Pular para o conteúdo principal

Três detetives e nenhuma solução para a vida

A Tv da cozinha está ligada e eu não sei exatamente com que propósito. Há poucas coisas piores que tv brasileira, e é a russa. Absolutamente nada é legendado, tudo é dublado com um monotom que segue por suas duas horas de filme. Às vezes é só um homem dublando todos mudando a entonação da voz (sim, isso existe). Então eu não sei por que exatamente eu preciso dessa Tv ligada, mas talvez seja pela graça da companhia. São 9 da noite de um feriado que eu não entendo completamente o significado, hoje não tive aula e acordei cedo para estudar. Próxima semana tenho deus sabe lá quantas provas, tudo que eu sei é que minha agenda está cheia de anotações como uma pessoa louca. Nunca fui uma pessoa de reclamar infinitamente e me enterrar nessa conformidade de cara feia, o problema é que eu sei que sou perfeitamente capaz de encarar isso tudo, mas com esse inverno que vem batendo a minha porta o level de dificuldade sobe, a vontade de viver cái.

Meus dias não têm sido tão ruins. Na verdade quando a semana começa ruim, ela acaba me surpreendendo pelo final. Semana passada roubaram minha carteira e eu fiquei sem cartão de crédito, documento e passei um longo sábado na delegacia do campus vendo over and over os caras saindo do provador do prédio de esporte nas filmagens de segurança não só com a minha carteira, mas das outras meninas também. Quando eu cheguei ao provador todas elas já estavam gritando e eu vi que não havia sentido em me desesperar... Elas não quiseram ir a polícia então eu fui só. Mas depois que eu cheguei lá e começamos as burocracias eu me perguntei pra quê diabos? Acabei saindo em um carro de polícia com três detetives de volta ao "local do crime", onde basicamente falávamos sobre a política na Rùssia e não sobre o crime (eu apimentaria a conversa dizendo que uma e outra não estão muito separadas...). Voltei pra casa e já estava escuro (os dias se encurtam ridiculamente) e lembrei que no hospital tem gente morrendo por muito mais coisa que a falta de uma carteira. Me acalmei e aceitei a tragédia. Lá pelo final da outra semana os dias ficaram melhores. Passei para a segunda fase da olimpíada de russo para estrangeiros e cheguei em uma sala muito hospitaleira: era uma mesa de conferência com bombons, café e chá. Éramos seis e duas professoras fazendo perguntas sobre os artigos que haviamos escrito para a primeira fase. Meu artigo era sobre como a anatomia da medicina estava longe de ser só sobre músculos e ossos, sobre a profissão que nunca se torna médico, somos sempre estudantes, tentei achar o conceito de conhecimento, botei a alma que não está nos livros de anatomia nem fisiologia, delirei em Platão e deu certo, elas gostaram, agora ali estava eu. A verdade é que eu resolvi participar sem saber exatamente aonde isso ia dar, mas depois de uma semana de cão, às vezes não se negam elogios, bombons e cafés. Começamos às 5pm e saí de lá às 8pm. Ganhei um perfume da Armani e algumas palavras entre "representar a nossa universidade na olimpíada nacional". Liguei para uma amiga no Brasil e nós falamos por quatro horas. Samantha sempre foi parte integrante da minha vida e eu nunca vou conseguir me desfazer dela nem que eu ampute uma perna, eu tenho orgulho disso, nós funcionamos, nós nunca brigamos, nem uma vez para contar história, e agora eu sentava na cozinha só e era como se ela estivesse na cadeira ao lado, minha gato saltava de um lado para outro e nós falávamos das desgraças e graças da vida, das duas coisas com um tom de humor - quando não estamos só é muito fácil de aguentar seja lá o que for, a maior desgraça vira um episódio comico-trágico. Algumas coisas nunca mudam, existem amizades mais sólidas que o tempo... Acabei a semana pensando que não é o tempo que se move, somos nós, não se mover, seguir reclamando é parar de evoluir. Quem quer estagnar? E que no meio do dia achei uma joaninha vermelha na janela e isso me alegrou um tanto, de noite saí com uns amigos para o nosso restaurante favorito do campus, encontrei pessoas mais queridas ainda, apesar da música ruim, elas eram melhores que aquilo, acabei a noite falando sobre restaurações de obras de Michelangelo e discutindo sobre expressionismo e arte moderna com pessoas da ex-Iugoslávia...... Não, a vida não estava tão ruim, afinal.

