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Harém amarelo

Para isso fomos feitos [...]
Por isso temos braços longos para os adeuses


Abro as portas que não têm nada de galante ou imponentes, e lá estão eles. São pessoas que se podem conversar. Acho que nos dias de hoje as pessoas estão mais desesperadas por uma conversa do que por sexo. De alguma forma que vai contra a Evolução e Darwin, eu tenho a impressão de que todo mundo vai ficando mais burro. Sou chata, péssima, mas até adoro. Nada de cor vermelha nesse aposento. A conexão entre o vermelho e o erotismo é piegas demais. Piegas como querubins e conselho de tia. Abram espaço para os homens da minha vida. Eles nasceram, ou vieram ao meu conhecimento por meio do meu ócio. A única coisa que eu tenho feito ultimamente é ler livros, tocar violão e seguir uma lista de filmes de uma revista francesa que eu mal consigo pronunciar o nome. Mas eu resolvi dar um jeito nisso, a minha filosofia de vida é: "quem aprendeu russo, aprende x", sendo x um número real e que se estende até pelos imaginários. Sou quase criptonita, por isso venha o francês. Acho que o primeiro deles apareceu na minha primeira memória de vida de todos os tempos, na verdade é uma sequência. Eu corro pro fim desse corredor de hotel, eu teria uns três anos, era uma coisa louca, o Sol lá no fim numa janela que me prometia o que seja lá que buscamos aos três anos de idade e eu corria e só me lembro da sensação de estar na direção certa, não de realmente chegar lá. Talvez alcançar o Sol não fosse tão emocionante quanto correr atrás dele. O processo é muito mais que o resultado. O resultado é estático. O processo é movimento. Não sou estática, sempre fui nômade, por isso não tive pátria, só discos. Ontem encontrando algumas das pessoas mais importantes da minha vida no Antares, recebi elogios que me fizeram pensar que talvez se eu morresse não teria deixado uma má impressão, "a gente se sente honrada de conhecer uma pessoa dessas, porque você só nasceu no Brasil", e eu não podia deixar de concordar. Alguém saiu me levando pelo mundo desde que os meus olhos lembram. Foi divertido. Existiu o movimento. Eu nunca fiquei, eu sempre estava indo para algum outro lugar, eu sempre estava no processo, não estacionada no resultado. A próxima memória dessa sequência de memórias primordiais são os 12 girassóis de Van Gogh, Vincent ali na parede que dava para o fim da escada de madeira envernizada, eu não sou magnata por isso era só uma cópia, mas era de um amarelo que me fascinou aos cinco anos. A próxima memória marcante, eu estou no Equador, indo escalar um vulcão, o Cotopax, eu tinha seis anos, e eu me perguntava se era essa a direção certa, se era Norte, que diabos que era Norte, quem dizia que era Norte (e os problemas com autoridades), porque se eu quisesse eu gritava ali mesmo que era Sul e ia ecoar porque aquele era um desses paraísos perdidos com ecos. E se eu me sentisse a vontade, dizia mesmo que era leste. Não disse nada, só me perguntei qual era a direção. Então em algum momento da minha vida como eu a conheço, reencontrei o mesmo quadro do Van Gogh, dessa vez ele me acompanhava, ora eu olhava para ele com extrema felicidade e ele estava em sintonia, ora com melancolia, desistência e ele era dessa vez melancólico e me acompanhava no caminho, também. E os girassóis sabiam o caminho, o caminho do Sol, não importava se era Norte, Sul, Leste ou Oeste, eu ia alcançar o Sol. Alguns poderiam dizer que esses foram sintomas para o parto de uma alma poética, eu acho que se não fosse Van Gogh, teria sido Rafael, Renoir. Eu teria sido a mesma, só que com outras cores. Então Van Gogh está sentado aqui nessa sala que como já comentei, não é vermelha, e agora é amarela. A sala é o meu harém. Eu só gosto de chamar assim, mas ali só se encontram meus heróis pessoais, eles que sabem melhor. Depois vem Camões elogiando o Tejo e a primavera, conversando com Vinicius no bar, a conversa mais longa se dá entre poetas, é uma introspectividade que os afoga e não os traz mais de volta. Saramago devidamente analisa a raça humana, as escórias, as constâncias, os gestos. E eu acabei de ceder uma cadeira para Conor Oberst, que acaba de entrar numa briga com o Buk. O filho-da-puta mereceu a cadeira [e a briga?]. E se eu quiser, pode ser 8, 9, 10 horas da noite do dia, pode ser Sol, pode ser Norte, Sul, eu sempre vou ter uma boa conversa ali, no tal do Harém Amarelo, a luz como me agrada, igual a da Starbucks. Ah, eles são muitos, só não sei se esse host de blog tem linhas infinitas pra me aguentar... Porque hoje em dia as pessoas estão mesmo desesperadas por uma conversa, mais que por sexo. Fecho com um poema que saiu sem querer outro dia da última semana. De repente fico muito introspectiva como o Vinicius e o Camões e ao invés de não conseguir sair de mim, sái esse tipo de coisa, que é em português, que pra mim é uma língua que a palavra "pátria" tem mais força do que em qualquer outra. Pátria, pátria, pátria. Outro dia foi o Vinicius que me falava sobre isso. Vamos deixar o poema mais pra frente. Tenho mais do que praguejar, porque a poesia brasileira vem ocupando boa parte das minhas tardes, eu fico com pena até de acabar o livro, mas me dá esse alívio em saber que não é que a poesia seja infinita, eu sei que ela tem uma ponta aqui e outra ali que é o final, mas é nessas horas que eu me desespero em ser mortal e saber que eu não vou ler tudo, que um asteróide vai cair a qualquer momento e eu não vou ter vivido aquele poema. Recomendo terrivelmente "Os cem melhores poemas brasileiros do século", é um negócio melhor que café-da-manhã. Alimenta, nutre, melhora. Acho que o meu apego por coletâneas não parou por aí, entrou aqui em casa um "Bukowski, textos autobiográficos" (assim sem hífem e bizarro, mas eu não quero falar sobre essa reforma horrível), que ontem eu disse "vou ler um pouco e deixar o coitado em paz", quando vi, já tinha comido todas as quase 400 páginas. Descobri ainda uma série de quadrinhos boas pra ler na sala de espera do oftamologista, "O chinês americano" e "Scott Pilgrim" deixaram as melhores impressões. Há umas três semanas peguei uns livros budistas com umas chinesas simpáticas demais, uma dessas pessoas para ouvir por um dia inteiro, a preguiça me impede de ir olhar o título, mas se às vezes me parece clichê demais, eu lembro que não foi há muito tempo que eu concordei comigo que os clichês só são clichês porque são verdades absolutas que sobrevivem tanto que viram meio que ditado popular. Quando eu acabar de ver pelo menos uns 20 filmes da lista de 100 da tal revista francesa eu abro a boca pra praguejar, por enquanto, vou guardando minhas notas mentais. E agora o tal do poema que quase se engasga.


