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Um trecho do meu livro "Tresloucada"


Finalmente resolvi tornar público um ou dois parágrafos do meu livro, que completou há pouco um ano, desde o primeiro rascunho mental até ao estranho processo de organização e finalmente o ato de escrever sobre esses personagens que me importunaram por meses a fio dentro do salão oval da minha cabeça. Foi ano passado que eu me perguntei, mais ou menos em Abril, "por que não? ninguém nunca disse que eu escrrevia mal". Desde os nove anos que eu venho escrevendo poeminhas, passei pela minha fase de criticar bastante, foi quando eu escrevi muito sobre politica, houve o Zine Trashcan, que eu tive a honra de dividir com a Maísa, inicialmente, mas acabou caindo no desuso já que a nossa linha de escrita já estava bem menos radical, era algo que escrevíamos para nós. Foi quando eu parti pras crônicas, explorei minhas idéias fixas, me apaixonei por Van Gogh, tudo ao mesmo tempo - eu já tinha quatorze anos. E como eu disse, foi ano passado que eu rabisquei minha cabeça de idéias, muito mutáveis! A Maísa que viu o processo de criação desse livro sabe que quem faz a história são os personagens, e eles cresceram muito, e mudaram muita coisa de um ano pra cá, por isso eu costumo dizer que eu escrevo o que eles querem, eu não tenho realmente uma opção. O livro não está pronto, lógico. Mas eu nunca o senti mais pronto que agora. 

"Tresloucada, o céu sob mim" fala sobre interrupções, o aspecto introspectivo das pedras ao mais complexo dos seres humanos, que é uma das protagonistas, Erin. Fala sobre repetições e a impotência de fazê-las pararem de se repetir; divaga sobre as estrelas, o Sol, e por fim, procura o seu lugar na Terra. Viaja no sentido da vida dos protagonistas que se enlaçam e que fazem tudo para se achar, é difícil dizer se eles o conseguem. Explora a desgraça e a mortalidade desses seres que somos nós. E por fim, é um livro que através de quem o narra viaja pelo mundo e banaliza o ser humano, desvendendo quem somos nós e quem são as peças do jogo... Acho que isso é o que eu consigo sintetizar, por agora.

E devo admitir, há sim autobiografia entre as linhas, não querendo realmetne admitir que o são. Mas esqueçam disso, tentem focar-se na Erin, que é quem realmente dá vida ao livro.

Enfim, vamos ao prato princiapal!

Trecho 1
"Agora falta cruzar uma rua e eu entro no prédio, onde eu pego o elevador e chego em casa. Onde há o enclausuramento da selva acimentada, onde ninguém tem mais um quintal, onde ninguém planta mais o próprio alface. Eu sinto falta desses dias, que eu nunca vivi, apenas em sonhos.

Ganho a outra calçada, a insegurança que atravessar a rua causa em mim, põe-se a um fim, e eu vou caminhando agora, devagar, sem rumo, sem vontade, sem nascer do Sol. Não sem amor, essa é a minha desgraça. Há amor, mas não há em quem depositar." 

Trecho 2
"O carro corria inutilmente pelas ruas que eu bem conhecia, iguais e inóspitas, no entanto, cheias de gente. O céu, por outro lado, mutável e oscilante como o humor de um elevador, lembrava-me de uma tarde em Veneza, quando ao som de música gay de um barco cor-de-rosa ao lado do meu, vi uma estrela cadente, e é o que eu gosto de pensar: poderia ser um lixo espacial, mas os meus olhos de treze anos me juravam ser uma estrela cadente e eu não fiz nenhum pedido. Agarrei-me a uma pergunta: quantas pedidos uma estrela suporta? E como a resposta não viesse lenta nem rapidamente e fazia-se inexistente, Veneza pareceu o tipo de lugar perfeito para se esquecer de uma estrela cadente ou..."

Trecho 3
"Agora eu posso ver cores que eu nunca pensei que existissem. O negro das ruas tem azul. Ah, e o buraco do nada, pode-se dizer que existe branco, luz. Picadas, mordidas, arranhões, uma carona em qualquer lugar da vida, a dor existindo só para subsidiar a continuação, que promete o fim da agonia. Dor egoísta. A dor não tem cor. E o abstrato é independente, pode escolher a que volume sua intensidade pesa, indo além do peso de um caminhão carregado de chumbo – que agora descansa nas minhas costas. Por isso o abstrato é insano, não sabe das medidas ou densidades, não sabe onde fica a linha que separa dor e egonia. O abstrato não se vê, só faz doer. Se antes fosse visto, ah, não! O mundo é pequeno demais, o espaço tem limite, o abstrato não tem, a dor não tem limites, só independência. Há cor, há dor, sejam antônimas, ou não. O negrinho tinha azul na pele, mas ninguém nunca viu mais que preto, vê? A cor tem limite, dor não tem."

