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A viagem de Paris ao Ceará


[Madame Déficit, como ficou mal-conhecida, em toda a pompa de sua juventude, época em que Versalhes ainda se servia da sua inocência]

Pelas passagens secretas que ligavam o seu apartamento com o do rei, ela fugiu do povo francês pela primeira vez, com gritos de desejo de morte à rainha subindo pela escada. Fora do mundo banhado a ouro e diamantes de Versalhes, os gritos e a indignação do povo francês finalmente invadiam o castelo, como se todo esse tempo, apesar da Rainha viver em seus jardins no Trianon a céu aberto, nunca tivesse aberto a janela e realmente enxergado (e convenhamos, Versalhes não é Paris). Maria Antonieta, que opinava e tomava lugar em reuniões junto ao rei, viveu de jogatina e idas a festas em Paris, ambos os lados. E no fim, sucumbiu a fofocas e à fome de Paris. A figura feminina junto ao poder naquela época assustava, e diante de um rei covarde e tímido, ela falou alto e foi ouvida, também. Me pergunto se a revolução teria sido inevitável, quando o rei e a rainha tiveram tantas oportunidades de se apresentar frente a Assembléia Constituinte e assinar qualquer coisa que parecesse uma constituição, sua tão pedida constituição, ou seria apenas uma idéia fixa de uma nação inteira? Como se a resposta estivesse em um conjunto de normas, como passos de dança para a harmonia, tão cegos por isso que não viam mais nada. E mesmo assim, esse foi um dos muitos momentos que a monarquia poderia ter sido salva. Me surpreendi com a figura de Maria Antonieta no livro de Joan Haslip, e não sou suspeita pela minha mentalidade contemporânea que pede paz, mas não a condenaria a morte, mas com certeza ela não teria se tornado o ícone que foi sem o contexto do seu fim. Maria Antonieta não fora a única rainha louca por diamantes, mas os quis em um momento histórico que o resto da França queria apenas pão e uma assinatura que tiraria seus poderes políticos, mas não tiraria sua posição. Não digo que a França deveria ter uma monarquia como a inglesa, que é teatral e turística, mas queria ter visto Versalhes cheia por um pouco mais de tempo. E ela ainda vive, não sái de moda...

Tenho praticado um certo nomadismo por bibliotecas ultimamente, ao que o volume de livros que eu já tenho me põe a pensar quando é que eu vou ter a estrutura de levar todos comigo... E tenho descoberto livros que não ajudam na rinite, mas me acrescentam muito. Fui além da Maria Antonieta.

Descobri os amigos do meu pai. Às vezes acabamos por conhecer melhor as pessoas quando conhecemos os amigos próximos, e é verdade que eu vivo disso em relação ao meu pai. Foi em uma noite que nos rendemos a Hitchcock ("Rope" e "Psycho, numa tacada só) - eu particularmente nunca consegiu ver filmes antigos - na biblioteca do avô de uma amiga, que acontecia por ser escritor, que me deu três livros com dedicatórias que foram engolidos no dia seguinte. Barros Pinho é saudosista em relação a sua infância no Piauí, as margens do rio Paraíba, e não precisa ser do Piauí para achar o sentimento de pátria nos versos do mesmo, pois céu é céu em todo lugar, e ele incansavelmente, sempre na dose certa, fala dos céus, do azul. E do azul não só do céu. Eu creio que cada um de nós acabar por adotar uma cor, por ser uma cor depois de uns tantos anos de vida, e é difícil se desgrudar dela e não mostrar preferência, é difícil não admitir que ela sempre esteve ali a vida inteira, se fazendo presente, vivendo junto. Por isso me interessei, já que a minha cor está na palheta dos 12 Girassóis, e é interessante ver o lado de alguém que considera a sua uma cor fria. Aqui alguns trechos que me sinto obrigada a dividir, dos livros "Planisfério - poesia", "Carta do Pássaro" e "Natal do Castelo Azul":

"A lua
tudo mais que sonho
menos que poesia
a lua é profissão
de cosmonauta
que deve ter vida e horário de trabalho"


Especialmente no "Planisfério" há muitos poemas com o tema cosmonauta, e em algum lugar das entrelinhas, de como é estranho ser o primeiro homem mais só do mundo, e não um cosmonauta, vendo o mundo pela janela. Aliás, o sorriso de Gagárin sempre me fascinou e é o cartão postal favorito da minha coleção.

