankeinstein, lia Leite Derramado, o que me encantou a alma. Ultimamente tenho lido muito dessa literatura "regional", antes disso estava lendo Brás, Bexiga e Barra Funda, que é sobre São Paulo e a Itália que existe dentro dela. Entrou pela minha porta também Escrava Isaura, acontece que um imbecil resolvi transmitir a novela por aqui e todo russo conhece, até a palavra "fazenda" entrou no vocabulário russo, e por algum instinto eu resolvi que deveria ler/escutar, a voz do audiobook me disse boa noite ultimamente. Ou Fear and Loathing in Las Vegas, que me fala sobre o sonho americano e drogas e me faz começar frases involuntariamente com "as your attorney, I tell you to fuck off". Enquanto assistia também Kiss Kiss Bang Bang, fazendo-me rir, gargalhar. E ouvindo Method Acting no repeat e achando essa última parte não saudável. Por vários motivos. Eu acho. Ou não acho.

Hoje antes de ir dar vida às cenouras, sentei e escrevi isso, e vocês sabem quem são. Este é um post horrível, mas eu estou com sono e vitoriosa sobre o hacker. Chama-se "O melhor naufrágio".


[Been there, done that]

Olho para todos vocês em fileira, coisa bonita, foto de escola, todos sorrimos. Somos um grupo bonito. Somos, sim, capitão, e você que cale a boca, porque quem vai contra as ondas e com esse navio agora sou eu. E vocês bonitos assim em fileira, não me entendam mal, não são marinheiros não, são a corte dos mais alto escudos de família e títulos, alguns concedidos por João VI, apesar do nosso nobre rei ter distribuido mais título que comida; que a nobreza naquele tempo era uma grande baguete e todo mundo mastigou um tanto, tem uns que remastigaram, mas esse não é o caso de vocês. E falo "vocês" o tempo todo porque gosto é do meu português brasileiro. Também gosto dos seus fraques e dos seus vestidos de seda, foram todos costurados para a sua existência. E aqui eu tenho gente de toda sorte. Eu tenho o amigo que eu digo que ei, estou indo para o Tibet porque ontem respirei ar ruim e ouviu filosofia pior no bar da esquina, quero limpeza, quero esclarecimento, e ele vai dizer, espera que eu ainda não peguei minha escova de dente. Nós não vamos carecer de escova de dente do Tibet, eu digo, e ele diz, nós já fomos então. Tem esse outro que analiza todos os meus amores, romances e projetos de um jeito quase acadêmico, sem incluir matemática, porque o valor de todos é praticamente zero. Tem um outro que me liga beirando a loucura para me fazer ouvir, ali mesmo por telefone, a melodia que acabou de criar-se no violão com a ajuda de suas mãos, e eu digo que você não existe, ensaia mais, vou tentar escrever uma letra, e nós seguimos assim a eternidade feito dueto. Tem outro que dá de arqueólogo e me mostra uma citação como o maior dos achados, a maior das luzes, tudo isso se extende por cinco horas de discussão, mais outra citação e mais cinco horas, gostamos de mergulhar nessa vida numa piscina de palavras, quando elas se juntam para fazer frase e tubarão, paramos de nadar e ficamos ali até os dedos enrugarem, feito menino do bucho amarelo cheio de lombriga que chegou à casa de praia dos tios. Tem outro que me bate a porta com a blusa do time rival e senta no meu sofá enquanto tentamos nos odiar mas fazemos piadas sobre os nossos próprios times. Somos assim, há tempo demais. Tem esses que eu conheço há dezessete anos e são família, mas tem esses que eu conheço há treze e que não são família e que continuam exercendo seu papel de joãozinho-de-barro. Quando este navio afundar, quero olhar aqui do mastro e ver quem me interessa, quem eu amo, quem é parte integral da minha existência. Eu estou sentindo isso para sempre, esse é o melhor naufrágio. Todos sorrimos, e agora a água, e os nossos pulmões que não sabem nadar, e ainda assim, sorrimos noite poker a dentro... O que é ser um capitão e colonizar sem a sua recruta de nobres para habitar essa terra tropical, ou glacial, não importa. Esse tipo de capitão mal merece o mastro. E eu sinto que eu mereço. Eu estou sentindo isso para sempre.

Tentando achar my way out desse repeat de Bright Eyes.

Pontuo.

Comentários

Samantha V. disse…
é por isso que o boris conhce fazenda!
leonardomay.com disse…
Parabéns Rianne, ótimo Post. Gostei.

Alias gosto de todos os Posts que você faz, consegue transformar um assunto simples em algo complexo. Filosofando. Haha'

Bjs.
leticia disse…
Hey, não vou dizer q estou triste com o fim do seu primeiro ano Russo (não, não estou - saudade!!)... mas terá q nos visitar no ATS!!! Bem, vejo-te em breve!
ps: português não é difícil, é uma arte!
Thales disse…
Em suma, por mais estranho que pareça, esse dito "roubar informações" tão temido no universo hacker é só um paliativo. Na verdade a informação que eles querem esta relacionado as informações do navegador, uso de programas e afins.
É algo enganoso, até porque , o que diabos uma pessoa de outra lingua, outro pais, outra cultura, vai poder fazer com minhas porcarias em português? Antes fossem analises de mercado, formula quimica de outro supositorio anti-envelhecimento ou quem sabe uma maquina caseira de fazer churros, adoro churros. Mas sempre acho engraçado, enquanto existir ordem, sempre vai haver quem queira o caos.
Alias como não sei nadar, me manda por e-mail =D?

Ciclos e ciclos, irritantes, irritantes. Porque não uma continuidade, sem inicio cartografado, sem fim demarcado? Teria menos preocupações a cerca da vida e da morte ou sobre o hoje, o amanha e o nunca mais. Acho até que pararia o Sol no horizonte, nem quente nem frio, nem sol nem lua, céu laranja eterno, adorado azul cinzento e preto iluminado.

Já pensei em van, varios filhos, criança de vestido amarelo com bolinhas vermelhas, ou quem sabe azuis. Mas economicamente problematico, emocionalmente invia vel. Nem se quer sei se existe uma garota que queira passar anos acordando todas as manhas olhando para um rosto espancado pelo sono de olhos calados por remelas. Ainda pior seria olhares sem palavras, silencio ensurdecedor de quem não tem nada a dizer, apenas a reclamar.Qualquer uma por tanto faz, prefiro a imensidão da cama só pra mim.
Adotar, porque não? Nada me é mais natural que a possibilidade de amar um rejeito. Talvez porque alguns são, quem sabe também eu e você, anomalias residuais, como impuresas ou excrementos, na ordem dita social. O problema é afirmar quem é ouro e quem é pirita.

Guerras sempre funcionam para afirmar a superioridade do inutil e justificar a morte de milhões. Meio estranho olhar para um monumento com orgulho sem sentir a pontada de 25 milhões de mortos, ou pensar que o feito não fora em prol da paz mundial, esta sim é piada mortal, e sim da defesa ilusória, feita por potentes tanques pilotados por incompetentes, talvez devessem erguer um monumento ao inverno Russo e não a suas tropas, que no fim se sacrificaram apenas para espancar uma Alemanha bêbada e cambaleante.

Prefiro estar em um barco cheio de loucos e varguardistas. Capitão ou não, nunca me interessei por algo do genero, se for preferivel que o vento carregue, que o acaso reine. E eu esteja la entre louca vanguarda a beber, a cair, a discutir, a sonhar e me iludir com qualquer coisa que esteja lá, escondida em horizonte intócavel cheio de promessas e nenhuma certeza.

Eu odeio despedidas.

Abrigado por escrever =*

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