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Ceará de cabo a rabo

Mui recentemente recebi uma convidada aqui em Fortaleza, e como eu nunca tenho o suficiente desse espírito turista, e acredite, mesmo em uma cidade que você já morou, há muito o que conhecer, resultado: dormíamos cerca de seis horas por dia, acordando cedo e indo dormir tarde. Só fica ocioso em Fortaleza quem quer, e já que estamos de férias, e o Ceará não precisa de visto...

Presumindo que estamos saindo do Aeroporto Internacional Pinto Martins, direto para o hotel para dormir. Não, dormir em casa, porque no Ceará o verão dura o ano inteiro, e dificilmente da onde os turistas vêm isso acontece. Não há absolutamente nenhuma estação do ano, a máxima seria de 31 graus, no rachar do meio-dia, e a mínima de 25 graus, de noite - o ano inteiro, sempre ventando, o que salva a vontade de viver de todo mundo. A diferença é que no primeiro semestre chove, no segundo, não chove. Portanto, já que há verão lá fora, o jeito é correr atrás de uma insolação e ir aprendendo, do olhar de alguém que se mudou da terra de José de Alencar, mas que tem uma parte do coração que bate em cearês e é louca pelo Meireles (bairro), lugarzinho com gosto de berço.

A Beira-mar, o cartão postal da cidade, que fica no bairro Meireles, é um calçadão onde há uma feirinha de artesanato, panfletagem (e bota panfletagem), além de ser a faixada da maioria dos hotéis na cidade. Às 18h instala-se o inferno, quem quiser dar uma corrida lá essa hora, melhor desistir, a não ser que seja corrida com obstáculos, pois nesse horário há gente, menino, cachorro, capetinha demais. Por um motivo totalmente tolo, a água dessa praia não é adequada para o banho, e de qualquer forma, as melhores ondas não ficam nela, porém há muito o que se ver: a estátua de Iracema, uma no começo, outra no final do calçadão, que termina no Mercado do Peixe, onde você compra peixe, camarão, o diabo a quatro com nadadeiras e a barraca assa, cozinha, queima, do jeito que você pedir, de dia, de noite, basta ir com a barriga vazia. O que eu gosto na Beira-mar, além de ir lá de noite para andar pela praia mesmo, não pelo calçadão, que é praticamente vazia, é o Espigão, é uma ponte de pedra, e conselho: entre as 5:20 e 5:50 o Sol se põe e é bonito ver tudo ficando laranja de lá, com uma água de côco, que ou vêm me enganando, mas agora custa R$1,50. No meu tempo era R$1, quem tiver a lábia de comerciante, go for it. Na Feirinha de Artesanato vende tudo e qualquer coisa de couro e cangaceiro-related, se não fosse pelo irritante carro de som do "Show de Humor no prédio do Mcdonald's", o lugar seria muito mais agradável. Aliás, fast food e coisinhas é o que não falta, tem Mcdonald's, Bob's, Subway, Yogoberry, Açaí do Jojó, Pizza Hut, além de restaurantes de coisas menos americanizadas, os preços não são ridicularmente turistas-exploradores, por isso não dá pra passar fome. Entre a primeira estátua da Iracema e o Espigão há o Aterro, que é um espaço onde acontecem shows e jogos de vôlei, principalmente no Reveillon e nas férias, quando a prefeitura se encarrega do pão e circo, além disso, a estrutura é montável, então quando não vai ter show lá de fato há um longo espaço de praia vazio. Aliás, falando em vista, sentar naquele Subway, que fica no calçadão, de vista para o mar, é uma terapia, recomendo sob qualquer condição médica ou idade. Na frente do Mercado dos Peixes, há a 50 Sabores, uma sorveteria que é a cara do cearense, que tem meu sorvete de flocos favorito, além de marshmallow e coberturas livres, ou seja, é dali para um coma diabético. De 50 Sabores só o nome, porque com certeza ali há mais de cem, com uns um tanto estranhos, como cerveja e tapioca, pra não pedir e odiar, basta pedir ao atendente para provar, eu, particularmente, nunca saí do flocos e do chiclete, mas para os que botam fé em um sorvete de tapioca... Basta ir com o pensamento de que não é um sorvete, e sim uma experiência, sei lá, né. Das 5 as 7 da manhã, todo dia, uma faixa da Avenida Beira-mar é fechada para pedestres, para quem quiser fazer corrida, e fica o conselho, pois nesse horário o clima está bem fresco, e já estão vendendo água de côco. Aliás, andar pela Beira-mar é sempre uma aventura, se me perguntarem, e olha que eu já morei aqui, e ainda mais quem vem sempre fala que as pessoas são estranhamente simpáticas, muitas vezes já fiz amigos, do tipo de sentar e conversar com um total estranho, coisas da vida. E coisa linda: na Feirinha aceitam cartão, então não adianta vir com a desculpa que não sacou dinheiro, acredite, até para quem não é turista aquele mundo de artesanato, cangas, brincos, colares, cearenzices, é uma tentação, dentre as minhas coisas favoritas que vende lá estão as camisas, as placas de carro com paisagens da cidade ou das praias com o nome do lugar escrito ao invés de números, e todos os mini-cangaceiros em canetas, chaveiros, imãs. É difícil negar que Lampião não tenha deixado uma impressão, mais difícil ainda é negar que em um lugar onde o sertão é sertão seco seco seco, a cultura do couro não tenha prevalecido, e que muita da tradição cearense gire em torno do boi, e apesar da nossa mentalidade ser sim hoje em dia universal, pelo menos os nossos pais, geração passada, ainda têm dessa coisa divertida de "cabra macho", de ser o cara forte, bravo, isso não implica machismo, é só um jeito rabugento de ser, e convenhamos, no interior, da onde 90% dos pais de quem mora na capital Fortaleza vieram, para subir em um touro e arriscar a própria vida em uma vaquejada, tem que ser no mínimo rabugento. É por isso que no vocabulário cearês fala-se "macho" entre suas variações "man", "ma", ao invés de "meu", "véi". Macho - we haz it.

Sou muito suspeita para falar isso, mas paralela a Avenida Beira-mar, atrás dos hotéis, há a Avenida Abolição, uma das minhas avenidas favoritas. Lá tem Blockbuster, uma locadora singela em um posto da Texaco que tem um dos espaços de conveniência mais dignos que já vi, com yogurteria, bebidas, chocolates, tudo. Tem o Pão de Açúcar da Beira-mar, onde tem um espaço que serve sushi, pizza, panqueca, junto de uns livros a venda, o acervo lógico, não é lá essas coisas, mas dá um ar agradável, além de que, coisa minha, a iluminação de lá me agrada muito, e acho super organizado. Mas para quem visita a Avenida Abolição passa despercebida, creio. E francamente, ninguém vive só de Beira-mar.

É lógico que também não se vive só de Iracema, e a cultura do cangaço vive paralela a cultura indígena, as duas com a mesma força, mas para entender a cultura do sertão basta ir a exposição permanente no Dragão do Mar sobre cangaceiros e vaqueiros, a exposição é muito bem montada e interativa, eu já devo ter ido umas noventa e sete vezes. Dragão do Mar é o centro cultural que fica na Praia de Iracema, colada com o Meireles.





Trilha
Beach Park
Praia do Japao
Sushi Wasabi
Buteco
Boliche Via Sul

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