terça-feira, 15 de junho de 2010

Foi naquele dia mesmo que deixei o apêndice que sempre carreguei em São Petersburgo.

Escrevendo diretamente do purgatório. Vamos direto para um diálogo explanatório.

Rianne: Tou vendo aqui detalhe ssobre o tipo de apendicitomia que fizeram em mim, se eu te contar vc ri, incisões de 0,2 a 1 cm
Maísa: A cirurgia do meu irmão foi assim também, ele tirou a vesícula
Rianne: Uma incisão no pipiu, uma no umbigo e uma acima do umbigo
Maísa: E minha tia tá em metástase, minha avó fez catarata e o mundo vai caindo
Rianne: É o fim do mundo, rolem os créditos... Me explica o que é um apendice
Maísa: Eu acho, particularmente, que é, dentre as duas opções: um antigo órgão atrofiado, sequela da mudança alimentar dos humanos ou algum dos órgãos do corpo cujas funções são desconhecidas tais como evernia, vibração, cordão astral... essas coisas.
Rianne: Já eu, acho que deus gosta de design de interiores.

"Lera, I'm feeling REALLY BAD", e a próxima coisa que eu lembro é de estar dentro dessa ambulância, o paramédico que falava que não sabia nada de português e eu devo dizer que estou surpresa com isso meu senhor? Meu senhor, eu estou verde, amarela, azul e branco e o senhor vem me tentar puxar assunto, meu senhor, cale a boca, TÁ LOUCO, FILHO DA PUTA? DOR. Foi quando ele apertou perto daquele osso do quadril, eu vi a luz do fim da vida. Tão perto. Assinei qualquer coisa com a pior caligrafia que eu tinha e fomos para o hospital, pela janela São Petersburgo não iria anoitecer, as famosas Noite Brancas, e eu pensava que poucas pessoas já tinham visto Piter pela janela de uma ambulância. Eu chego nessa clínica que parece ter saído de uma sessão de CasaCor, com recepcionistas bem alinhadas e com um inglês perfeito, coisa que eu não achei na Rússia em um ano. Talvez eu esteja delirando, penso, e continuo a preencher os formulários com aquela prancheta estúpida. Tudo parecia estúpido, desnecessário e um obstáculo para a minha sobrevivência e constância como ser humano naquele momento. Eu mataria. Eu sabia o que era uma cólica mas aquilo era algo além. De repente do horizonte surge número Um, assim o chamemos. Número Um é um médico de aparência, eufemismando, desconfortante, em um sentido que quando você viu, a baba já está rolando. Talvez seja algum tipo de tratamento, penso. Lógico que não, outra vozinha diz. E a primeira vozinha ri com a segunda vozinha. Eu tenho essas duas vozinhas que são parcelas de mim, mas não adianta, qualquer parcela de mim sai com uma porcentagem infinita de sarcasmo e acidez. Número Um me levou até uma suíte. Era um quarto amplo, com uma TV, um computador, e uma cama que quebrava o clima de hotel cinco estrelas porque dobrava. E eu confabulei com as vozinhas, não sofreremos, companheiros, não sofreremos. Número Dois entra na sala. E em alguma parte do dia surge Número Três. Número Um, Dois e Três foram as alegrias de meus dias enfermos. Eu já tinha feito todos os tipos de exames possíveis no mundo. Os Números estavam realmente preocupados, me falava agora a Masha, minha enfermeira, uma mulher que pelas maneiras e doçura poderia ser confundida com uma mãe, ela tentava desesperadamente achar uma veia, era a oitava fez que ela me furava e eu já não dizia "ouch", agora eu sorria. "Se eu não conseguir agora, vou escrever uma nota", disse, em seu desconserto, "escreva que não há sangue". Ela não riu. Nem eu. O meu humor ia ficando mais negro ao passo de que aquele bebê-monstro vivia na minha barriga, atrás da Masha na tevê eu assistia Simpsons. Foi quando Número Dois entrou no quarto, "zaitsa, u vas est' apenditsit, gotovimsya k operatsii", ou eu ficava surpresa pela existência perfeita do Nùmero Dois ou pelo "zaitsa" [amorzinho?] ou pelo fato de que ele acaba de me dizer que aquele bebê-monstro é