A felicidade sempre
é póstuma.
Ou
o entendimento de que
nós
fomos feliz,
por
muito
pouco
muito
felizes
é
um sentimento
[tardio].

A felicidade para sempre
é agora
e
o momento em que nós
somos
muito
felizes
é
para sempre
[agora].

Agora
para sempre
somos
o momento
é agora
a felicidade
para sempre
[ao contrário].

O sentimento
não é novo
é só atual
porque atual
é menos
novo
que
novo
você agora
é um
ser
atual
[banal].

Agora.


Dá até pra ler umas partes ao contrário, me diverti com isso, por causa da Clarice naquele café-da-manhã no saco do pão. Aliás, minha gente, estou esperando para fazer um experimento, ver se o Muniz sobrevive à lista de livros de romance de formação que eu passei pra ele, se vai ser taquicardia ou paixão ou revolução ou o que seja, vamos vendo.

Polêmica: qual dos termos está certo, "risco à vida", "risco de vida", "risco de morte", "risco a morte"? Meu argumento ontem foi que risco "à vida" era risco a algo que não tinha nascido, e risco "de vida" era risco a algo que já estava vivo. Lembrei que Drummond disse que "viver é pra mim é vontade de morrer". Daí me veio "risco de vida e morte", aí eu calei a boca. Queria opiniões.

E pontuo.

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