quarta-feira, 20 de maio de 2009

Esperando Hugh Laurie invadir a sala de cirurgia

Hoje tá muito quente. Foi a primeira coisa que o Sol me falou. Ter que ficar vivendo essa coisa de dormir no calor me arruina o sono, além de ter que acordar de madrugada pra tomar seis doses de remédios em horas diferentes. Eu também queria sentir fome, ou até vontade de comer, mas é impossível.

Oito da manhã, Segunda-feira: 
- Vamos lá - a atendente nos guiou por uma rampa e me jogou na mão de uma enfermeira que tirou meu peso (1okg a menos que no começo do ano), minha pressão (que eu nunca sei dizer quanto é bom e quanto é ruim), e ficou fazendo meu histórico médico. 
- Não, a única cirurgia que eu fiz foi pra tirar uma verruga. [...] Sim, essa é a primeira.
Tentei parar de analisar a linguagem corporal das enfermeiras, tentando entender se elas gostavam do trabalho que tinham. O meu experimento foi interrompido quando me levaram pro Apartamento 02, onde eu botei uma batinha tosca, liguei a TV, tirei meu piercings fora, e ajeitei a cama com o controle.

Eu podia muito bem ter escolhido minhas últimas palavras durante a próxima semana, na qual eu estaria muda. Eu não dei atenção.
- Você tem 52 anos.
Ele sorriu e eu tentei rir daquilo, apesar de não ser o tipo de humor que me faz rir. Era 52 - quilos. Logo depois entrou a médica que ia me operar, ela falou mil coisas das quais eu não lembro, a razão do esquecimento vem logo.

Então me tiraram do quarto e me levaram pro centro cirúrgico, fui andando, cruzei os corredores de batinha e antes de entrar na sala esterelizada botei tocas na cabeça e nos dois pés. Sim, nos pés. O cenário me lembrava um episódio do House, e eu não pude evitar olhar pra cima e procurar uma parede de vidro. Tão logo eu deitei na mesa de cirurgia, ouvi alguma coisa sobre endoscopia e eu não lembro o que aconteceu, por quanto tempo aconteceu aquilo. Uma hora, talvez. Eu lembrei de uma vez que fiquei tão nervosa que comecei a soar nos ombros, foi a última coisa, não tive o cuidado de escolher meus últimos pensamentos, que seriam os últimos de certa forma agradáveis, visto que durante a próxima semana todos estariam bem ligados à dor.


O anestesista mandou o aparelho que mede os batimentos cardíacos calar a boca. Os meus oscilavam entre 63 e 65.

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A médica tava histérica, dizendo pra eu acordar, e eu sentindo uma dor sublime, daquelas que te levam pra outro nível. Me botaram em  uma maca, muito rápido. A médica continuava falando, muito. Eu não lembro de nada, é o que anestesia geral te proporciona. Eu lembro de tentar abrir os olhos e aquilo ser a coisa mais impossível do mundo, imaginei que era assim que pessoas se sentiam quando estavam em coma. Cruzamos o corredor e me botaram na cama do Apartamento. A médica falou, falou, falou. Eu não lembro de nada. 

Depois eu virei um verme.

Não consegui segurar um Pocket pra ler, tampouco a colherzinha de sorvete, faltava força. Tudo o que eu fiz a tarde inteira foi vomitar sangue e ficar estirada feito um verme impotente. Em cima da estante da TV eu vi um potinho e eu sabia o que era. Pedi de qualquer jeito pra dar uma olhada, olhando pra trás eu vejo como eu já estou profissional na mímica. Eram duas bolinhas pretas com uma coisa branca por cima, e o pouco que eu sabia sobre amigdalas me dizia que elas deveriam ser rosas e que essas já deviam ter sido descartadas há tempo. Fiquei virando e rodando o potinho, olha quem tá ganhando, agora.

Uma moça me trazia sorvete a cada hora, uma enfermeira verificava minha temperatura, me dopava, e tirava minha pressão. Eu devo ter experimentado todos os remédios pra dor nesse dia. E cada um deles me deixava mais inútil. Até as 6 da noite eu não consegui me mexer. Sequer segurar um livro de bolso. Eu já conhecia todos os cantos do quarto, se eu tivesse ficado mais tempo ali poderia ter medido os ângulos e descobrir um erro, e um pouco mais teria descoberto quanto tempo esse erro levaria para derrubar o prédio. As pessoas não viram arquitetas só porque passam a manhã e tarde inteiras numa cama de hospital. Eu sei, still.

Passava um campeonato de hipismo na TV. Senti saudade de montar, de usar quepe. Mas aí eu lembrei que eu estava running out of time, e que eu só poderia suprir essa vontade na Rússia. Essa linha de pensamento vem se aplicando a muitas coisas. Eu já me sinto turista aqui.

Peguei a minha roupa pra vestir e tentei entender que tipo de roupa eu deveria ter trago, como se deve se vestir em um hospital, se existe uma etiqueta pra isso. Desci a rampa, dessa vez tonta, dopada, além, alheia. Não, nunca me ensinaram isso durante a vida, tampouco nos cursos estúpidos de etiqueta que eu fiz.

Não coloquei meus piercings de volta, só então eu vi como é estranho ver meu umbigo sem um piercing, realmente faltava uma coisa lá. 

Cheguei em casa. Nada podia me fazer feliz. Dormi pra tentar aliviar a dor, e só tentei, sem sucesso, uma toalha do meu lado tava cheia de sangue e pelo andar da carruagem isso não ia mudar madrugada a dentro.  Resolvi escrever os horários dos meus remédios, diante da impossibilidade de um descanso. Quatro caixas incrivelmente grandes, mesmo que eu tivesse crescido e o mundo tivesse perdido boa parte do tamanho e grandeza que tinha. Tudo tinha encolhido com os anos. No entanto aquelas caixas pareciam abominavelmente grandes. 

Não sei, mas acabei morrendo de qualquer jeito na cama. Acordei três vezes durante a madrugada pra tomar remédios e bater na parede com dor. De vez em quando eu punha a mão debaixo do maxilar e tentava sentir duas bolinhas que não estavam mais lá. 

Consegui lembrar que houvera, sim, um último pensamento antes de me apagarem na mesa de cirurgia. Sempre a melhor escolha, foi o que eu pensei, evitar que essas coisas inflamem na Rússia é praticametne o melhor que eu posso fazer. 

Depois, mais nada.

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