sábado, 1 de janeiro de 2011

Flor impossível, e ponto.

Estado de espírito: Modern Drift, Efterklang


Hoje entendi que meu pai vai morrer. Não chorei, mas isso não quer dizer que não tenha perdido o chão. É como sentir falta de ser inteira, sentir falta de uma estrutura que eu nunca tive realmente, e o mais, pensar que é impossível saber como é tê-la. Fechei os olhos, ao invés de chorar, vi um mar inteiro, um dia ensolarado, e de repente o impossível, uma flor nascia no meio da areia e eu podia me agarrar ao impossível, era tão real que as pétalas, palavra, eram macias, feito veludo. Hoje entendi que meu pai vai morrer e juntei tudo que eu tinha dele: as lembranças, o rosto que é a xerox, a joanete igual, o temperamento. E vi que apesar de não ter tido a estrutura-pai, depois de ter juntado tudo que eu tinha dele, e que era tudo que eu tinha, do pé a cabeça, literalmente, então talvez eu seja a estrutura, talvez eu tenha tido essa mania de querer ser forte, de querer ser o "açougueiro com a tatuagem de rosa no braço". Nasci na falta, me estruturei assim, na falta. Hoje entendi que meu pai vai morrer, e olhando tudo o que eu tenho, que é tudo dele, entendi que vou sentir a sua falta, que não ser dar um ponto final, que apesar de toda essa prosa, essa história ser invisível para mim, de alguma forma, o ponto final dela vai me afetar com direção em todas as células, que são dele. Hoje entendi que meu pai vai morrer, hoje entendi que, de uma forma entre as formas disponíveis, eu também. Toda a tua força, a própria definição de self-made, toda a tua perseverança em aprender a voar e finalmente conseguir, todo o teu eu, que todo mundo teve a chance de amar, pela cronologia das coisas. Sò porque sofro em silêncio não quer dizer que sofro menos, apenas de outra forma. E chegou a hora, Joaquim de mergulhar no profundo desencanto sem fim dos homens todos do mundo. Chegou a hora, Joaquim, de perguntar pela bomba que foi jogada do céu por cima da tua sombra. Chegou a hora, Joaquim de perguntar pela paz. E esse ponto final, me pontua feito uma faca, que eu posso ter guardado aquela dor ali, que é fácil rir, que é fácil ser feliz a maior parte do tempo, mas quando ela vem, ela vem como se nunca tivesse ido embora, e agora, o silêncio e o mar inteiro e a flor nascendo da areia é a minha única reação disponível, é impossível pontuar quando você esteve o tempo inteiro no meio da história, e não do começo. Pontuar é a impossibilidade, mas talvez pontuar também seja a flor.

(Não haverá bandeira branca, não haverá bandeira branca, só haverá amor, e sempre o houve, nunca houveram dúvidas)

(E a vida inteira, amei sempre o que tive de disponível)

(Obrigada, pai)



(Você é o melhor e o mais distante girassol)

(Não vou chorar, você me mandaria parar, e aprendi a ser forte contigo, apesar de ser fortaleza de cal. Só vou sofrer até onde você deixar).

Com todo o amor do mundo, há dois passos da onde eu não queria estar.

Um comentário:

Julia disse...

Engraçado. Dois minutos após mandar um email para meu pai, entrei no painel do blog e vi uma atualização do seu. Eu havia acabado de mandar um email sobre fazer parte da vida dele, sobre ter uma família e etc. Quando li seu texto, a certeza de que aproveitar as pessoas quando estão vivas é muito importante. E aprender com a sua dor silenciosa foi importante para mim, embora jamais quisesse que essa certeza chegasse até você. Mas as pessoas vão e vem, e tudo é tão rápido. Não nos perguntam se queremos. E temos que aprender a lidar com isso. Eu não aprenderei, só amenizarei minhas perdas.

Fique bem e continue forte.