sábado, 10 de julho de 2010

Taxímetro

Logo se via que era lugar do mundo, já não pertencia a ninguém, tinha o carimbo do mundo, infestado dessa essência universal que as grandes capitais tens, todas copiadas. Rostos apressados, diretos e impacientes, levam o café da manhã na mão, compacto, feito para propiciar prazer, para fazer parte de uma vida que de saudável não tem nada, mas é o que o logo quer dizer. Então se carrega a hipocrisia, são os rostos apressados, vês, e pela impaciência não se nota que és apenas outra cópia daquele outro que estás ao teu lado no transporte público, és substituível e a sina da tua vida é achar que não és. Pois carrega-se o café da manhã, que é que há, que é que houve com os longos deleitosos cafés da manhã, já não se sabe, é coisa do mundo. Senhoras fechando os olhos diante de cenas que se tornaram banais, e ao que se tornaram banais ela vira todo o processo deslanchar e isso dói no peito de quem tem os anos contados em sinais que revestem a pele do colo, enferrujando-a. As senhoras eis que fecham os olhos. O mendigo vive de companhia fiel, apaziguana-o o frio e faz do inverno mais suportável e até menos um deleite, carrega a tal garrafa esverdeada meio vazia, meio cheia. As cidades do mundo vêem sempre a garrafa meio vazio e é a sua sina, e é constante e vibra apenas constância. As crianças têm do olhar perdido que não deveria habitar a infância, a liberdade, ridiculamente, encontra-se presa em casa, dentro de algum dispositivo de videogame que elas pouco entendem como funcionam, ora, digo, algumas se aventuram a abri-los e investigar e eventualmente se não somente traquinas, tornam-se grandes técnicas e fazem mais aparelhinhos para os seus filhos e haverá sorrisos. Pois eis que vivem de aparelhinhos e esqueceram os peões, até os cachorros não os querem mais! Que há, pergunta a mão que recorda-se da sucessão de cenas, tinha os cabelos mais claros e voz mais fina, e pedia vivamente, como se sem aquilo não pudesse a vida prosseguir, um cachorro a mãe, perdera a conta das tentativas mas aquilo havia de ser seu. Que é, agora crescida pergunta. E o filho explica que há animaizinhos virtuais e que os reais estão cheios de livre-arbítrio. Pois eis que a mãe se vira, deitando as duas mãos firmes na dobra do balcão da cozinha e se pergunta que é que há, o que é que se perdeu, e permanece a dúvida e as gerações se arrastam.

Tão firmes como as mãos que se espremem mais e mais a medida que os olhos se cerram procurando certa fisionomia entre a cidade do mundo. Vai ver que não trazia bagagem, pensou, que mora aqui mesmo e que esteve a ver o mundo apenas com o que tinha quando nasceu. Mas logo a idéia lhe parece romântica demais e ela bota-se a procurar de novo, onde estás, onde estás. Arrasta a bagagem de quem veio não para ficar, mas para fugir, com os bolsos todos muito cheios e o espaço efetivo da bolsa um tanto vazio, de quem na pressa lembrou-se tudo à porta do elevador. Desiste e prossegue a marcha, pois ao que o mundo é muito grande meus olhos são pequenos demais, reflete e entra em um táxi aleotório e inclui-se na paisagem da cidade do mundo. O taxímetro roda sem estimativa para parar. Pois cheguei e agora, lembra-se que não havia planos, apenas um objetivo nada duradouro, que após realizado larga-te a mercê das mil novas vontades que se pode sentir e te instala em um efeito de anestesia das cidades do mundo. Há estes anúncios publicitários que falam nada mais que a linguagem do egoísmo e ela bem o sabe, pois além de feito por humanos são feitos por humanos que estão sobrevivendo na selva de pedra, e que não tem nada de ingênuos. Ingênuos foram os sumérios que nunca desconfiaram que a escrita fosse ir tão longe e continuar indo e indo a algum lugar que não tem porto.

Como que é o Hyde Park, pergunta ao motorista e como ele não escutasse pergunta de novo. Ele faz um sinal de quem não sabe e ela fita a bandeira do Paquistão balançando ao ritmo do táxi londrino e bem o entendende, que este está sobrevivendo, que este é homem do mundo também. Que ou se sái do paquistão para ser taxista ou DJ. As ruas se estreitam e os ônibus lutam por espaço, o cardume de carros buzina e se instala o caos, que já estava instalado mas apenas se agrava, e igualmente anestesia. Hora ou outra uma dessas pessoas do mundo tem um choque afilático e os chamam de loucos, porque não cederam às anestesias, e são minoria e são isolados dos verdadeiros anestesiados que não vivem e tampouco se libertam, vivem de prisão e acham que encontraram o libre-arbítrio, ora, palavra, alguns até mesmo têm planos de se mudarem para o campo, mas é idéia longínqua e os anos se arrastam e ficam velhos e tomam sopa e dizem ter entendimento, bisnetos e como a vida tem se arrastado aos três digitos devido a anestesia, falam das guerras e eventualmente tem tataranetos, o que é muito louvável, e muito triste pois a diferença de gerações já não fala a mesma língua. Eis que os sumérios foram inocentes, achavam que a lingua ia ser constante. Tolos.

Um campo de súbito abre-se e rola até o infinito verde e ela bate bate bate no vidro que separa o paquistão do passageiro e fala na língua das mãos, usando os dedos e sendo primitiva, e eis que funciona e ele pára, apontando para o taxímetro e eles falam a linguagem dos números, do dinheiro, que é quase totalmente composta de egoísmo por isso o mundo inteiro entende, os cidadões das cidades do mundo entendem, mesmo que cidadania tenha se tornado um conceito mui relativo para essa espécie de lugar.

Pontuo.

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