sexta-feira, 19 de março de 2010

Tenho um date com Vincent... van Gogh.



"Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único,
este efêmero instante do mundo
estivesse pintado numa tela,
Sempre..." - Mario Quintana



Eu lembro de correr por essa casa e passar por esse quadro lindo, amarelo. E amarelo nem era minha cor favorita. Eu não sabia contar direito porque a Carol tinha me ensinado errado. Primeiro, vamos definir "CAROL".

Carol, substantivo feminino.
A pessoa que eu conheço há 12 anos (eu tenho 16 anos e 11 meses, nota), com quem eu desenvolvi todo o meu espírito maquiavélico, e com quem eu ainda rio das mesmas piadas de 12 anos atrás. Carol, atualmente reside na Noruega, onde mantêm um harém de noruegueses e um fyord se ela sentir vontade de visitar o Édem.

Estávamos na salinha do jardim II, nossa tarefa era desenhar dez peixinhos. Eu viro para a Carol e peço a definição de tal coisa que são dez peixinhos. "É só parar de desenhar quando eu parar também, daí vai ter dez". Desenhei, desenhei peixinhos. Mostrei para a professora. "Aqui têm 20 peixinhos". E porque eu tinha ouvido a Carol, que dez peixinhos se desenhava no tempo em que ela desenhava e que isso era uma Verdade Inabalável, desde aquele momento a matemática nunca realmente sorriu para mim. Talvez o mundo tenha perdido uma engenheira, já eu, não acho que eu tenha perdido muita coisa.

A questão é que eu olhava para aquele quadro e não podia contar que haviam doze girassóis porque eu mal sabia contar até dez. Quando eu tinha 13 ou 14 anos e fui visitar meu pai quando ele tinha se mudado vi o mesmo quadro na parede, sendo o mesmo quadro daquela época, dessas coisas que a gente acha no meio da mudança depois de muito tempo.

Desde então esse quadro ganhou um significado que não chega a ser pessoal mas sim egoísta pra mim. É possível interpretar Os doze girassóis em qualquer humor, ora eles parecem tristes, ora felizes, a verdade é que são melancólicos, se isso for um meio termo de tristeza-felicidade. A verdade é que tanto amarelo deveria parecer tolice, mas tudo parece na medida. Os doze girassóis estão conectados a todas essas memórias de alegrias infantis que nós guardamos, por aí...


[E acho em durante um estado catatônico, se qualquer pessoa fechar os olhos lá estarão os girassóis.]

Então, gospoda, eu vou entrar mais uma vez em mais um trem russo em direção ao Museu de belas artes Pushkin em Moscou, onde eu tenho um encontro com Vincent van Gogh, Monet, Rembrandt, Picasso, Gauguin, Cézanne, Renoir... [suspiro].

Quanto aos girassóis, estão em Amsterdã, e talvez eu seja a única pessoa a querer ir para Amsterdã por um quadro e não por drogas. Não gosto de drogas. Mas o que Moscou tem a oferecer do Van Gogh já parece o suficiente.

Fui pegar o telefone agora que a minha mãe me ligou e... Caí na escada em cima do meu pé joanetado, alguém pisou no dito cujo pé hoje no ônibus, eu disse "filho da puta desgraçado cacete puuuuta merda MANO!!! in... fer... no...", em ambas as ocasiões. Mas sério, o que será que há de errado com as energias do universo, o magnetismo, a aurora boreal, os ventos e suas direções e a primavera que não chega e as pessoas que pisam em joanetes e que inventam escadas para só, depois de mil anos, alguém cair em cima da própria joanete? Alguém, por favor, conserte os aparatos do universo, começando pela parte de não permitir a existência de joanetes. Que é uma existência tão tola, tão tola. Porque um osso querereria (salve a língua portuguesa) mover-se lenta e dolorosamente? Os ossos não devem querer tais coisas. Ossos são ossos e ficam no lugar, abraçados com outros ossos vizinhos.