uma apendicite. A festa começou, pensei. Me enrolaram uns panos na pernas e eu não tinha realmente força, eu não tinha comido absolutamente nada naquele dia. "Agora vamos dormir", disse a enfermeira. Dois minutos se passaram, "por que você não está dormindo?". eu ri de desespero pela minha resistência a anestesia, de repente esse conjunto de nuvens surgiu no meu campo de visão e uma citação no Sartre em letras garrafais se imprimiu "Esta noite estou muito a vontade, muito burguesamente instalado no mundo", era meia-noite. As nuvens saíram do fundo vindo em minha direção e ficou tudo branco. Eu devo ter dormido. Agora eles me cortam a dentro e eu não tenho nenhum universitário citando Augusto dos Anjos. Que cena errada. Eu nem sabia com o que se parecia um apêndice. Eu sabia que era inútil. Eu sabia que eu tinha tirado as amígdalas, os cisos e agora tirando esta coisa não me sobrava mais nada. Significava que eu tenho 17 anos e sou invencível. Há 7 horas atrás eu diria "I'm 17 and I'm fuckin' tired", mas agora eu sou invencível. Agora DOR. As nuvens se dissolveram, eles pediam para eu ir para a outra maca, "YA NE MOGU", [eu não consigo], eu realmente estava leve, leve demais, sem força, com fome. Mais tarde a enfermeira me diria que eu falava bem russo. E eu não me lembro de ter falado com ela, isso quer dizer que quando eu lembro de ter dormido naquela maca de volta pro quarto eu estava em papos a dentro com a enfermeira. Dizem que algumas pessoas têm talentos não despertos. Talvez o meu seja falar russo sob anestesia. Não, isso não é uma cena tenebrosa. Eu devo ter acordado as 4 da tarde do outro dia. O Sol me tirava a paciência. Não importa se eu passei seis meses trancafiada num inverno, eu ainda odeio veemente o verão. Naquele dia, não comi nada. Nem no próximo. Ordens médicas. Cada vez que o Homer Simpson falava de comida eu sentia que ia morrer, ou quando a Marge começava a falar de bolo de carne. Conheci uma senhora, quando já comecei a andar no terceiro dia, que ficou encantada e queria me apresentar para o seu filho. Eu eu penso que eu estou aqiu andando de batinha de hospital, com a cara amassada, indo pegar café e essa senhora ainda tem fé em mim, realmente, penso, sou filha de políticos. Eu digo que vou pra Moscou dia 20. Ela diz que ele mora em Moscou, e eu sem saída deixei meu celular. Senti que era uma mãe desesperada querendo casar o seu filho, pelas quantas ela já ia me perguntando se eu tinha noivo e eu repetia que eu tenho dezessete anos (e sou invencível). Comi todas as minhas comidas favoritas nos próximos dias, já havia fechado as cortinas, eu moraria aqui, pensava, as coisas aqui funcionam, eu digo que gosto de salmão e duas horas depois meu almoço é salmão. Gosto daqui. Gostaria de falar sobre o sentimento de estar voltando para casa sem um apêndice, sem os cinco quilos que eu deixei no hospital em são Petersburgo... Onde vi não só um Van Gogh, mas uma sala inteira. Onde conheci chineses que irão me visitar no Brasil. E é isso, Brasil, chego em duas semanas, as crazy as it sounds, com uma lista de coisas a fazer, de metas até o fim deste ano. Ô meu velho português. Que isso me lembra dos portugueses que conhecemos no Museu Russo, a Sophia com cara de pasma do outro lado do salão porque eu estava do lado do grupo e não havia detectado o português e ela sim, do outro lado. Depios a guia está se referindo mais a nós, as senhoritas brasileiras, que às pinturas. Preguiça de escrever. Tirarei os pontos amanhã. Vou embora da Rússia tendo deixado meu coração em pedaços, partezinhas em todos os pedaços do mundo. É difícil amar tanto em todo lugar. Mas há tanta gente incrível nesse mundo que eu não consigo, eu repito, eu não consigo. Com um sorriso no rosto, pontuo.

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