quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Peixe de asfalto

[Mais que justamente dedicado a todos os moradores do Meireles em Fortaleza]

Well I go to the country to find myself
Crawl back to the city to lose myself again
Under lights this joke is wearing thin
Well it's easy to be a winner when you don't know what you've lost
It's easy to be a believer
In you

Lá fora chove, provavelmente a evolução nos presenteou com mais sessenta e cinco espécies de peixe encontrados única e exclusivamente em enchentes, nadando sobre o asfalto. Que o mundo perdeu o equilíbrio é muito claro: existe uma cratera no final da Abolição, há quem fale em meteoritos mas foi só a vontade da água. E ainda quando falta luz em um bairro inteiro, que não sabe funcionar sem seus semáforos, você realmente se pergunta "what the hell". No entanto, enquanto eu olhava pela janela minuto sim, minuto não, ouvindo música do mp3 e deixando ao léu um computador sem internet e duas horas de bateria, em uma dessas vezes as luzes de todos os prédios começaram a se acender e foi um espetáculo, palavra de quem já viu a Torre Eiffel piscando e se surpreendeu mais com isso. Na verdade, a Torre Eiffel não me causou grandes impressões e não estou sendo cruel. Eu só conseguia pensar no Saramago naquela escuridão e de quantos ângulos é possível analisar um ser humano no escuro. Quando a luz voltou, pareceu-me que voltávamos a ignorância, apesar de toda a coisa da eletricidade ser progresso, mas sempre sinto que no escuro os pensamentos ficam mais claros. À noite. De dia somos mecânicos. À noite tudo depende da lua. Voltava para casa a pé debaixo de chuva, tentando não deslizar nas calçadas de prédios escorregadias e tentando botar algum perspectiva na minha vida tetraplégica, consegui sentir a cidade mais. Se fosse de noite seriam os dois elementos: o escuro e a noite, que nos fazem cavar tão fundo dentro de nos até acharmos o que procurávamos e não sabíamos exatamente o que era. Senti do nada um cheiro de jambo vindo de uma dessas árvores que continuam plantadas para nos lembrar de um pouco da nossa humanidade e desafiando o asfalto, o sentimento se completou. Se a cena pudesse ser reproduzida, eu recorreria a ela como terapia sempre que necessário. É um sentimento de pertencer, as ruas gentis desse bairro que antes de ter um nome oficial, chama-se lar, cada esquina dele. Mas já que isso não é possível, resgtar todos esses elementos ao mesmo tempo, na maior parte do tempo, entregue ao Acaso e às suas vontades onde eu não tenho voz nem tenho a autoridade de chamar a noite, o escuro, a chuva e o cheiro de jambo quando quero, serei mesmo deslocada como um peixe de asfalto, beirando a inexistência. Pontuo.

PS: Depois quero falar da parte russa de hollywood e dos livros que li esse ano, engolidos.

Um comentário:

Julia disse...

Que cômico, sonhei contigo outra noite, mesmo sem te conhecer, não lembro ao certo o sonho.

Precisava desabafar esse comentário . (:

Consigo sentir agora o cheiro de jambo, quero natureza.