Então minha mãe me ligou.

- Vi hoje na Ana Maria Braga que quem tem joanete, são pessoas que se preocupam muito com o bem-estar dos outros.
- O que, mãe?
- Vi hoje na Ana Maria Braga...
- Não, eu entendi, só tou tentando compreender.
- O rapaz lia pés.
- Ah, ele lia pés? Ler pés...

E entre todos os talentos do mundo, existem pessoas que lêem pés. E entre todas as pessoas do mundo, talvez eu esteja entre as mais egocêntricas. Ler pés: failure. Se eu me arrependo ou não de ter lido O príncipe do Maquiavél, se isso piorou ou não os meus traços piorados...

- Mãe vou ver um Van Gogh em Moscou, legítimo.
- ele é russo?
- Não, mãe
- Japonês?
- Holandês.
- Ahh...

E quando eu falei que estava indo pro Festival do Pushkin...

- Pushkin é o presidente?
- Não, mãe, Putin é o presidente
- E Pushkin?
- Pushkin é um poeta.

Deve ser porque em português a letra T soa com "ch", e em russo o certo é um T fechado... E hoje minha professora de literatura (e se eu conseguir ir um post sem falar dela!) falava que Pushkin não é um poeta conhecido fora da Rússia. O que faz total sentido. Pushkin não se lê em outra língua, como traduzir, realmente, palavras que ele inventou? Seria como ler Machado de Assis em russo, dá uma ânsea de vômito. Eu achei Saramago em russo aqui. Li, ri.

Eu sempre vou sobre essa coisa de intraduzivelização (?) e juntando as partes agora, tendo em vista que cada língua transmite uma sensação diferente, digo, cada língua tem uma função diferente. Português, nasceu para virar literatura. Inglês, para exprimir reações, definitivamente. Russo, e alemão, eu não sei ainda, mas há de haver. De qualquer forma, toda língua tem uma energia, diferente da das outras. Assim como os quadros guardam essa energia também. Pensava sobre isso outro dia, se metade do mundo não acreditasse nessa tal energia, não faria sentido viajar até Moscou para ver um Van Gogh autêntico, se se pode vê-lo pela internet. É tudo energia. Assim como falar com alguém por telefone ou por msn ou por skype nunca vai ser a mesma coisa que falar pessoalmente. Me chamem de zen, mas eu não acho isso ofensivo realmente.

Lendo Dostoyevsky agora, ou "aquilo que eu vou fazer dentro de um trem por 12 horas". Prestuplenie i Nakazanie, que vocês conhecem como "Crime e castigo". Li "Noites brancas" se eu não erro na tradução (parece que quando eu começo a ler tudo isso em russo o meu conhecimento sobre literatura russa em português é deletado) e mesmo assim não deu vontade de ir para St Petersburgo. Não sei. Eu-líricos românticos me enjoam, acho.

Pois bem, depois do meu humor "zangue-se com o Sol" por causa da morte da Anna Karenina, creio que Van Gogh me deu motivos para assoviar aleatoriamente pelo supermercado.

Gosto dessa música. A questão é que música russa é sempre ruim (desculpa, Rússia). Minha teoria é que o que eles depositaram na literatura não sobrou pra música. Mas aqui eis um achado.

Vou ali curtir Dostoevsky e minha dor joanetada.


[Van Gogh que reside em Moscou]

Mais notícias sobre o meu encontro com Vincent nos próximos dias. Ausência de uma semana, é tudo o que Moscou exige de mim. Até.

"I think you're gonna start crying", disse Tanya, depois que eu descobri que um Van Gogh reside em Moscou. E eu, estou esperando pra ver qual vai ser minha reação, mas com certeza não vai ser nada normal e socialmente aceitável. Me julguem, me julguem, mas isso é um Van Gogh e eu vou perder a cabeça.


Pontuo.

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