"gagárin
abriu caminho
na indecisão das noites cósmicas
[...]
lá embaixo os homens pequenos
esperam manchetes dos jornais
e o planeta é um passaporte diferente"

"a vida
cápsula de coragem"


Ou ainda sobre a finada Stalingrado, hoje com nome de Volgogrado, uma cidade reconstruída, e a minha experiência de ter estado lá alguns dias me fez amar ter nascido em um país na América que pouco sabe o que são as guerras européias. Havia esse monumento com o nome de todos os mortos, com uma estátua maior ou menor que o Cristo, na mesma pompa.




[Soldados em Volgogrado | Monumento com o nome das vítimas e seus respectivos cargos | Maio de 2010]


" [...] avança soldado leva a alemanha além do volga
[..]
russo nem um passo atrás
e a neve se movimentando sufocando a tirania
e a liberdade ainda agora é uma promessa"


E saindo da temática soviética; lírico.

"se as rosas
se rebelarem
contra os espinhos
haverá muito
perfume pelo ar"

"olha a laranja
olha a banana
olha a saudade"

"o circo que passou
eco do palhaço
que às vezes somos"

"gosto do mar
mistério azul"

"sou poeta
não escrevo
nas nuvens
[...]
poesia toca
o hímen da terra
[...]
a beleza é a pedra
no rígido espaço azul"


Agradeço pelo azul, por sair um pouco dos meus "12 Girassóis" e continuar achando incrível. Invejo tremendamente a biblioteca, preenchida, nunca completa, uma biblioteca não acaba, e fico muito feliz por descobrir assim sem pretensão autores brasileiros de tanto talento. A única vez que tive a mesma experiência foi quando esbarrei com Francisco Carvalho em um sebo. Levei trinta reis para a Bienal, saí com oito livros e com tudo o que havia achado de Francisco Carvalho, que falou por mim, que falou pela cidade de Fortaleza, que falou sobre o meu pai, para quem nunca leu o poema "Chegou a hora, Joaquim", que já postei umas milhões de vezes por aqui. É muito satisfatório saber que tão perto de nos existem pessoas tão interessantes, aliteradas e escritoras de um certo nível que a cada página é uma surpresa não saber porque o mundo já não descobriu a iguaria. Iguaria... Iguaria é achar um bom livro, iguaria é descobrir cores nele. Recomendo a toda alma viva. E honra é descobrir que em algum lugar do tempo, seu pai conheceu essa pessoa, apesar de você não ter tido a chance de conhecer nem um, nem outro da maneira como gostaria. Bons livros unem e reencontram. Quero que minha biblioteca não se complete, assim como a de Barros Pinho, e quero descobrir sempre, sempre iguarias.

Ah, e planos. Planos para meu o aniversário, um dos que corre os risco de ser o último em solo brasileiro por um bom tempo, tenho um rascunho de um Poema ao Meu Décimo Oitavo Aniversário e boas companhias garantidas. Muitos poderiam dizer que minha vida começa agora, especialmente por eu estar me mudando mesmo um dia depois do meu aniversário, mas devo parafrasear aqui: confesso que vivi. Nas palavras de quem sabe mais:

"e vida
quando transformada
em verbo
é uma enorme solução"


Ia falar de Eça, do "A cidade e as Serras", assim voltaríamos a Paris, onde começamos esse post, mas essa conversa vai longe e eu rabisquei o livro inteiro com pedaços de pensamentos. No time for conversation, too much to say. Ninguém imagina a minha eloqüência com um lápis e um livro bom. E aliás, o tema homem urbano já está bem pisoteado por aqui, vou dar um tempo nisso.

E só para ter certeza que comecei esse post em Paris e acabei mesmo no Ceará, para ficar, mesmo estando partindo... A viagem é que é uma viagem:

"não é rotina que queremos
sonhar talvez talvez"


Pontuo.

Comentários

Camila disse…
Eu fico tão feliz ao ler sobre o quanto você gostou dos livros de meu avô, deveria eu tê-los lido e apreciado da mesma forma, o que não fiz por preguiça talvez, ou por ser simplesmente fácil demais tê-los lá... Enfim, é bom saber que dei os livros para alguém que realmente merecia, sei que ele vai gostar de saber que os dedicou para uma jovem como você. Obrigada por falar tão bem dele, Rianne. E que mais noites com sushi e doses de Hitchcock se repitam naquela biblioteca!

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