Trecho 4
"Eu não aceito a idéia de que, se o vaso quiser, ele vive pra sempre, e eu sequer tenho uma escolha sobre isso. Claro, Darwin, a seleção natural realmente escolhe os vasos como os mais fortes, o velho Marcus simplesmente vai cavando a tumba. Fundo, fundo. Insistente. E quando eu estiver lá dentro, o maldito vaso estará aqui. Vivendo, da forma como os vasos vivem, mas vivendo. E um desejo totalmente adormecido ainda existirá debaixo da terra, que é o de viver pra ver, pra crer. "

Trecho 5
"Sorriu pequeno, passando defronte aos olhos as fotos mentais que tinha do avô. E como se o oxigênio a sufocasse, resolveu mergulhar no seu mar, onde podia ser sereia e viver por entre os cardumes que a faziam cócegas e a faziam rir como ria alto quando o avô lhe fazia cócegas e ela ficava sem ar. Debaixo, ali na água, ela não ficava sem ar porque não precisava e tinha acesso ao reino das quimeras negado aos homens bípedes... E quando cansava mesmo dos cardumes, fechava-se em sua concha, onde podia ser pérola de verdade, e ali ninguém podia usurpá-la."

Trecho 6
"Mas ela gostava de sentar na beira do Vesúvio, de ver a vida tomar forma e de deixar a lava respingar no menor dedo, e rir da forma que o pequeno pé tinha tomado, que era só dela e entrava em sintonia com o resto dos traços que compunham o seu corpo, desejo de vida e de morte para tantos, ora de mistério que logo virava interesse e pelo último, ela desconfiava do amor vindo dos outros, pois ela era só aquela remontagem de enigmas e mistérios que alguém, consciente ou não, propunha-se a desvendar... Uma esfinge. O que era amor, o que era curiosidade, era difícil discernir, mas era fácil entrar na dança, e era uma boa música. Ela não estava mais apta a medir certo e errado, não existem tais coisas, repetia. A única decisão que cabia dentro da estranha forma que tinha a caixa da sensatez era entre o melhor perigo, era o que fazia o coração palpitar e dilatar até precisar de espaço e ver o mundo... Boom e Bang. Seria a morte? Talvez sim, talvez não, mas se a música que estivesse tocando fosse boa o suficiente, não importa o que seria, se a sintonia estivesse correta, podia ser praticamente qualquer coisa, até a morte passara a considerar somente outro evento, vista a coleção de mortos que um coração de quinze anos guarda. Ela já conhecia o ritual, já tinham visto muitos filmes, aqueles olhos. E quando o Vesúvio decidisse bocejar novamente e destruir toda a Itália, ela copiaria o bocejo, como um reflexo, e nada ia mudar, nada, nada, nada... Bom ou errado, era só um evento; e ela tinha histórico para absorver e agüentar qualquer pedregulho ou erupção. Ela vivia de emoções, e não paisagens, não condenara Bovary como os aldeões franceses cheios de pressuposições solidamente estabelecidas. Não. "

Trecho 7
"- Nem eu - quis deixar claro que o humor para conversa acabara, parecia que a menção do nome André lhe enfraquecera as vontades, os almejos... poderia morrer ali com a tiracolo no colo, largando o volante, a cabeça se projetando para frente e o sangue sujando a pintura da Patagônia, e quem sabe, espirrando para o Norte, além do Norte."

Trecho 8
"Classe econômica, assento treze, olho para os passageiros ao redor. Se houver bebês, talvez eu sobreviva. Fixo o olhar nas asas, deve ser mais tarde que eu consiga imaginar. Eu fico aqui só voando e voando, passando pelos fusos-horário e vou me perdendo no tempo no meio do céu. Deus, quero álcool. Quero paz. Quero uma casa na Mongólia e um inverno russo para me castigar. Quero martírio só pra me achar de novo. Umas botas novas que não dêem calos e um penteado que favoreça as maçãs do rosto, Deus.

- Balas?

Sim, direto no coração, e se a minha existência for persistente, no meio dos olhos."

Chega! Hehe. 

Comentem, é muito importante eu ouvir pela primeira vez um terceiro.


Comentários

Bárbara disse…
Tu deve saber o quanto eu gosto das coisas que tu escreve. Sempre gostei, sou meio que tua stalker, até quando eu não te conhecia eu lia tudo isso. Agora leio mais ainda. Tu não me decepcionou. Amei o título e todos os trechos que tu compartilhou, de vero. Se tu terminar, quando tu terminar, eu queria ler todo. Mande pra uma editora doido! HAHAHA Acho que faria sucesso :D you go girl!
Radiafonico disse…
Achei um barato esses textos, espero vê-los em breve conectados!

Dá vontade de ler mais.

:))))

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