quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Até em 2010, o Brasil não tem direito de querer ser ou admirar mais a Itália de 1534. O Brasil é, na falta de adjetivo mais lisonjeiro, só brasileiro.

Em 1534 Michelangelo começou a pintar o teto da Capela Sistina, que é realmente bonito e como não-católica eu admito o fato quantas vezes me pedirem. Eu tenho um poster. Eu disse eu tenho um poster. Em 1534 o Brasil ia e vinha com a história das capitanias hereditárias, esse trecho que todo mundo leu em um livro da terceira série até o terceiro ano do ensino médio. O que realmente me bota para pensar como é injusto querer acompanhar isso, até hoje em dia. Brasil querendo ser alguma outra coisa que não é Brasil, Brasil querendo pintar tetos de capelas numa terra nem declamada porque as capitanias deram lugar para tetos de capelas que nem existem. Jurei que não faria uma crítica patriótica do tipo, porque nós já ouvimos isso, mas no dia da independência do Brasil, e nesse dia não havia mais nada acontecendo, nenhum brasileiro no meu campo de visão se pôs de pés pelo seu país. Eu sei que passei meses reclamando de como os russos tinham que ser patriotas sobre uma guerra que do meu ponto do vista eles não ganharam, mas que pelo menos eram patriotas, cegos, sim, por acharem que salvaram o mundo de Napoleão e Hitler, mas patriotas, do jeito que tenha que vir. Eu lembro de estudar nos Estados Unidos e repetir todo dia "I pledge allegiance for the flag of the United States of America...". E eu lembro de estudar no Brasil em Setes de Setembro, em vários repetidos, onde meus queridos colegas torciam suas bocas ao som do hino nacional, que diga-se de passagem, não falta em composição, beleza, palavras encaixadas, certas, palavras sobre o Brasil. Agora eu não tenho paz porque os carros eleitorais invadem o meu espaço privado que se localiza no décimo segundo andar, e não é a política que eu queria ver. Eu passei a dizer que se eu fosse me candidatar, surgiria com a única proposta: banir carros de som. Eu seria eleita. O problema, e a solução. Então o que eu tenho num Sete de Setembro é mais um Brasil querendo ter um teto pintado por Michelangelo em 1534, um Brasil que se sente atrasado, injustiçado, roubado. E eu não me sinto menos, não me sinto menos quando olho as jóias da rainha da Inglaterra. Teve esse Dia do Índio que alguns índios foram a nossa escola, e eles não entendiam nada ao redor, pra quê todo aquele plástico, e a maquiagem, os sapatos indicando status, a hierarquia não pela ordem, mas para acumular mais poder. Nós dançamos essa nossa... dança... indígena com nossas penas fabricadas de nailon, enquanto eles se sentiam tão honrados. Porque ali eles estavam com as suas penas e roupas não feitas de nailon, eles estavam anos luz atrasados diante de todo aquele desenvolvimento e todo o plástico e todos os sapatos. Eu queria que o brasileiro fosse muito como o índio, os índios, desse dia. È mostrado pela história e pela burrice do gene branco repetidas vezes que nós deveríamos muito copiar os valores e prioridades de um índio, índio sabe melhor. Eu queria que o meu tal brasileiro-índio gostasse das suas penas que não são vivida e sinteticamente coloridas, mas que são suas penas, que estão no seu passo, no seu alcance. O Brasil não podia ter uma Capela Sistina em 1534 porque o colosso ainda ia rolar. É verdade que os nossos artistas vieram depois, daqueles que bateram no peito e se chamaram de brasileiro, eu não me arriscaria de mencionar nomes antes do século XX, ou pelo menos analisar se eles já não se sentiam longe o suficiente da Europa se fosse antes disso. Ser brasileiro é uma coisa nova, a nossa conquista pode não vir em forma de Capela Sistina, mas vai vir. E veio, em forma de Ouro Preto, se o problema for comparação. E agora, se eu me permito mesmo a comparação, nós bem que estamos no encalce da Itália esses dias, se é desenvolvimento que estamos falando, a distância diminuiu quilômetros se compararmos a distância entre a Capela Sistina e o frágil sistema de capitanias hereditárias. E o sentimento de ser brasileiro, que ainda, sim, é uma coisa nova, nunca esteve tão acumulado. Nunca uma geração teve direito de ser mais brasileira que a nossa, pela força do tempo, pelo acúmulo das conquistas, pelos poemas escritos e dedicados, pelo Cristo erguido, pela São Paulo que um dia teve sua língua oficial como tupi-guarani e não era nada mais do que uma simples vila indígena. Nós não comparamos, Brasil. Nós juntamos tudo o que temos e botamos para exposição, não para os outros, mas para nós mesmos, para sentirmos o sentimento de ser tudo isso num ser só, de ser verde e amarelo e só depois nós chamamos Michelangelo para a exposição, e ele não estará menos satisfeito. Nós estamos no encalce do mundo, Brasil, e eu não vou mentir e dizer que estou pouco decepcionada em saber que nesse Sete de Setembro poucos civis se levantaram pelo seu país, mas que muitos só compararam e apontaram os erros. Não. O bom e o ruim, e só assim se tem o todo, e você vai querer ter o todo, ninguém quer metades. Eu dou um prazo para o brasileiro, que daqui a quase onze meses, o brasileiro vai ser igual ao índio humilde das penas não-sintéticas, que vai amar o que tem e vai apontar só o bom, e quando apontar para o ruim, que venha com uma solução embutida. Infelizmente, apenas reclamar tem se mostrado um péssimo jeito de resolver problemas. E as políticas? Que são o nosso motivo de descontentamento. Eu também prometi não tocar no assunto, afinal, o brasileiro deve saber em quem está votando, mas não é segredo para ninguém de quem vai ser a cabeça da minha pinhata nas noites de eleição. O Brasil precisa de alguém que vem sendo brasileiro e tem experiência e cacife para isso, não alguém que viveu de profissão papagaio-no-ombro-do-comandante-desta-embarcação por tempo demais. Votem com consciência. Votem com consciência para que a Capela Sistina venha, e venha de uma forma brasileira que todos nós viemos esperando desde 1534. Quanto aos finais, recomendo uma leitura breve de Foucault, que não tem nada a dizer com o assunto relatado nessa publicação, "A História da Sexualiadade", mas que, de algum ponto, fala como as coisas acabam sendo como as coisas são, o acúmulo. As coisas, Brasil. A Capela Sistina brasileira não foi feita por Aleijadinho, não queremos cópia se temos uma Ouro Preto inteira, mas espero que tenha gente disposta com um pincel, afinal, quem pinta o Brasil somos nós...Pontuo.


Enquanto a terceira publicação não vem.
Pão-com-açúcar, primeira publicação
Pão-com-açúcar, segunda publicação

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