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Indo atrás de Tolstoi para obter satisfação.


[Meu humor não está pra peixe. Anna Karenina morreu.]

Um estúpido cruzou minha vista hoje. Um idiota careca com uma tatuagem de "Bound by honour" atrás da cabeça, sendo estúpido em todo aspecto da própria existência e tatuagens, chega como quem acha que tem o direito e fala: "pedir desculpas quando se esbarra não é comum no seu país?". A verdade é que eu estava mais perto dele e quem tinha esbarrado no mal-comido fora a Tanya. Disse que eu não tinha entendido mas na verdade não tinha acreditado. Ele repetiu. Olhei para a Tanya... Eu ri, balancei a cabeça. E eu deveria contar aqui quantas vezes um russo esbarrou em mim, quase passando por cima? Eu não preciso mostrar provas quando eu sei que estou certa.

You may not share my intellect, which might explain your disrespect.

"Eu não defendo e nem abomino, eu não tenho absolutamente nenhuma opinião sobre isso", virei para a Tanya depois de alguns minutos de silêncio, "mas eu sei que o ódio a americanos existe e eu não posso negar".

O estúpido tatuado com cara de nazi só nos encheu o saco porque viu que falávamos em inglês. Isso acontece com freqüência: nem todo mundo na Rússia acha que a II nem a guerra fria acabaram. E qualquer dos assuntos pouco me interessa.

"Aquele cara", continuou, "aquele cara, é um estúpido e eu deveria chutar as bolas deles, mundo estúpido que acha que nós somos americanas só porque falamos em inglês, mundo estúpido que julga sem realmente o direito".

Eu não acredito na definição de nacionalidade. Eu acredito na existência de culturas, não na de nacionalidade. Nacionalidade é um papel. Sair na rua e ser julgada por causa de um papel? Melhorem as suas ideologias. Eu nunca poderia ser uma diplomata, sou muito suspeita com as minhas próprias idéias fixas.

"Are you from America?", ouvi de algum lugar do ônibus, lógico que não era na minha direção, olhei para a Tanya e ela repetiu o que a mulher tinha dito. Por que ela estava falando comigo? Achei que as pessoas deveriam me odiar porque achavam que eu era dos Estados Unidos?

Guardei minha carteira e virei para ela.

"No, I'm brazilian, and thanks for being the only nice person that has ever talked nicely to me in a bus"

Fui o caminho inteiro conversando com aquela mulher. Ela era professora de inglês, e eu não consegui ficar brava com ela por dizer "America" ao invés de "USA", o que normalmente me irrita muito. Ela me perguntou do clima, de como eu falava russo, de como ela tinha morado na Alemanha.

"I'm leaving now, it was a pleasure talking to you. Do svidania"

Ela sorriu.

Saí do ônibus, desviando uma poça d´água. Eu e Tanya viramos na mesma hora e falamos "I love that woman!".

Uma hora depois estávamos no instituto Reload, numa conferência. E lá estávamos de novo, em outra conferência, dizendo que...

"Estudar gramática russa não é complicado, o que é complicado é aceitar"

Quando mostrei um vídeo sobre o Brasil deu saudade; mas português, Brasil, tudo isso parece tão distante que o lugar onde eu nasci vai me receber como uma turista.

Tudo se mistura.

Aparentemente o seminário saiu tão bem que eu irei visitar a residência do Tolstoi em Tula, ao sul de Moscow, chama-se "Yasnaya Polyana", quem conhece o autor sabe a importância do lugar. Às vezes eu olho pro tempo e me vejo com 12 anos e penso se naquela época eu alguma vez na vida achei que iria visitar a residência do Tolstoi.

O negócio é deixar a vida desdobrar-se.

Fico muito feliz por nunca ter lido Tolstoi em português, falei hoje para a minha professora de literatura, fico feliz porque a simples idéias de "kniaz" e patrinomico (um nome composto que se forma a partir do nome do pai) são idéias não traduzíveis.

E se Anna Karenina não tivesse morrido?, minha saúde mental está terrivelmente abalada pelo fim do romance. O pior é saber que fosse hoje ainda, ela talvez não tivesse sido julgada de outra forma. A morte é um sintoma da vida. E agora eu vou caçar Tolstoi até a casa dele, e obter satisfação. Não se mata só porque tem que se matar. Não se mata só para acabar um romance.

“Action is character. I suppose it means that we’re only someone if we do something”, ouvi em An Education, indicado do Oscar.

É isso. Ação. Estou indo para Moscow agora em busca de movimento, ação.

Ouvindo Through the roof and underground, fazendo a vida completa.

Já fui e nem fui ver.

Em contrapartida, o clima está na rua e quanto a isso nunca se houve uma única dúvida...

Pontuo.

Comentários

Anônimo disse…
"Eu não acredito na definição de nacionalidade. Eu acredito na existência de culturas, não na de nacionalidade. Nacionalidade é um papel. Sair na rua e ser julgada por causa de um papel? Melhorem as suas ideologias. Eu nunca poderia ser uma diplomata, sou muito suspeita com as minhas próprias idéias fixas."

Arrasou! hahah

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