E quanto tudo resolver voltar ao seu lugar, eu não reclamo, mas por enquanto, vou vivendo a bagunça que tenho na mão, café na outra.

E ontem falava a um amigo, tentando citar Saramago, que "dando-se tempo ao tempo... esqueci", dois segundos depois relembrei "dando-se tempo ao tempo, todas as coisas do universo voltam ao seu lugar", e eu devo concordar com ele que a primeira versão saiu com muito mais poesia que a original... Que dando-se tempo ao tempo e já esqueci.

Deixa o inverno vir, deixa eu empalidecer, deixa que eu amo essa cidade imprevisível do jeito que ela quiser se apresentar, deixa eu sentir a falta do vento do Ceará exatamente às 5.20 da tarde, deixa tudo isso passar através de mim... E essa é a solução que o detetive nunca vai me dar, a consciência de que o Ceará está comigo, faça -30, faça +30. Deixa vir, deixa, deixa.

Pontuo.



Comentários

Yellow Jacket disse…
I used google translate to read this ))

Now you should be able to add my site ;-)
Samantha V. disse…
Amei o texto! Devo dizer que nossa conversa foi épica! Minto. Nossa amizade É épica! Deu pra afrouxar um pouquinho esse aperto no coração de saudade.
Julia Neiva disse…
Fiquei em dúvida se tudo escrito era verdade ou não.Gosto dessa dúvida. A propósito, seus textos continuam muito bons, eu mergulho neles de tal forma que é difícil sair.
Beijos, boa semana.
teste071 disse…
Olá,
dá uma olhadinha no meu blogger .
Espero que goste do conteúdo .
http://teecoperfect.blogspot.com/
jaw crusher disse…
Amei o texto! Devo dizer que nossa conversa foi épica! Minto. Nossa amizade É épica! Deu pra afrouxar um pouquinho esse aperto no coração de saudade.

Postagens mais visitadas deste blog

Uma linha reta é um zigue-zague.

Eles dizem que de um ponto podem partir infinitas retas. Em teoria, é pura geometria. Na Rússia a teoria é posta em prática de um jeito que bota a paciência de dezenas de pessoas numa panela de pressão até que a panela exploda, a dona de casa contraia uma queimadura facial e paramédicos na ambulância passem a dizer que os médicos que vão tratá-la são os melhores quando eles realmente não sabem se há ali dano em algum nervo facial. Em outras palavras: caos. Então eu estou sentada em um corredor esperando para tirar uma raio-x de check-up. Há como que três pessoas na minha frente e eu simplesmente sento lá e penso, bem, a partir do ponto que todas elas forem, eu entro, é matemática simples. Chegam mais pessoas. Eu sento, espero, me sinto ansiosa e inútil, com a única expectativa que uma pequena porção de radiação passe, por favor, pelos meu tórax neste confuso dia de primavera (o episódio se passou em meados de Abril). O resto do meu dia não estava planejado, eu acordara apenas pela pequ...

As minhas gramas são mais verdes

Fazia dois meses que eu estava na Rússia e tudo e todos ainda eram ETs se aproximando por um contato de quarto grau. Eu poderia divagar sobre a sensação de ser uma expatriada, mas seria tão inútil como descrever o gosto de chocolate, com tantos sentidos envolvidos. E lá eu estava, na frente de toda a escola recitando um poema no Dia dos Professores, que é realmente importante na Rússia. Eles podem até não ganhar bem, mas o respeito que recebem dos alunos é infinitamente maior que no Brasil. Dirigir-se a eles apenas levantando a mão, e pelo nome e patronímio (o segundo nome de todo russo: nome do pai + sufixo OVA ou VICH se, respectivamente, você for mulher ou homem). Os alunos haviam preparado um verdadeiro espetáculo, a platéia era pequena: apenas a equipe de professores, e o backstage se apertava com todos os alunos da escola. No dia anterior eu havia passado cinco horas andando em círculos aprendendo um poema que recito até sob remédio de dormir, ainda hoje em dia. Skol'ko vesen...