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Assalto e arroz com sangue.



O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar que existe entre nós dois
Para nos unir e separar
Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão
Que não tem fim
Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal


Às vezes eu acordo com frases em letras garrafais passando pela minha cabeça. Do que vai de "Que cupido assíduo", ou às três da manhã, eu me sento de joelhos-índio e digo, apontando um dedo "Olha minha Senhora, eu não sei o que eu quero da vida, nem se ela me quer", e hoje eu acordei falando bom dia da seguinte forma: "A vida é um assalto". Seria pelo fato de que o hospital número 1 (porque foram três tentativas) exigia que o paciente subisse três andares e ao subir aquelas escadas eu me fantasiava de acidentado de carro e imaginava um paramédico dizendo para o acidentado, daqueles de moto ainda, "agora é só subir as escadas", talvez naquele momento eu tenha pensado "isso é um puta d'um assalto". Porque eu falo palavrão mesmo. Mas isso não vem ao caso. Na verdade, vem. Desde que eu passei a falar russoguês (russo + português), o meu vocabulário tem se inclinado muito a palavras xulas, das quais eu me sirvo muito com palavrões. É muito bom falar "mas... puta que pariu". Nesse último ano eu falei "puta-que-pariu!" em vários momentos. Esses momentos envolvem estradas abandonadas e eu nela esperando um ônibus dentro de uma poça de lama, envolvem skinheads, envolvem bisturis, envolvem -45 graus e minhas orelhas doendo por duas semanas porque eu não usei a shapka [gorro] por dois segundos. Muitos capítulos. Daí eu me pego remexendo nessa crença de que criança adora falar palavrão. É meio um status. Só o mais bacana da turma fala palavrão. É, ele é foda mesmo. Eu queria muito acabar com esse post porque eu simplesmente estou escrevendo uma linha de pensamento. Eu não gosto quando as pessoas lêem meus pensamentos. Por muitos anos eu estive tomada da crença de que algumas pessoas tinham essa capacidade. E foi na minha adolêsncia, não na infância, e eu não escondo isso. Essa esquizofrênia da infância eu levei além. Então eu senti que eu precisava pensar em outra língua. Alemão veio em uso. Russo, então. Hoje em dia sou uma pessoa melhor e sei que não há amplificadores saindo das minhas orelhas. Mas hoje em dia eu sou tomada por outra crença. Mas acho que eu vou parar porque eu não gosto de falar de mim assim direto. Acho egoísmo. Na verdade eu sou muito egocêntrica e venho tentando superar isso há muito tempo. Fiz de novo. Então hoje, por razões x, eu perdi a fé na raça humana. E mulheres apresentam vários comportamentos nessas situações. Número 1: ela ligará para todas as amigas enquanto come sorvete e segura o telefone com a orelha assim; número 2: ela chutará móveis; número 3: ela xingará o primeiro ser humano que lhe dirigir a palavra; número 4: ela se entregará ao trabalho bruto, a.k.a., roça ou algo do tipo envolvendo cortar troncos ou tiros; número 5: ela se afogará em chocolate nutella. A verdade é que eu sempre odiei aquele site charges. Eu tinha nove anos e na aula de informática todos entravam no site charges e lá mesmo eu pensava que aquilo era uma merda. Por que é engraçado? Por causa das vozinhas? Os bonecos se mexem engraçado? Eles não se mexem engraçado. Mas o que eu queria dizer é que logo após perder a fé na raça humana eu chutei móveis, comprei um litro de iogurte, abri uma mala que me cabe dentro e comecei a empacotar minhas coisas (trabalho pesado, número 4), quase matei o médico que me tirou os pontos porque ele não estava sendo engraçado e tinha certeza de que estava sendo engraçado e hoje não é um dia engraçado portanto pare, e eu não liguei para nenhuma amiga por causa do fuso-horário. Mas podia ser pior, imagina encontrar algum conhecido no supermercado. É a coisa mais odiável a se acontecer. Há dois dias atrás, por não falar nisso, eu vi um filme chamado "Moscou não acredita em lágrimas", porque eu venho me afogado nessa filmografia soviética. E a filha da protagonista, não que importa que grau de relação ela tem com a protagonista, perguntou para o namorado da protagonista, e esse grau de relação importa muito menos agora, "então você é completamente feliz?" e ele respondeu sem nem respirar "não, mas se eu tivesse um gole de refrigerante, estou com muita sede, eu seria completamente feliz". E eu pausei. Lembrei da senhora do hospital querendo que eu casasse com o seu filho, falando sobre a união soviética, falando como dava-se apartamentos e não se vendia. Utopia. Que é uma palavra que me lembra Lost. Eu sempre fui o tipo de pessoa que segurava o xixi para ver Lost sem pausas. Mas agora acho uma pena termos chegado a esse ponto. Polêmica é uma coisa fácil de se gerar: envolve a igreja católica, maçonaria, viagem no tempo, metafísica, a origem do ser humano e das coisas em geral. Desses elementos usaram Dan Brown e o tal Senhor Roteirista de Lost. Por isso eu dei pause e fui ler um livro sobre serial killers. Que eu não sou a maior fã do assunto mas sou curiosa por natureza então depois da cirurgia achei que caia bem. Aliás, depois da cirurgia eu tenho andado com essa vontade de comer arroz, picanha mal passada e feijão. Mas daí eu esqueço já da picanha e fico pensando no arroz com aquele sangue. Dá fome mesmo se não tenho fome. Ontem vi o jogo do Brasil sem nenhum "Brasil sil sil" e ninguém para dividr um "Ô cala a boca, Galvão". Nunca tinha visto um jogo do Brasil narrado em russo. Aliás, qual o problema dos verbos que se criam de palavras estrangeiras que só vão com a primeira conjugação, deletAR, pausAR, plugAR. Que estupidez. Se eu ainda acordar com qualquer frase por esses dias acho que eu deveria dividir, mas por enquanto digo um e somente: a vida é um assalto. Agora que lembrei que vim aqui postar um texto que tinha escrito no trem... Ah, vai, eu só espero que Chico Buarque ainda salve minha alma e essas coisas afins. Pontuo.

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